Couples' Therapy

4 Capítulo 4 — "Welcome to New York, it's been waiting for you!"


Upper East Side, Manhattan — Starbucks.

Sexta-feira, 18h15min.

– Sabe que você até que tinha razão, Jackie?

– Eu sempre tenho razão. — disse Jackie, mal prestando atenção no que lhe diziam. — Esse Frappuccino de Algodão Doce parece sensacional…

Tipicamente, Hilary revirou os olhos com a resposta. Estava tão acostumada com o jeito de Jackie que nem sequer pensou em argumentar; seus olhos apenas automaticamente rolavam de um lado para o outro como se estivessem programados. Era tão natural quanto os raios de sol num dia de verão.

– O que eu quis dizer é que a sessão não foi tão complicada quanto eu achei que iria ser. Foi legal relembrar algumas histórias antigas.

Jackie balbuciou algo incompreensível, concentrada demais nas variadas opções do cardápio. Tinham sabores demais para tomar uma decisão rápida e simples!

– Acho que vou ficar com o Smoothie de cenoura e manga mesmo. Ou será que eu pego o de morango? — ela cutucava o lábio inferior com o dedo, às vezes puxando-o enquanto divagava. — Hmm, comidas… Pão de banana e nozes. Ou será que eu peço algo salgado? Hilary!

Hilary suspirou. Jackie e Starbucks não era nenhum tipo de combinação que se encaixava em “um café rápido para aliviar o estresse do trabalho” – argumento usado por Charlie para convencê-las a não ir embora. A morena não só levava pelo menos quinze minutos para fazer sua escolha como também pedia opinião de várias pessoas (isso incluia os outros clientes na fila), enchendo suas paciências até o limite para apenas pedir sua primeira opção no final das contas.

E naquele dia não iria ser diferente.

– Você acha que eu devo pedir um bagel ou será que eu vou estufar demais meu estômago e não vou conseguir jantar? Hilary, o que você vai fazer para a janta? Será que eu peço mesmo um smoothie?

– O que te faz pensar que eu vou fazer a janta? — Hilary arregalou os olhos, surpresa com a pergunta.

– Porque você é a melhor cozinheira de nós duas, quer uma explicação melhor do que essa? — Jackie levantou uma das sobrancelhas como se a amiga estivesse falando nonsense. – Acho que só uma bebida está bom. Você lembra qual era o pedido do Charlie? Eu esqueci.

Pela sabe-se-lá-qual-vez no dia, Hilary respirou fundo. É claro que Jackie tinha se esquecido do pedido; agora teria que voltar para a mesa onde os garotos estavam sentados, anotar o pedido de Charlie – e o de Ashton, pelo caso de ela acabar se esquecendo desse também –, voltar para a fila e ser xingada de “fura fila” mais uma vez. E, como complemento, teria que cozinhar algo para o jantar.

Poderia seu dia ficar mais emocionante do que isso?

[...]

– Aqui está. — disse Hilary, entregando os respectivos pedidos de Ashton e Charlie. Ou algo por aí.

– Jackie! Eu pedi um chá gelado de pêssego e chá verde, por que você me entregou um smoothie de… — Charlie experimentou um pouco da bebida. — Manga e cenoura?! — exclamou ele.

– Eu degustei um pouco do seu pedido e acabei querendo ficar com ele em vez do meu. — ela deu de ombros.

Charlie reprimiu um resmungo. Surpreendemente, aquela não era a primeira vez que Jackie fizera isso e nem seria a última. Melhor ficar com alguma bebida do que tentar trocar e esperar mais vinte minutos na fila.

– Então… O que vocês acharam da consulta? — indagou Ashton, bebericando um pouco de seu chá gelado.

– Poderia ter sido pior. Na verdade, foi bem melhor do que eu imaginava. — disse Hilary.

– E a Dra. Martin era bem simpática e tolerante. — adicionou Charlie. — Sem falar que ela foi insana o suficiente para nos aceitar de volta na semana que vem.

– Viu? Eu disse que não iria ser ruim. — Jackie gabou-se de si e Ashton protestou. — Tá, Ashton também ajudou, mas fui eu que consegui uma consulta logo no dia seguinte.

– Isso não é ser genial. Isso é ser maluca.

– Você também não é um gênio, Harris. — Charlie levantou as duas sobrancelhas, fazendo tanto Ashton quanto Jackie soltarem uma risada alta e sarcástica. — Será que na próxima consulta ela vai pedir para nós contarmos mais histórias?

– Provavelmente, já que ela precisa saber mais sobre nós para poder nos ajudar. — Hilary brincava com o canudo enquanto falava. — Ou será que o propósito é só nos fazer falar para tentar nos lembrar do motivo real de nós estarmos juntos?

Os outros três a observaram com suas bocas semiabertas e uma expressão indecifrável.

– O que foi?

– Nada. Só foi uma reflexão bem profunda mesmo. — disse Jackie, voltando a tomar sua bebida. Ashton chacoalhou a cabeça e Charlie fez um sinal de positivo com o dedo. — Eu adoro as histórias de como nós nos conhecemos, elas são diferentes.

– Pois é, ninguém imaginaria que as duas garotas da liquidação depois se encontrariam na festa surpresa de uma delas, o que causaria ainda mais discussão, e acabariam se tornando melhores amigas. — disse Ashton.

– Ou que o cara que levou dois foras no mesmo dia acabaria namorando uma delas. — Hilary levantou uma das sobrancelhas.

– Diga o que quiser, você acabou aceitando no final das contas. — Ashton piscou um de seus olhos, sorvendo mais um pouco de sua bebida. Jackie e Charlie cobriram a boca para não deixarem uma risada escapar.

Hilary semicerrou os olhos e cruzou os braços com uma expressão incrédula. Ela então virou o rosto para o lado, balançando a cabeça de um lado para o outro de forma discreta; não tinha o que argumentar.

Jackie aproveitou a deixa e sugou o resto de seu chá, logo em seguida levantando-se e pegando suas coisas.

– Ah, olha a hora. — disse ela enquanto checava o horário no relógio de pulso de Charlie. — Eu ainda preciso chegar em casa, escrever uma resenha e terminar a segunda temporada de Orange Is The New Black e a Hilary tem que fazer algo para o jantar, então…

– Você anda assistindo OITNB sem mim?! — exclamou Ashton ofendido.

– Como se eu não soubesse que você também assiste sem mim e já está na metade da terceira temporada, seu traíra. — Jackie se enclinou sobre a mesa e apontou o dedo na cara do loiro; este, por sua vez, sorriu amarelo.

– É, foi bom enquanto durou. — suspirou, jogando os braços para o ar. Charlie pegou o pulso de Hilary enquanto ela se levantava.

– Rola uma carona?

.+*+.

Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Hilary e Ashton.

Sexta-feira, 22h50min.

– Cara, você sabe o quão chato é ter que ficar abrindo essa coisa toda vez? — Charlie suspirou exausto diante do sofá-cama fechado e arrumado.

– É isso ou o sofá da sala. — Ashton girou a cadeira na direção do moreno. — Mas também tem o chão e uma caminha de cachorro abandonada no beco do lado. A escolha é toda sua.

– Ha-ha. Você é muito engraçado, Harris. — disse o outro ironicamente, já começando a jogar as almofadas para o lado a fim de abrir a cama. — O que eu quero dizer é que você não precisa fechar a cama de manhã sendo que quando eu chegar, vou ter que abrir do mesmo jeito.

– Preguiça mata, hein?

– Calado. — revirou os olhos e Ashton riu.

Uma vez que o sofá-cama estava aberto, Charlie arrumou o lençol, os cobertores e o travesseiro para logo em seguida se jogar em cima do colchão e se espreguiçar. Ashton voltara a se concentrar na tela do computador.

– Sabe do que você precisa? — disse ele, refletindo enquanto encarava o teto. Não esperou a concessão do amigo para continuar. — De um emprego.

– Na verdade é uma ótima hora para falarmos sobre isso. — Ashton virou-se para Charlie novamente, mas dessa vez com um sorriso de ponta a ponta. — Eu enviei meu currículo para alguns lugares e eu consegui uma entrevista para quarta-feira!

Charlie quis explicar para Ashton que uma entrevista não significava uma vaga garantida, mas o garoto estava tão empolgado que ele não quis dizer nada além de um “Parabéns” e dar um abraço de urso.

Ainda que fosse só uma entrevista, pelo menos era algo. E pela tamanha animação, ele tinha quase certeza de que Ashton amaria trabalhar na…

– Apple Store! — respondeu ele quando Charlie lhe perguntou o nome do lugar. A sobrancelha do moreno levantou quase que instantaneamente. — Eu sei que eu não sei muita coisa sobre aparelhos da Apple, mas é uma boa oportunidade, não é?

– Ash, você não sabe nada sobre aparelhos da Apple. Como você espera conseguir convencer alguém a comprar aparelhos da Apple?

– Eu aprendo, ué. — ele deu de ombros, mas Charlie ainda não parecia convencido. — Olha, eu não sou idiota. Posso aprender a mexer nas configurações e saber mais sobre o sistema do iPhone.

– Não é só o iPhone, Ash. Tem iPad, iPod, Macbook, Apple Watch, sem contar os programas da Apple. O iTunes, o iCloud, iMessage, FaceTime, Apple Music… Você vai ter que aprender tudo isso.

Só a lista fez Ashton soltar um longo suspiro. Teria que entender tudo aquilo para ser um bom vendedor, mas tudo o que sabia era que o iTunes era um bom modo de arrumar suas músicas.

Mas era a primeira oportunidade que lhe aparecia em meses e era a que mais lhe deixava animado. E daí que ele quase não conhecia os dispositivos e programas da Apple? Hilary conhecia. Ela poderia ajudá-lo. Era uma chance boa demais para disperdiçá-la e sabia que Charlie tinha consciência disso.

Tanto que esse não demorou a mudar sua perspectiva.

– Olha, cara, se você quer mesmo, então tente. Talvez você seja melhor do que imagina. — ele deu alguns tapinhas no ombro de Ashton com um sorriso de canto. — Agora me deixa dormir, pelo amor de Deus.

– Ainda são onze horas da noite, Cooper. — Ashton franziu o cenho vendo o amigo se enfiar debaixo do edredom para se proteger contra a luz no seu rosto.

– Estou cansado do trabalho e a gente vai acordar cedo amanhã, então…

– Espera. A gente vai acordar cedo amanhã?!

– Sim. Nós vamos caminhar no Central Park. — disse Charlie em um tom óbvio.

– Não, nós não vamos. — Ashton corrigiu-o. — Você vai.

O moreno bocejou e virou para o outro lado.

– Até amanhã de manhã, Harris. Te vejo às exatamente oito e meia da manhã quando eu jogar um balde de água gelada para acordá-lo.

– Você não tem coragem. — afirmou Ashton ao apagar a luz. Conseguiu ouvir uma risada baixa do garoto antes de fechar a porta. — Boa noite, Charlie.

.+*+.

Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Hilary e Ashton.

Sábado, 8h30min.

– BOM DIA, ASHTON!

Ashton soltou um grunhido alto e socou o ar várias vezes numa tentativa inútil de atingir Charlie. Para sua tristeza, Cooper era uma pessoa que cumpria suas promessas. E agora seu rosto e travesseiro estavam encharcados.

– FILHO DA PUTA! — ele gritou tão alto que os vizinhos de cima baterem no chão/teto, exigindo que a gritaria parasse. — É melhor você correr mesmo porque se eu te pegar, eu te mato.

Entretanto Charlie só riu da ameaça; Ashton nem sequer abrira os olhos, quem dirá sair da cama para correr por aí. Ele ainda rolava de um lado para o outro, resmungando coisas incompreensíveis. Não iria levantar pelos próximos quinze minutos.

Exceto pelo fato de que, por mais impossível que parecesse, Ashton se levantou. E ele não tinha nenhum sinal de felicidade em sua cara.

– Olha, Ash, vamos sentar e conversar sobre... — disse Charlie com os olhos arregalados e suas mãos estavam em posição de ao mesmo tempo rendição e defesa. Vendo, porém, que o amigo não estava comprando sua sugestão, ele começou a correr.

No geral, Charlie era um bom corredor e corria rápido. Mas quando a pessoa que está te perseguindo tem as pernas mais compridas que as suas e o espaço disponível não é exatamente uma pista de cooper, você não tem muita escolha além de desistir.

– Me dê um bom motivo para não te jogar pela janela nesse exato momento. — ameaçou Ashton, segurando Charlie pela gola da camiseta.

– Eu lavo a louça por duas semanas. — sugeriu Charlie.

– Sem luvas.

– Sem luvas. — garantiu. Ashton levou um tempo para considerar a ideia e logo a aceitou, soltando-o.

Charlie ajeitou sua camiseta, rindo baixo. Era fácil negociar com Ashton e mesmo que não fizesse uma oferta, o garoto não iria machucá-lo nunca. Era necessário muito mais do que um copo cheio de água gelada para tirá-lo do sério.

– Coma logo uma maçã e se troque. Depois a gente passa em alguma padaria e come decente para o café da manhã.

– Você me acorda com água gelada na minha cara e ainda espera que eu vá correr com você? — Ashton levantou as duas sobrancelhas. — Ficou maluco, é?

– Eu pensei que já que você está acordado a essa hora da manhã, não custa nada levantar sua bunda gorda do sofá e ir correr com seu melhor amigo.

– Mas foi você que-

– Quanto mais você argumentar, mais tempo a gente vai levar para chegar ao parque e portanto, menores as chances de nós chegarmos a tempo para Criminal Minds. – Charlie o interrompeu. — E você sabe muito bem que eu nunca perco uma discussão contra você.

Ashton observou o amigo com aquela famosa expressão “você sabe que eu estou certo” e concluiu que ele realmente estava certo. Só lhe restou dar um longo e alto suspiro antes de se levantar do sofá.

– Mas você vai me pagar um bagel e um café para mim. — disse ele, apontando o dedo na cara de Charlie antes de ir em direção ao banheiro.

.+*+.

Upper West Side, Manhattan — Apartamento de Jackie e Charlie.

Sábado, 8h45min.

– HILARY! LEVANTA ESSA BUNDA GORDA E VAMOS NOS EXERCITAR!

Quem em sã consciência acordava antes das dez horas da manhã em um sábado sem compromissos?

Jackie. Jackie acordava antes das dez horas e aparentemente não se sentia feliz até ter acordado todos os outros.

Por isso lá estava ela pulando em cima da cama de Hilary, gritando e atirando vez ou outra roupas em seu rosto.

E isso era só o começo do dia.

– VAAAAMOS, VOCÊ PRECISA ACORDAR! EU NÃO QUERO IR SOZINHA!

As insistências continuaram por alguns bons quinze minutos, não que realmente fosse uma surpresa — seria uma se Jackie tivesse desistido. Hilary a ignorava, fingindo não se sentir nem um pouco incomodada tanto com a gritaria de Jackie quanto a do vizinho de baixo, o Sr. Vega, que xingava em espanhol e esmurrava seu teto com uma vassoura; conseguia lidar com aquilo. Na última vez que dormira lá, acordara com guacamole da noite passada e um par de rodelas de pepinos sobre os olhos. Alguns gritos e pulos não eram nada perto daquilo.

Não iria desistir e deixar se levar pela vontade de socar a cara de Jackie; era isso que a garota queria. E ela não iria se deixar por vencida.

Mas teimosia demais resultava em desastres. E o delas não demorou a calhar.

De repente, elas perceberam que o barulho incessante das molas rangindo já não estava mais lá. Foi então que num piscar de olhos, sem que estivessem preparadas, o sofá-cama cedeu e as duas foram direto para o chão: Hilary deslizou pelo colchão e Jackie foi junto, em cima dela.

– Veja pelo lado bom… — Jackie sorriu amarelo. — Agora você vai ter um motivo para sair da cama hoje!

Hilary nem sequer discutiu. Apenas jogou a cabeça para trás e suspirou alto.

.+*+.

Central Park.

Sábado, 9h35min.

Aparentemente, muitas pessoas além de Jackie acordavam cedo em um sábado para caminhar no parque. E com “muitas”, Hilary queria dizer “centenas”.

– Com licença. — pediu a provável nona pessoa de quem Hilary estava na frente. — Obrigado. — agradeceu assim que a garota desviou para o lado.

Hilary segurou um resmungo. Já era ruim o suficiente sentir como se suas pernas fossem duas grandes maria-moles e seus pulmões estivessem em chamas, ainda tinha que aguentar as pessoas – mais atléticas, vale mencionar – reclamando de sua lerdeza, fazendo com que ela mudasse de lado a cada dois minutos.

Como se não fosse o bastante ter que andar apenas em linha reta!

– Hilary, você tem pulmões ou sacolas de plástico no lugar deles? — disse Jackie, freiando seus passos para ficar ao lado da loira.

– Ah, vá se ferrar. — ela reclamou entre as bufadas de ar que soltava. — Há quanto tempo estamos correndo?

– Quinze minutos.

– Quinze minutos?! – exclamou, indignada. Jackie soltou uma risadinha. — Não pode ser só isso, eu to quase vomitando meus órgãos!

– Ninguém mandou não ser saudável. — Jackie deu de ombros.

– Você engoliu um saco de batatas chips ontem e quer me dar uma lição sobre saúde?

– Eu quis dizer fazer exercício, está bem? — a voz dela alterou, tornando-se mais fina. Foi a vez de Hilary rir; ou soltar algo próximo de uma risada. — E eu estava na seca de batatas chips durante três meses, ok?!

Em vez de argumentar sobre a montanha de besteiras que Jackie comeu a duas noites atrás, a garota limitou-se a balançar a cabeça rindo baixo. A morena não era a pessoa saudável exemplar, mas quem era Hilary para falar algo?

Tentou então se concentrar na vista ao seu redor em vez das dores latejantes no seu corpo. O Central Park era esplêndido; tudo era tão verde e tão aconchegante. Ao contrário da cidade, a vista do parque era tranquilizadora. Os cachorros balançavam os rabos, as pessoas sorriam alegres. As crianças corriam de um lado para o outro, jogando bola, empinando pipa, brincando de pega-pega. Sem barulhos de carros, músicas altas provindas das lojas, pessoas conversando alto ou gritando por táxis; apenas risadas altas e gritarias contentes. Parecia que tinha ido parar em outro estado, outra realidade.

Já não sentia mais a mesma dor conforme deixava se levar pela calma e harmonia dos ares do parque. Tentava também regular sua respiração: dentro, fora. Inspira, expira. Talvez um pouco de ar fresco a ajudasse se livrar da queimação de seus pulmões.

Abrir os olhos e controlar aonde estava indo também era uma boa opção.

– HILARY! — ouviu o berro de Jackie, o que a alarmou e a fez virar para trás. Péssima escolha. — HILARY, OLHA PRA FRENTE!

BAM!

– Deus do céu! Tudo bem com você?! — indagou uma voz masculina desconhecida. Hilary ainda estava um pouco inconsciente, portanto soltou alguns sons incompreensíveis como resposta. Sua visão estava turva, dificultando o reconhecimento do dono da voz.

Apesar disso, não teve nenhum problema em reconhecer a outra voz.

– VOCÊ É MALUCA, HILARY! — gritava Jackie, apenas querendo fazer cena. Provavelmente tentava esconder uma gargalhada alta do tamanho mico da amiga.

Mas a Hilary a ignorou, tateando o seu entorno em busca do chão para poder se apoiar e levantar, já que a amiga estava ocupada demais com sua atuação. O que encontrou, porém, não a deixou nem um pouco aliviada.

Podia ter batido em uma árvore, em uma lata de lixo, em um poste ou até mesmo em uma pomba. Seria menos embaraçoso do que ter colidido com uma pessoa de verdade.

– Hilary, né? — perguntou o homem sobre quem estava em cima. Ela assentiu. — Eu entendo que sou mais confortável do que o chão, mas você está meio que dificultando a entrada de ar…

– Ah, certo, desculpa. — ela apressou-se em sair de cima do homem. Teria caído se Jackie não tivesse a ajudado. — Obrigada, Jackie. Acho que minha cabeça ainda está rodando.

– O que deu em você pra desviar da pista?

– Eu fiz o quê?! — ela arregalou os olhos.

Antes que Jackie respondesse, os dois homens surgiram. O primeiro – o que fora atingido por Hilary – ainda retirava restos de grama de sua roupa, enquanto o segundo se dirigia para as duas:

– Você está bem? — disse ele, preocupado. — Desculpe-nos, você parecia um pouco distraída. Deveríamos ter notado.

O rosto de Hilary tomou uma tonalidade mais rosa. Além de cair em cima de uma pessoa por pura distração, ainda estava ouvindo desculpas de quem não tinha absolutamente culpa nenhuma. Era muito mais do que vergonha; era querer cavar um buraco até o centro da Terra e mergulhar no magma.

– Não, que isso. A culpa foi minha. — disse ela, coçando a nuca. — Seu amigo está bem?

– Estou sim. — o outro, moreno, sorriu. Apertou a mão de Hilary e depois a de Jackie. — Sou o Matt e esse é o Julian.

– Jackie. E como vocês devem ter descoberto, essa é a Hilary.

– Desculpa por ter te atropelado, Matt. — Hilary apressou-se em explicar. — Eu juro pra você que não foi de propósito.

– Bem, se tivesse sido de propósito, eu teria que ficar com ciúmes. — brincou Julian e os dois riram. A expressão de dúvida no rosto das duas garotas o fez continuar. — Matt é meu noivo.

Ambas Jackie e Hilary soltaram um “ah” em uníssono. Só então perceberam os anéis idênticos nos dedos dos dois.

– Não tem problema, Hilary. Ainda melhor cair em cima de mim do que no chão. — comentou Matt, sorrindo. As duas seguraram um suspiro.

Matt tinha a aparência de um modelo da Calvin Klein; era relativamente alto, estava em boa forma, tinha os cabelos pretos e os olhos azuis. Com certeza um sorriso vencedor do Oscar. Mas seu parceiro, Julian, também não ficava para trás. Esse era apenas um pouco mais baixo do que Matt; seus cabelos eram castanho claro, quase loiros, e seus olhos eram verdes.

E mais do que a aparência física, ambos eram provavelmente as pessoas mais simpáticas e gentis da cidade de Nova York. Qualquer outro provavelmente teria xingado Hilary por ser tão distraída.

Eram nessas horas que Jackie queria ser um homem.

– Estão sozinhas? — disse Julian e elas assentiram. — Querem se juntar ao jogo? Aí nós podemos nos conhecer melhor.

.+*+.

Central Park.

Sábado, 10h00min.

Três coisas que Charlie provavelmente mais odiava:

– Bagunça;

– pisar no cocô de cachorro; e

– quando Ashton tinha razão.

E, para sua tristeza, ele teve dois desses três em um curto intervalo de tempo.

– Cara, eu não acredito que você pisou no cocô do cachorro. — disse Ashton rindo. Charlie lhe lançou sua melhor careta de desgosto. — Vamos, não seja amargo. Você mesmo me disse que seria um bom dia!

Pior do que ter cocô de cachorro na sola do sapato era ter um amigo jogando as coisas na sua cara e ainda por cima com ironia. Ashton divertia-se do mal humor do moreno e não era por menos: Charlie carregava uma expressão antipática que até assustava as crianças que passavam por eles. Se duvidar, até mesmo os pássaros fugiam deles.

– Ainda bem que você já tem namorada, caso contrário você espantaria todas as oportunidades. — zombou Ashton.

– Me faz um favor? — pediu Charlie, parando de andar. A seriedade dele fez Ashton ficar preocupado. — Vá ver se eu to na esquina.

– Na esquina você não teria pisado no cocô de cachorro. — Ashton levantou as sobrancelhas, brincalhão.

– Eu esfregaria sua cara no asfalto agora mesmo se você não fosse mais alto do que eu.

Ashton soltou uma gargalhada escandalosa que atraiu a atenção das pessoas ao redor. Charlie fechou os olhos e respirou fundo antes de continuar correndo, deixando o amigo pra trás.

– Ei, volta aqui! — gritou o loiro, indo atrás de Charlie. — Parei, parei, parei!

– Tá, que seja. — ele parou, assim deixando Ashton se aproximar. — Vamos ali na fonte pra limpar meu tênis e…

Plof! Plof!

A reação automática de ambos foi levar a mão na direção da fonte do som, mas por sorte algo os impediu de continuar; Charlie então presumiu que a coisa que havia caído na sua cabeça era a mesma que caíra na de Ashton e vice-versa. Não era um alívio, porém.

O moreno não conseguia nem acreditar no quanto de má sorte ele tinha em apenas um dia, em apenas trinta minutos. Primeiro o cocô de cachorro, agora o de pombo. Qual seria o próximo? Cocô de pavão?

– Cadê as piadinhas agora, Harris?

– Só vamos logo. — o loiro bufou, voltando a andar. Charlie ia em seu encalço, igualmente infezado com o infortúnio.

Mas no meio do caminho tinha uma pedra. Ou melhor, duas. Tinha duas pedras no meio do caminho.

A mais ou menos cinco metros, rindo alto no meio do campo entre as outras dezenas de pessoas, estavam Jackie e Hilary. Não sozinhas, no entanto. Com companhias.

Belas e fortes companhias.

– Ashton, não-

Charlie nem teve tempo de construir um argumento válido que impedisse Ashton de fazer algo. O loiro já estava caminhando até as duas garotas e seus novos colegas aos passos pesados.

Ah, e com o cocô de pássaro na cabeça.

.+*+.

Central Park.

Sábado, 10h05min.

– Estou exausta. — Hilary suspirou, atirando-se na grama para deitar.

– Cuidado com o cocô. — Julian alertou-a com um tom sério. A garota imediatamente deu um salto, colocando-se de pé.

– O quê?! Onde?!

– Brincadeira. — ele desmentiu, já sentado no chão ao lado de Matt. Jackie caiu na gargalhada, logo se juntando aos dois.

– Nós precisamos andar mais com eles. — disse ela.

Hilary soltou uma risada falsa antes de se sentar entre Jackie e Julian, de frente para Matt. Suas pernas doíam bastante, portanto não conseguiu conter um gemido de alívio que saiu mais alto do que deveria.

– Não em público, Hilary. — dessa vez foi Matt quem brincou com a garota. — Só dentro de um quarto ou de um banheiro, quem sabe.

– Nós absolutamente precisamos mantê-los por perto. — reafirmou Jackie, rindo enquanto batia um high-five com o moreno.

Mesmo sendo o alvo das piadinhas, Hilary não podia negar que concordava com Jackie. Matt e Julian eram incríveis: divertidos, bem-humorados, energéticos e extremamente dóceis e simpáticos; receberam-nas muito bem apesar do incidente e até mesmo as convidaram para uma partida de vôlei – que teriam ganhado se não fosse por Hilary.

– Eu te conheço há anos e nem sabia que você era tão boa assim em vôlei. — comentou Jackie após ingerir uma grande quantidade de água. — Pra quem estava suando toda a água do corpo a alguns minutos atrás, é realmente surpreendente.

– Eu jogava na universidade. — Hilary deu de ombros.

– Onde vocês estudavam? — indagou Julian, aproveitando para extender o tópico.

– Ah, eu era da Universidade de Nova York. Hilary era da Universidade de Binghamton, a mesma de Charlie. — disse Jackie.

– Charlie é o seu namorado, certo? — Matt franziu o cenho. A garota assentiu. — Certo, só pra saber. Eu estudei gastronomia na Universidade de Boston e Julian se formou em Psicologia na Universidade do Estado de Louisiana.

– Que legal! — disseram as duas garotas em uníssono, empolgadas.

– Você trabalha com isso? — perguntou Hilary para Matt.

– Sou sushiman no Benihana.

Imediatamente as duas trocaram um olhar animado.

– Nós adoramos o Benihana. — esclareceu Jackie, falando pausadamente. Hilary, por sua vez, apenas balançava a cabeça. — Nós e nossos namorados vamos lá praticamente toda semana. Como é que nós nunca te vimos?

– Vocês vão em quais dias?

– Às quartas, na maioria das vezes.

– Ah… Matt não trabalha de quarta. — explicou Julian. — Por que vocês não comparecem lá em casa na próxima quarta e jantam lá em vez de ir até o restaurante? Vocês e seus namorados, é claro.

– Isso é muito gentil, mas não queremos atrapalhar a folga de Matt. — disse Hilary educadamente. Seu coração, porém, gritava outra coisa.

E os olhos de Jackie, obviamente.

– Não tem problema, Hilary. — Matt abanou as mãos. — Vai ser uma oportunidade legal de nos aproximarmos mais.

– E de conhecermos seus amados! — completou Julian e o outro concordou.

– Além do mais, está estampada na cara de Jackie a vontade dela de aceitar. — disse ele, fazendo todos os olhares se voltarem para Jackie, inclusive o olhar mortal de Hilary que não passou despercebido pelo moreno. — Relaxa, Hil. Eu realmente quero que vocês compareçam na quarta.

– Tudo bem, nós vamos-

– HILARY, JACKIE! — uma voz conhecida vinda de trás a interrompeu. Hilary esticou o pescoço para trás, encontrando o rosto de Ashton com um sorriso forçado. — Quem são seus novos amigos?

.+*+.

Central Park.

Sábado, 10h20min.

– O que você…?

– Oi, tudo bem? — Julian interrompeu Hilary, já levantado e cumprimentando Ashton. Matt também estava de pé. — Eu sou o Julian. Esse é o Matt.

– Ashton. — o garoto então apontou para Charlie, que logo chegava com uma expressão preocupada no rosto. — Aquele com a careta carrancuda é o Charlie. Mas ei, escuta… Você sempre fica de bobeira com garotas comprometidas? — disse, tentando soar casual, mas seu cinismo era maior. Hilary arregalou os olhos, as bochechas corando rapidamente.

– Ashton! Quer calar a boca, por favor? — resmungou Charlie.

– Não tem problema. — Matt abanou as mãos. — Você deve ser o namorado ciumento da Hilary.

– Sim. — Ashton respondeu automaticamente, arregalando os olhos a medida em que realmente compreendia o que o outro disse. — Espera, o quê?

– Não se preocupe, Ashton. — Julian assegurou. — Eu também sou ciumento.

– Ah, você tem uma namorada? — perguntou Charlie, apesar de presumir qual era a resposta.

– Um namorado, na verdade.

Ambas as expressões dos garotos se tornaram de extrema surpresa, fazendo os outros quatro sorrirem sutilmente. Eles nunca teriam adivinhado.

E agora vinha a parte embaraçosa. Maravilha.

– Ah, cara, me desculpe. — Ashton coçou a nuca, pendendo a cabeça levemente para o lado. — Quero dizer, me desculpe por agir do jeito que eu agi e não por você ser gay. Eu totalmente apoio os direitos dos gays e tudo mais, digo…” — titubeava, seu rosto queimando de tão vermelho que ficava. Felizmente, Charlie interveio.

– Ele só achou que você estava flertando com a namorada dele.

– Sem problema. — Matt deu de ombros. — As pessoas sempre se assustam quando nós contamos que somos um casal.

A notícia anterior era como uma bomba de TNT, mas essa era mais como uma bomba nuclear. Quanto mais eles ingeriam o fato, mais envergonhados se sentiam.

– Nós… Ahn…

– Tudo bem. Nós até meio que nos sentimos lisonjeados, pra ser honesto. — Julian riu.

– Homens comprometidos geralmente se sentem “ameaçados” por homens fisicamente atrativos, então é mais um elogio do que uma ofensa.

Ashton e Charlie forçaram uma risada descontraída para acompanhar o casal; já Jackie e Hilary realmente caíram na gargalhada, visto que tinham noção do desespero dos dois.

– Nós estávamos convidando-as para um jantar na nossa casa. — explicou Matt. — Vocês quatro, na verdade.

– Um encontro triplo! — sugeriu Julian, animado. Charlie tomou um susto, fazendo Jackie rir discretamente.

– Ele faz isso sempre, é melhor começarem a se acostumar. — disse Matt e Julian assentiu. — Hilary e Jackie nos contaram que vocês gostam de comida japonesa, especificamente da comida do Benihana.

– E como Matt trabalha lá, ele vai preparar um jantar a la Benihana especialmente pra vocês. — concluiu o loiro, abrindo os braços e soltando um “tarãaa”.

Pensando melhor agora, até que a ideia de suas namoradas conhecerem dois caras atraentes no meio do parque não era tão ruim assim.

Notas finais
Obrigada por ler!