Cosmos.
11 O desafio de Aioria
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O treinamento era árduo, a paisagem de Thera parece que vivia imersa sob pesadas nuvens acinzentadas, diziam que na ilha havia um vulcão adormecido, e que o seu despertar tragaria o santuário para sempre. Mas, oh! a sagrada deusa Athena, sempre do lado dos homens e da humanidade, em meio ao julgamento dos deuses, selou a paz naquele lugar e nomeou um de seus cavaleiros de confiança para fazer a sua sentinela. Porém, como poderia o seu cavaleiro de prata desertar, e se opor ao grão mestre e o santuário?
Homens corajosos treinavam constantemente, qualquer erro em seu treinamento poderiam custar as suas vidas. Muitos nem sequer reclamavam, davam o melhor de si. Afinal, Thera havia se transformado em um grande objetivo para todos ali presentes. Os comentários sobre o seu mestre eram diversos. Aquele cavaleiro de prata que com sua vida carregava o selo daquele lugar, foi um homem que lutara em outrora com os cavaleiros mais poderosos do santuário. Aioros, um grandioso cavaleiro de Athena caminhava ali no meio daqueles soldados aspirantes, ouvindo com atenção as opiniões se contradizendo, muitos compactuavam com a liderança do mestre em Thera, outros eram confiantes em dizer que a ilha estava sob uma pesada maldição dos deuses. O conhecimento de Aioros sobre a história daquele lugar era diminuto, mas sabia que seu irmão corria um sério perigo naquela região inóspita.
Um soldado trêmulo ao chão, contorcido em dor clamava por ajuda, mas ninguém se aproximava dele, os que não obtinham êxito em seu treinamento eram duramente desprezados entre eles. Contudo, o bondoso Aioros, quebrou tal regra e se aproximou do soldado, lhe dizendo palavras brandas, para que fosse forte em sua luta, dito isso tocou o homem e o fez ficar em pé. Todos ficaram atônitos, aquele homem simples que estava no meio deles, era um cavaleiro de Athena, sem dúvida.
Aioros levantou lentamente, como se naquele momento filetes de luz derramaram-se em meio às nuvens escuras do céu da ilha, sua cosmo energia era incrível, aquele homem transmitia paz. Aioros era a esperança, aquela que alguns ali perderam. E discursou com muita autoridade e todos solenemente prestaram atenção em suas palavras dignas.
— Thera pertence à Athena, revoltar contra o santuário é o mesmo que se opor a missão justa do Grão Mestre. Se, o ideal de Nicurgo não é compactuar com a justiça, então este líder não é um propagador da paz, e sim impõe seus objetivos pessoais acima da proposta da deusa, que é a busca da paz nesta terra, em que é o seu dever zelar. E nós, seus cavaleiros somos o instrumento da deusa para manter essa paz, os deuses, e todo o universo, nos escolheu, para servir a esse objetivo que a deusa tanto almeja.
Ouve-se um múrmuro de vozes em concordância, e outros discutiam para que suas vozes fossem ouvidas pelo cavaleiro de Athena, porém um dos homens fiéis à ilha discretamente saiu do local e foi relatar tal acontecimento para a senhora guardiã de Thera.
AIORIA ESTAVA COM OS PUNHOS FIRMES, prestes a sua energia explodir, mas desistiu de desferir seu golpe contra Kei, os camaradas da equipe seguraram Aioria por um lado e Kei, pois a todo custo queriam interromper aquela contenda inútil.
— Eu não tenho medo de ir até o Citeron, vencer essa batalha significa libertar as pessoas inocentes que estão nessa ilha, então eu o farei. Provarei a aquela mulher sobre a coragem dos cavaleiros de Athena. — Exclamou incisivo.
— Idiota! Deveria ir sozinho! Eu não sou seu amigo para compactuar com as suas missões. Você sabe o que é o Citeron? Tenho certeza que não sabe do perigo que o espreita! – redarguiu Kei furioso, enquanto os seus amigos o seguravam pelas costas.
Aioria soltou dos braços que o seguravam, transmitindo segurança em suas atitudes:
— Tudo bem Kei, você não é o meu amigo. Eu partirei sozinho, não sou um cavaleiro que teme o perigo.
Todos ali ficaram aflitos, Aioria estava decidido a partir sozinho.
— Somos uma equipe Kei, reveja suas atitudes! – interrompeu Kurazo pacientemente.
Kei cruzou os braços, indiferente.
— É, meu amigo Kurazo. Vejo que já fez à sua escolha. Todas as nossas batalhas juntos não tem importância, você está deslumbrado por um cavaleiro de Athena, e no mínimo trairá nosso mestre e partirá para o santuário.
— Estou sendo ponderado. É por isso que sou o capitão desta equipe. Afinal, a única pessoa que não tem sido confiável conosco nesses últimos tempos tem sido o nosso mestre. No fundo, nem Orin, e tampouco Iko compreendem a transformação desta ilha.
— O que disse Kurazo? Tirem as mãos de mim...– disse Kei cerrando os dentes. O mestre está nos traindo? Como pode dizer algo tão infame!
Kurazo deu de ombros com a conversa.
— É bem verdade que o mestre nunca teve uma boa relação com o santuário, porém, sempre foi fiel à sua missão com a ilha, mas agora...seus ideais parecem torpes, e não coincidem com a missão de Athena. Portanto, irei com Aioria em sua missão, pois acredito que assim estarei seguindo a justiça da deusa. – disse Kurazo, o que deixou a todos surpresos.
Houve um longo silêncio entre aqueles guerreiros, e por fim todos foram se juntando a Aioria, sem dizer uma palavra, o que deixou Kei furioso. E caminharam rumo a Citeron.
A estrada era um caminho sinuoso entre as montanhas, a paisagem era deslumbrante, porém demasiada perigosa, o calor aumentava, e o cansaço também, todos mal tinham água para saciar a sede, entretanto, continuavam firmes em seu propósito. E uma dúvida em mente: como era o Citeron?
Até então onde sabiam, era uma região inóspita e quente, onde um leão mitológico vivia sob um pesado sono, em tempos antigos naquele mesmo lugar, Hércules em uma de suas missões lutou com esse leão, diziam às lendas que, quem o vencesse, apoderava da força do leão. Aioria sentia intimidade com essas fábulas, e a todo custo iria ao encontro desta criatura em Citeron, não havia dúvida, era uma grande prova de seu crescimento como um cavaleiro, e sem perceber caminhava pensativo, como se Citeron fosse um chamado. Kurazo fez uma observação importante, que todos haviam esquecido. Aquela travessia conduzia a uma residência de um homem muito velho e misterioso, possivelmente teriam que lutar pela sobrevivência quando chegassem a este lugar, pois ninguém em Thera sabia a quem ele servia. Mas, uma coisa era fato, ele viveu no santuário, e o conhecia com muita autoridade, até mais que os próprios cavaleiros guardiões.
Ao chegarem a um caminho íngreme, entre as montanhas, um pássaro preto emitiu um canto, e aquilo deveras ser um mau presságio, todos ficaram atentos, parecia que se aproximaram de um lugar inóspito. E subitamente, nessa estrada, pedras gigantes rolavam perigosamente abaixo, como se alguém propositadamente tivesse lançado contra eles, alguém que tinha um propósito: matá-los.
Houve um grande desespero, e Kurazo ao lado de Aioria, pediu que concentrassem, pois impediriam que a primeira rocha os esmagassem, pois, havia uma segunda rocha gigantesca, rolando na mesma direção, com um intervalo mínimo. Aioria naquele instante crucial, lembrou-se dos ensinamentos de seu irmão, e concentrou a sua força, destruiria a primeira rocha e a segunda com a ajuda de Kurazo e os demais a conteria, esse era o seu plano. Mas não sabíamos o que podia acontecer.
A rocha gigantesca se aproxima com muita velocidade, todos estavam apreensivos, Aioria, em posição de ataque estendeu o braço esquerdo, enquanto concentrava uma força em seu punho direito, o medo encobria a face de todos, exceto Kurazo, que confiava na força de Aioria, não é à toa que ele denominava-se o cavaleiro de ‘leão’ e sem dúvida o era.
Dos punhos e corpo uma energia dourada queimou-se, Aioria estava pronto para desferir seu golpe, e num cálculo extremamente correto e minucioso, estendeu seu braço direito, inclinando seu corpo movimentando a pélvis em consonância, a força também sobrevinha de seu tronco. E no momento que a sua mão encostou-se à pedra, o cavaleiro de Athena berrou com uma força, parecia um rugido. E nesse instante a pedra explodiu em estilhaços que voaram contra todos que estavam logo atrás, dificultando a visão, poderiam dizer que o soco de Aioria logrou êxito. Mas não, a segunda rocha aproximava dele para esmagá-lo. E Kurazo, com a força violenta do golpe foi lançado para trás, em uma distância aonde jamais chegaria a tempo para ajudar Aioria a conter a velocidade descomunal da segunda rocha.
Mas o futuro cavaleiro de Leão se mostrou audaz, estendeu os dois braços, e segurou à rocha, sua força o fazia arrastar para traz, aquilo não era apenas a lei da física emanando, havia realmente uma energia a conduzindo para matá-los. Talvez fosse um mecanismo de proteção daquele local.
Aioria fazia muita força com seus músculos, no seu âmago sabia que não era forte como irmão e não dominava as suas técnicas, mas faria o que lhe era possível para que seus amigos não morressem. Foi então que naquele instante crucial, uma mão segurou a rocha com muita força, e o ajudou a empurrar adiante. Era a única maneira de sobreviver, conter a força contrária subindo aquela estrada. Aioria, fazia tanta força que não conseguia olhar para o lado, imaginava que era Kurazo, o ajudando, mas para seu assombro, era Kei!
— Vamos Aioria empurre com força! Não há outra maneira de passar por essa prova; estamos passando pela condenação de Sísifo!
Os dois usaram a sua força para subir com aquela pedra amaldiçoada por todo o caminho íngreme, os demais do grupo foram em auxílio, contudo Kurazo estende o braço intervindo. Naquele momento, era o início de uma grande amizade entre Aioria e o irascível Kei, em meio a um árduo trabalho de sobrevivência.
A vitória era deslumbrante, os dois rapazes com suas forças, empurravam uma enorme rocha, enquanto isso um pássaro negro visualiza novamente toda aquela cena e desparece na névoa. Ao conter rocha ambos se exaurem em forças, Aioria fica de joelhos ao chão arfando, e nesse instante, uma mão é estendida até ele. Kei o olhando fixamente, em um ato cortês, estende o braço gentilmente, e Aioria aperta-lhe a sua mão com força, uma amizade ali é selada. Definitivamente Aioria foi aceito em Thera.
AIOROS AINDA DISPUNHA DE SEUS DISCURSOS INFLAMADOS SOBRE JUSTIÇA, porém montada em cima de um cavalo negro surge Orin, à medida que cavalgava os homens faziam uma abertura para que a guardiã de alta patente da ilha atravessasse, em direção a Aioros, que naquele momento parecia incitar que todos se rebelassem.
De forma majestosa Orin desce de seu corcel negro em autoridade:
— Há alguém neste lugar que discorde das leis desta ilha? Se sim! Está disposto a me enfrentar? Eu sou a guardiã deste lugar, somente eu permito a saída e entrada de pessoas neste território. Chegou-me informações de que há alguém, incitando uma insurreição entre vocês, então solicito que venhas até a mim e me enfrente com as suas verborragias!
Fez-se um silêncio, que era sinônimo de medo.
No meio de uma multidão de homens, Aioros caminha até Orin, com muita altivez, os homens o observavam com admiração, por onde ele passava alguns faziam uma mesura, e o caminho era aberto, para que ele fosse em direção à dama de Thera.
— O homem que incita a verdade entres estes guerreiros, sou eu, Aioros, um cavaleiro de Athena - disse com muita firmeza.
Orin o olhou incisivamente no fundo dos olhos.
— Então o santuário envia um de seus cavaleiros para um complô contra a ilha?
— Estou aqui para uma reunião com o mestre desta ilha...
— Impossível, ninguém tem autorização para recebê-lo!
— Mas eu tenho, a autorização de Athena...
— Nesta ilha Athena não tem poder nenhum! Nem a deusa e muito menos o grão mestre! Aioros? Sabe qual é a punição para os que adentram a ilha sem autorização?...A morte!- dito isso Orin tocou a Naguinata com suavidade, percorrendo seus dedos na lança.
Aioros atravessou ao lado de Orin e deu lhe às costas, desprezando a sua presença, e a amazona sentiu-se profundamente humilhada.
— Não, eu não vou lutar com você...— determinou o cavaleiro de sagitário.
Foi um escárnio geral entre os homens da ilha que eram comandados pela amazona.
Orin cerrou os punhos, furiosa:
— O seu destino é o mesmo que o do cavaleiro aspirante de Athena que fora rumo a Citeron!
Aioros a olhou pelos ombros, e fechou os olhos, compreendendo o significado daquelas palavras.
— Então partirei a Citeron...
— Não é simplesmente “partir” é uma questão de sobrevivência! De fato cavaleiro, creio que não sejamos oponentes, não quero lutar contra um mensageiro do Grão Mestre, não seria cortês de minha parte, contudo, veja bem, as provações desta ilha são independentes de mim! Aqui reside almas de titãs, se você quiser sobreviver fará por você mesmo! – Aconselhou Orin.
No momento em que Aioros colocou um de seus pés passo a frente, alguém em meio aos homens corria em sua direção, vestia uma capa escura, ao se aproximar de Orin, ajoelhou pedindo autorização para que seguisse ao lado de seu “mestre”. Aioros ficou atônito e virou-se para trás, aquela voz era conhecida, Petros!
Ajoelhado aos pés da amazona, o aspirante guerreiro proferiu:
— É meu dever acompanhar o meu mestre em sua missão, e conduzi-lo com minha vida se este é o meu fado...
— O quê! Mais um cavaleiro de Athena! O que está acontecendo aqui? Não! Eu não permitirei este complô nas costas de meu mestre, você não passará! – dito isso ergueu a sua lança em posição de ataque.
— Orin está furiosa! Quando ela inclina sua lança em riste ao chão, sua feição lembra os samurais da Era Heian, é um sinal de combate!— murmurou alguns soldados ali presentes.
— Aioros não deveria subestimar a mestre da Naguinata! Orin vem de um clã tradicional do Japão, tê-la como aliada conduzindo nossa ilha é de valor inestimável! – ponderou outros.
Petros levantou-se, pronto para a batalha, e ambos se entreolharam, e com a lança em riste, Orin passou a queimar o seu cosmo, estava decidida a matar aquele intruso, pois essa era a regra, ou juntava-se a ilha e suas provas, ou a morte.
Aioros se entrepôs no caminho, conhecia a fama de Orin, sabia que provavelmente uma luta contra Petros seria cruel.
— Orin! Pare com essa covardia! É apenas um criado...se você quer lutar contra alguém que eu seja o seu oponente, ou você tem medo de me enfrentar?
Ambos ficaram cara a cara, com os olhos fixos, e por fim Orin desistiu. Mas, advertiu severamente mais uma vez, que a ilha tinha poderes que estava além do controle de seu mestre, haveria lugares naquele local que nem o cosmo de Athena poderia intervir, então se ousarem enveredar por este caminho, saiba que o adversário não será ela, e sim o fluxo do espírito dos guerreiros que jazem naquela ilha. Naquele momento Aioros e Petros caminharam, se retirando para longe, rumo à missão que lhe foi cofiado. De longe, Orin exclama:
— Aioros!
Aioros olha pelos ombros, e Petros pausa os passos o acompanhando:
— Aqui provará a si mesmo se é realmente um homem digno de ser chamado de cavaleiro, foram quase às mesmas palavras que disse ao jovem garotinho que se intitulava “leão”, o seu discípulo, boas vindas ao inferno!– dito isso montou em seu corcel, e cavalgou para longe com o seu séquito.
Contudo algo a intrigava naquele jovem rapaz que acompanhava Aioros, Orin sentiu uma cosmo energia misteriosa dentro de sua alma, porém não conseguia decodificar o que poderia ser.
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