Cosmos.

8 Rumo ao palácio de Athena


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Não era apenas um trajeto para o templo da deusa, aquele percurso era um olhar histórico; Gaios caminhava lentamente ao lado de seu fiel Saga, a medida que avançavam o homem sábio falava sobre história e as narrativas míticas daquele lugar, aquele santuário era de uma beleza indescritível, longas escadarias envoltas por colunas em arco, a luz solar filtrava-se pelo caminho, no teto as colunas de sustentação e o capitel jônico em mármore fazia os olhos de Saga perscrutar a arquitetura minuciosamente, afinal nunca esteve ali, mas entendia tudo sobre a arquitetura grega. A última escadaria próxima ao salão principal do mestre era longa, os degraus eram estreitos e a cada passo Gaios sentia um pesar arrefecido, há poucos instantes conversava eufórico, e a passos lentos sentia um peso no corpo, porém mesmo sorrindo, e sem que Saga percebesse continuava seguindo em frente com suas narrativas. Até que de súbito sua visão se torna turva, trôpego, sem sentir as pernas, os joelhos curvam-se e sem forças seu corpo se inclina em queda livre em fronte aos degraus, ao tocar o chão tentava se apoiar com os com as mãos machucadas, contudo o orgulho o fazia manter-se digno como um cavaleiro, diante o palácio da deusa. Saga cuidadosamente ao perceber vem em seu auxílio e alguns guardas reais que observavam a uma distância considerável deixaram seus postos para auxiliar o importante cavaleiro, contudo Saga apenas acena de longe negativamente para que não saíssem de seus postos, imediatamente a guarda real voltou a sua posição inicial de sentinela as margens da antessala principal. Lentamente o cavaleiro abre os olhos, e pela primeira vez pode fitar profundamente a força do olhar incisivo de seu pupilo amado, com muita ternura, naquele momento sentiu um estremecimento, a suavidade do cosmo daquele jovem rapaz sem dúvidas era de um autêntico cavaleiro, de uma nobreza como a dos cavaleiros de outrora.

— Senhor, não se preocupe eu o irei conduzir até o mestre, já que é de tanto a sua vontade— disse Saga com firmeza.

Gaios respirou profundamente franzindo o cenho tentando descontrair aquele momento, onde ele exibia a sua limitação devido ao tempo.

— Eu ainda sou um cavaleiro, um pouco senil, mas avançarei com vontade de ver a minha amada. Oh! Pelos deuses, que ela não repare a minha debilidade, Saga você não se importaria que eu me apoiasse em você?

— Senhor eu estou aqui para servi-lo, o que puder fazer pelo senhor denota a minha gratidão pelo tempo em que fora tutor de mim e meu irmão depositando sua confiança.

Gaios escondeu o rosto com as mãos enrugadas foi uma discreta emoção, amava aquele menino profundamente, ele era um elo ao seu passado, lembrava muito alguém importante que habitava a sua memória, mas nunca soube ao menos decodificar tais imagens que surgiam como um lampejo. Disfarçou uma tontura e apoiou nos braços daquele homem robusto, de semblantes sérios, mas de uma bondade imensa o que aprazia o velho cavaleiro. Sua nobreza se equipara com a do cavaleiro Aioros, um dois cavaleiros mais amados de todo o santuário.

A visão panorâmica do santuário naquela altura era pitoresca, por um instante o velho cavaleiro pausou os passos olhando pelos ombros, observando a grandeza daquele lugar sagrado e disse misteriosamente para Saga em tais palavras, como se fosse um adeus, num tom contemplativo:

— Veja tudo isso ao seu redor, é além da natureza que nos envolve, e desse céu que é o limiar de nosso cosmo entre humanos e deuses, o santuário é vida! Não é apenas a vida humana dos cavaleiros que os guardam, mas as armaduras sagradas também, todas pulsam vida!

Saga prestava atenção nas palavras sem pestanejar, sabia que aquilo também era uma lição.

— Nunca se esqueça disso! As armaduras são vidas, as doze casas que protegem a deusa também são vidas, que só podem ser sentidas através do cosmo, o cosmo é o chamado. Oh perdão! Kanon tem toda a razão, às vezes me comporto como um lunático...sabe por quê Saga? Sinto-me embriagado pela beleza do santuário, e tenho certeza que quando a senhora viver neste mundo, os cavaleiros farão o impossível. Batalhas virão com dantes...

Saga fitou o santuário pelos ombros discretamente, enquanto a voz de seu mestre cantava em sua mente de forma hipnótica, no seu âmago por um instante sentiu uma angústia inexplicável, e refletiu que para governar tudo isso era necessária uma força imensa, e se ele fosse detentor desta força estaria além de seu controle. Abaixou a cabeça e seguiu rumo a sala do grão mestre.

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Aos arredores de Pyrgos

TODOS ESTAVAM AFLITOS, com a luta do cavaleiro renegado contra o homem misterioso, além disso, estavam profundamente ofendidos com as zombarias daquele homem contra a sagrada celebração do nascimento de Athena. Como este homem poderia dizer que algum dia serviu a sagrada deusa da justiça? Desrespeitando a deusa e o santuário de forma vil, questionou as pessoas ali presentes num murmúrio geral.

A névoa dissipou-se e o homem misterioso era Kanon, todos ficaram estupefatos, pois já ouviram as façanhas do cavaleiro dos cabelos azuis, que virou versos nos cânticos tradicionais, e as pessoas o viam como um herói enviado de Athena para que protegesse as pessoas. Um homem que era tão digno assim como Aioros, sendo que este era muito amado pelas pessoas de todas as proximidades do santuário, inclusive as crianças.

O cavaleiro renegado riu.

— Ignorantes! Estão sempre esperando por um deus ou por um herói, qualquer um que apareça aqui e que exponha sua força já fazem parte de sua idolatria. Rapaz do cabelo azul! Hércules, ou Aquiles moderno, escute bem, eu não tenho medo de você! – esbravejou a todos ali presentes.

E sem hesitar foi em direção do seu oponente, suas pernas eram fortes, e tinha muita velocidade. E Kanon respondeu em posição de ataque concentrando o seu cosmo. No meio do caminho o cavaleiro, há uma velocidade considerável pausou e lançou um golpe contra Kanon, este cruza os braços em uma brilhante defensiva, de olhos fechados queimando o cosmo, sentindo o ódio de seu oponente. Aquele golpe foi contido, mas para segurá-lo seu corpo arrastou-se um pouco para trás. E o cavaleiro continuava correndo em sua direção. E desta vez Kanon o contra-atacou com a mesma ação, concentrou-se e numa velocidade e correu contra seu adversário, iriam chocar-se, a cada passo de ambos no chão este ia se abrindo em erosão, pedregulhos voavam pelo ar, era possível sentir a força concentrada ali, e todos que estavam presentes nem pestanejavam com a luta.

Enquanto o cavaleiro se aproximava com um soco, a poucos milímetros, do dedo indicador de Kanon desferiu uma fina linha de luz com a força de um raio, mas ninguém ali percebeu, e quiçá o seu oponente, no meio do contra golpe ambos se ultrapassaram como se o ar os tivessem cortado, e Kanon sentiu ferir-se afinal não tinha uma armadura que o protegesse, e os dois ficaram paralisados um de costa para o outro, as pessoas estavam com o coração palpitando e os olhos fixos na luta, afinal esta era força de um cavaleiro de Athena. O cavaleiro renegado estava estático de joelhos apoiando em uma das pernas dobradas, as veias de sua córnea ocular estavam dilatadas, o corpo em um leve espasmo, a boca enrijecia-se de raiva, afinal que ponto aquele homem lhe atingiu que ao menos ele não pode se defender?

Kanon continuou caminhando, desta vez entre as pessoas que abriram um corredor para que ele distancia-se, Laio mesmo ferido estava de pé, admirado com aquela luta, não iria reclamar de seus ferimentos, sentia-se um covarde diante da força e imponência daquele misterioso cavaleiro de Athena. As pessoas os examinavam dos pés a cabeça assombrado, e Kanon caminhava majéstico.

Entretanto o cavaleiro renegado não se dava por vencido diante daquela humilhação, fechou os punhos com raiva, e o olhou colérico pelos ombros o seu desdém, foi desonrado e vencido diante daquele povo, e com o mínimo de força que lhe restava tentaria o contra atacar pelas costas, abruptamente com os olhos dilatados furiosos, correu como um vulto na direção de Kanon ouviu apenas um grito, o corpo paralisado em espasmos com o braço estendido tentando tocar os cabelos de Kanon, os dedos contraíram-se exprimindo sua dor, era o fim, o golpe desferido pelo cavaleiro de Athena foi mortal. O cavaleiro foi ao chão derrotado, sem poder exprimir nenhuma palavra.

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OS DEDOS DEDILHAVAM DELICADAMENTE as cordas da harpa, em um suave acorde que se confundia com a lírica dos deuses, realmente Gaios tinha esse dom de dissuadir através de sua melodia que alterava o estado de consciência, uma lira que as notas iam aumentando a cada instante, mudando a atmosfera do ambiente como se estivesse vagando no universo, seus olhos por vezes abriam exibindo um brilho fantasmagórico, ele tocava o instrumento em pé, trajava vestes brancas, o cabelo acinzentado era longo que lhe delineavam suas costas robusta, o mestre aproximava majestoso, sem fazer um ruído se quer, surgia entre as colunas colossais do templo, entre eles distante a estátua de Athena os observava como testemunha. Mas aquela música penetrava no âmago do grão mestre, enquanto Gaios deslizava os dedos em frenesi nas cordas do instrumento, o mestre interceptou o som apenas com a mente, as cordas se tornaram rígidas, o encanto dissipou-se no éter, e Gaios abriu os olhos, sentindo a força do mestre, e o olhou pela distância entre as cordas, parecia que os olhos daquele velho cavaleiro se tornaram prateados em possessão da melodia olimpiana.

— Incrível! Derrotou minha lira com sua mente, realmente é um homem grandioso.

Mesmo trajando uma máscara que lhe ocultava o rosto, o mestre Shion deu um sorriso abafado:

— Mesmo com sua idade avançada ainda é um cavaleiro perigoso, poucos homens neste santuário tem o poder de conter a força de um selo com a sua própria mente, e você é um desses homens.

— Este mesmo cavaleiro que falas em tom de glória, é o mesmo que padece dia após dia, sou esmagado pela força deste selo, que consome minha existência, não posso mais ser a sentinela do mar. A força deste deus está me matando – confessou Gaios com um olhar espectral. Ah Shion, liberte-me de tudo isso! Athena ainda não está entre nós, e o que poderá fazer enquanto a deusa ser apenas uma criança! Sou um cavaleiro descrente, eu olho para o santuário como se a qualquer momento aquele relógio explodisse em chamas, e eu aqui apenas um velho decrépito sem forças para lutar. Somente os cavaleiros de ouro são a esperança do santuário.

O mestre deu de ombros.

— Está enganado...

— O que quer dizer? Você fala por Athena?

Fez-se um silêncio.

— Gaios, desde a última guerra santa Athena deixou um mensagem para todos os seus cavaleiros, e eu confio em todas as suas palavras, o poder da deusa está além de seu tempo. A sua penitência é lutar contra os espectros que tem dentro de você, não posso impedir que o selo se rompa infelizmente, tudo esta nas mãos de Athena.

— O que quer dizer com penitência? Eu recebi o perdão de Athena, lutei ao lado dela tanto como você Shion, estas vestes divinas que cobrem o seu corpo poderiam ser minhas, ou de qualquer outro cavaleiro, todos nós somos fiéis ao pacto de justiça! – exasperou Gaios pela primeira vez.

O mestre foi em direção a Gaios humildemente, a aura daquele ambiente parecia conflituosa, e Shion conhecia bem aquele homem, a idade o deixava imprevisto, além disso, sentia um grande respeito pelos seus feitos. Ficaram frente a frente, tinham quase a mesma altura, e num gesto de decoro Shion retirou a máscara que lhe ocultava o rosto, exibindo a sua avançada idade. Havia entre eles a igualdade do tempo:

— Perdão, meu amigo. Se alguma palavra me pareceu ríspida não foi a minha intenção. Eu não sou mensageiro de Athena, pois a deusa fala com todos os corações de seus cavaleiros através de seus respectivos cosmos. A minha missão é demasiado solitária, assim como a sua, manter a ordem e proteção deste santuário com minha vida. Mas todos nós conhecemos os intuitos da deusa, que mesmo não estando entre nós devem ser seguidas fielmente. Sinto muito não poder libertá-lo, está além de minha condição. Só Athena o pode fazer.

Gaios permanecia rígido e com o olhar nada amigável.

— Preciso falar com a deusa, permita-me seguir até Star Hill! Meus presságios são os piores.

O mestre abaixou a cabeça meneando negativamente.

— Impossível..

Entre as colunas sob a penumbra, Saga estava furtivo escutando toda a conversa, angustiado enquanto aqueles dois homens importantes argumentavam um contra o outro sem alterar o tom de voz, e naquele momento Saga deu voz a seus pensamentos, realmente seu irmão tinha toda a razão, havia algo que estava além de sua compreensão, seu tutor parecia ter mágoa do grão mestre mas não conseguia entender os motivos. Saga disparou a correr no meio da escuridão, e sentia-se perdido naquele palácio, era o entardecer e as luzes iluminavam os corredores do templo de forma tênue, correu tanto que se deparou com um jardim ao lado de fora do templo, era um belo lugar onde podia vislumbrar o crepúsculo, o céu mudava o seu tom, o sol rumo ao poente entre as nuvens coloria o céu em tom laranja, essa luz iluminava o lago daquele jardim, ao redor deste lago havia colunas em arco, e diversas estátuas que ornamentavam a sua margem, algumas tinham aspectos de guerreiros, outras pareciam sacerdotisas de Athena. Saga sentou-se aos pés de uma estátua, sua mente estava imersa numa mixórdia de pensamentos, imagens oníricas da sua infância difundia-se com o seu treinamento, frases soltas de seu irmão percorriam como em eco constante na sua mente, colocava as mãos na cabeça desesperado com tudo aquilo que acabou de ver e ouvir, seus olhos dilatavam para um tom avermelhado e sua respiração começava a ficar ofegante, Saga estava curvado ao chão sozinho e despeitado. Entre as colunas, distante próximo a uma estátua de um guerreiro segurando um escudo e uma espada, sob a sombra de uma oliveira, um jovem rapaz de alta estatura o observava de braços cruzados encostado numa coluna, tinha o rosto pálido, os olhos escuros pequenos, e o semblante denotava mistério e muita seriedade.