Counting Stars
1 Cap. 1
Notas iniciais
Nico
Amanheceu no acampamento meio sangue, e conforme o sol subia por entre as colinas ia deixando a paisagem alaranjada e despertando aos poucos os campistas para que iniciassem suas atividades matinais.
Era o início do inverno, mas como em todas as outras ocasiões, nos limites do acampamento, o sol era morno e a brisa fresca, apenas durante a noite o clima ficava mais gélido, porém nada que desagradasse os semideuses.
O clima estava agradável, porém entre os campistas a atmosfera era um pouco melancólica devido à perda de um herói no retorno da ultima missão. Já havia algumas semanas que o acampamento estava sentindo os efeitos de ter perdido Leo na última missão, bem, talvez “perdido” não fosse a expressão correta, mas também “deixado para trás” não era algo que abrangesse totalmente o significado do que aconteceu.
Após a batalha com Gaia, inevitavelmente, Leo ficou, em teoria, preso no mundo inferior. Ele não estava morto e tão pouco sendo feito de refém pelo deus Hades, mas por uma razão que não conseguiam entender, ele não podia sair de lá.
Percy Jackson até chegou a pensar que era pela falta das perolas que o haviam ajudado a escapar do Mundo Inferior com vida anos atrás, mas também não deixava de pensar que a falta de conhecimento do local poderia estar colaborando quanto a isso, pois Nico Di Ângelo o havia feito entrar e sair de lá uma vez através de outra saída, a qual ele não havia conhecimento.
Mas apesar dos pesares, eles não podiam simplesmente declarar que iriam resgatar Leo e saírem do acampamento sem nem ao menos saber onde deviam começar a procurar. O Mundo Inferior era gigante, e talvez nem mesmo o próprio senhor dos mortos soubesse onde o filho de Hefesto estaria. Eles precisavam de preparação e, principalmente, paciência naquele momento tão solene, então, a única saída eram manter os afazeres do acampamento em dia.
Nos últimos meses, o Acampamento Meio Sangue vinha recebendo visitas frequentes dos romanos do Acampamento Júpiter, e surpreendentemente de Nico Di Ângelo. O filho de Hades nunca antes esteve tão presente no acampamento e nem tão participativo em suas atividades como estava. Jason Grace era parcialmente culpado por isso, ele, sempre que encontrava o mais novo, insistia que este tentasse se enturmar com os outros campistas e aos poucos acabava conseguindo a atenção e a confiança do rapaz.
Jason estava sendo um amigo que Nico há muito precisava, e por mais que ele tentasse negar, a aproximação do loiro fazia bem a ele, e Di Ângelo até estava começando a sorrir um pouco mais do que antes e também a demonstrar mais afeto, principalmente com Hazel, tal qual fazia com Bianca quando ela estava viva. Apesar de continuar a não se sentir completamente à vontade no acampamento, Nico começava a se esforçar um pouco mais para se adaptar com as pessoas a sua volta, e as visitas frequentes de sua irmã e seu mais novo amigo o ajudavam a superar o deslocamento.
O toque de concha anunciou o café da manhã e os campistas se reunirão na saída de seus chalés em direção ao pavilhão das refeições. Todos aparentavam estarem animados com o início da manhã. O sol estava brilhando, o céu estava limpo, o barulho do mar na praia fazia uma trilha sonora perfeita para o clima morno que fazia naquele momento. Mesmo estando praticamente quente nos limites do acampamento, Nico não pode evitar sair de seu chalé vestindo sua inseparável jaqueta de aviador.
Ao sentar-se sozinho em sua mesa, o Rei dos Fantasmas olhou para seu reflexo em uma colher e semicerrou os olhos para o que via. Havia dormido bem, ao menos em comparação com as outras vezes, mas por que as olheiras insistiam em marcar seus olhos? Eles até que tinham uma cor bonita, mas aquelas olheiras não ajudavam em nada para melhorar sua aparência.
Revirou os olhos tentando abaixar seus cabelos com as mãos. Era uma tarefa praticamente impossível, aquela massa negra em sua cabeça parecia mais um ninho do que cabelo. Incrível como um pente fazia falta. Nico soltou um suspiro pela boca deixando a colher de lado e tomando um gole da bebida em seu copo mágico, quando voltou a levantar a cabeça, seu olhar encontrou o de Percy há poucos metros de si, e o mais velho dirigiu um sorriso para Nico, deixando-o sem graça.
“Deuses, por que ele insiste em mexer com meus sentimentos desta forma?” disse baixando os olhos para seu café da manhã mantendo sua expressão seria. “Se meu pai ao menos desconfiar que gosto de Percy desta maneira, ele me fará virar ração para Cérbero”.
Nico balançou a cabeça para afastar estes pensamentos e continuou tomando café da manhã em paz, até que Jason sentou ao seu lado com seu inseparável sorriso, quase contagiante. Di Angelo olhou-o de soslaio e esboçou um meio sorriso para o loiro ao seu lado.
– Bom dia Nico – disse bagunçando ainda mais seus cabelos, como se já não estivessem ruins o suficiente – ao invés de ficar apenas olhando, você deveria ir falar com ele.
Nico ficou levemente corado e empurrou Jason com o ombro sem conseguir encarar seus olhos. Desde a conversa que tiveram com cupido Grace insiste para que ele conte o que sente a Percy, dizendo sempre que o moreno não irá mudar seu jeito com o amigo e que os outros também o aceitarão por ser o que é. Mas como sempre, o filho de Hades se recusa a fazer o que o amigo sugere.
– Não diga tolices Grace... Ninguém precisa saber o que se passa entre mim e eu mesmo.
– Tem razão – o loiro falou com um ar divertido – mas eu continuo sendo o único a saber como quebrar os muros para seu antigo eu.
Aquilo Nico não podia negar. Jason era tão persistente quando o assunto era ganhar a confiança dele, que aos poucos estava conquistando espaço em sua vida. Afinal, era por causa do loiro que Nico estava sempre ali, e por mais que negasse, ter alguém para poder conversar sem precisar esconder as coisas, era gratificante e reconfortador.
Ele apenas concordou com a cabeça recebendo uma risada de leve vinda do outro.
– Bem, hoje a noite tem caça a bandeira. Nunca joguei antes, mas pelo o que ouvi falar parece ser divertido. Te quero no meu time Nico, e não adianta dizer que não, você mais do que ninguém, sabe o quão persistente posso ser. – e dito isto se levantou do lugar onde estava já se afastando – até a noite Rei Fantasma, e pense no que disse.
“Rei Fantasma”. Nico bufou para o apelido. Nunca entendeu ao certo o motivo de começarem a chama-lo assim até fora do mundo inferior. Quando derrotou Minos há alguns anos, sua ‘fama’ de filho do deus do mundo inferior cresceu, e foi como se ganhasse uma personalidade própria, e não apenas a de ser o filho bastardo de Hades. Os fantasmas começaram a temer mais a si do que o próprio Caronte, e o título de Rei se fez mais forte e presente do que nunca. “Mas não precisavam me chamar assim até aqui. Eu não devia ter contado a Jason esta historia”.
Após o café da manhã, Nico achou que seria melhor achar algo para distrair-se antes que os jogos começassem, então decidiu por ir praticar um pouco com sua espada. Ao ficar em pé, acabou esbarrando em alguém e quando foi desculpar-se notou ser Annabeth Chase.
Não que não gostasse de Annabeth, mas por causa dos sentimentos que alimentava por Percy, namorado da filha de Athena, ele ficava um tanto quanto constrangido para conseguir manter uma conversa com ela. Com o esbarro, a garota loira perdeu o equilíbrio e automaticamente Nico a segurou pela cintura para que ela não caísse.
A aproximação repentina fez o garoto ficar sem graça, e quem via de longe poderia interpretar a cena de forma errada. Annabeth ficou corada e logo firmou os pés no chão agradecendo a Nico.
– Obrigada Nico – falou colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha – eu poderia ter me machucado.
– Não é preciso agradecer – ele respondeu, surpreendentemente, sorrindo um pouco para ela – a culpa foi minha afinal. Até mais, Annabeth.
Ao sair de perto da loira, Nico se repreendeu mentalmente. “Tenho de parar de parecer tão sociável, ou as pessoas podem se machucar.” Pela milionésima vez só naquela manhã ele suspirou novamente indo para a arena de treinamento.
No caminho acabou avistando Rachel Dare na entrada de sua caverna arrumando algo que não pode ver com clareza. O oráculo poderia muito bem fazer uma nova profecia e tirar a monotonia do acampamento. Balançou a cabeça para afastar os pensamentos e continuou seu caminho. Nico até que sentia a falta do humor de Leo, ele podia ser considerado engraçado, apesar de nunca ter feito o filho de Hades rir, mas este era um fato que não admitiria nem sob tortura.
Parte de Nico adoraria sair em uma missão. Conseguir achar uma desculpa para sair do acampamento sem que Jason ou Hazel ficassem magoados por ele estar mais uma vez se fechando e indo ao mundo inferior. Mas a outra parte dele, a maior parte, queria simplesmente não se importar com o resto, nem com o desaparecimento de Valdez, tão pouco com a opinião do amigo e da irmã. E por causa do conflito entre estas duas partes que Nico acabava por ficar no acampamento.
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