Notas iniciais
Boa leitura!

Meses se passam desde minha coroação, mesmo assim ainda deixo que as servas escolham os vestidos que uso. Elas me dão um vestido roxo, ombro a ombro, com uma saia rodada e um decote discreto. Uma águia, símbolo da minha família, está com as asas abertas, bordada em madre pérola na lateral do meu corpo.

Prendo meu cabelo em um coque firme e coloco um pequeno diadema de ouro, feito para se parecer com galhos de uma árvore delicada. Caminho em direção à sala de banquetes, mais um dia na rotina.

— Bom dia, alteza.

— Jake. — Faço uma breve reverência.

Ao chegar lá, me deparo com todas as sanguessugas que vivem por conta do reino. Todos aqueles homens e mulheres comendo e bebendo, só por terem bens que muitas vezes mataram para conseguir. Eles deveriam ser minha corte, me aconselhar e ajudar a melhorar o reino, mas a única coisa que fazem é comer e beber o dia todo, fazendo festas durante a noite.

Mas não posso mandar nenhum deles embora. Todos estão ali por alguns motivos: são ricos, têm terras e o mais importante, têm influências poderosas.

Dou bom dia enquanto caminho até o meu lugar, sem me importar com quem responde ou não. Aquele local me deixa doente. O cheiro que exala deles é de inveja e ganância. Eu já deveria ter aprendido a controlar essa parte dos meus poderes, mas na maior parte das vezes esqueço o treinamento.

Sento-me na cadeira da cabeceira e tomo meu café, ignorando a algazarra que acontece ao meu redor e tentando manter longe de mim as emoções daquelas pessoas. Só consigo controlar isso quando a comida no meu prato acaba.

Levanto-me para me arrumar para as reuniões que se seguirão, mas o duque de Hamelt entra na minha frente.

Ele é um homem velho, com os ombros largos e o corpo esguio. O bigode branco quase consegue cobrir a boca. Ele exala nervosismo, mas, além disso, algo parecido com confiança.

— Majestade, poderia falar com a senhorita um minuto?

Ele me guia até uma das extremidades do salão.

— Eu não gostaria de te dizer isso, mas me vejo na obrigação de levar até Vossa Alteza as preocupações dos outros nobres.

— Continue.

— Alguns dos homens mais velhos, e mesmo alguns dos mais novos, vêm repetindo a mesma pergunta há tempos. Eles vêm perguntando quando Vossa Alteza procurará um marido para entregar um herdeiro ao reino.

Passo a língua pelos meus lábios. Isso realmente me deixou irritada.

— Vocês querem que eu me case?

— É uma das exigências.

— Exigências? Vocês ousam exigir algo de sua rainha, a qual juraram suas vidas e sua lealdade? — Minha voz sai tão alta, que todos os presentes param de comer e olham para mim. — Irei dizer uma única vez e espero que prestem atenção: não irei procurar um marido. Sabem muito bem que foram as mulheres da família Bennet, assim como as Rosalina, que ergueram o reino de Érodion. Sem ajuda dos homens, elas lutaram e protegeram esta terra, então eu mesma irei decidir o momento de um herdeiro vir ao mundo.

Uma das janelas se abre com força, e uma corrente gelada de vento beija minha face. Isso é ruim. Saio da sala com os punhos fechados, tentando acalmar minhas emoções. Fazia anos que eu não me descontrolava assim, eu já deveria ter me acostumado com esses bastardos, mas lidar com eles sempre me irrita profundamente.

Escuto os passos de Jake atrás de mim, e isso me deixa ainda mais irritada. Ele exala calma. Viro rapidamente e digo:

— Não preciso da sua proteção, soldado. Vá procurar algo para fazer. — Uma serva passa. — Vá e mande alguém dos estábulos selar Ventania.

Ela concorda com a cabeça e volta por onde veio. Terei pelo menos uma hora até a primeira reunião, portanto uma hora para esfriar minha cabeça.

Vou até meu quarto e arranco o vestido. Coloco um mais simples, com costuras mais simples, que não pesa e permite meus movimentos, e pego a espada do meu pai que estava encostada na parede e a prendo na cintura. Coloco uma capa sobre meus ombros e vou aos estábulos, Ventania e outro cavalo estão selados. Sem me virar, disparo:

— Eu pensei ter mandado você procurar o que fazer.

A calma que ele emana faz com que eu fique ainda mais irritada.

— Eu fui designado para ser sua sombra. E se você vai sair, tenho que te seguir, goste ou não.

Subo em Ventania e digo:

— Como vai me seguir se não consegue me alcançar?

Parto a toda velocidade em direção à floresta.

Minutos depois, ele me alcança. Reviro os olhos, mas aperto ainda mais as botas em Ventania.

Cavalgamos cada vez mais adentro da floresta, mas não chegamos a sair do palácio. Quando finalmente chego onde quero, faço Ventania parar. A égua obedece prontamente. Depois do galope, ela apenas trota.

O barulho da cachoeira me alcança antes que eu veja o lago. Assim que passo das árvores, eu desço do animal e a amarro em uma das árvores próximas.

Eu realmente amo esta parte do jardim, escondida da maioria das pessoas. O lago onde meu pai me ensinou a nadar e a grama que sempre serviu de cama quando ele lia para mim.

— Trouxe sua arma, soldado?

Ele desce do cavalo e reconhece o lugar em que estamos. É ali também que Jake vem me ensinando a lutar desde que meu pai morreu. Precisei de muita paciência e diversos argumentos para convencê-lo. Quando chega ao meu lado, o loiro responde minha provocação com um sorriso e tira a própria espada da bainha.

Começamos a lutar. Sei que ele pega leve, mas nossas espadas se chocam e lançam faíscas. Jake é sem dúvida um dos melhores soldados de Érodion, e ele conseguiu provar isso quando brigou pela posição de capitão da guarda.

Seu corpo se move com rapidez, os golpes são precisos e fortes. Para irritá-lo, resolvo usar meus poderes. Uma rajada de vento em seu rosto faz com que ele perca o ritmo por alguns segundos. Empurro-o contra a grama e aponto minha espada em sua direção.

— Perdeu o jeito, soldado? — digo, sorrindo.

Sei que ele não se irritou. Ele gira o corpo e me dá uma rasteira. Bato minha cabeça no chão, e ele coloca os joelhos ao redor do meu corpo, pondo todo o seu peso em cima de mim e se sentando em cima da minha barriga. Minhas mãos estão presas acima da minha cabeça antes que eu tenha a chance de pensar.

— Acho que não, majestade.

Nossa respiração está acelerada e entrecortada, misturando-se. Seu rosto está muito próximo de mim, e consigo estudar seus olhos verdes como as folhas que nascem depois do inverno. Seu cabelo loiro rebelde está curto, e enquanto nos encaramos, seu sorriso se desmancha e ele volta a me olhar sério. Jake sai de cima de mim, e vejo suas bochechas corarem.

— Mesmo com o golpe baixo, se estivesse mais próxima, poderia ter ganhado — diz ele, tentando quebrar o silêncio que está entre nós.

— Fiz de propósito. Não podia ganhar de você e te humilhar — digo sorrindo, andando até o lago.

Bebo água em concha e me sento na beira da água. O inverno já está na metade, mas é impossível entrar na água sem perigo de pegar uma hipotermia. Diferente do ano passado, o deste ano ainda não nevou, só teve frio e ventos para atrapalhar.

— Não foi inteligente você ter gritado e humilhado os nobres daquele jeito — fala ele ao se sentar ao meu lado.

— Eles me provocam e questionam minha liderança. Eu sinto a inveja e o desejo deles, é um cheiro horrível. Queria que todos fossem embora, eles são inúteis.

— Kiara...

Olho para Jake, e ele me manda olhar para o céu. Acima de nós, as nuvens negras se formam em uma espécie de ciclone. Respiro fundo e acalmo minhas emoções.

— Tem se esquecido do treinamento — diz ele simplesmente.

— Eu não esqueci. Eles apenas estão mais fortes desde o último inverno. — Olho para o céu, agora claro. — Precisamos voltar, tenho uma reunião daqui a pouco.

Estou voltando para Ventania quando Jake segura meu pulso.

— Kiara, eu preciso te falar uma coisa sobre o baile...

Pelos Senhores, eu esqueci completamente o baile!

— Você se esqueceu do baile — diz ele.

— O que me denunciou?

— Tudo. O quão desesperador é?

— Três reuniões até o almoço, duas à tarde e ainda uma recepção para os lordes de Welden que chegaram hoje.

— Pode ir — fala ele, dando de ombros.

Caminho até Ventania, mas volto a encará-lo.

— O que você queria falar? Parecia importante.

Ele repete o movimento com os ombros, mas desvia os olhos de mim.

— Os plebeus que você pediu para eu convidar, nenhum deles quis vir.

Aquilo me atinge mais do que deveria. Duas semanas atrás, tive a ideia de tentar entender mais meu reino conversando com o meu povo e, com meus poderes instáveis, sair do palácio não é uma opção, então pedi para Jake chamar alguns dos plebeus mais influentes de Jannat para o Festim do Inverno, a festa de hoje à noite.

— Eles explicaram o motivo?

O loiro volta a se encolher.

— Eles não viram motivo, acham que nada vai mudar.

Aperto e fecho os punhos, evitando encarar Jake.

— Eles acham que eu sou fraca, igual os nobres que moram aqui.

— Kiara...

Fecho os olhos, respirando fundo e subindo na égua.

— Obrigada por me informar. Te vejo depois.

Volto ao palácio e vou direto para meu quarto. Tomo um banho rápido e coloco um vestido mais decorado e pesado. Arrumo meu cabelo em uma trança lateral e coloco o diadema de ouro na cabeça. Devolvo a espada para perto da porta e saio para enfrentar o longo dia.

***

Entro na sala de reuniões um pouco atrasada, com todos apenas me esperando para começar a falar. Jake chega logo atrás de mim e se coloca contra uma das paredes como um vigilante silencioso.

O general Lincoln abre um sorriso para mim, ele é o amigo mais antigo do meu pai, um dos únicos que conhecem meus poderes. Ao lado dele, estão sentados o tesoureiro do reino, lorde Herbert Wilson, e a responsável pelos curandeiros e estudiosos, a senhora Linda Chang, uma mulher idosa, com olhos puxados e pele branca como leite. No entanto, ela é muito mais do que aparenta, seus olhos e ouvidos estão por todo o reino. Ela é uma fonte de informações e segredos.

Os senhores das cinco grandes províncias de Érodion estão sentados ao longo da mesa.

Representando Numida, a província mais devastada pela guerra, está lorde Joseph Leon, um homem tão velho quanto o general, mas nem um pingo eficiente, sempre desatualizado com os números de vítimas e mais preocupado com o que terá para jantar.

O lorde de Argentium é Frederick Trainor, um homem não muito mais velho do que eu. Ele usa sempre roupas boas, já que sua província é a que mais arrecada dinheiro e metais preciosos.

Aquila, a província dos pescadores, é representada pela senhora Charlotte Laflorre, uma mulher de meia idade com traços de cansaço, sempre usando um coque preso.

E, por fim, Acacia, responsável pela maior parte dos alimentos, é representada pelo lorde Jonathan Grayson, um homem gordo e com um sorriso bobo no rosto sempre que me viro para ele.

Eu, o general Lincoln e a senhora Linda Chang representamos Êxodeu. Sento-me na cadeira da ponta e peço para que iniciem a reunião.

— Receio ter uma notícia que irá adiar as outras pautas do Conselho — fala lorde Grayson. — Meus mensageiros relataram uma explosão em um dos barracões de estoque em Thymus.

— Outro? — pergunto, irritada. — Este é o terceiro este mês, o segundo em Thymus. Alguma ideia de quem está causando isso?

— Deve ser o mesmo grupo que causou o desmoronamento em Argum e os roubos de carga em Cerium — fala lorde Trainor, lembrando-se de problemas de dois meses atrás.

Passo os dedos na testa, de repente o diadema pesa mais em minha cabeça.

— Acham que isso é trabalho dos Selvagens ou que estamos lidando com nosso próprio povo? — pergunto.

— Selvagens não são capazes de planejamento, eles só vão para a batalha. Isso é obra de rebeldes — fala o general Lincoln.

Além da guerra, ainda tenho que lidar com rebeldes? Só de pensar nisso, minha cabeça fica pesada. Esses ataques começaram pouco depois da minha coroação, mais uma forma do destino me mostrar o que o povo acha do meu reinado. Passo os dedos sobre as pálpebras fechadas e falo num tom monótono:

— Senhora Chang, quero todos os seus ouvidos trabalhando para descobrir os verdadeiros culpados. Mudando de assunto... — eu anuncio, levantando o rosto e encarando os presentes. — As negociações com as Ilhas de Vaata pela pólvora deram algum resultado?

Sei que é completamente inútil esperar uma resposta positiva da rainha Uttara. Desde que eles descobriram como fazer aquele pó explosivo, nunca quiseram negociá-lo. Estou tentando negociar com aquela mulher desde que assumi o trono.

— A mesma resposta, majestade. Uma tonelada de Andro para um quilo de pólvora.

Reviro os olhos com a proposta jocosa. Andro é um metal que só cresce em Érodion, mas em condições muito específicas, de difícil acesso e encontro. Foi o motivo do começo das escavações em Argentium, mas com os anos foi se tornando raro e cada vez mais valioso. É o único material capaz de ferir criaturas mágicas que ainda têm conexão com os Senhores, ou seja, dragões, espíritos e as criaturas que a Dama da Noite criou.

Volto minha atenção para o mundo real quando pergunto:

— Como estão as frentes de batalha? — Além do silêncio, sinto um desconforto coletivo na sala. Isso não é bom. — Lorde Leon, o que tem para relatar? O que seus mensageiros dizem?

— Nossos soldados estão aguentando, majestade. — Ele levanta os olhos preguiçosamente dos biscoitos e me encara. — Os Selvagens não avançaram em nossas terras.

— E nós, conseguimos reaver as terras roubadas?

— Ainda não, alteza — desta vez, o general fala. — Mas nossos homens estão lutando com afinco.

Existem meias palavras em todas as suas frases. Sei que eles estão me escondendo algo, mas não conseguiria arrancar nenhuma informação.

Lorde Wilson volta com a pauta original do Conselho nesta reunião: impostos. Esta é minha luta pessoal contra todos eles: enquanto eles desejam aumentar ainda mais os impostos sobre o povo para custear o treinamento e as armas de guerra, eu luto para que permaneçam pelo menos os mesmos. Não sou nenhuma idiota para pedir que abaixem, eles nunca aceitariam. E mesmo que aceitassem a proposta, Érodion entraria em colapso.

Novamente, entro em uma discussão acalorada com os lordes e senhoras.

Depois de horas debatendo, minhas ideias são vencidas pela maioria. Isso me deixa irritada. O povo já está em guerra, mulheres estão ficando viúvas, pais estão perdendo seus filhos, e crianças estão ficando órfãs... O povo já tem tão pouco, e meus conselheiros estão querendo tirar ainda mais.

Peço o encerramento da reunião, e todos se dissipam com pressa. Escuto pela metade as palavras do general antes de ele desaparecer também.

Abaixo a cabeça sobre a mesa, colocando minha testa contra a madeira. Minha vontade é de gritar e mandar todos eles embora. Eu deveria liderar, eu deveria ter o poder final nas decisões, mas até completar 25 anos, a condição da minha coroação é que todos os pontos sejam decididos por votação, com o meu voto tendo peso simples.

Mais três anos tendo que lidar com minha voz não sendo suficiente.

Sinto a mão quente de Jake em meu ombro. Levanto meus olhos devagar.

— Eu fiz tudo que podia — defendo-me, mesmo sem ser acusada.

— Sei disso. Agora vamos, senão irá se atrasar para a outra reunião.

— Mais uma tortura — digo, levantando-me.

— Essa será mais calma. É com os generais das frontes de batalha.

Eu o fuzilo com os olhos, os generais são piores que esses daqui. Um competindo com o outro pelo ego, todos lutando para ter o maior número de homens e sempre me escondendo o número correto de mortos.

— Eu até te responderia, mas sinto que toda a minha força vital vai ser sugada por eles — digo enquanto caminhamos pelos corredores, em direção à próxima reunião.

— Você é muito dramática.

— Faz parte de ser rainha. Posso fazer tanto drama quanto quiser.

Entro na sala, e todos aqueles homens com medalhas penduradas nas fardas impecáveis me encaram. Respiro fundo e me foco em abrir um sorriso, deixando a porta de madeira se fechar atrás de mim.

— Bom dia, cavalheiros.

Os homens se sentam nas próprias cadeiras, e olho para o resumo das pautas de reunião. A última me salta aos olhos.

— Merindell tem novos monarcas? — pergunto para todos e para nenhum deles em particular, esperando que pelo menos nisso eles não me mintam.

***

Já passa de meia noite. A festa ainda continua, animada e barulhenta. Graças ao vinho que tomei, sinto as emoções dos outros como se fossem minhas: alegria, desejo e diversas outras que são proporcionadas pelo vinho. Infelizmente, não consigo ficar quieta em um canto. Eu estou suando, mesmo com o tempo frio.

Qualquer rapaz com menos de trinta anos se aproxima de mim e me tira para dançar. O vestido que uso é dourado, incrustado com fios de ouro e pedra que formam a águia entre meu peito e minhas costas. O diadema que usei durante o dia deu lugar a uma coroa de ouro incrustada de pedras preciosas que pesa tanto quando o vestido, mas o vestido ganha no quesito desconforto devido ao peso dos bordados sempre o puxar para baixo.

Nomes e rostos passam por mim. Eu converso com aqueles nobres, mas se me perguntarem amanhã sobre o quê, eu sinceramente terei problemas.

Tenho saudades de quando eu não podia estar aqui. Eu costumava ficar brava com meu pai, mas agora, sinto saudades das noites que passava com Jake no meu quarto ou na estufa.

Minha cabeça roda enquanto tento parecer confortável e feliz. Os rapazes com quem danço fedem a desejo e inveja. Quando por fim consigo sair da pista, me escoro na mesa com comidas e peço a um dos servos para me trazer um copo com água.

Eu geralmente prefiro evitar dar festas, afinal estamos em guerra, mas a este baile eu não poderia dizer não. É o Festim de Inverno, que demarca a metade da temporada da Dama da Nevasca. Lembro que, nesta época, no ano passado, quase destruí meu quarto em meio a um sonho com fogo azul e escamas brancas.

Esta noite não posso me dar ao luxo de ter outra crise dessas, este baile é uma tradição, além de ter algo a ver com religião também.

— Vossa Alteza? — Olho para a mulher que se aproxima de mim. Seu cabelo grisalho está saindo do coque, e ela usa um vestido vinho. — Sou a condessa Elizabeth Joy do sul. Eu só vim te dizer que o baile está maravilhoso.

Endireito a postura e faço uma pequena reverência.

— Obrigada, condessa. Receber seus comprimentos me deixa contente — digo.

Assim que levanto a cabeça, sinto o mundo rodando por alguns segundos. Ela se afasta quando alguém a tira para dançar.

Estou me dirigindo à porta, quando outro nobre entra na minha frente.

— Vossa Majestade, me daria a honra de dançar?

Olho para o homem, é um rosto completamente novo. Seu rosto é triangular, com as bochechas altas e as sobrancelhas retas. Sua boca é reta, assim como o nariz fino, mas são seus olhos que me chamam a atenção. Eles me lembram os do meu pai: acinzentados, com pequenas manchas verdes. Seu cabelo é um loiro claro que, por pouco, não é branco como o meu.

Seu sorriso me deixa desconfortável, mas o que mais me intriga é o fato de não conseguir sentir o cheiro de suas emoções.

— É claro — respondo, achando, pela primeira vez, o baile interessante.

Ele pega minha mão e me leva novamente para a pista de dança. Enquanto rodopiamos entre os casais, ele começa a sussurrar ao meu ouvido.

— Vossa Alteza cresceu e se tornou uma maravilhosa mulher.

— Obrigada, senhor...? — pergunto, torcendo para não estar alterada o suficiente para ter esquecido que ele já se apresentou.

— Por favor, majestade, me chame de Otávio.

— Não me lembro de ver o senhor entre os lordes.

— Este é meu primeiro baile em muitos anos — sussurra ele no mesmo tom que eu, com algo parecido com uma risada.

— Entendo.

Ele para de dançar. Suas mãos seguram a minha com força, e seus olhos me encaram com intensidade. Sinto o efeito do álcool ficar mais presente, já que poderia jurar que vi suas orelhas ficarem pontudas.

— Há anos, eu queria te conhecer — sussurra ele, como se estivéssemos sozinhos. — Fico feliz em ver quão parecida com ela você é, minha flor.

Tenho a sensação de sentir uma picada na ponta do dedo e tiro as mãos das dele.

— Peço licença, mas preciso de ar.

Ele abre um sorriso estranho, mas como as palavras saíram em ritmo cada vez mais lento e minha cabeça rodando, não tenho certeza do que vi.

Ando para longe da pista de dança e saio para a sacada. As portas nem se fecham e se abrem novamente, revelando um Jake preocupado.

— Você está bem?

— Eu... — Olho para o céu, sentindo um calor subir por todo meu corpo como se estivesse em pleno verão. — Acho que sim... obrigada. Devo ter bebido demais.

O loiro se aproxima, me olhando ainda mais preocupado. Sei que não estou bem quando ele também parece ter as orelhas mais pontudas.

— O que aconteceu, Kiara?

— Eu... Eu acho que bebi demais. — Pisco algumas vezes, tentando afastar a tontura.

Jake sabe que eu não estou bem e me segura pelos ombros.

— Você poderia enganar qualquer um, mas não me engana. O que aconteceu?

— Eu...

O que quer que eu fosse falar depois disso morre em minha garganta, quando um cheiro fraco invade meus sentidos. Ele se sobrepõe a todas as emoções ali, uma mistura de maçãs com chuva.

Ao olhar para o telhado, de onde veio o cheio, paro de respirar. Em meio às sombras da noite, está um garoto com uma espada. Ele olha diretamente para mim. Seus olhos são como os de um gato, parecendo duas moedas de ouro que me encaram sem piscar como se pudesse ver minha alma.

Sinto como se todas as outras emoções desaparecessem, o tempo desacelerasse e só existíssemos nós dois. O que quer que eu estivesse sentindo desapareceu, assim como tudo ao redor. Um estranho arrepio percorre todo o meu corpo.

Pelo tempo que demora para pular para o chão, entendo que ele também sentiu alguma coisa.

Jake pula na minha frente, com sua arma também empunhada. O garoto tem o cabelo preto como carvão e a pele bronzeada pelo sol, suas roupas estão sujas e desgastadas.

— Você acabou de invadir o palácio real. Renda-se agora e sua pena será amenizada.

Os olhos do garoto parecem finalmente focalizar em Jake. Ele dá um sorriso travesso.

— Não vai rolar... Pagaram-me bem demais para que eu roubasse esta festinha.

Sinto que o mundo volta a rodar, mas rápido demais. A tontura volta enquanto pontos negros atrapalham minha visão. As palavras dos dois rapazes se tornam apenas sons cada vez mais distantes. Todo aquele mal-estar volta e parece esmagar meu corpo.

Tento chamar Jake, mas minha saliva parece cola. Cambaleio para trás o suficiente para meu corpo sair da sacada e ir em direção ao chão.

Tento controlar meus poderes, fazer qualquer coisa, mas meus músculos não me respondem. Escuto um grito em cima de mim, e antes de sentir o impacto do solo, mãos me seguram, quentes, firmes e familiares...

E finalmente a gravidade não tem mais efeito, mas não consigo ver mais nada antes de me entregar à escuridão.