Couples' Therapy

3 Capítulo 3 — "Nice to meet you, where you been?"


Flashback

Não era exatamente um dia agradável.

O solstício de verão havia chegado, anunciando o início da estação com o Sol brilhando no céu limpo e claro da uma hora. Supostamente, era para ser um dia maravilhoso. Um dia para tirar um tempo com seus amigos ou família no Central Park ou tomar um chá gelado em uma cafeteria qualquer enquanto lê um livro. Havia várias opções.

E dentre todas, Hilary escolhera justamente a menos relaxante possível.

– Com licença, moça. — a mulher ao seu lado a cutucou. — Você poderia me dizer que horas são?

– Sim, claro. São… — ela checou seu celular. — Duas e trinta e sete.

– Muito obrigada. — a outra agradeceu, voltando à sua posição anterior. Hilary fez o mesmo.

Duas horas e quase quarenta minutos. De acordo com seus cálculos, estava sentada naquela fila fazia quatro horas e alguns quinze ou vinte minutos, apenas esperando. Sua bunda já estava mais do que quadrada, provavelmente já assumia a forma de um decágono. Seus pés dormiam e formigavam a cada quinze minutos, forçando-a mudar de posição; seus braços doíam por ter de segurar um catálogo da loja sob sua cabeça para se proteger do Sol escaldante e seu tédio e paciência chegavam a um novo nível que nunca imaginara ser possível.

A razão de toda a espera era simples: liquidação. Em homenagem ao início de uma nova estação, a loja Zara da Quinta Avenida iria lançar sua nova coleção de verão juntamente com um desconto de quarenta por cento em todas as peças do estoque. E obviamente Hilary não era a única a saber da notícia.

A fila era quilométrica, tomando toda a extensão da calçada e virando sabe-se-lá-quantas esquinas. A maioria eram mulheres; algumas estavam interessadas na nova coleção enquanto outras, na promoção. Hilary fazia parte das últimas.

Portanto estava lá entre as centenas de pessoas, apenas encarando o movimento: carros e pedestres indo e vindo, crianças apontando e perguntando para suas mães por que tinham tantas moças sentadas no chão. Um cara até mesmo parou e tocou uma música com seu violão, mas logo foi embora assim que percebeu que não ganharia muito. Hilary quis fazer o mesmo, inúmeras vezes. Só não o fez porque só Deus sabia quando ela teria outra oportunidade daquela.

É, não era fácil viver em Manhattan com pouco dinheiro.

– Atenção, senhoritas e senhores. — um dos funcionários da loja anunciou com um megafone. — Nós iremos abrir a loja em cinco minutos. Por favor, peço com gentileza para que se levantem, mas continuem em fila. Quando liberarmos, não empurrem uns aos outros, pois há crianças no meio.

Hilary bufou. Quem seria louco (e idiota) de trazer seu filho em uma liquidação?

O funcionário continuou a anunciar uma sequência de normas de segurança, as quais provavelmente ninguém deu ouvidos. Então mais alguns dois minutos se passaram e abriram as portas.

“Continuem em fila”? Há, piada.

[...]

– Não posso pagar, não posso pagar, não posso pagar. — dizia Jackie enquanto passava pelo varal de roupas em promoção. — Posso até pagar, porém então vou ficar devendo mais um mês de aluguel pro Senhor Lewis. Melhor não arriscar saber se ele vai mesmo me chutar de lá.

Jackie fora uma das primeiras a entrar na loja, mas isso não significava que iria baixar a guarda. Checava as peças numa velocidade incrível, sem deixar qualquer uma passar despercebida; também despistava com facilidade qualquer um que ousasse tentar tomar seu lugar ou, pior ainda, sua roupa. Ao contrário de muitas, ela tinha experiência em lidar com promoções, principalmente aquelas que atraíam centenas de pessoas.

A loja estava tumultuada. A cada 5 cm², havia pelo menos duas pessoas. Discussões por roupas, cotoveladas e pisadelas acidentais (ou não, às vezes) estavam presentes em vários pontos, algumas vezes chegando a acarretar brigas maiores, forçando alguns seguranças a expulsá-las do local. Estava uma loucura.

Após cerca de vinte minutos vasculhando as araras e oito peças na mão – ainda que soubesse que não poderia levar todas –, Jackie cravou seus olhos em um vestido branco. Era simplesmente perfeito: duas camadas, dando-lhe a aparência de top e saia; nem curto, nem longo, ficando exatamente no meio das coxas; bordado nas pontas. Lindo e casual, e combinaria com a sandália que comprara na semana passada. Tudo o que ela queria sem menos saber o que queria. Iria levá-lo.

O único problema era que outra pessoa também iria e aquela era uma peça única.

– Vaza daqui, eu encontrei primeiro. — disse Jackie, puxando o vestido para si. A sua concorrente puxou de volta, rebatendo o resmungo.

– Ah, não, senhorita. Você puxou quando eu já estava prestes a pegar.

– É claro. E eu sou a Malévola. Olá, Bela Adormecida! — ela acenou, sorrindo cinicamente. Puxou a peça novamente com mais força, dessa forma arrastando a outra mulher junto. — Esse vestido é meu.

– Sobre o meu corpo morto. — a outra murmurou, agarrando-se ainda mais ao vestido. As duas agora estavam mais próximas e trocavam olhares mortíferos entre si.

Jackie quis rir. Quem aquela mulher achava que era? Porque, do seu ponto de vista, ela não era párea para sua habilidade em persuasão, muito menos sua perseverança e teimosia. Lidara várias e várias vezes com pessoas do seu tipo, logo ela não seria a primeira e muito menos a última.

Ainda menos a mais difícil.

– Escuta aqui…

– Hilary. — a outra preencheu a lacuna. Jackie revirou os olhos e continuou.

– Hilary. Se você acha que eu vou desistir desse vestido por uma ameaça ridícula, pode esquecer. Eu não disputo, eu ganho. — disse, colocando ênfase na última palavra. A garota, Hilary, deu um sorriso de escárneo.

– Não hoje e muito menos comigo.

Sem mais delongas, a discussão tornou-se uma disputa física. Jackie nem Hilary puxava o vestido por medo de rasgá-lo ao meio, portanto usavam outras técnicas para vencer: empurrões, xingamentos, pisadelas nos pés e até mesmo puxões de cabelo. Em certo ponto, Hilary empurrou o rosto de Jackie e essa mordeu sua mão, mas sem muita força, apenas para poder enxergar novamente.

O conflito só acabou quando Jackie conseguiu derrubar Hilary no chão e saiu correndo para o caixa, atropelando alguns outros clientes no caminho. O segurança chegou apenas para encontrar a garota já recuperada de si e xingando o ar, provavelmente na esperança de que Jackie a ouvisse de longe.

Fim do Flashback

.+*+.

– Quer saber? Lembrando agora, não é uma história tão boa assim… — Hilary grunhiu com os braços cruzados assim que Jackie terminou a história. Essa, por sua vez, sorria amarelo.

– Essa é realmente uma história inusitada de como duas amigas se conhecerem. — comentou a Dra. Martin para evitar um conflito entre as duas garotas. Charlie e Ashton não disseram ou fizeram nada, pois sabiam que qualquer coisa que falassem, acabariam levando a culpa de uma forma ou de outra.

– Pensa bem, Hil. Eu posso ter pegado o vestido, mas você agora tem acesso para o meu guarda-roupa a qualquer momento. E você até pode usar o vestido! — Jackie estendeu os braços, quase atingindo Charlie no rosto se ele não tivesse agido rápido. — Bem, você poderia se ele não estivesse com um furo enorme no meio da bunda.

– Eu avisei que não era uma boa ideia usar o ferro de sete anos de idade. — Hilary revirou os olhos. — Tudo bem, essa história já passou. O que importa é que agora posso usar sua agressividade e experiência contra outras pessoas.

A Dra. Martin, sem pensar muito, apenas balançou a cabeça em concordância. Só foi então, alguns minutos depois, que percebeu o que Hilary tinha falado. Arregalou os olhos imediatamente.

Não é a resposta que estava esperando.

– Só tirando o fato de que ela fez vocês serem expulsas de algumas cinco lojas por arranjar briga com outras clientes. — apontou Ashton, as sobrancelhas levantadas. Ambas as garotas penderam a cabeça, fitando-o com os olhos semicerrados. À Charlie só restou fechar os olhos e preparar seus ouvidos para a gritaria que estava por vir.

Felizmente, a Dra. Martin fez uma intervenção a fim de impedir que a bomba estourasse. Hilary e Jackie pararam com as frases no meio, fazendo com que Ashton levantasse o queixo da primeira e fechasse sua boca por completo.

– Fecha, senão entra mosquito. — ele sorriu vitoriosamente.

Foi só a veia saltar da testa de Hilary que a Dra. Martin apressou-se em dizer:

– Bem, vamos continuar a história de como vocês se conheceram? Quem foram os próximos?

Charlie e Jackie aderiram à ideia tão rápido quanto a terapêuta, sendo o primeiro a tomar iniciativa.

– Jackie e eu nos conhecemos há alguns anos atrás em Nova Jersey...

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Flashback

O aniversário de Hilary tinha chegado.

Apesar das insistências de Hilary em apenas comemorar a data em um restaurante, Charlie ignorara-a completamente e decidira fazer uma festa surpresa em seu apartamento. E, com a ajuda do irmão mais velho da garota, Louis, ele organizou tudo: salgados, doces, bebidas, lista de convidados e música. A única coisa que faltava era o bolo.

E esse estava em Hoboken, Nova Jersey.

A única razão para o bolo estar tão longe era que a padaria favorita de Hilary, a Carlo’s Bakery, ficava em outro estado. E a ocasião em questão era mais do que especial, pois Louis morava em Paris e vinha apenas vez ou outra para os EUA para visitar a família, então tinham de aproveitar que ele estava presente. Portanto, nada mais justo do que ter um bolo especial também.

– Olá! Eu liguei na semana passada e fiz um pedido de um bolo de red velvet. — disse Charlie para uma das atendentes, provavelmente uma das irmãs do chef.

É, ele assistia Cake Boss.

– Olá! — a mulher o cumprimentou de volta. — Certo, qual é o seu nome?

– Charlie Cooper.

– Ok, está aqui anotado. Espere só um pouquinho enquanto eu vou buscar. — disse ela antes de desaparecer dentro da porta que Charlie assumiu ser a cozinha. Ele assentiu, logo indo para o canto do balcão a fim de não atrapalhar os clientes que chegavam.

A loja era tão movimentada quanto eles mostravam na televisão. A cada um cliente que saía, mais dois entravam e era surpreendente a rapidez com que os funcionários atendiam os pedidos. Isso é, quando as pessoas não demoravam para fazer suas escolhas.

Charlie não os culpava; era mesmo quase impossível decidir o que levar dentre tantas escolhas. E não só isso, tudo parecia absolutamente delicioso e até mesmo ele sentiu vontade de pedir pra empacotarem um pouco de cada coisa para levar de volta pra casa. Biscoitos de manteiga, bolos decorados com fondant, cannolis, caudas de lagosta, o famoso bolo crocante, cookies, cupckaes faziam parte da coleção de doces que Buddy e sua família ofereciam. Aquela visão fazia qualquer um ficar com água na boca.

– Ei, com licença. Você está na fila? — uma mulher o cutucou no ombro.

– Não, só estou esperando pegar o meu pedido. — ele se virou para trás, encontrando a dona da voz. Não conseguiu evitar um sorriso ao vê-la.

Ela era muito bonita. Cabelos castanho claro, não muito compridos e levemente enrolados na ponta; alguns dez centímetros mais baixa do que ele e os olhos da mesma cor que o cabelo. Usava um vestido branco bem simples, mas elegante. Nos pés, uma sandália marrom clara. E uma bolsa relativamente pequena nas mãos.

Era estranho, mas ele tinha a impressão de que tal vestido era familiar...

– Se importa se eu passar na sua frente, então? — ela pediu, sorrindo também. Charlie comemorou internamente.

– À vontade. — ele liberou seu lugar, mas não saiu do lado dela. Estendeu a mão. — Charlie Cooper.

– Jackie Dunn. — a garota apertou sua mão. — Então, Charlie, o que te traz aqui em Nova Jersey?

– Como você sabe que eu não sou daqui? — indagou ele um pouco impressionado.

– Seu jeito. Você provavelmente veio de Nova York. Talvez Long Island. — ela deu de ombros, dando um passo pra frente e sendo acompanhada por Charlie. Vendo o enorme ponto de interrogação sobre a cabeça dele, ela continuou. — Eu também sou de Nova York, mas me mudei para Nova Jersey há dois anos. Reconheço a diferença nas pessoas.

– Ah, certo. — ele balançou a cabeça embora isso não esclarecesse muita coisa. — Minha amiga está fazendo aniversário hoje e eu decidi fazer uma festa surpresa pra ela.

– E decidiu viajar meia hora só por um bolo?

– Bem, é porque, de acordo com ela, os bolos da Carlo's Bakery são os melhores.

– Justo. Concordo com ela. — Jackie sorriu e involuntariamente Charlie também. Ela tinha um belo sorriso. — Vejo que você gosta muito dela. É correspondido?

As duas sobrancelhas de Charlie se encontraram no meio, deixando-o com um careta estranha. Ela tinha um jeito sutil de descobrir se ele era solteiro.

– Não, não. Ela é minha melhor amiga, nós somos amigos desde a faculdade. — ele soltou uma risada descontraída, seu rosto levemente corado. — É só que o irmão dela raramente está por perto, então temos que comemorar duplamente quando ele está. Sabe, por ela e por ele.

– Ah, entendo. — disse ela, dando mais um passo. Agora só faltava uma pessoa para sua vez chegar. Quanto à Charlie, ele parecia que seu bolo estava tendo algumas dificuldades – o que, em partes, não era tão ruim, pois não estava exatamente mal acompanhado; o único problema era que não sabia mais sobre o que conversar.

Não podia simplesmente perguntar sobre família ou amigos, era íntimo demais para duas pessoas que acabaram de se conhecer; falar sobre o tempo, política ou trânsito era entediante demais e um grande turn off. Qualquer outro assunto, principalmente os interessantes, parecia ter desaparecido completamente de sua cabeça. Tudo o que lhe restava eram piadas. Péssimas piadas, ainda por cima.

Então uma ideia lhe surgiu:

– Ei, você tem algo para fazer hoje à noite? — ele estalou os dedos, fazendo Jackie levar um pequeno susto.

– Nada que eu tenha em mente, por quê? — ela levantou as duas sobrancelhas, desconfiada. Obviamente não era a melhor das ideias confiar no cara da fila da padaria que havia acabado de conhecer.

– Tente não me achar um total maluco, mas você gostaria de ir pro aniversário surpresa da minha amiga? Muitas pessoas não vão poder estar lá, então seria legal se você fosse. — Jackie o olhou ainda mais estranho e então Charlie começou a entrar no desespero, tentando se corrigir. — Não que eu esteja te convidando apenas para ocupar espaço, mas porque você parece uma pessoa interessante e… Bem, acho melhor eu parar de falar antes que piore ainda mais a situação.

Jackie riu baixo do nervosismo dele: a coçadinha típica na nuca, a cor mais corada das bochechas, o olhar fixo em qualquer lugar que não fosse o rosto dela. Ele era adorável demais para ser algum tipo de estuprador ou ladrão. A não ser que essa fosse exatamente a arma dele, Charlie parecia inofensivo.

Para a sorte do garoto, a vez de Jackie tinha chegado antes que ela pudesse se pronunciar e no mesmo momento, seu bolo também surgiu. Quase beijou os pés da atendente por acertar em cheio o instante para aparecer.

Com o bolo de Hilary em mãos e tudo pago, já estava pronto para dar o pé dali e quem sabe nunca mais ter que encontrar a tal Jackie Dunn – uma vez era o suficiente. Mas logo quando estava na porta, ela o chamou.

– Ei, Charlie. — ele virou-se para encontrá-la. — Meu único plano era comer vários cannolis enquanto fazia uma maratona de Sherlock pela vigésima vez, então viajar para Nova York com um estranho para conhecer mais estranhos não me parece uma má ideia, eu acho. — ela sorriu, fazendo-o imitar o mesmo gesto.

Fim do Flashback

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– Ah, é mesmo. O dia do meu aniversário no qual o Charlie convidou uma total estranha que não era tão estranha pra mim porque ela era a maluca da liquidação da Zara. — disse Hilary cinicamente. Ashton ria baixinho e Jackie soltava um “ahh” ao passo que Charlie se culpava internamente por ter se lembrado da história. — E ainda por cima aparece no aniversário usando o vestido que ela pegou de mim.

– Poxa, Hil, como eu ia saber que você e a garota da liquidação eram a mesma Hilary?

– “Tiveram um começo de amizade bem turbulento”... — murmurava a Dra. Martin enquanto anotava em sua prancheta. — “Com reminiscências até os dias de hoje”.

– Esse é um tópico frágil. — explicou Charlie para a terapêuta que, sem saída, concordou.

Um dos vários tópicos frágeis, aparentemente.

– Tanto faz. — Hilary balançou a cabeça. — Vamos seguir adiante com as histórias.

– Que tal pular pra outro tópico que não envolva o vestido? — sugeriu a Dra. Martin. Jackie concordou avidamente.

– Eu não tive nenhuma história ainda. — Ashton fez uma careta.

– Porque você não quis. — Charlie revirou os olhos, fazendo o outro bater um cotovelo contra o outro em sua direção; era uma forma de mostrar o dedo do meio sem ser exposto.

Charlie sabia que nunca deveria ter deixado Ashton assistir a todas as temporadas de Friends em um semana.

– Você pode nos contar uma história se quiser, Sr. Harris. — disse a Dra. Martin gentilmente. De todos, ele era o que menos a assustava e talvez, talvez, até mesmo do qual tinha mais pena.

Até onde sabia, é claro.

– Obrigado, Dra. Martin. — ele agradeceu, olhando feio de escanteio para os outros três. — Bem, eu conheci Charlie primeiro em um jogo da NBA...

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Flashback

Se havia um lugar que nunca deixaria de impressionar Ashton, Madison Square Garden era esse lugar.

Como tudo em Nova York, a arena brilhava, não só com seus dois grandes telões que anunciavam os eventos como também com as enormes hastes de LED que mudavam de cor de acordo com o espetáculo da noite – sendo, naquele dia, azul e laranja em homenagem ao jogo dos Knicks contra os Chicago Bulls.

Não era mesmo à toa que NYC era chamada de “a cidade que nunca dorme”.

– Seu ingresso, por favor. — pediu um dos vários funcionários que estavam na entrada da arena com a função de receber os bilhetes. — Obrigado, aproveite o jogo.

– Obrigado. — Ashton agradeceu, passando pela catraca e logo entrando no seu respectivo setor.

Vendo ao seu redor, a quadra ainda parecia bem vazia; apenas algumas duzentas pessoas já estavam seus lugares, acomodadas. O resto provavelmente estava atrasado ou então na fila do nacho ou cachorro quente, aproveitando os minutos restantes antes de o jogo começar para comprar algum lanche. Ashton decidira fazer isso durante o intervalo das partidas.

Estava tão empolgado que se segurava para não saltitar por entre as fileiras enquanto procurava por seu assento; há quanto tempo não ia a um jogo de basquete? Dois, três, talvez quatro anos? Era bastante coisa para alguém que adorava o esporte. Assistir ao seu time favorito, os Knicks, era seu programa favorito com o seu pai, mas desde que ambos seus pais se mudaram para Detroit, Michigan, eles já não tinham mais o mesmo costume e Ashton agora raramente ia a um jogo.

Foi então que uma oportunidade surgiu quando um de seus amigos apareceu com um par de ingressos para ver os Knicks contra os Chicago Bulls e o convidou para acompanhá-lo. Seus olhos brilharam tanto que era impossível dizer “não”.

Esse seu amigo, no entanto, tivera alguns problemas e não pode mais ir, deixando-o comparecer sozinho ao evento. Ashton quase desistiu, mas decidiu não disperdiçar a chance.

– Certo, meu lugar é bem… — ele murmurava enquanto procurava o número de seu assento. Assim que achou, só restava mais um problema. -... Ali.

O lugar ficava em uma ótima posição com uma ótima vista para a quadra e os telões. Nada de errado parecia estar acontecendo, exceto pelo fato de uma pessoa ter tomado sua cadeira. Uma pessoa com uma aparência carrancuda e mal humorada com quem Ashton com toda certeza não queria comprar uma briga – não que tivesse muita escolha.

– Com licença, ah… O senhor está no meu lugar. — disse ele, coçando a parte de trás da cabeça levemente por conta do nervosismo; aquele cara não parecia muito sensato.

O homem não respondeu, apenas se limitou a lançar um olhar indiferente. Ashton buscou seu ingresso no bolso de trás da calça para mostrá-lo ao cara.

– Seção 117, fileira 8, assento 8. Esse seria meu lugar.

– Você realmente espera que eu vá sair daqui? — ele levantou uma das sobrancelhas.

– Bem, sim.

Mas o homem não se moveu, nem ao menos fez questão de insinuar que ia sair ou que sentia muito por ter pego o lugar de outra pessoa, o que fez Ashton ficar ainda mais incomodado. Não gostava de brigas, mas aquele cara estava praticamente lhe implorando por uma.

– Olha, eu posso te ajudar a encontrar seu assento, mas esse daí é meu. — disse mais uma vez, tentando não soar irritado e até mesmo com um sorriso, ainda que falso.

– Que tal encontrar outro lugar pra você, quem sabe? — o outro sorriu e logo desfez, voltando para sua expressão desagradável. Ashton fechou os punhos, rangindo os dentes.

– Pela última vez, senhor, você poderia sair do meu lugar?

Então o pior aconteceu: o homem levantou. E como levantou.

Ashton o encarou de baixo para cima antes de engolir seco. Ele tinha uns dois metros de altura, no mínimo. Se quisesse entrar para um time de basquete, com certeza seria aprovado pelo tamanho. E, sem algum resquício de dúvida, conseguiria esmagar Ashton sem muito esforço.

– Ei, ei, ei. — um outro torcedor da fileira de trás interveio instantes antes de o garoto virar marshmallow amassado. Devia estar chegando agora, já que Ashton não tinha visto ele quando entrou. — Esse é o lugar dele, você deveria sair daí.

– O quê? — o homem se virou para o novo participante da conversa.

Era muita gentileza da parte do torcedor em querer ajudar, mas esse era ainda mais baixo do que Ashton e provavelmente seria tão esmagado pelo homem quanto o loiro. Ainda assim, ele não parecia muito assustado com a aparência amedrontadora do cara – e se estivesse, sabia esconder muito bem.

– Isso mesmo que você ouviu pelo menos umas cinco vezes. — o garoto enfrentou o homem, sem escrúpulos. — O lugar é dele. Saia ou sofra as consequências.

A bravura do garoto era impressionante. Ashton, entretanto, sentia pena pelo seu destino próximo; mal sabia o nome do gentil torcedor e já de cara ele levaria uma grande surra por causa de uma pessoa que nem conhecia.

Por sorte de ambos, outro torcedor surgiu para tentar aliviar a tensão.

– Não há necessidade de briga. O senhor pode ficar aí. — disse o recém-chegado para o homem, então se virou para Ashton. — Temos um lugar sobrando do nosso lado, garoto.

– Adam, não-

– Fique quieto, Charlie. — o tal Adam repreendeu o outro torcedor, Charlie. — Desculpe-nos por incomodá-lo. Tenha uma boa diversão. — disse educadamente para o homem e esse, por incrível que pareça, se conformou e voltou a se sentar no seu não-lugar.

Além de surpreso, Ashton estava acima de tudo aliviado e agradecido por Adam ter intervido. Não tinha recuperado sua cadeira e nem sua dignidade, mas tinha de admitir que estava feliz por não estar mais na zona de alvo do homem. Charlie, por outro lado, não parecia nem um pouco contente.

– Eu conseguiria resolver aquilo e pegar a cadeira dele de volta. — ele resmungou.

– Você ainda não é um advogado de verdade, Charlie. Quando for, vai perceber que nem sempre vale a pena lutar contra pessoas como aquele cara. — Adam revirou os olhos antes de analisar Ashton. — Qual é o seu nome, garoto?

– Ashton Harris.

– Certo, Ashton. Temos um lugar para você aqui do nosso lado, pois um amigo nosso não pode vir. — Adam meneou a cabeça em direção ao assento do lado de Charlie. — Eu sou o Adam e esse é o meu primo, Charlie.

– Prazer em conhecê-lo. — Charlie acenou. — Fã dos Knicks?

– Pode apostar que sim. — Ashton sorriu enquanto pulava da fileira oito para a nove. Assim feito, ajeitou-se na cadeira ao lado de Charlie. — Obrigado pelo lugar.

– Não foi nada. — Adam fez um sinal de positivo com o dedão. — Veio sozinho?

– Meu amigo me deu os ingressos, mas não pode vir. — o loiro deu de ombros. — Vocês são daqui de Manhattan?

– Eu moro no West Village e o Adam, no Midtown West.

– Ah, eu moro no East Village. — disse Ashton pouco antes de anunciarem a entrada dos times.

Os gritos então começaram, a maioria vibrando com a chegada dos Knicks e vaiando os Chicago Bulls. Ashton, Charlie e Adam também entoavam gritos de animação junto com os outros nova-iorquinos, clamando por vários nomes de jogadores do time.

– Quanto você acha que vai ser o placar hoje? — indagou Charlie quando eles voltaram a se sentar para assistir o jogo. Ashton pendeu a cabeça pro lado.

– Acho que 100 a 92 para os Knicks.

– Sério? Você está bem otimista em relação aos Bulls.

– Bem, eles têm jogado belas partidas ultimamente. — Ashton deu de ombros. — O que você acha?

– 105 a 79. — Charlie levantou uma das sobrancelhas. Adam riu. — E você, Adam?

– Ah, não sei. Ashton tem razão. Os Bulls têm tido ótimas pontuações ultimamente. — ele coçou o queixo. — Eu diria que vai ser uma disputa bem acirrada. Provavelmente uns 86 a 82.

– Querem apostar? — agora as duas sobrancelhas de Charlie estavam de pé. Ashton olhou direto para Adam.

– Às vezes ele é bem sonhador. Mas não se preocupe, aceite a aposta e arranque algo dele.

Charlie exclamou alto e Ashton apenas riu, ao passo que Adam esticou o braço para o primo.

– É uma aposta. O que eu e Ashton vamos ganhar se você estiver errado?

– Isso é ainda negociável. — Charlie apertou a mão de Adam.

– Estou dentro. — Ashton repetiu o movimento.

Fim do Flashback

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– Ele perdeu a aposta. — alegou Ashton com um sorriso de escanteio, fazendo Hilary e Jackie rirem escandalosamente. — Os Bulls ganharam de 104 a 80.

– Todos nós perdemos, só pra deixar claro. — Charlie bufou vendo que a própria terapêuta esforçava-se para não soltar uma risada. — E como você ainda lembra o placar? Isso foi a uns quatro anos atrás!

– Eu jamais vou me esquecer do placar que me fez arrancar as primeiras cinquenta pratas do meu melhor amigo.

– Você é um babaca. — o rosto de Charlie se contorceu em uma careta. Ashton, porém, apenas deu de ombros.

– Charlie sempre foi muito iludido com esportes, principalmente em relação os Knicks. – disse Hilary e os outros dois concordaram. — Ele acredita demais, mesmo que as estatísticas mostrem o contrário.

– Ou a probabilidade de ele cair de cara no chão. — Jackie adicionou. — Vocês se lembram daquela vez que nós decidimos jogar freesbee no parque e ele tinha tanta certeza que ia conseguir pegar o disco sem ter que se esforçar muito?

– Aquela vez que ele tropeçou na pedra atrás dele ou quando ele caiu de bunda no cocô de cachorro? — Ashton franziu o cenho, olhando de escanteio para Charlie cujo rosto estava escondido entre as mãos. Tinha certeza de que o amigo estava formulando mil e uma maneiras de assassiná-lo sem pegar prisão perpétua; ou então simplesmente formas de torturá-lo impiedosamente.

– Ah, é verdade. Foram duas situações. — Jackie gargalhou junto com Hilary. — Pra um advogado, você consegue ser bem ingênuo às vezes, não acha?

– Em minha defesa, as pessoas não deveriam deixar as excreções de seus animais no meio do parque público. — Charlie protestou emburrado, cruzando os braços.

– Bem, isso não deixa de ser verdade. — Hilary concordou com Charlie, que gesticulou um “Obrigado” com as mãos. — Ainda assim, foi engraçado.

– E olha que ele ficou um tempão dizendo “É claro que eu consigo, eu vejo por onde eu ando ao contrário de você, Ashton!”. — Ashton imitou a voz do amigo enquanto fazia aspas no ar com os dedos.

– Ele tinha um ponto, pelo menos. Você nunca vê por onde pisa, Ashton. — disse Jackie.

– E isso resulta em inúmeras surpresas nas solas dos sapatos dele. — completou Hilary. Agora Ashton também cruzava os braços assim como Charlie.

A Dra. Martin, por sua vez, não tentou interromper, nem sequer fez algum comentário. Apenas observava e anotava, escondendo uma risada vez ou outra cada vez que imaginava tal situação contada. Deixá-los falar era a melhor forma de conhecê-los – contanto que não gritassem.

E o mais curioso de tudo era que eles nem sequer aparentavam se lembrar do lugar em que estavam; talvez nem recordassem do fato de que havia outra pessoa na sala também.

– Ou eu olho pra frente e piso nas coisas ou eu olho pro chão e esbarro nas pessoas! — Ashton defendeu-se.

– Você parece criança quando anda na rua, cara. — Charlie fez uma careta engraçada, tentando não rir. — Não sei se você já tentou, mas dá pra andar sem atropelar as pessoas ou pisar em coisas no chão.

– Calado, você ainda é o cara que caiu de bunda no cocô de um cachorro bem grande.

– É, parece justo. — Charlie deu de ombros. — Mas que tal agora a gente lembrar da sua história embaraçosa de como você conheceu a Hilary?

– Filho da mãe. — murmurou Ashton, lançando um olhar mortífero para o moreno.

– E como foi? — a Dra. Martin finalmente se pronunciou, o que fez os quatro tomarem um leve susto.

– Você quer contar ou eu conto? — indagou Hilary. Ashton suspirou fundo, afundando ainda mais no sofá.

– Vá em frente.

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Flashback

Para Hilary, o Caffé Bene era um dos melhores lugares de Nova York. Não só o lugar servia maravilhosas bebidas como também alguns livros, desde clásssicos como To Kill a Mockingbird e Os Contos de Grimm até contemporâneos como Jogos Vorazes e Percy Jackson, dispostos em prateleiras de madeira. Sem contar a tamanha tranquilidade que o ambiente passava em meio à Broadway, uma das avenidas mais visitadas de Manhattan tanto por turistas quanto pelos próprios nova-iorquinos. Hilary absolutamente adorava aquela cafeteria.

Era algo por volta das quatro horas da tarde de uma sexta feira, o que significava que logo a Avenida presenciaria ainda mais movimento. Mas a cafeteria parecia não se incomodar com o clima agitado de Nova York, visto que mesmo após Hilary fazer seu pedido e sentar, poucas pessoas entravam e saíam. Estabilidade era a palavra-chave daquele lugar, seguida de tranquilidade. A música era calma e gostosa de se ouvir e, ao contrário de muitos outros lugares que vendiam café, as conversas das outras pessoas não eram baixas e não incômodas. Mal se escutava conversas alheias.

Bem… Na maioria das vezes.

– Sim, eu concordo! — dizia uma voz masculina, logo atrás de onde Hilary sentava. — Quero dizer, o livro é ótimo. Com toda certeza um dos meus favoritos. Top cinco.

– Meu também! Não é exatamente cheio de aventura ou ficção, mas repleto de emoções e fatos históricos. O amadurecimento de uma garota de apenas treze anos, passando já por tudo aquilo… — respondia outra voz, desta vez feminina. — Você não acha?

– Com certeza. Tudo que ela passou… Realmente é de admirar.

Hilary teve que segurar a risada; a situação da mesa de trás era engraçada. Só julgando pelos tons de vozes usados tanto pelo rapaz quanto pela moça, presumia que ele não fazia ideia do que ela estava falando e certamente não tinha interesse em descobrir. Ou seja, uma provável tentativa de conquista.

Tristemente, o plano não estava dando muito certo.

– Admirar? Não é a palavra que eu usaria. Por que você acha digno de admiração? — questionou a garota.

Uh oh, o garoto estava em apuros.

– Você não acha? — ele gaguejou, mas tentava manter a pose.

– Eu acho impressionante, não exatamente admirável. Todo o contexto do Holocausto é muito cruel. — continuou a garota. — Mas agora estou curiosa. O que você vê de admirável no livro?

– Eu não… Eu acho que… — o garoto gaguejava ainda mais.

A garota então riu para a surpresa de ambos. Uma risada incrédula, inacreditável.

– Você realmente não sabe nada sobre o livro, sabe? — indagou ela, batendo a mão com força contra a mesa e assustando a maioria dos clientes. — A cada dia que passa, parece que eu só encontro babacas. Inacreditável.

– Eu… — ele levantou-se junto com a garota, numa tentativa de se explicar. Ela, no entanto, decidiu não lhe dar ouvidos. Hilary tentou não olhar para o lado quando os dois passaram por sua mesa.

– Fique com o livro. Quem sabe alguma outra idiota caia na sua lábia e você consiga impressioná-la só mostrando a capa dele? — disse a garota cinicamente, jogando o exemplar contra o peito do rapaz. Em seguida, ela saiu do café aos passos pesados.

Para trás ficou o garoto plantado de pé, sendo encarado por todos os clientes e funcionários do lugar, inclusive Hilary, que estava na mesa bem ao seu lado.

– Dia ruim, não é mesmo? — ela pigarreou, atraindo a atenção dele. — O Diário de Anne Frank é histórico. Nunca leu mesmo?

– Já vi o filme que fizeram. Aparentemente não são a mesma coisa. — ele coçou a nuca sem jeito. Apontou para a cadeira na frente de Hilary. — Posso?

– É claro, fique à vontade. — ela sorriu e ele fez o mesmo, logo se sentando. — O filme pode até ser fiel, mas nada se compara ao livro. Na próxima vez, tente mostrar maior e melhor interesse.

– Você tem razão. — ele bagunçou o cabelo. — Sou Ashton Harris.

– Hilary Belrose.

– Nome bonito. — ela agradeceu. — Você sempre ouve conversas dos outros?

O rosto de Hilary corou de imediato e ela se ajeitou na cadeira subitamente desconfortável. Sua reação fez Ashton sorrir ainda mais largo.

– Eu não tive a intenção, juro. — ela escondeu o rosto por um breve momento.

– Tudo bem, Hilary. Pelo menos eu fiz alguém rir. — ele riu baixo, envergonhado. Em seguida indicou com o dedo alguns papéis em frente à garota. — Desculpe, estou atrapalhando?

– Não, eu só estou avaliando lugares para mandar meu currículo. — disse ela, apressando-se em arrumá-los em um pequeno monte. — E reavaliando meu currículo antes de mandar.

– Você está em dúvida sobre o que colocou?

– Estou com medo de não ser o suficiente. — ela suspirou.

– Com o que quer trabalhar? — indagou Ashton, inclinado-se sobre a mesa. — Posso… ?

– Vá em frente. — ela entregou-lhe um dos vários currículos. — Queria dar aula, de preferência. Seria legal trabalhar com crianças.

Ashton não respondeu; estava concentrado em analisar seu currículo. Hilary havia se formado em História na Universidade de Binghamton, trabalhara duas vezes como babá quando tinha 17 anos, falava frânces e italiano fluentemente, fora voluntária em uma ONG de construção e auxiliriara um de seus professores da faculdade em uma pesquisa científica. Aquilo era impressionante. Se ele fosse diretor de uma escola, a contrataria sem pensar duas vezes.

– O que foi?

– Você está brincando? Isso daqui está fantástico! É claro que vai conseguir encontrar um emprego. — exclamou ele. Os olhos de Hilary brilharam de animação.

– Você acha?

– Eu tenho certeza. — ele sorriu, retornando o papel para o monte. — Olha, se eu não me engano, a esposa de um amigo da noiva do meu primo conhece a diretora de uma escola na Upper West Side. Acho que é um complexo estudantil.

– Complexo Educacional Julia Richman? — ela franziu o cenho.

– Isso! Ao que parece eles estão contratando professores para o ensino fundamental. Você quer-

– Sim, sim, sim! — ela abriu um sorriso largo, saltando para fora de sua cadeira e o abraçando. — Ah, Ashton! Obrigada.

O garoto mal teve tempo de reagir, pois além de estar surpreso demais, Hilary logo voltou para seu lugar.

Era apenas uma impressão ou sua sorte havia mudado? Não só ela era bonita, como também inteligente, simpática e dócil. E pelo o que podia dizer, ela também tinha gostado dele sem ele precisar fazer muito esforço.

Ou talvez fosse apenas calor do momento, mas ele escolhia a primeira opção. Só lhe restava confirmar.

– Não é nada. — ele coçou a nuca, sorrindo de volta. — Eu vou precisar de um currículo para levar, então. Acho que vou encontrá-lo amanhã mesmo.

– Quantos precisar! Aqui, vou anotar meu telefone também. — disse ela empolgada enquanto escrevia seu número em um post-it, colando em um dos currículos e logo entregando para ele.

– Wow, você é prática. Carrega post-its na bolsa?

– Nunca se sabe quando eu vou precisar de um, então preciso ser prevenida. — ela piscou para ele, guardando o bloco de volta na bolsa junto com a caneta e os outros papéis. — Obrigada mesmo, Ashton. Não sei como te agradecer.

– Bem, um jantar seria legal. — disse ele com um sorriso tímido. Disfarçava o nervosismo dobrando levemente a boda do currículo continuamente.

Hilary demorou para reagir. Então sorriu, mas não era o tipo de sorriso que Ashton esperava. Sua expressão, de repente, já não era mais tão agradável. Seu olhar era de simpatia e ao mesmo tempo compaixão. No momento em que ela respirou fundo, ele sabia o que estava por vir.

– Eu sinto muito se te dei a impressão errada, Ashton. Você é fofo e gentil, mas…

“Mas” nunca era bom. Se pudesse, Ashton cavaria um buraco e se enterraria nele.

– Eu tenho um namorado.

Aquilo era pior do que ser encarado por todos naquele café.

.+*+.

– Três meses e meio depois, nós estávamos namorando. — Ashton finalizou por Hilary, orgulhoso de si.

– Não se gaba muito não porque ainda assim, você conseguiu levar dois foras em menos de trinta minutos. — disse Charlie, que logo levou uma almofadada na cara vinda do amigo.

– Você é mesmo um estraga prazeres, Cooper.

– Três anos depois e eu ainda não me cansei dessa história. — Jackie balançava a cabeça de um lado para o outro, rindo sem parar.

– Meu irmão também. E a irmã dele. — Hilary adicionou e os três riram ainda mais alto, se possível. Ashton estava de braços cruzados, emburrado, e o rosto vermelho de vergonha.

– Eu odeio vocês.

– Não esquenta não, criança. Isso é só o começo das várias histórias embaraçosas que temos de você. — Charlie esticou-se para apertar a bochecha dele, mas esse lhe deu um tapa na mão.

– Ah, sai pra lá. — ele resmungou.

– Não se preocupe, Ashton. Nosso horário já chegou ao fim, o que significa que já não temos mais tempo para ouvir mais histórias. — disse a Dra. Martin a fim de prestar condolências ao garoto.

– Mas já? Só foram quatro histórias até agora! — exclamou Jackie.

“Mais o tempo que vocês levaram para deixar a consulta começar e mais os intervalos entre as histórias – sendo que essas duraram alguns vinte minutos cada” era o que a terapêuta quis responder. Em vez disso, ela optou por ser mais gentil.

– Isso lhes dará um motivo para voltar. — ela sorriu, colocando sua prancheta de lado e levantando. Os quatro fizeram o mesmo. — Se estiverem dispostos a continuar, por favor, marquem um horário para a próxima semana com a secretária. Vejo vocês na próxima semana?

– É claro. — disse Jackie, apertando a mão dela antes de sair da sala. — Obrigada, Dra. Martin.

Os outros três imitaram-na, saindo aos poucos do consultório.

Pela primeira vez em anos, todos estavam de acordo.