Crônica de Vinea
1 Anna.
Notas iniciais
Esse é um conto que escrevi para uma das disciplinas do primeiro semestre da faculdade. Espero que gostem!
Dizem que a única certeza da vida é a morte e isso não é verdade. Ao dizer isso, se esquecem de uma das maiores verdades desse mundo. Talvez ela passe batida apenas por sua obviedade, mas o fato é que além da certeza da finitude da vida, temos uma segunda: a de que ganhar a vida não é nada fácil. Nunca foi e nunca será.
A vida é difícil, principalmente se você nascer em uma família que não possui nada, como a de Anna. Quando você é rico, você pelo menos tem o privilégio de ser poupado ao máximo do sofrimento que a vida oferece; uns 20 anos de vantagem, talvez. Quando você é pobre, você já nasce condenado.
A família de Anna era de meros camponeses, sem muitas posses. Viviam do pouco que o pequeno pedaço de terra da sua propriedade lhes oferecia. Uma variedade de hortaliças, a criação algumas galinhas, uma vaca leiteira, dívidas, amargura e dificuldades; isso era tudo o que ostentavam.
Anna cresceu sem estudo, ajudando seus pais e seus irmãos no que podia. Era a terceira, de cinco filhos: dois homens, mais velhos que ela, um deles já casados, e duas mulheres, mais novas, uma delas de saúde muito frágil, que vivia doente.
Por ser a mais velha entre as moças, enquanto seus irmãos ajudavam seu pai nos deveres do campo, ela ficava com sua mãe, aprendendo como ser uma boa dona de casa; deveria saber cozinhar, limpar, lavar e passar, para que conseguisse um bom marido, que lhe desse um bom futuro e não lhe trocasse pela primeira quenga que visse.
Ela aprendeu muito bem. Aos dezesseis anos, já cozinhava melhor que sua mãe, era meticulosa na limpeza e perfeccionista na arrumação. E ela gostava do que fazia. O que para muitos seria um sacrifício, pra ela era um passatempo. A ordem lhe acalmava.
Foi então que, um dia, enquanto perambulava pela feira do vilarejo, buscando alguns mantimentos essenciais, que não conseguiam tirar da terra da sua casa, ela avistou pregado num poste um anúncio: “precisa-se de criada”, seguido de um endereço e de um valor generoso, que seria o pagamento semanal.
Seus olhos dobraram de tamanho! Anna já havia pensado em trabalhar para ajudar a família, mas nunca havia visto uma oportunidade como aquela. Ela trabalharia fazendo o que sabia de melhor e ainda ganharia bem para tal. Era a oportunidade perfeita para tirar a família do sufoco.
Porém, havia um problema. Um pequeno detalhe incômodo. A menina conhecia aquele endereço; e quem não? Quem naquele vilarejo não sabia onde morava a notória servidora do Demônio? A bruxa, que havia assassinado seu marido a sangue frio, em um ritual? A dama que estava sempre de preto, ostentando uma maquiagem pesada e uma aura intensa?
O nome de Helena Beaumont saía da boca das pessoas e era seguido de um sinal da cruz. Seu nome era sinônimo de coisa ruim, mesmo antes dos acontecidos com o seu marido. Ela sempre vestia preto ou vermelho, cultivava uma infinidade de plantas em seu jardim e parecia nunca envelhecer; seu rosto e seu corpo eram deslumbrantes, uma beleza diferente de qualquer outra. Para o sempre sábio e sensato povo, claramente ela era uma feiticeira conjurada com o Diabo.
Anna, relutantemente, arrancou o papel do prego que o prendia e correu para casa. Quando explicou o caso para sua mãe, a mulher só faltou enfartar. Anna não queria se meter na casa do Diabo, mas não podia ignorar o pagamento que estavam oferecendo. Porém, para a sua mãe, não existia nem mas e nem meio mas. “Você tire essa ideia absurda da cabeça! Eu te proíbo até de pensar nisso! Só volte a tocar nesse assunto se você estiver afim de tomar uma surra!”.
Mas a menina não tirava aquilo da cabeça. Não era apenas pelo dinheiro, ela se sentia uma necessidade de seguir em frente com aquela ideia, não sabia explicar o porquê. Sentia-se atraída.
Ora, Anna sempre fora uma menina religiosa, assim como toda a sua família. Todos tementes a Deus. Por que ela deveria temer uma mulher como Helena? Se ela era a servente do Diabo, Anna era de Deus, todo poderoso. Ela nada precisava temer. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois Tu estarás comigo” a menina repetia para si em suas orações, todas as noites. Essas palavras não poderiam se vazias e ditas em vão. Corrupção nenhuma poderia a alcançar.
Bom, as semanas foram se seguindo e o tempo não foi nada bondoso com a família de Anna. O frio assolou a região onde morava, matando boa parte da já pequena plantação deles. A mudança de temperatura também castigou sua irmã mais nova. Sua imunidade baixa e seu corpo fraco não foram capazes de aguentar o choque e a menina estava doente de novo. Não bastando isso, seu pai também adoecera e pouco podia fazer.
Estavam no limite. A menina não aguentava mais ver os seus entes queridos definhando e então tomou uma atitude. Pôs sua melhor roupa e numa prece solitária em seu quarto, Anna pediu a Deus que, se fosse para castigar alguém por seus atos, que fosse somente ela. Ela não sabia se aquilo era errado ou não, afinal, tudo é uma questão de ângulo.
Por um lado, ela poderia estar sendo um mártir, que se sacrificaria trabalhando para uma louvadora de Satã, para que sua família não padecesse. Por outro, ela poderia estar sendo a gananciosa, pecadora suja, que trabalharia para o Cão porque lhe pagava bem. Se fosse assim, queria que a punição recaísse apenas sobre ela, que deixasse a sua família fora disso.
Com a cabeça confusa, Anna foi até sua mãe e lhe disse para onde estava indo. A mais velha, por sua vez, nada disse. Sentada numa cadeira baixa, ela apenas levantou o olhar para enxergar o rosto da filha, com o semblante carregado de amargura. Quando voltou a encarar o fogo da lareira, sempre em silêncio, a menina entendeu o recado. Deu-lhe as costas e saiu pela porta.
Foi uma longa e relutante caminhada até a mansão Beaumont. Entrar por aqueles portões exigiu um esforço sobre-humano. A casa não era enorme, como muitas outras que havia nos arredores, mas não era menos extravagante que qualquer uma delas. A fachada era deslumbrante, o jardim impecavelmente cuidado, os vidros das grandes e imponentes janelas não tinham uma mancha sequer.
Anna não tinha certeza se a vaga de serviçal ainda estava disponível, afinal já havia se passado algum tempo. Encarando aquela casa, com os pensamentos distantes, a garota tomou um susto quando as grandes portas de madeira maciça escura se abriram. Na verdade, apenas uma das portas se abriu e foi apenas uma fresta, larga o suficiente para revelar a figura de uma mulher esguia, vestindo um hobby vermelho.
“Em que posso ajudar?” disse a mulher, com uma voz grave e melódica. Anna estremeceu. Presumiu que aquela fosse Helena. A moça engoliu grosso, inspirou o mais fundo que conseguiu e disse “Me chamo Anna, prazer! Eu vim para saber se a vaga de serviçal ainda está disponível. Posso ser jovem, mas cozinho muito bem. Preparo qualquer coisa que me deres a receita, nunca queimei um bolo sequer! Também não sossego enquanto eu vir alguma sujeira. Sou muito cuidadosa com a limpeza, senhora, e muito delicada com as roupas. Minha mãe me ensinou bem.”.
A mulher parada junto ao batente da porta assumiu uma expressão pensativa, jogando o peso do corpo para a outra perna, enquanto olhava a menina de cima a baixo. O silêncio entre as duas não durou muito. Foi cortado pela fala curta da dona da casa “Pois muito bem. Entre.”.
Anna não sabia se ficava feliz, triste ou se saía correndo. Após respirar fundo, pediu para Deus que a protegesse e então seguiu a mulher, entrando pela grande porta e fechando-a atrás de si.
Para o covil de uma bruxa satanista, o lugar era bem arrumado. Nenhum altar, nenhum pentagrama, nenhum animal sacrificado. Também não tinha um caldeirão, nem mesmo um gato preto correndo pelo local e nem corvos de estimação. Nada de teias de aranhas nas paredes ou cabeças de bode. Era um lugar bem arrumado e bem iluminado. O piso de mármore claro do hall de entrada estava impecavelmente limpo. O fogo na lareira deixava o ambiente até bastante acolhedor. Era tudo bem decorado, até mesmo o lance de escadarias largo, que levava ao segundo andar.
Helena se apresentou formalmente para Anna, oficializando a contratação dela sem cerimônias, mostrando toda a casa para a menina e listando seus afazeres. Ela lhe disse que testaria as suas habilidades no decorrer da semana. Se tudo aquilo de que se gabava fosse verdade, Anna permaneceria definitivamente.
Já era tarde da noite quando a conversa das duas terminou. O caminho que a menina faria de volta para casa era longo, escuro e perigoso, então Helena mostrou o aposento que seria de Anna durante a semana, oferecendo-o para que a menina já ficasse ali naquela noite.
“Pedirei que o mensageiro vá até sua casa e avise sua família. Não vou permitir que ande por aí a essa hora, ainda por cima desacompanhada” disse a senhora Beaumont, pondo sua mão sobre o ombro da outra, que num movimento arisco se desvencilhou do toque. “Eu não tenho medo do Diabo!” ela respondeu como num reflexo. A mulher, por sua vez, ajeitou seu hobby de seda, em meio a um riso e lhe respondeu “Faz bem. Nesse mundo, você só precisa temer as outras pessoas e nada mais”, desejando-lhe ainda um boa noite, para então se retirar.
Anna acabou dormindo por lá mesmo naquela noite. Foi a melhor noite de sono que ela teve em muito, muito tempo. Tranquila e sem sonhos.
O tempo passou e Anna ficou com o emprego. Estava muito bem nele, obrigado. Nada de estranho lhe acontecera. Dona Helena era uma mulher excêntrica, mas era só isso. Elas não conversavam muito. Para alguém que achava que acordaria com o cântico de mantras satânicos e dormiria ao som dos gritos de animais sendo sacrificados para alguma entidade, Anna estava muito bem. Nada de anormal acontecia naquela casa. As pessoas na rua lhe olhavam atravessado, mas ela não se importava.
Todos os domingos, Anna ia para casa para ficar junto de sua família e lhes levar dinheiro, medicamentos, comida e qualquer coisa que faltasse. Eles iam juntos para a igreja do vilarejo, para que o padre lhe purificasse e lhe abençoasse.
Foi então que, numa noite, o padrão de tranquilidade foi quebrado. Anna estava terminando de fazer o jantar, quando um barulho na porta da frente lhe chamou a atenção. Caminhava em direção a ela, pare checar a fonte dos ruídos, quando as portas se abriram violentamente e por ela entraram três homens, munidos de sabres e adagas em suas mãos. Anna, por instinto, gritou e tentou correr para o outro lado, em direção às escadas, mas um dos homens a agarrou pelo cabelo e a atirou no chão.
Os homens gritavam como animais selvagens, a menina mal conseguia entender o que eles diziam. Eles andavam por toda a sala, quebrando os vasos e estátuas que a decoravam, espatifando-os contra o mármore do chão. Um deles foi até a lareira e em seu fogo aqueceu a lâmina de sua espada até quase encandecer, e então foi até Anna, encolhida no chão, próxima à parede.
“Onde está aquela vadia imunda? Onde está a bruxa?” o homem ameaçou de lhe furar o ventre. A menina estava em pânico, mal podia raciocinar. Naquele momento só sabia gritar desesperada.
A gritaria naturalmente chamou a atenção de Helena, que apareceu no alto das escadas, vestindo uma longa camisola preta de seda e ostentando uma cara de tédio. Um dos homens, ao avistá-la, começou a bradar a plenos pulmões “Você! Você vai voltar para o inferno hoje ainda, sua assassina! Bruxa! Nós não admitimos mais a sua presença!”.
“Uma mulher que mata o seu marido em nome de Satã merece um castigo muito pior que a morte!”, outro gritou. A senhora Beaumont desceu as escadas, a passos lentos, alternando seu olhar de Anna, jogada num canto, e seus agressores, todos parados em posição de ataque.
Helena desceu o último degrau e deu cerca de três passos e num tom frio ela falou “Vocês não deviam ter entrado aqui”. Poucos segundos depois, o silêncio daquela sala foi quebrado pelo grito mais agoniante que Anna já havia ouvido em seus dezesseis anos de vida. Um grito que começou grave e terminou parecendo o guincho de uma coruja. Era alto, seco e fez todos na sala se arrepiarem dos pés a cabeça.
A mulher de preto caiu apoiada em seus joelhos e curvando o corpo para trás, esparramando seus cabelos castanhos pelo chão, quase tocando o mesmo com a cabeça, de tão arqueado que estava seu corpo. Uma risada sinistra saia de sua boca, que ostentava um riso debochado. Os homens todos recuaram alguns passos. Helena puxou do decote de suas vestes uma faca de caça e a desembainhou, erguendo seu braço para o alto e em seguida endireitando seu corpo, numa posição esguia.
“Vocês querem me matar? Pois então venham!” ela falou, enfatizando a última palavra em um grito rouco “Quero ver quem vai ser o macho que acha que vai me matar com esses brinquedos aí!” ela apontava para os homens com a mesma mão que empunhava a faca. “Vocês cometeram o maior erro de suas vidas entrando aqui. O meu será o último rosto que vocês verão”.
A essa altura, Anna estava branca, apavorada. Tudo o que sabia fazer era repetir o Salmo vinte e três, seguidamente. Os cavalheiros que criaram toda essa confusão, para se borrarem só faltava um vacilo.
“Eu vou cortar a garganta de vocês, então enfiar o punhal em seus peitos e me divertir vendo vocês agonizar, da mesma forma que foi com Robert, meu amado marido”.
Dito isso, Helena se colocou em pé, fazendo com que os homens recuassem mais. “Levem como maldição ou como aviso, meus amigos: aquele que derramar o meu sangue carregará em seu próprio, uma mancha. Quem derramar meu sangue perecerá, assim como todos aqueles que carregarem seu próprio em suas veias. Sua família jamais conhecerá a felicidade, somente a desgraça e a amargura.”. A mulher voltou a ficar de joelhos “Aquele que invade a minha casa, terá um destino pior do que a morte!”.
O corpo de Helena começou a convulsionar e de sua boca saíam palavras em latim, isso Anna sabia dizer, pois conhecia um pouco do idioma da igreja. Os homens, ao verem tal cena quase deixaram suas peles para trás, de tão rápido que correram para fora da casa. Gritavam palavras de ódio e xingamento para a mulher, que mal ouvira.
Apoiando-se na parede, Anna levantou-se do chão, indo até a porta e ao não ver nenhum dos invasores, fechou-a num estrondo. Ela virou-se e rezando, deu alguns passos na direção de sua patroa, que agora apenas estava deitada no chão, imóvel.
O silêncio na sala era ensurdecedor. Após alguns segundos, que pareceram horas para Anna, Helena jogou o punhal para o lado e finalmente se manifestou:
“Eles já foram? Ótimo”, falou em um tom de voz entediado. Ela se levantava do chão, lentamente, ajeitando suas vestes, agora amassadas e desgrenhadas, abrindo a faixa que amarrava seu hobby e dando um novo laço. “Eu gostaria que você servisse o jantar em meu quarto, sim?” ela continuou, enquanto passava a mão pelos cabelos, que também estavam um pouco bagunçados.
Helena subia as escadas, como se nada tivesse acontecido, quando Anna, agarrada ao seu terço, chamou sua atenção:
“O que em nome de Deus foi isso, dona Helena? Como a senhora age com tanto descaso depois do que houve? A senhora não se lembra ou você é apenas louca? Como age com tanta tranquilidade depois de ter sido possuída pelo Diabo?” Anna gritava desesperada, enquanto seus olhos se enxiam d’água.
“Homem nenhum nessa vida me controlará, minha querida. Nem mesmo o Diabo. Meu espírito é meu, assim como meu corpo. Eu sou minha e de ninguém mais.” Ela rebateu, sem nem sombra de vacilo ou hesitação. “Perdão se meu fingimento lhe assustou, mas não tive escolha”.
“Não teve escolha?” Anna perguntou com pura indignação “Você é louca!”.
“Talvez, mas ouça um conselho dessa louca” Helena desceu alguns degraus e escorou-se no corrimão da escada “na vida, quando você se deparar com uma situação de perigo como essa, você tem duas escolhas: ou você foge e vive com medo, ou você pega as armas que tiver e luta. Há muito que todos me chamam de bruxa, de serva do Coisa Ruim. Por muito tempo eu tentei negar, me defender, mas de que adianta? O povo jamais mudará seu pensamento sobre mim, então eu simplesmente abracei isso e quando me convém, eu me defendo usando as pedras que atiraram em mim. Eu me cansei de viver com medo”.
Como Helena percebeu que Anna não falaria nada, parecia com a cabeça distante, a mulher continuou.
“A vida me fez de saco de pancadas desde muito cedo. Quando me casei, achei que tudo ia melhorar, mas pouco mudou. A mudança mais significativa que aconteceu foi que, no lugar da vida, meu marido é quem me usava de saco de pancadas” ela riu fraco, sem realmente achar graça. “Mas, quanto mais meu corpo fraco apanhava, mais a minha mente se fortalecia e mais meu espírito se fortificava. E aprenda desde já, minha cara: a força que faz a diferença não é a física, mas sim a psicológica. Veja, meu marido era robusto, demonstrava sua força em mim sempre que podia, e hoje ele está morto. Já eu estou aqui, mais plena do que nunca”.
“Você não é forte, dona Helena, você apenas finge ser! Você se esconde atrás do rótulo de bruxa para se proteger! Não é o que você é, de fato, que impõe medo nos outros, mas sim no que você finge ser!” Anna bradava com raiva. Seu coração poderia pular para fora de seu peito, de tão forte que batia.
Helena, mais uma vez riu. Ela ria da inocência da menina,
“A vida, minha jovem, é uma sinfonia composta por Deus e orquestrada pelo Diabo. Dentro de nós temos toques tanto de um deus quanto de um demônio”.
“Blasfêmia!” a menina rebateu num grito ainda cheio de ira.
“As nossas virtudes são divinas; Deus mora nos detalhes, é o que dizem. Nossas falhas e nossos defeitos são respingos do Diabo em nossa alma. Somos apenas a junção dessas duas metades: yin e yang. Você não pode ser completo se abraçar apenas o seu lado bom e temer seu lado ruim. Para viver plenamente é necessário abraçar o seu demônio interior. Ele é muito poderoso, saiba disso, minha cara, e tem armas muito poderosas para te ajudar a sobreviver. Cinismo e dissimulação são só algumas delas. Um homem não sobrevive só de virtudes”.
Mais uma vez, silêncio. Dessa vez ele foi longo. De um lado, Anna em pé, atordoada e encarando o piso de mármore e do outro, Helena, escorada no corrimão das escadas, com os braços cruzados abaixo dos seios, encarando a menina.
“Você é louca e vai morrer sozinha.” Anna murmurou, fazendo Helena abrir um sorriso zombeteiro e logo lhe respondendo:
“Conto para você, Anna, outro segredo da vida: aprender a se bastar. Sou feliz sozinha, obrigado. Se algum dia eu me sentir só, não tem problema. Eu tenho dinheiro bastante para viajar para outro lugar, bem distante. Eu posso começar uma nova vida, longe de rótulos colocados em mim. E eu ainda teria a vantagem de iniciar essa nova vida levando comigo todo o aprendizado dessa existência intensa; seria como reencarnar, só que sem perder as lembranças”.
“Mas não se engane, Anna” a mulher continuou “Eu não acredito em reencarnação. Uma vez que eu morrer, já era. Acabou. Se o Inferno existir, é para lá que eu vou; é o preço que se paga por domar e usar para seu benefício o seu lado ruim. E digo mais, se o Diabo não se cuidar...”.
“Inferno, demônio, Diabo!” Anna berrou, interrompendo a fala da outra “Essas palavras saem de sua boca tão facilmente! Deus terá de ser muito misericordioso com você! O Diabo não gosta de ser provocado, dona Helena, e ele virá atrás de você!”
Depois de alguns momentos de quietude, Helena riu. Deu a mais debochada das gargalhadas. Deu as costas, subindo as escadas. Parou-se quase no último degrau, olhando por cima do ombro, encarando Anna uma última vez e disse:
“Pois deixe que venha, Anna. Eu sou uma mulher maltratada pela vida. Ele tem muito que aprender comigo.”.
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