Couples' Therapy

5 Capítulo 5 — "We can't afford to give up, we gotta make our own luck"


Central Park — Robert Restaurant.

Sábado, 12h15min.

– Nós estamos perdendo o novo episódio de Criminal Minds.

– É… — murmurou Charlie, mais concentrado no menu do que no que dizia. — Esse salmão escocês parece muito bom, não acha?

– Charlie! — exclamou Ashton. — Você disse que nós estaríamos em casa a tempo do novo episódio.

– E? — respondeu ele ainda sem prestar muita atenção.

– Não sei se você ainda não notou, mas essa não é a minha casa.

Com um longo suspiro, Charlie fechou o cardápio e o colocou sobre a mesa. Era hora de assumir o papel de babá.

– Olha, eu programei a TV para gravar o episódio. Pare de agir como um bebê. — revirou os olhos ao passo que Ashton bufava. — Além do mais, parece que você e Hilary não fazem uma visita a um local muito conhecido chamado supermercado. Não tem literalmente nada para comer.

– Tem…

– Eu quis dizer algo comestível. — ele levantou as sobrancelhas. Ashton acabou por concordar. — Nós vamos fazer compras depois do almoço. Mas por enquanto vamos comer algo aqui.

– Tudo bem. — o loiro deu de ombros, embora não parecesse muito satisfeito. Para Charlie, por outro lado, era o suficiente. Voltaram ao menu. — Eu acho que vou escolher macarrão. Ou então o risoto.

– Eu escolheria o risoto, parece mais gostoso. — opinou Charlie.

– Você tem razão. — disse Ashton, logo fechando o cardápio. Charlie acenou para o garçom, que não demorou a atendê-los.

– Nós gostaríamos do salmão escocês e do risoto.

– Certo. — concluiu o garçom após anotar em seu bloquinho. — Gostariam de alguma bebida para acompanhar?

– Não, só isso mesmo. Obrigado. — Ashton sorriu, entregando os dois cardápios para o homem, que logo se retirou.

Uma vez que os pedidos foram feitos, o silêncio se instalou na mesa assim como a ansiedade. Ashton começou a batucar seus dedos e Charlie balançava seus pés para frente e para trás, ocasionalmente atingindo a perna do amigo. Ambos olhavam pela janela.

Que coisa curiosa e engraçada era a cidade de Nova York. Não importava o dia, horário nem o tempo, sempre havia pessoas na rua. Chuva ou sol, sábado ou segunda, ela nunca estava em silêncio, acompanhada seja de seus empresários usando paletós ou de seus devotados turistas, carregados de câmeras fotográficas, celulares, bolsas, mochilas e todo o resto. Táxis, carros, ciclistas, animais e artistas de rua também eram um dos vários elementos que construíam o cenário. Eram tantas pessoas circulando que era praticamente impossível encontrar alguém conhecido.

Ainda assim, Charlie e Ashton conseguiam fazê-lo.

– Então… O que você achou de Matt e Julian? — disse Charlie a fim de quebrar o silêncio. Ashton virou o rosto para encará-lo.

– São muito legais. Quero dizer, eles poderiam ter ficado irritados comigo por ter os acusado de dar em cima das garotas, mas eles nem se importaram.

– Na verdade, eles poderiam ter estragado sua cara se quisessem, mas… — Ashton cruzou os braços e fez uma careta, mas Charlie apenas riu. — É, eles são incríveis. E também tem o fato de eles terem nos convidado para jantar na casa deles.

– Aham. Sobre isso… Nós realmente vamos?

– É claro! Por que não? — Charlie levantou uma das sobrancelhas. — É a noite da Benihana, cara! Nós não podemos perder a tradição.

– Mas nós e as garotas não estamos nos melhores termos. — Ashton argumentou.

– Ah, dane-se. Ainda assim é uma tradição e aliás, nós também somos amigos de Matt e Julian. É só um jantar, o que poderia dar errado?

Só a expressão de “você não pode estar falando sério” no rosto de Ashton foi o suficiente.

– Tá. — o moreno revirou os olhos. — Algo pode dar errado. Mas é comida do Benihana! Nós não podemos simplesmente negar. Qual é, Harris! — ele insistiu, fazendo-o parecer uma criança de sete anos – uma aparência que raramente o garoto assumia, mas até que lhe caía bem.

– Algo vai dar errado. — Ashton limitou-se a apenas corrigí-lo.

– Certo, quem é você e o que fez com o Ashton Harris, o cara mais irritantemente positivo que eu conheço nesse mundo? — Charlie cruzou os braços. O outro não respondeu. — Qual é, dude! Sou eu quem deveria ser o pessimista e você, o positivo, lembra?

– Eu sei, mas… — o loiro hesitou.

– Espera. Você ainda está com ciúmes?

– Hm… Não?!

Charlie bateu na mesa com força e se inclinou na direção de Ashton, apontando o dedo no rosto dele.

– Sim, você está! Não acredito!

– Eu não estou! — a voz de Ashton falhou, ficando mais fina. Ele pigarreou antes de continuar. — Quero dizer…

– Aham, é claro. Vou fingir que acredito em você. — Charlie riu. — Eu não ligo, só quero comer comida japonesa na quarta como nós sempre fazemos, então você que engula esse seu ciúmes besta para ir comigo e as garotas.

Ashton respirou fundo, rendendo-se. Não tinha muito como disputar com um advogado.

– Você realmente leva comida a sério, não?

Antes que Charlie respondesse, o garçom chegou com seus pedidos e colocou-os sobre a mesa, desejando-os uma boa refeição antes de voltar de onde veio.

– A vida é curta, meu caro. Não dá para ficar brincando por aí com a comida. — disse, já com os dois talheres em mãos e pronto para atacar seu delicioso salmão.

.+*+.

Quinta Avenida.

Sábado, 15h20min.

Hilary estava certa de que seus pés iriam cair assim que chegasse em casa.

Além de não estar com um sapato apropriado, ela não queria fazer mais uma caminhada. Tinha em mente, ao sair de casa, que apenas iria andar por algumas lojas à procura de uma nova cama, ou melhor, sofá-cama para substituir o que Jackie quebrara. Mas é claro que não.

Não quando o assunto envolvia Jacqueline Dunn.

A morena era sem dúvidas a pessoa mais cosumista que Hilary conhecia. Mesmo que não tivesse uma conta bancária esbanjadora, Jackie vivia em lojas de roupas, sapatos, CDs, eletrônicos, livros… Tudo que era possível e imaginável. Gastava mais do que ganhava – o que não era muito –, o que quase sempre resultava no atraso do pagamento do aluguel de seu apartamento. Isso muitas vezes levava Charlie à loucura quando as contas chegavam, especialmente a do cartão de Jackie anunciando mais uma dívida. A garota era uma shopaholic sem limites.

Tanto que estavam na terceira loja após comprarem o novo sofá-cama e ela já carregava quatro sacolas. Quatro.

– Charlie vai te matar. — disse Hilary, logo se corrigindo. — Ele vai me matar, na verdade, por te deixar gastar tudo isso.

– Mas são só algumas comprinhas necessárias… — Jackie afinou a voz que, acompanhada da sua expressão inocente, a fez parecer infantil. Hilary, porém, não comprou sua cena.

– Jackie, você comprou dois chapéus sendo que você nem ao menos usa chapéu.

– Eles ficaram lindos em mim!

– Você ainda tem que pagar o aluguel atrasado do mês passado, lembra? — Hilary a segurou pelos ombros, forçando-a olhar para seu rosto. — Charlie precisa da sua ajuda financeira, Jackie. Você sabe que as coisas não estão indo muito bem pra ele.

Gradualmente, os olhos de Jackie arregalaram ao que ela percebia o problema no qual tinha se envolvido. Charlie realmente iria assassiná-la.

– Droga! — resmungou, dando um tapa no rosto com o braço livre. — Hilary, você precisa me ajudar.

– Ficou maluca?! — a loira exclamou alto, o que fez algumas pessoas à sua volta tomarem um susto, forçando-a baixar o tom de voz. — Não posso te ajudar, Jackie! Tudo o que eu ganho só dá para pagar o meu aluguel e fazer compras essenciais do mês porque Ashton não trabalha, você sabe.

– Eu sei, mas… Eu preciso de ajuda, Hil. — Jackie choramingou, tentando usar seu poder de persuasão na amiga. — Só dessa vez, por favor! Eu prometo que vou te pagar no mês que vem.

A insistência tornou-se física ao que Jackie agora pulava e puxava o braço de Hilary incessantemente enquanto implorava para que ela lhe desse uma chance. Qualquer semelhança com uma criança mimada era mera coincidência.

E como qualquer mãe com coração mole, Hilary acabou cedendo mesmo que o “só dessa vez” de Jackie fora o mesmo de cinco meses atrás e também seria o daqui cinco meses. Ela nunca aprenderia a lição de qualquer forma, então era melhor afundar com ela do que deixá-la afundar sozinha.

– Obrigada, Hilary! Obrigada, obrigada, obrigada! — os saltos de Jackie agora eram de felicidade. — Você é incrível, obrigada! Prometo que vou te recompensar assim que receber meu próximo salário. A gente pode ir naquela loja de quadros que você adora e também podemos comprar uma caixa de macaroons, porque eu sei o quanto você ama aquelas coisinhas coloridas.

– Ok, Jackie. Tudo bem, não tem problema. — Hilary riu enquanto tentava acalmá-la. — Só me faça um favor: pare de gastar dinheiro em coisas desnecessárias, ok?

– Certo. — Jackie balançou a cabeça várias vezes. — Eu não vo- LIQUIDAÇÃO NA FOREVER 21!

Dez segundos. Essa foi a duração da promessa de Jackie.

Hilary suspirou, não tendo outra escolha além de correr atrás da amiga. Já devia saber no que estava se metendo, de toda forma.

.+*+.

Quinta Avenida — Forever 21.

Sábado, 15h45min.

– Então… Eu gostei dessa saia, mas eu também achei que o vestido ficou melhor. — disse Jackie ao mesmo tempo em que se checava no espelho, arrumando os mínimos detalhes da peça. Uma vez satisfeita, virou-se para Hilary. — O que você acha? Esse ou o vestido? Quem sabe os dois?

– Jackie! — exclamou a loira.

– Ok, ok… — Jackie revirou os olhos. — Mas só essa saia… — murmurou na esperança de que a amiga não ouvisse.

– Jackie, não. — Hilary a agarrou pelos ombros, forçando-a encarar sua expressão séria. — Você disse que só iriámos ver algumas roupas.

– Mas como eu ia saber que-

– Não. — repetiu Hilary, mantendo o mesmo tom. — Eu não vou pagar essa saia se você comprar.

– E o vestido? — os olhos de Jackie brilharam de esperança.

– Nem o vestido.

– Mas, Hil, você pode usar ele também… — ela choramingou. Queria apelar para o lado sentimental da loira. — Por favoooooor!

– Como você acha que eu vou pagar os impostos se eu deixar você comprar isso?

Hesitante, Jackie deu mais uma rápida olhada no espelho do provador antes de finalmente sucumbir aos argumentos de Hilary. Ela tinha razão – como de costume.

– Eu vou lá tirar, então. — deixou os ombros caírem. — Te encontro lá fora?

– Na saída do provador. — disse Hilary. — Assim eu garanto que você não vai mais ficar de olho nas roupas e querer comprá-las.

– Ei! — Jackie protestou, mas o olhar persistente de Hilary a fez recuar. — Tá, você está certa. Que saco, Hilary, será que você não poderia estar errada só por alguns minutos?

– Sinto muito. — Hilary sorriu, obviamente não significando o que dizia.

[...]

– Era só uma saia, por que você levou todo esse tempo? — perguntou Hilary ao que Jackie saiu do provador e elas começaram a andar em direção à saída. Ou pelo menos era isso o que a primeira tinha em mente.

– Era uma saia maravilhosa. – disse Jackie, enfatizando o adjetivo. — Foi tempo e lágrimas. Muitas lágrimas.

Como esperado, Hilary naturalmente balançou a cabeça e rolou os olhos.

– Você devia ter entrado para o teatro porque você é literalmente a rainha do drama.

– Ah, é? Olha só o sujo falando do mal lavado. — Jackie levantou as sobrancelhas, parando de andar e consequentemente Hilary também. — Que tal então falarmos sobre aquela vez que eu e o Ashton tivemos que literalmente te puxar pelas pernas para conseguir te tirar da livraria?

– ERA UMA EDIÇÃO LIMITADA DE UM LIVRO DE HISTÓRIA ANTIGA, OK? — a voz de Hilary aumentou agudamente, o que atraiu a atenção de alguns clientes da loja. Ela abaixou o tom ao perceber os olhares repreensivos e assustados voltados para si. — Além do mais, nós não falamos sobre isso, foi o que combinamos. Esse assunto pertence aos meus velhos e obscuros tempos.

– Foi três meses atrás, Hil.

– Ah, cala a boca. — ela bufou e Jackie gargalhou.

Logo voltaram a andar direto para a saída silenciosamente, apesar de Jackie soltar vez ou outra alguns pesados suspiros entre os passos. A garota tentava lutar contra a vontade de observar as outras peças, mas era mais forte do que ela.

O quão Lei de Murphy era que as coisas pareciam muito melhores quando justamente não se tem dinheiro para comprá-las?

Ainda triste com a ideia de ter que “desperdiçar” uma boa promoção de uma de suas lojas preferidas, Jackie procurou focar sua atenção nas pessoas que passavam à sua volta, já que olhar para os lados não era uma boa opção.

Seus olhos então percorreram por toda a extensão da loja, empenhando-se em observar as pessoas ao invés de deixar seu consumismo tomar conta de si. Havia várias pessoas, predominantemente mulheres jovens em seus 17-25 anos; mas também havia homens e crianças, essas puxando as barras da saia ou da camiseta das mães e insistindo para elas lhes levarem à loja de brinquedos.

Por a loja ser relativamente espaçosa, as garotas levaram um tempo para chegar até o caixa, que ficava perto da saída. Foi nessa análise de pessoas de Jackie que ela acabou encontrando talvez a última pessoa que queria ver em sua vida.

E não. Essa pessoa não era Charlie nem Ashton. Nem mesmo a Sra. Jackson, sua não-tão-adorável vizinha de 78 anos de dois andares abaixo do seu que sempre perguntava se seu namorado já havia lhe abandonado ou se ela tinha ganhado alguns “quilinhos extras”.

Era mais loira do que isso e com certeza em melhor forma do que a Sra. Jackson. Porém, mais irritante do que a velhota – digo, idosa – também.

Mellanie.

.+*+.

Upper West Side — Apartamento de Hilary e Ashton.

Sábado, 16h30min.

– Charlie, me passe a porcaria da bola!

– Dá um tempo, Harris. — murmurou Charlie sem desviar o olhar da tela da televisão. — Estou prestes a fazer um gol, não me atrapalhe.

– Que seja. — Ashton bufou, soltando um dos lados do controle, fazendo-o pender em apenas uma das mãos. — É por isso que eu odeio jogar Fifa no mesmo time que o seu. — disse enquanto alcançava a tigela de salgadinho em cima da mesa de centro e o enfiava goela abaixo.

No entanto, Charlie sequer notou a desistência do amigo.

Ser expulso de casa pela própria namorada era ridículo e horrível, principalmente quando seu novo colega de quarto cantava exagerada e desafinadamente no chuveiro por meia hora – nisso assumindo que ele estivesse de mau humor; nos seus melhores dias, Ashton literalmente encarnava o espírito da Madonna (o único problema era que o talento não vinha junto) – e dançava como a Shakira (pelo menos era isso que Ashton dizia) enquanto fazia a limpeza geral. Mas tinha um lado positivo nisso tudo: tinha ficado no apartamento com o recém-adquirido XBox! Possivelmente morreria de fome ou de surdez, mas pelo menos não ficaria entediado!

Mesmo não jogando dia e noite, Charlie era bom. Muito bom. Ashton se perguntava o que passava pela cabeça do amigo enquanto apertava os pequenos botões coloridos do controle e manejava tão perfeitamente as mini e digitais versões dos jogadores de futebol.

Provavelmente várias engrenagens e máquinas à vapor rugindo. Na verdade, a cabeça de Charlie era algo semelhante à Tempos Modernos de Charles Chaplin o tempo inteiro.

Ainda assim, Ashton muitas vezes sentia vontade de pegar o controle e forçá-lo engolir inteiro de tão sem graça que ele conseguia ser.

Naquele dia, particularmente, Ashton não era o único com essa vontade.

– CHARLES COOPER! — uma voz familiar ecoou pelo apartamento logo após a porta ser aberta de maneira nem um pouco delicada. Ou melhor: chutada indelicadamente.

– Jackie! — uma segunda voz familiar resmungou alto seguido de um suspiro. — Eu ainda pago por essa porta.

Como de costume, Jackie não lhe deu ouvidos. A única pessoa que ela via naquele momento estava sentada no sofá ao lado do amigo, este paralisado de medo e com um salgadinho à meio caminho da boca. O alvo da garota, porém, tinha nada além da sua habitual expressão de “lá vamos nós de novo”.

Dramática e artística que era, Jackie caminhou lenta e duramente até o tal “amor da sua vida” com uma careta nada agradável que fez Ashton querer se esconder atrás de Charlie para não ter pesadelos com aquela vista; então ela deu um tapa na mão do moreno, fazendo-o derrubar o controle de sua mão.

Ashton soltou um grito um pouco agudo demais.

– O que o controle te fez?! — choramingou ele para Jackie e depois para Hilary na esperança de receber algum apoio.

– Nem adianta. — ela balançou a cabeça com os braços cruzados, suspirando. Andou até onde estavam os três, evitando Jackie, é claro. — Venha. Me ajude a tirar essas coisas altamente perigosas e quebráveis perto da Jackie. — pediu e Ashton afirmou freneticamente sem pensar duas vezes, correndo para ajudá-la.

Enquanto isso, o outro casal parecia soltar faíscas pelo olhar. Jackie encarava Charlie como se esperasse alguma reação específica, mas esse não demonstrava nada.

– Que porcaria é essa?! — disse ela, por fim.

Apoio de livros! Esse poderia causar um estrago grande…

– Um videogame?! — indagou Charlie, franzindo o cenho. Jackie revirou os olhos.

– Corta o sarcasmo, Cooper. Você sabia que ela trabalhava na minha loja preferida, não sabia?

– O quê?! — Charlie estava ainda mais confuso. Procurou por ajuda ao olhar para Ashton, mas o loiro deu de ombros em resposta. — Jackie, do que você está falando?

– De quem.– ela o corrigiu.

– Certo. De quem você está falando?

– Não se faça de idiota. Eu odeio quando você finge que não sabe das coisas.

O instinto de Charlie foi responder grosseiramente; entretanto, seu segundo instinto falou mais alto e ele procurou o olhar de Hilary a fim de que a garota lhe desse um pouco de claridade à situação. Felizmente, ela o ajudou.

– Mellanie. — pigarreou, rapidamente voltando para sua remoção de “coisas que Jackie poderia usar para fazer um estrago na sua casa e na cara de Charlie”. Ashton ia falar alguma coisa, mas ela o repreendeu antes que pudesse,

– Jackie, como eu ia saber disso? Eu nem sabia que você tinha uma loja favorita! — argumentou Charlie.

– Eu tenho sim, ok? E é a Forever 21.

– Não é isso que diz a minha conta de cartão de crédito no fim do mês. — murmurou e Ashton deu um tapa na própria testa.

Top três coisas que nunca, jamais deve se dizer à namorada shopaholic.

– Não mude de assunto. — grunhiu Jackie ainda mais irritada que antes. — Por que você faz isso? Você gosta de me ver brava e com ciúmes, é isso?

– O quê?! Jackie, ficou maluca?! — Charlie deu um salto do sofá.

Top três coisas que nunca, jamais deve se dizer à namorada durante um ataque de ciúmes.

– Vá se foder, Charlie. Você sempre escolhe atender as pessoas que mais vão me irritar. — ela agora praticamente gritava. — E dessa vez eu sou obrigada a encarar a cosplay de Barbie Girl toda vez que quiser ir à minha loja favorita!

Nem mesmo Ashton, que era a outra metade da laranja ciumenta, estava entendendo a reação de Jackie. Como é que se esperava que Charlie entendesse?!

– Foi um pedido do meu chefe, Jackie! Eu não escolho a dedo os meus clientes. Eles são enviados até mim. — disse Charlie em autodefesa.

– Ah, certo. — Jackie bufou.

– Pare de agir como a vítima aqui, Jackie. — exclamou ele, já nervoso. Ashton e Hilary, juntos, deram um passo para trás. — Eu nunca te dei motivos nessa vida para você duvidar de mim.

A coisa ia ficar feia. Com o fato de Jackie perder a cabeça, eles estavam acostumados – ela tinha um ataque desses pelo menos duas vezes por mês. O problema se tornava realmente um problema quando Charlie se irritava, o que acontecia uma a cada três discussões que a garota trazia para a mesa.

A não ser que a questão fosse financeira. Charlie não conseguia manter a calma e o controle quando as várias dívidas de Jackie chegavam em sua caixa de correio.

– É, Charlie. Você nunca dá motivos para minha desconfiança. — disse Jackie ironicamente, uma mão na cintura e as unhas da outra sendo observadas por ela.

Uma perceptível veia do pescoço de Charlie saltou ao mesmo tempo em que saía grandes bufadas de ar de seu nariz, fazendo-o parecer um touro que acabara de ver um pano vermelho sendo sacudido em sua frente. Para a felicidade dos donos do apartamento, a paz dos vizinhos e a conservação de suas coisas, o moreno reinstituiu a paciência.

– Certo, Jackie. — disse com uma falsa calma. — Tenho uma solução simples pra você: não vá a Forever 21 mais. Nós não temos dinheiro sobrando para ficar gastando com mais um bolo de roupa que vai se juntar com a Montanha Foreverrest.

– Péssimo trocadilho. — pigarreou Ashton e Hilary lhe deu um tapa no braço, mas não conseguiu reprimir uma risada.

– Aliás, nós fizemos um acordo sobre não gastar mais em roupas. — Charlie franziu o cenho, balançando o dedo ao que falava. Jackie desfez a pose, seu rosto se contorcendo em leve pânico. — Por que você estava na Quinta Avenida?

–... Droga. — murmurou ela. Era tarde demais para voltar atrás?

.+*+.

Upper West Side — Apartamento de Jackie e Charlie.

Domingo, 14h00min.

– HILARY! — berrou Jackie. — Você não vai acreditar no que eu encontrei! Vem cá!

E pensar que tirar o dia para arrumar a casa era uma boa ideia. Cedo ou tarde, Jackie iria achar algo que provavelmente ia fazer Hilary se arrepender de ter sugerido a tarefa.

Lamentações à parte, Hilary levantou com dificuldade do chão – este cheio de pilhas de livros que ela estava tentando organizar – e foi até o outro lado do apartamento, mais precisamente ao closet de Jackie e Charlie.

O closet que a amiga hipoteticamente deveria estar arrumando. Ao invés disso, ela a encontrou vestida com uma roupa diferente da que estava antes e com um aparelho de karaokê e dois microfones na mão. E muitas roupas, masculinas e femininas, espalhadas no chão, isolando-a em um pequeno círculo no meio.

– O que é isso? — foi a primeira coisa que veio na mente de Hilary, mas logo se corrigiu. — Quero dizer, eu sei o que é isso, mas não estou muito afim de descobrir quais são seus planos para nós.

– Hora do intervalo. — Jackie sorriu sapeca.

Mas primeiro ela precisava de uma ajuda para se levantar dali.

[...]

– BUT SINCE YOU BEEN GONE, I CAN BREATHE FOR THE FIRST TIME. I’M SO MOVIN’ ON, YEAH YEAAAAAH!

Até que Jackie tinha razão. Cantar fazia bem à saúde.

Não exatamente à saúde dos ouvidos dos vizinhos, mas ainda assim… Era como uma sessão de massagem acompanhada de um chá bem forte de camomila para tirar todo o estresse. E o que melhor do que Since U Been Gone?

– Shut your mouth I just can’t take it again and again and again AND AGAAAAAAIN. – Jackie não simplesmente desafinou; ela matou alguns pássaros com seu solo. Hilary soltou uma risada alta das caretas que ela fazia.

Cantar não era a única coisa. Elas também dançavam junto com a música, o que fazia a cena toda ficar ainda mais engraçada visto que nenhuma das duas sabia o que estava fazendo com seus braços e pernas. Estavam tão entretidas que nem percebiam as batucadas que o vizinho de baixo fazia com a sua vassoura ou as gritarias do de cima.

Não era a primeira e nem seria a última vez, de toda forma.

– Thanks to you, now I get, you should know...

– You should know! – cantava Jackie a voz de fundo, ou pelo menos era para ser isso.

– That I get, I get what I waaaaaaaant.

– Since you been gone, since you been gone… – ela finalizou com uma pose, forçando Hilary a se juntar também. A pontuação não demorou a vir: 60. — Claramente esse aparelho não sabe o que é arte de verdade.

Hilary gargalhou com o resto de fôlego que lhe sobrara. Sua melhor amiga era louca, sim, mas tinha a animação de cinco e a auto estima de dez. Jackie raramente se deixava abater por coisas pequenas – que não envolvessem Charlie, é claro.

– Certo, foi bom tirar uma pausa. — disse Hilary, indo até a cozinha para beber um copo d’água. Entregou outro para Jackie, que estava apoiada no balcão. — Mas precisamos voltar à limpeza ou não vamos terminar hoje.

– Que exagero, Hil. — Jackie riu. A outra fez uma careta em resposta. — Tá, você tem razão. Mas antes eu tenho mais uma ideia…

Antes de Hilary poder dizer qualquer coisa contrária, Jackie deu um salto até a mesa de jantar, onde alcançou o controle do aparelho de karaokê e deu play. Uma batida conhecida começou a tocar e logo a garota cantava junto.

– I got a pocket, got a pocketful of sunshine. I got a love and I know that it’s all mine oh, oh whoa… – ela apontava o dedo para Hilary enquanto balançava os quadris. — Do what you want but you’re never gonna break me, sticks and stones are never gonna shake me oh, oh whoa.

A loira contou mentalmente até dez.

Justo quando achava que tinha se livrado dessa música…

.+*+.

Complexo Educacional Julia Richman — Escola Fundamental Ella Baker.

Segunda-feira, 11h40min.

– No final do século XVI, a Inglaterra começou a colonizar a costa litorânea atlântica dos Estados Unidos, chamadas de Treze Colônias naquela época, pois os outros territórios do novo continente já estavam sobre a influência de Portugal e da Espanha, como o Brasil e os países da América central. — dizia Hilary, alternando entre escrever na lousa e gesticular com as mãos. — Como vocês devem saber, o Norte dos Estados Unidos é muito mais frio do que o Sul, por exemplo, aqui em Nova York é mais frio do que lá na Flórida. Por essa diferença de climas, o tipo de colonização foi diferente para cada parte da Colônia.

– Como assim diferentes tipos de colonização? — um dos alunos levantou a mão. — Não é tudo a mesma coisa?

– Existem dois sistemas de colonização nessa época: a colonização de povoamento e a de exploração. — explicou ela, anotando na lousa os dois novos conceitos. — A colonização de povoamento foi a usada no Norte dos Estados Unidos por conta de seu clima mais temperado, ou frio, além de não conseguirem encontrar metais preciosos nessas terras. Esse sistema consiste na policultura em minifúndios, ou agricultura de subsistência. Ou seja: são famílias de ingleses que vinham para cá ficavam em pequenas porções de terras, plantando apenas o essencial para sua sobrevivência. Assim garantiam o monopólio, ou melhor dizendo, a posse da Colônia.

– E no Sul eles achavam metais preciosos? Por isso eles usavam escravos nessa parte?

– Sim, está certíssima. — Hilary sorriu para a aluna que lhe fez a pergunta. O aluno ao seu lado, Henry, fez uma careta zombeteira.

A sétima série não era exatamente o tipo de anjinhos a que Hilary esperava ensinar, mas era melhor do que o ensino médio. No geral, seus alunos do ensino fundamental eram interessados em suas aulas apesar de apenas envolver teoria e nenhuma prática como as aulas de ciências, o que a estimulava a se animar com a matéria. Mas, em como toda sala, havia conflitos.

A começar pelos grupinhos que eram formados durante o ano letivo. Inofensivos até a exclusão começar a acontecer e alguns alunos acabarem sendo mais alvo de piadas do que outros, algo ainda frequente nas escolas americanas.

Para o alívio de Hilary, nenhuma de suas classes ainda tinha chegado ao extremo – até porque era apenas o começo do ano escolar. Isso, porém, não significava que as preferências já não começavam a se manifestar. E geralmente era a maioria contra o “nerd” da sala.

No caso dessa sala em particular, a preferência estava mais do que explícita.

– Henry, algum comentário que queira compartilhar com o resto da sala? — Hilary pegou-o de surpresa. O garoto imediatamente ajeitou sua postura e pigarreou baixinho.

– Não, Srta. Belrose.

– Tudo bem, então. — ela sorriu serenamente, embora seu olhar o advertia que não aprovava sua atitude. Voltou a falar com o resto da sala. — Como disse Atena, no Sul havia metais preciosos, portanto a escravidão era algo bem visto e aceito naquela região. A economia era exclusivamente voltada para a Metrópole, portanto tínhamos uma colonização por meio da exploração: plantio de apenas um produto, ou monocultura, em grandes propriedades, ou latifúndios. Ao contrário do Norte, o Sul não possuía muita autonomia, pois esse dependia diretamente do fornecimento de produtos da Metrópole.

– A Metrópole nesse caso é a Inglaterra? — outro aluno levantou a mão.

– É sim. — respondeu, logo virando para a lousa. — Espera, eu não disse isso?

– Não. — disse a sala em uníssono. Hilary se xingou mentalmente.

– Me perdoem. — virou-se para os alunos meio à caminho de anotar o detalhe junto com o resto do resumo. — É sim. Inglaterra é a Metrópole.

O sinal tocou antes que ela pudesse escrever o “I” de “Inglaterra”, anunciando o final da aula. Os murmurinhos entre os alunos então começaram ao que eles arrumavam suas coisas para ir ao intervalo. Hilary conseguiu apenas dar uma “boa semana” antes que a maioria sumisse atrás da porta.

– “Você não vai acreditar na blusa que eu encontrei”. — leu em voz baixa a mensagem de alguns minutos atrás de Jackie. — Droga, Jackie. O sermão de Charlie não foi o suficiente?!

Continuou a arrumar suas coisas, sem prestar muita atenção ao seu redor. Só conseguia pensar no quanto estava morrendo de fome e tudo o que queria naquele momento era apenas chegar no refeitório – Hilary babava só de imaginar no seu prato cheio com frango, brócolis e purê de batata –, mas ligar para Jackie e evitar que ela se entregasse ao seu desejo de gastar era prioridade.

E ainda dizem que amizade é algo supostamente gratificante.

– Srta. Belrose? — uma voz fina a chamou junto com uma leve cutucada no braço bem quando estava na porta com o celular na mão. Ela levou um susto. — Desculpe, eu não-

– Não, tudo bem. — sorriu um pouco forçadamente, virando-se para encontrar Atena, uma de suas alunas mais dedicadas. — Aconteceu alguma coisa?

– Bem, eu… — Atena encarava seus pés enquanto agarrava seu livro como se fosse seu último recurso de água no meio do deserto. Hilary colocou sua mão livre no braço dela, incentivando-a a contar. — Eu vou ter que ficar sozinha em casa pelo resto da tarde porque meus pais foram trabalhar, mas eu não quero ficar sozinha. Eu estava pensando se… Se eu podia passar o resto da tarde com você.

Na última frase, Atena levantou seu rosto para encarar Hilary com olhos tão grandes e insistentes que pareciam ter saído direto de um mangá. Como dizer “não” para aquela coisa fofa?

No entanto, por mais que quisesse dizer “sim”, não podia. Ainda tinha outras aulas para dar, não dava para simplesmente arrastar a garota para as outras salas sem mais nem menos.

– Por que você não fica aqui na escola com seus amiguinhos? — ela se agachou na altura da menina, cujos olhos se encheram de água. — Você ainda não tem mais aulas?

– Sim, mas meus colegas de sala não gostam muito de mim...

– Oh, querida, não diga isso. — ela fez carinho no braço da aluna, que parecia estar prestes a chorar. — Olha, eu tenho que ficar no colégio até quatro e meia da tarde. Você pode escolher ficar com outros professores em outros espaços do colégio…

Atena não respondeu, o que Hilary entendeu como “eu não gostei dessa ideia”. O que podia fazer então? Não dar suas outras aulas para ficar com ela? Enviá-la para outro professor que tivesse tempo?

Se ao menos conhecesse alguém que pudesse animá-la e passar o resto da tarde com ela, seria muito bem vinda.

– Espera aí. — uma lâmpadazinha acendeu sobre a cabeça de Hilary. — Acho que eu tenho uma ideia.

.+*+.

Upper West Side — Rua Edgar Allan Poe.

Segunda-feira, 12h20min.

“Eu vou precisar da sua ajuda, espero que não esteja ocupado. Te vejo em vinte minutos na frente do nosso prédio.”

O que será que Hilary queria dizer com aquilo?

Já tinham se passado dezesseis minutos desde que Ashton recebera a mensagem. O conteúdo dela o deixara levemente preocupado: Hilary nunca voltava pra casa antes das cinco horas nas segundas, ao menos que acontecesse algum desastre natural. “Vou precisar da sua ajuda”, digitara. Por que ela precisava dele? O que possivelmente teria acontecido para que ele pudesse prestar ajuda?

Estava em frente ao prédio, batucando o ar, inquieto. Casualmente olhava de um lado para o outro na expectativa de Hilary chegar a qualquer momento. A ansiedade estava o comendo vivo.

Que coisa cruel incitar a curiosidade no outro, não?

– Ash! — Hilary gritou junto com a buzina, embora não fosse necessário já que Ashton a localizara de longe. Ela não demorou muito para parar o carro em frente ao prédio e o garoto. — Obrigada por esperar.

– Você não me deixou muita escolha. — murmurou ele baixinho a fim de Hilary não ouvir. Teve sucesso; exceto que ela realmente não escutaria nada, pois estava inclinada para o banco de trás, aparentemente conversando com alguém.

Confuso com a cena, ele enfiou “discretamente” a cabeça para dentro do carro para descobrir quem era o tal “alguém” – uma garotinha de cabelos castanhos e olhos extremamente azuis, e um pouco desconfiados. Ela parecia ouvir atentamente qualquer que seja a coisa que Hilary estava lhe falando.

Segundos depois, quando ela percebeu sua presença e o encarou de volta, Ashton tomou um susto e tentou sair o mais rápido possível, batendo a cabeça no teto do carro no processo. Resmungou alto.

– O que você está fazendo?! — exclamou Hilary, indignada.

– Eu queria descobrir quem era! — Ashton choramingou, massageando o topo da cabeça. Já conseguia sentir um calo se formando ali.

– Por que não perguntou ou simplesmente optou por olhar pela janela de trás?!

Ele mexia a boca e a mão não ocupada várias vezes, tentando encontrar uma boa explicação. Não tinha nenhuma.

– Que seja. — apenas balançou a cabeça no final das contas. A garotinha, agora apoiada nas costas dos dois assentos da frente, soltou uma risadinha. — Quem é ela?

– Ash, essa é Atena, uma das minhas alunas. — disse Hilary, apontando de Atena para Ashton. — Atena, esse é Ashton, meu namorado. Ele vai ficar com você até eu chegar.

– Prazer em te conhecer. — Ashton sorriu. Só então se deu conta de qual era o favor. — Espera, o quê?!

– Vou precisar que você fique com ela só enquanto eu estiver fora. — o sorriso dela era torto e o olhar, suplicante.

– E o pais dela? Eles sabem que você está com ela?

Hilary revirou os olhos. Quis responder ironicamente, mas estava ficando sem tempo e ainda tinha que convencer Ashton de que não era tão uma má ideia assim.

– Sim, nós avisamos os pais dela. — assegurou-o. Ele continuava relutante à ideia. — Por favor, Ash, você nem sequer vai perceber que ela vai estar no mesmo apartamento que você. Ela é um doce de criança.

– Não sei não… — Ashton pendeu a cabeça para o lado, dessa forma encontrando o olhar perdido de Atena. Então virou para o outro lado só para dar de cara com a melhor careta de Gato de Botas que Hilary conseguia fazer.

Fechou os olhos e respirou bem fundo. O quão difícil poderia ser cuidar de uma garotinha de 11 ou 12 anos? Não tinha nada o que fazer, de toda forma. Além do mais, já tinha supervisionado a filha de um de seus primos antes e nada dera errado; claro que era um bebê de 2 anos, mas trocar a fralda era um desafio. E ele não teria que trocar fralda nenhuma dessa vez, portanto não poderia ser tão complicado (e nojento) assim.

No final das contas, acabou aceitando o pedido.

– Ash, muito, muito obrigada mesmo! — ela o agradeceu várias vezes enquanto ele ajudava a garotinha sair do carro e pegar sua mala. — Você não faz ideia do quanto está me ajudando! Te devo uma.

Eles acenaram ao que o carro e Hilary se afastavam até sumirem de vista. Mal passara mais do que alguns segundos sozinho com Atena e o primeiro desafio já lhe foi imposto:

– Estou com fome. — anunciou Atena com uma das mãos sobre o estômago roncando alto.

.+*+.

Upper West Side — Apartamento de Hilary e Ashton.

Segunda-feira, 13h00min.

– Certo, agora é só colocar no forno e em meia hora fica pronto. — disse Ashton ao fechar a porta do forno. Deixou a luva pendurada no puxador e sentou em frente à Atena, que estava sentada na mesa da cozinha com o livro de matemática aberto. — Acho que ainda tem um pouco de geléia e manteiga de amendoim, quer comer um lanche antes da comida ficar pronta?

– Minha mãe me diz para não comer besteira antes do almoço pra não perder o apetite. — ela levantou o rosto para respondê-lo.

– Mas é manteiga de- ah, tudo bem. — ele se retraiu vendo a expressão séria no rosto de Atena, que lhe lembrava vagamente de Hilary. — Quer alguma outra coisa?

– Não, estou bem. — ela sorriu sem mostrar os dentes.

Ashton não sabia o que fazer; Atena tinha voltado sua atenção para o livro, colocando-o em segundo plano. Decidiu que era melhor deixá-la quieta, claramente ela estava concentrada e ele com certeza não queria atrapalhar.

Mas a inquietação era mais forte do que seus bons modos.

– Então… Você é aluna de Hilary desde quando?

– Desde o começo do ano escolar. Eu entrei nessa escola nesse ano. — respondeu ela, parando de escrever. — Há quanto tempo você e a Srta, Belrose namoram?

– Três anos. Por quê? — ele franziu o cenho, confuso.

– Ah, só curiosidade. — disse ela, encarando-o com seus grandes olhos azuis. — Por que você não trabalha?

Ashton inclinou-se levemente para trás, surpreso com a pergunta. Tentou responder, mas só conseguia abrir e fechar a boca várias vezes sem emitir som algum. Que menina atrevida!

– Porque, bem, eu não consegui um novo emprego ainda. — disse, sua voz quase afinando de indignação. Mas ela não pareceu se importar, continuando a questioná-lo.

– E não é ruim ficar em casa o dia inteiro sozinho?

Instintivamente, ele coçou o queixo enquanto refletia sobre a pergunta. Ficar em casa sozinho por grande parte do dia tinha lá suas vantagens: podia fazer o que quisesse, na hora que quisesse.

Não estava com vontade de levar o prato para a pia logo depois de comer? Beleza! Não tinha ninguém para obrigá-lo mesmo. Queria cantar bem alto e andar dançando pelo apartamento pelado? À vontade! Assistir ao Esquadrão da Moda e julgar os estilos das pessoas em voz alta? De boas! – não que fizesse nenhum deles realmente…

Por outro lado, ficar a tarde inteira sem companhia podia ser bem entediante. Não tinha com quem compartilhar ideias ou, pior ainda, jogar Halo 3! Simplesmente não era a mesma coisa jogar online.

Quando finalmente conseguiu formular uma boa resposta, encontrou Atena com o rosto contorcido de terror, apontando para o fogão atrás de si. Foi aí que ele percebeu o cheiro de coisa queimada.

– AHHH! FOGO! — berrou, tão desesperado quanto a garota. Correu o mais rápido que podia atrás de um extintor para apagar as chamas que saía do seu fogão.

Atena fugiu para a porta do apartamento, vendo de longe Ashton desastradamente manejar o extintor de incêndio e dar um fim ao fogo. Fumaça aqui, fumaça ali e as chamas sumiram, deixando para trás um fogão preto de fuligem e o cheiro horrível de queimado.

– Que tal a gente comer um hambúrguer? — Ashton sorriu amarelo, com a tigela de Mac and Cheese – ou o resto que sobrou dele – nas mãos.

.+*+.

Escritório de Advocacia “Jones Day”.

Segunda-feira, 14h00min.

No final da sua graduação de direito, Charlie mal conseguia conter a ansiedade de pensar que logo poderia praticar o que aprendeu na vida real. Quando veio a formatura e toda sua turma jogou suas becas para o alto, ele sabia que daquele dia em diante seria tudo diferente e mais emocionante.

– Ela me perguntou se eu não estava levando o número errado e não devia optar por um maior. Foi HUMILHANTE!

– Eu só estava querendo ajudar, assim você não teria que gastar tempo voltando para trocar a peça!

Se “emocionante” queria dizer uma mistura de vários sentimentos, então Charlie estava sim tendo uma aventura “emocionante”.

Pensou no quanto repentinamente sentia falta das simulações e falsos casos da faculdade enquanto massageava a têmpora de forma discreta. Acusar um supermercado por colocar o tapete no lugar errado, ocasionando vários tropeços dos clientes, era como deitar numa rede na praia no final da tarde e escutar o doce canto dos passarinhos perto daquilo por que estava passando naquele momento.

Em sua cabeça, Charlie já tinha aberto um buraco no meio da testa com um canhão. No exterior, porém, tinha que manter uma postura educada e profissional – embora até o advogado de acusação e seu próprio chefe estivessem vez ou outra soltando bufadas.

Não tivera sorte dessa vez. Seu chefe o encurralara quando o pegou de surpresa e lhe pediu o favor de representar a filha de um amigo que era “parte da família”, que estava sendo acusada de assediar e humilhar moralmente uma cliente na loja que trabalhava, a Forever 21. Adoraria ter tido uma boa desculpa, mas “estou passando por um momento difícil na minha relação com a minha namorada”, pelo visto, não era o suficiente.

Como se seu chefe, o Sr. Dummer, não soubesse de suas encrencas com Jackie.

– Eu quero que ela seja demitida! — exigiu a tal mulher da acusação.

– Espera, eu tenho certeza que… — Charlie ia tentar negociar, mas sua cliente, Mellanie, não deu treta ao argumento da mulher.

– O problema não é meu se você não age e nem compra de acordo com o tamanho do seu corpo!

E lá se vai a possibilidade de um acordo, bem pela descarga de uma privada.

Aquela teoria de que o que não nos mata nos faz mais fortes? Mentira horrorosa. Charlie estava aguentando essa discussão por mais de trinta minutos e nem sequer ganhara um músculo nem nenhuma força psicológica. Teria se transformado no primeiro Capitão América do direito civil se isso fosse verdade.

Então só fechou os olhos e juntou as mãos, respirando profundamente várias vezes seguidas para relaxar. Se não podia combater por ora, ele é que não ia se estressar. E, como o efeito dominó é efetivo (pra não chamar de “Maria vai com as outras”), o Sr. Dummer fez o mesmo.

– Um reparo de dois mil dólares e uma desculpa pública da Srta. Carter já vai nos ser o suficiente. — disse Sr. Hughes, o advogado da acusadora

Pobre homem, ainda tentava lutar por alguma glória.

– Nem pensar. Eu quero que ela seja demitida. Vai que ela continue fazendo isso com outras clientes?

– Querida, por que você não enfia essa-

– Wow, wow, wow. Olha a linguagem. — Charlie pulou da cadeira para tapar a boca de Mellanie com a mão antes que ela desse continuidade à sua ofensa. — Eu acho o acordo do Sr. Hughes bem justo e gostaria de conversar com a minha cliente sobre isso.

– Nem precisa. — ela afastou a mão dele da sua boca, revelando uma careta ofendida. — A resposta é não.

– Mellanie, pensa bem… — disse o Sr. Dummer. Ela ainda negava com a cabeça. — É um bom acordo.

– Não, não é. Cadê a liberdade de expressão que esse país tanto prega?

Charlie coçou o nariz, relutando a vontade de obrigá-la a aceitar o acordo. Estavam no mesmo caso há mais de uma semana! E nem era tão difícil assim de ser solucionado, se não fosse pela teimosia de ambas as partes.

Por compaixão do destino, o celular de Charlie começou a tocar. Ele se sentiu tão alegre por ter uma desculpa decente para sair do meio daquele inferno que sequer viu de quem era a ligação. Só pediu licença e correu para fora da sala o mais rápido possível.

– Alô? — atendeu com tanto alívio e felicidade que a pessoa do outro lado respondeu com cautela.

– Charlie! Você parece… Muito satisfeito.– era Ashton.

– Você não faz ideia do que você me livrou. — suspirou.

– Certo…– Ashton deixou no ar. Era melhor nem perguntar. — Escuta, eu tenho uma dúvida sobre o seguro.

– Diga.

– Ele cobre incêndios?

O até então alívio de Charlie se tornou tensão. Seus músculos se contraíram e seus olhos fecharam quase por inteiro. O que raios teria acontecido dessa vez?

– Depende. Por que a pergunta?

– Digamos que eu não ajustei a temperatura certa do forno enquanto cozinhava uma coisa e a tudo entrou meio que em combustão.

Não estava surpreso, de verdade. Charlie perdera a conta de quantas vezes recebera uma ligação daquela no meio do seu trabalho, fosse de Ashton, fosse de Jackie ou Hilary. Era tão comum que se existisse uma vacina para isso, ele já estava imune.

– Me dê boas notícias ou a Hilary vai me estrangular e me pendurar na Estátua da Liberdade. – Ashton choramingou.

– Cara, como você faz uma coisa dessas…

– É que eu estava conversando com a Atena e acabei me esquecendo de colocar na temperatura certa.

– E quem é Atena?

– É uma aluna da Hilary. Longa história. – disse, rapidamente. — Mas, escuta, você acha que o seguro vai cobrir o incêndio?

– Depende do que, de como e do quanto você queimou. — Charlie não se sentiu muito seguro com o suspiro do amigo. — Ashton, você queimou o apartamento INTEIRO?

– Não! É claro que não!– o garoto saiu na defensiva. — Só queimou uma parte da parede e todo o fogão.

– Você fala “só” como se fosse normal. — Charlie apertou a ponte do nariz. — Apesar de que, no seu caso, é bem normal mesmo.

Ashton não respondeu de imediato. Charlie percebeu que o garoto afastou o celular enquanto agradecia quem supôs ser uma garçonete, ouvindo também a voz dela e outra bem mais fina. Não demorou muito para o amigo voltar a falar com ele.

– Era a comida. – esclareceu Ashton. — Então, sobre o fogo… Você acha que dá pra resolver com o seguro?

– Talvez a parede, no máximo, Ash. O fogão é problema todo seu.

– Droga. – ele resmungou. — Ah, cara. A Hilary vai mesmo me matar.

– Melhor conseguir aquele emprego na loja da Apple, então. — disse Charlie, olhando para a sala de conferência. Seu chefe lhe fazia um sinal para voltar. — Olha, quando eu chegar em casa, a gente tenta resolver isso.

– Mas a Hilary vai vir buscar a Atena. – Ashton choramingou ainda mais.

– Nesse caso, então, eu te desejo uma boa sorte. — disse antes de desligar.

Ele suspirou, guardando o celular no bolso. Era hora de voltar pro ringue de luta.

.+*+.

Galeria “The Wild Horses of Sable Island” — SoHo, Manhattan.

Segunda-feira, 13h10min.

“Localizada a mais de cem milhas da costa da Nova Escócia, no Canadá, a Ilha de Sable é o hábitat de mais de 400 cavalos selvagens, sobreviventes desse ambiente inóspito e imperdoável que não oferece sequer uma árvore de abrigo e proporciona apenas ervas marinhas e lagoas de água da chuva para o sustento desse animais. O fotógrafo Roberto Dutesco trouxe, por meio da arte, a sua experiência com os cavalos a fim de mostrar ao mundo a verdadeira selvageria em seu estado primário.”

Galeria? Bem cuidada. Fotografias? Muito bem trabalhadas. Funcionários? Receptivos e educados. História por trás do projeto? Entediante. E era exatamente assim que Jackie estava se sentindo naquele momento: entediada.

Fora por vontade própria, é claro. A sua chefe nunca a obrigava ir a lugares que não lhe chamassem atenção – exceto quando a oportunidade era impossível de recusar. Afinal de contas, Jackie tinha que escrever sobre algo que realmente achasse interessante, sendo que assim conseguiria redigir uma boa coluna e, portanto, atingiria um novo público e ao mesmo tempo manteria o antigo.

Mas aquela galeria não era o suficiente para Jackie. Não cativara sua essência artística, não a encantara a ponto de sentir vontade de recomendá-la em sua coluna. Seus pés estavam formigando de vontade de sair dali e partir para o próximo estúdio. Sua ansiedade estava a mil por hora.

No entanto, uma das coordenadoras estava bem ao seu lado, assistindo ao (não-tão-curto) curta sobre a história das fotos. E não podia ir embora no meio do vídeo quando a mulher devia estar lá contra sua vontade, já que provavelmente sabia o relato até de ponta cabeça. Tinha que, então, forjar interesse: fingiu estar escrevendo algo no seu caderno, fingiu estar impressionada, fingiu não estar de saco cheio. Foram longos setenta segundos de fingimento para o vídeo finalmente acabar.

– Essa é a história do Sr. Dutesco e da galeria. — disse a coordenadora educadamente ao que elas andavam pelo lugar. — O que achou?

– Diferente. — Jackie conteve-se, agora parada e de frente à mulher. Não era uma boa mentirosa. — Eu preciso de um tempo para examinar outras galerias também, mas eu agradeço o tempo e a oportunidade.

– Foi um prazer, Srta. Dunn. Obrigada por vir. — elas apertaram as mãos. — Espero que volte logo.

– Assim que puder.

Então estava livre. Jackie só não cantou como a Branca de Neve junto com os animais porque logo recebeu uma chamada de Hilary.

– Se você comprar a blusa, eu te prometo que vai ser a última coisa que você vai ver nessa vida.

Direta, rápida e ameaçadora. Esse foi o núcleo da primeira frase de Hilary.

– Oi pra você também. — respondeu Jackie ironicamente. — Devia ter me ligado mais cedo se quisesse me impedir de comprar a blusa.

– VOCÊ COMPROU?! — Hilary berrou, fazendo Jackie afastar o celular do ouvido. — Jackie, eu juro por Deus que…

– Relaxa, eu não comprei nada! — a amiga soltou um suspiro de alívio. — Jesus, Hil, você tá precisando fazer yoga, não acha?

– Ah, vá se ferrar. Você é que precisa conter esse seu consumismo maluco aí.

– Mas eu nem comprei!

– Mas pensou em comprar.

– É, você tem razão. — Jackie deu de ombros, quase esbarrando em um homem que andava no sentido oposto ao seu. — Você só ligou pra me dar bronca?

– Claro que não. Não sou sua mãe pra ligar, te dar bronca e desligar. — ela podia afirmar com toda certeza do mundo que Hilary revirou os olhos enquanto falava. — Escute, eu deixei a Atena, uma das minhas alunas, com o Ashton no meu apartamento, aí quando eu sair daqui vou direto para lá e fazer um jantar pra eles. Quer ir?

– Espera. Por que uma das suas alunas tá com o Ashton? E no seu apartamento?

– Longa história. – Hilary suspirou. — Eu te conto depois. Quer ir ou não? Tenho que dar aula daqui a cinco minutos, Jackie.

– Ah! Que apressada! — disse Jackie. — Quero sim.

– Ótimo, eu te busco no metrô na 68 St. Te vejo lá.

– Até mais. Boa aula. — desligou.

Jackie continuou a andar. O jantar já estava garantido, pelo menos. Agora tinha que se concentrar na próxima galeria: o Museu de Arte Gay e Lésbica Leslie-Lohman. Só esperava que não fosse tão entediante quanto o dos cavalos selvagens.

.+*+.

Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Hilary e Ashton.

Segunda-feira, 17h45min.

Charlie estava mentalmente exausto.

Após a ligação de Ashton, tivera que aguentar mais quase duas horas de intensa discussão entre Mellanie e a acusadora. E não eram gritos normais, não; eram gritos estridentes que faziam seus ouvidos doerem. Além disso, também enfrentara o terror do metrô lotado das cinco horas: joelhadas, cheiro de axilas que há muito não conhecem o desodorante e bufadas na cara foram algumas das coisas que recebera de presente dentro do vagão; tinha certeza de que também, em certo ponto, havia tocado sem querer os peitos da mulher ao seu lado e pior, a bunda de algum cara.

Mas isso era apenas o metrô de todos os dias, então não tinha muito o que fazer de toda forma.

Enquanto andava da estação até a rua do apartamento de Ashton, pensou no que queria fazer quando chegasse: iria tomar um longo banho, vestir a roupa mais confortável que tinha, comer qualquer coisa que estivesse disponível na geladeira e assistir The Good Wife no Netflix até cair no sono.

– E como é que a gente vai pagar isso?!– ele ouviu, antes de abrir a porta do apartamento, a voz de Hilary consideravelmente baixa, mas em um tom extremamente irritado. Em seguida, veio a voz de Ashton:

– Bem, eu… É… Não sei.

Foi então que Charlie se lembrou da conversa com Ashton pelo celular e de como ele havia queimado parte da cozinha.

Suspirou. E só quando achava que ia poder descansar em paz depois de um longo e estressante dia…

– Charlie! — exclamou Ashton ao vê-lo, os braços esticados e um sorriso de ponta a ponta no rosto. Não dava pra explicar o tamanho alívio que ele estava sentindo naquele momento. — Que bom que você chegou! Como foi hoje? Tudo bem?

– Perturbador. — disse Charlie simplesmente enquanto cumprimentava tanto Hilary quanto Ashton. — Por que está aqui? Bem, tirando o fato que esse é seu apartamento.

– Eu só presumo que você saiba o que o Ashton fez na cozinha. — respondeu Hilary, seus braços cruzados. — Se você não sabe, é só olhar para o fogão.

Os três viraram para onde era pra estar um fogão normal. Ao invés disso, estava tudo preto e era difícil diferenciar o que era cada peça ali. Por outro lado, a parede não estava tão ruim; Ashton provavelmente devia ter tentado limpar uma coisa ou outra.

O seguro com certeza não iria cobrir aquilo.

– Ah, cara… — Charlie suspirou baixinho.

– Pois é, eu vim aqui para fazer um jantar e levar a Atena para casa, mas aí eu dou de cara com uma coisa dessas.

– É verdade, sua aluna! — exclamou ele. — Cadê ela, aliás?

– No escritório com a Jackie. — Hilary bufou. — Eu mandei a Jackie ficar com ela enquanto eu conversava com o Ash. Mas aí ela decidiu que era melhor se enfiar no escritório porque nós íamos “gritar e assustar a pobre garotinha”.

– Ela tem um pouco de razão nisso. — Charlie pigarreou, fazendo com que a amiga o lançasse um olhar mortal e ele se arrependesse do comentário. — Certo, desculpa. O que vamos comer então?

– Eu estava pensando em comida chinesa. — disse ela enquanto folheava o panfleto de um restaurante chinês. — Mas eu não sei se a Atena gosta.

– Eu vou chamar elas. — Ashton rapidamente se ofereceu.

Tão rápido quanto se ofereceu, ele saiu da cozinha. Charlie quase riu, embora não o julgasse; teria feito o mesmo se estivesse em seu lugar. Hilary estava literalmente soltando fumaça pelos ouvidos e narinas. Pensou em também cair fora, mas a garota acabou quebrando o silêncio antes.

– Charlie, o que eu faço? — ela suspirou. — Se eu comprar um fogão novo, eu não pago as contas. Se eu não comprar um fogão novo, o que raios nós vamos comer?

– Eu sei, Hil. — Charlie bagunçou o cabelo e fechou os olhos por um tempo; estava cansado. — Mas não perca os cabelos por causa disso. Ashton tem um entrevista de emprego nessa semana e se tudo der certo, vocês vão ter dinheiro pra resolver as coisas.

– Ele tem? — ela arregalou os olhos. — Ele não me disse isso.

– Talvez seja porque se ele dissesse, você ia pressioná-lo pra conseguir o trabalho e nós dois sabemos muito bem como é um Ashton sob pressão.

Hilary não respondeu e nem precisou: logo Ashton estava de volta à cozinha com Jackie e Atena, que estavam com as caras maquiadas e rindo.

– Atena, esse é Charlie, meu namorado. — disse Jackie após cumprimentá-lo. Atena apertou a mão do moreno.

– Oi, Atena. Você está muito elegante com essa maquiagem, sabia? — ele agachou-se para ficar do tamanho da pequena. Os outros três sorriram diante do sorriso dela; Charlie era bom com as crianças. — Foi a tia Jackie que te maquiou?

– Sim, e eu maquiei o rosto dela. — respondeu ela, apontando para Jackie. — Ela disse que nós tínhamos que ficar bonitas para nós mesmas.

– Ah, está certo. — Charlie sorriu.

– Atena, querida, você gosta de comida chinesa? — indagou Hilary. Ela confirmou com a cabeça. — Certo, eu vou pedir e daqui a pouco ela chega, está bem?

– Enquanto isso nós podemos brincar no XBox, que tal? — sugeriu Ashton animado. A pequena balançou a cabeça mais uma vez.

Atena estava com um humor diferente de antes, o que o aliviava. Talvez fosse a presença de Hilary que a deixava mais tranquila ou quem sabe a animação de Jackie tivesse surtido um efeito. De qualquer maneira, não importava desde que ela continuasse sendo uma criança e não perguntando coisas que o deixava desajeitado e sem saber o que responder.

– Vamos dançar no Just Dance! – exclamou Jackie ao que eles iam em direção à sala. Hilary ficou na cozinha para fazer o pedido. — Mas em duplas porque eu não to afim de levar um soco no nariz igual da última vez.

– Ei! Você que foi pro lado errado. — Ashton resmungou alto.

– O passo nem sequer envolvia os braços, Harris! — ela rebateu. Charlie e Atena só riam. — Que seja, só liga o videogame logo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.