Coven
2 Capítulo 01
23 de Setembro de 3120, Ano do Dragão
— Silêncio! – Ordenou mais uma vez a Bruxa do Sangue. Apesar de cada um dos cinco bruxos ali presentes serem hierarquicamente superiores a ela, no momento da Linhagem e da iniciação, ela era a única que importava. Ela encostou uma de suas mãos no ombro da jovem. – Você faria a gentileza de acompanhar essa pobre mulher para um lugar onde esses abutres não fiquem discutindo quem terá você como irmã?
Celta ficou espantada com a forma tão displicente que a Bruxa se dirigiu aos representantes dos covens. Estes, porém, apenas resmungaram algo, de tão acostumados que estavam com essa atitude.
— Por acaso o sangue que está perdendo já está atrapalhando sua capacidade de pensar, garota? – Falou impaciente. Celta aproveitou essa oportunidade para seguir as ordens da bruxa.
Embora fosse cega, a mulher parecia saber muito bem para onde estava indo; com a ajuda de magia provavelmente. Ela guiou a jovem para fora do salão, e a guiou através de alguns corredores até uma escadaria.
Ao final dos degraus, estava uma porta bem diferente da que recebeu Celta no salão do teste da Linhagem. Ela teve que se abaixar um pouco para conseguir entrar no aposento amarrotado de livros que se revelava a sua frente.
Havia apenas uma mesa e uma cadeira na única parte não dominada por tomos, livros, diários de pesquisa e outros integrantes do mundo literário. Mas que utilidades eles teriam para a bruxa do sangue, Celta não sabia.
— Sabe, não uso esta venda por ser cega, garota. – Falou, sentando-se na cadeira. –Uso por enxergar demais. – Uma pausa. – O que isso significa?
Celta já esperava uma atitude daquelas. Era um teste, afinal de contas.
Demorou apenas alguns segundos para achar a resposta em sua memória.
Como ela pôde confundir cegueira com aquilo.
— Se trata da maldição das videntes. Aqueles que nascem com predisposição a enxergar resquícios entre mundos, preferem muitas vezes se cegarem à continuarem com as constantes visões. Ou algumas, como acho que é seu caso, apenas cobrem seus olhos, reduzindo os efeitos, mas sempre tendo acesso quando necessitam; embora o preço seja grande. – Falou, animada por ter se lembrado de tudo aquilo.
— Exatamente, minha cara. – Um sorriso se abriu em seu rosto marcado pelo tempo. – Vejo que pelo menos alguns jovens parecem prestar atenção no que os mais velhos falam. – Ela fez uma pausa, analisando com seus olhos invisíveis o potencial que estava à sua frente.
— Não insultaremos nem a minha nem a sua inteligência; ambas sabemos que sua linhagem revelou-se mais do que o suficiente para que você passe pelos testes necessários para a Aceitação
Era aquilo que Celta esperava ouvir desde que realizou seu primeiro encantamento. Ser considerada digna de passar pelos Testes era algo que salvaria ela e o irmão do destino que os outros lhes impuseram. Aquela frase fez com que tudo que ela teve de abrir mão valesse à pena.
— Você tem irmão? – inquiriu a Bruxa do Sangue.
— Um gêmeo, minha senhora. – Falou a agora alegre Celta. – o nome dele é Finn.
Os lábios da mulher mais velha se curvaram em um sinistro sorriso, que mais parecia pertencer a um lobo do que a um humano.
— Irmãos Dracul Al’Letinin. – Disse, saboreando as palavras. – Gêmeos, ainda por cima. – Ela fez uma pausa. – O que você sabe sobre essa linhagem, garota?
Celta buscou rapidamente todas as informações que sabia sobre o assunto em suas lembranças de História dos Bruxos e Genealogia da magia arceliana.
Nada. Nenhuma menção, por mais ínfima que seja, havia sido proferida por um de seus professores, e nenhum livro havia compartilhado algo sobre aquela Linhagem.
Mas Celta sabia o que significava ser um Dracul.
— Os Draculs são considerados o conjunto de Linhagens mais poderosos e antigos que ainda andam sobre Refúgio. – começou a falar animadamente. – Conhecidas como as Quatro, as famílias Dracul são Dracul Al’ Pyrin, Dracul Al` Aquanin , Dracul Al’ Borin e Dracul Al’ Glacin. Há relatos desses bruxos desde o século XIII, tendo eles ajudado os Covens e os outros Bruxos a criarem o portal para Refúgio, no período da Inquisição. São ótimos controladores dos elementos. – Celta fez uma pausa, notando que ainda não havia respondido à pergunta original. – Mas, lamento informar, que nunca ouvi falar sobre nenhum Al’Letinin.
Uma risada irrompeu do peito da bruxa mais velha.
— Claro que não há nenhum registro sobre os Dracul Al’ Letinin em nenhum livro ou aula de Genealogia da magia arceliana, tolinha.
—E por que não? Se todos os outros Dracul os são...
— Por que, os outros Dracul fizeram questão de destruir toda e qualquer lembrança sobre os Al’ Letinin séculos atrás, durante as Fogueiras. – Interrompeu a Bruxa de Sangue.
Celta entendeu a referência. As Fogueiras foram um dos principais eventos da época mais sombria da História Bruxa, quando uma guerra civil se instalou no Império de Encantum, e vários integrantes do grupo rebelde ARO (Agentes Reintegradores da Ordem) queimaram várias obras literárias, objetos artísticos, documentos históricos e, principalmente, pessoas.
Mas, definitivamente os Draculs haviam lutado ao lado do Império.
— Uma guerra é um momento propício para se descobrir e enterrar segredos. – explicou a mulher, lendo a dúvida nos olhos da aprendiz. – Eles precisavam apagar os Letinin da história, e aproveitaram o fogo por assim dizer.
— Mas por quê? – Indagou Celta, pensando no pior. – Eles eram traidores? Criminosos? – Ela sabia que , embora não tivessem que enfrentar os mesmos problemas que os Liliths, os descendentes de traidores eram os mais desprezados pela sociedade atual.
— Se eu julgasse pessoas pelos atos de seus antepassados, não restaria um só Bruxo vivo, em minha opinião. – Comentou a Vidente. – Mas não, eles não foram nada disso; foram exatamente o contrário na verdade. – a voz dela soou distante, quase como se estivesse lembrando de algo. – Mas isso é uma história para outro dia, você está aqui para receber isto, não é mesmo? – disse, entregando um envelope pardo para Celta. – Aqui estão todas as informações que você e seu irmão deverão saber para a Aceitação; aconselho que leia hoje ainda. Agora, vá. – Falou, dispensando-a com um aceno.
Celta, embora extremamente confusa e curiosa para saber mais sobre sua Linhagem, mal podia se conter de tanta alegria.
Tudo havia valido a pena. Seu ela e seu irmão nunca mais teriam que se preocupar com os campos de trabalho, ou como preconceito, a violência.
Então, Celta percebeu algo.
— Creio que não poderei usar o nome dessa Linhagem oficialmente não é mesmo?
— Gosto quando vocês são espertos. – Disse a Bruxa de Sangue sorrindo. – Qual o elemento que você e seu irmão dominam com mais habilidade?
Aquela resposta veio rapidamente à Celta.
— Alguns professores nos chamam de irmãos Glaciais. – Disse, sorrindo ao lembrar de Lucas, o professor de dominação dos elementos.
— Ah, então são vocês. – A mulher lembrava muito bem do ar maravilhado de Lucas, falando feito uma adolescente apaixonada do talento dos dois.
— Que sejam Dracul Al’ Glacin.
Mal sabia aquela jovem o que aquelas palavras desencadeariam.
Afinal, como qualquer um deles poderia saber?
Todos são apenas mortais.
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