Coven
3 Capítulo 02
A cabeça de Àrtemis latejava como se milhares de corvos grasnassem em sua mente. “ Não é algo tão distante disso” pensou a líder do Conselho, conseguindo abrir um leve sorriso, apesar da dor.
Mais baltaneses chegaram ao porto de Val al’Lumia naquele dia, fazendo surgir as habituais reclamações dos outros integrantes do Conselho. “Não há mais espaço nas Vilas de ocupação, nem nos campos, asilos, orfanatos...”
A capital de Encantum estava apinhada dos refugiados da guerra civil que explodiu em Balta, um reino importante do leste.
— E o que vocês esperam que façamos? – Perguntou Ártemis para o Conselho.
— Que eles procurem outro lugar! – Exclamou um homem com máscara de lobo. – Já ajudamos mais de oito mil de baltaneses! Que eles procurem abrigo nas Terras do Fogo ou em Aziel...
— Lupino et’Alum, há quanto tempo sou a líder do Conselho? – O homem pareceu relutante em responder.
— Dez anos, vossa excelência.
— Quantos reinos anexaram-se ao território do Império nesse período?
Mais uma pausa.
— Cinco, vossa excelência.
— Agora, a pergunta mais importante, quantas rebeliões tivemos que rechaçar durante todos esses anos?
— Nenhuma, vossa excelência.
Um sorriso seco surgiu nos belos lábios de Ártemis.
— Exato. – A líder do Conselho saiu de seu assento, e foi para o centro do salão onde ocorriam as reuniões, os outros cinco conselheiros mascarados estavam dispostos de maneira circular. – A História ensinou que a maneira mais rápida de se conquistar um território, é por meio da guerra. – Os outros bruxos murmuraram, concordando. – Mas uma lição que passou despercebida por muitos líderes e tiranos, foi que o que mantém o governante por mais tempo no poder não é uma população destruída, rancorosa e assustada; mas uma que o admira, respeita e reverencia.
— Onde você quer chegar? – Perguntou uma bruxa com a máscara de coruja. – Vossa excelência. – Acrescentou rapidamente.
— O poder bélico de Balta é insignificante diante do nosso. Conquistá-lo não demorará mais do que uma ou duas noites. – Ela olhou para os rostos mascarados dos outros conselheiros. – Mas conquistar seu povo? Demorará um ou dois meses.
Mais murmúrios se espalharam entre os conselheiros, mas um gesto os silenciou.
— Sei que minha forma de conquista necessita de mais gastos iniciais, mas... Conselheira Fux Al’Pyro? – Uma Bruxa com uma máscara de raposa rapidamente se ergueu. – Qual foi o crescimento no tesouro do Império nos últimos dois anos?
A Raposa do Fogo retirou um rolo de pergaminho das dobras de seu manto escuro e o analisou rapidamente.
— Quatrocentos e sessenta e cinco por cento, vossa excelência. – Falou com um sorriso, vários outros imitaram o gesto.
Ártemis caminhou até o assento de Lucien e seu rosto ficou apenas a alguns centímetros de distância da mascar de corvo do homem.
— Um povo satisfeito fornece melhores resultados do que um rancoroso, lembrem-se sempre disso. – Ela voltou ao seu trono e largou-se nele. – Todos a favor de enviarmos mais mantimentos para as vítimas da guerra em Balta?
Quatro velas acenderam rapidamente em frente a quatro conselheiros. A vela de Lupin seguiu os exemplos das outras pouco depois.
“Agora preciso acalmar esse lobo irritante” , pensou a líder.
— Mas não esqueçamos da população de Val Al’Lumia. – começou. – Mandaremos um destacamento de cem bruxos para escoltar os refugiados para outras cidades de Encantum. – Ela percebeu a tensão de Lupin esvair-se. – Conselheiro Aracnus, pesquise os melhores locais para enviá-los. Preciso que deixem a cidade dentro de dois dias.
— Sim, vossa excelência – Respondeu o Bruxo com máscara de lobo, que desapareceu usando um feitiço de lócus mommenta.
— Declaro essa reunião encerrada. Espero que Helene guie seus passos. – Falou Ártemis.
— E nós desejamos que Hécate lhe dê sabedoria e poder. – Responderam automaticamente.
Os outros conselheiros seguiram o exemplo de Baltazar e rapidamente desapareceram.
— Preciso de uma bebida . – Resmungou Ártemis, descansando a cabeça entre as mãos.
— Ficarei feliz em ajudá-la com isso.
Ártemis assustou-se inicialmente, ficando pronta para atacar, mas relaxou ao reconhecer a voz.
— Ora, ora, não é toda hora que tenho o prazer de sua visita Elaine. – Falou a líder do Conselho sorrindo ao ver a amiga de cabelos grisalhos aproximar-se. – A que devo a honra de receber a grande Bruxa do Sangue em meu humilde lar? – As duas abraçaram-se.
— O casebre no qual o Templo me colocou para morar em Castel é humilde, você mora na porcaria de um palácio. – Apesar das palavras, Elaine sorria. – Não sabe o quanto é bom poder sair de perto daquele bando de adolescentes e crianças de vez em quando.
— Creio que você não veio me ver pela minha beleza, Elaine.
A Bruxa mais velha segurou os ombros da amiga.
— Finalmente aconteceu, Ártemis! – disse extasiada. – O que esperamos por todos esses anos está ao alcance de nossas mãos!
Ártemis sentiu o mundo parar por alguns instantes.
— Um Dracul Al’Etnin ? – Perguntou ansiosa.
A amiga gargalhou.
— Não apenas um. São gêmeos.
Ártemis mal podia acreditar no que ouvia.
— Definitivamente preciso beber até entrar em coma alcoólico.
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