Corvette Country
1 22 - Parte I
Notas iniciais
Dallas, Texas.
8 de Julho de 2016, 08:45PM
O dia de seu aniversário chegava ao fim, e se passara exatamente como todos os outros dias do último mês: sentado ao lado de Mack, monitorando telas de computadores, lendo aos jornais e assistindo ao noticiário na TV atrás de algum sinal de Skye — ou Daisy, como ela gostava de ser chamada nos últimos meses. Quando a noite caíra e o agora ex diretor da SHIELD deu-se por cansado, Mack desligara todos os monitores e passara a digitar algumas mensagens no celular e poucos minutos depois, dirigiu-se a Coulson.
— Você fica bem se eu te deixar sozinho hoje? — o agente perguntou, e Phil olhou-o em interrogação — Yoyo disse que pegou carona num quinjet e daqui uma hora chega aqui em Dallas — ele explicou e o superior fez um sinal de entendimento
— Sem problemas Mack — garantiu e esse foi o sinal verde para que o agente se empolgasse. Em um minuto, ele saiu da sala de estar da pequena casa que estava dividindo provisoriamente com o outro agente e enfiou-se no banho. Sem que percebesse, Phil sorrira pela felicidade do mais jovem, que mesmo no meio de tanto caos, encontrara alguém para compartilhar alguns momentos de tranquilidade.
Meia hora depois, Mack estava de banho tomado, perfumado e pronto para sair, e depois de perguntar dez vezes se Phil ficaria bem sozinho, ele saiu pela porta da frente, subiu em sua moto e acelerou para encontrar sua namorada. “Sozinho no dia do meu aniversário, a que ponto eu cheguei?”, o homem mais velho se perguntou assim que viu-se só. No modo automático, ele arrastou até o banheiro, onde despiu-se e entrou debaixo de um jato morno de água. Havia uma época em sua vida que Phil Coulson odiava todas as coisas mornas. Banho morno, bebida morna, conversas mornas, pessoas mornas. Ele gostava de seu banho quente, sua bebida trincando de gelada, conversas que pegavam fogo e pessoas escaldantes. Mas agora, coisas mornas significavam um certo conforto. Coisas mornas significavam que a situação ainda não havia chegado a seus pontos críticos. Coisas mornas ainda podiam ser concertadas. Durante seu banho, havia um peso em seu peito que podia ser descrito como nervosismo, ou ansiedade, mas ele sabia que era muito mais que isso. Era desespero por estar há meses procurando por Skye — “é Daisy agora”, ele continuava a repetir para si mesmo -, encontrando um beco sem saída a cada curva. Era saudades da menina, que para ele era sua filha. Era saudades de casa — sua base subterrânea, escura, mal ventilada, muitas vezes empoeirada e com uma comida terrível, mas mesmo assim, sua casa. Era o pânico de não ser mais diretor, a apreensão de entregar todo o seu trabalho nas mãos de um homem que ele mal conhecia e muito menos confiava. Era saudades das pessoas que ele amava, e das coisas que ele havia deixado pra trás. Saudades de FitzSimmons, com suas conversas complicadas e suas tentativas falhas de esconderem seu relacionamento. Saudades de Bobbi e Hunter, que haviam ido embora muito antes de todo esse caos, mas que faziam falta todos os dias de sua vida. Era a falta angustiante que Melinda fazia em sua vida, e de como doía em seu peito saber que ela estava em um centro de treinamento de novas recrutas, em algum buraco em Minnesota, e não no campo, como ela amava fazer, e só porque ele pedira para ela não assumir nenhum risco desnecessário. Por Deus, era falta até de seu carro. Sua Lola, que em muitos momentos fora sua única companhia, e que agora não podia nem se dar o luxo de tê-la por perto. “Seria tão mais fácil se você estivesse aqui”, ele pensou, lembrando-se de todos os bons momentos que vivera com ou naquele carro. Com a cabeça em baixo do jato forte de água do chuveiro, ele fechou os olhos, e deixou, por um instante, ser levado por uma memória antiga, leve e saudosa.
Academia de Operações da S.H.I.E.L.D.
8 de julho de 1986, 4:58PM
Era o fim de sua última aula do dia, e praticamente, o fim de uma de suas últimas aulas na Academia, e também, o dia de seu aniversário, e o jovem Phil Coulson não podia estar mais feliz.
— Eu espero que vocês estejam prontos para o último teste na semana que vem, porque ele vai definir se vocês estão ou não prontos para se tornarem agentes de campo — o professor Sousa disse com sua voz suave de sempre e trocou o peso do corpo, apoiando-se em sua perna protética — E por agora, eu espero que vocês aproveitem o resto da semana de folga — concluiu e sorriu para seus alunos, que se levantaram rapidamente e em poucos minutos esvaziaram a sala. Phil foi um dos últimos a se levantar, pois atrapalhara-se com suas anotações, e caminhava em direção a porta quando o professor chamou-o — Senhor Coulson!
— Sim, professor — o jovem respondeu, voltando até a mesa do professor.
— Eu ouvi dizer que hoje é seu aniversário — o homem comentou — Parabéns meu jovem — desejou com a voz calorosa e o recruta sorriu, lisonjeado.
— Muito obrigado senhor! — respondeu, e os dois trocaram um aperto de mãos, antes do jovem sair da sala. Olhando no relógio, ele percebeu que estava quase atrasado para encontrar sua melhor amiga, e apressou-se no corredor muito comprido. Quando finalmente alcançou as portas duplas que davam para o pátio, ele olhou em volta a procura da mulher. Supostamente ela deveria estar ao leste da saída, como sempre, com suas roupas pretas e botas compridas, sentada em sua Harley Davidson reformada, com uma cara entediada, esperando-o para ir embora, mas nesse dia, ela o surpreendeu. Melinda May usava um vestido de cores claras, simples, mas diferente de tudo o que ela já vestira, e estava encostada em um carro vermelho, conversível e muito extravagante. Por um minuto, o jovem ficou sem fôlego, antes de vê-la sorrindo para ele, o que o fez apressar-se para descer a escadaria e andar a seu encontro.
— Feliz aniversário — ela disse com um sorriso largo e ele estava um pouco sem palavras.
— Hm… Obrigado — ele respondeu, surpreso consigo mesmo por estar sem palavras. Ele nunca ficava assim com sua amiga.
— O que você acha? — ela perguntou, apontando para o carro, e ele analisou-o. Um Corvette 1962 vermelho, com os bancos de couro em perfeito estado, o volante grande e a pintura impecável. Impecável demais para ser tão antigo.
— É lindo — ele respondeu sinceramente — Desistiu de motos? — ele perguntou com um tom de brincadeira e ela deu uma risada.
— Phil, você me conhece muito bem, por que eu desistiria de motos? — ela rebateu e revirou os olhos.
— Se não desistiu da sua moto, então por que comprou um carro? — questionou, ainda com o suave tom de brincadeira, e ela enfiou a mão no banco dianteiro do carro, tirando de lá as chaves do carro.
— Porque não é pra mim — respondeu e no segundo seguinte, estendeu a chave para o amigo, que olhou-a sem entender — Feliz aniversário — ela repetiu e ele piscou várias vezes, sem entender o que estava acontecendo — Phil, por favor, fala alguma coisa — pediu, quando após vários minutos, ele permanecera imóvel, piscando como um idiota.
— Você comprou um carro pra mim? — ele perguntou, completamente pasmo.
— Phil, não é como se eu tivesse te dando uma Ferrari — ela disse simplesmente — E ele é usado… E muito velho, eu tive que mexer no motor, e reformar tudo … — a chinesa começou a justificar-se, mas foi rapidamente interrompida pelo amigo, que puxou-a para um abraço apertado que levantou-a do chão.
— Muito obrigada Melinda — ele agradeceu, legitimamente emocionado e agradecido, praticamente a beira das lágrimas, e a garota ria.
— Para com isso Phil! Você sabe que eu só tô te dando um carro pra você parar de me encher o saco quando a gente vai sair — comentou e mordeu o lábio inferior, reprimindo um sorriso, quando ele levantou-a novamente e a girou.
— Não interessa o que você diga, você me deu um carro — rebateu e colocou-a no chão — E eu não tenho culpa por ficar nervoso quando saio com você! Você pilota aquela moto como se estivesse fugindo de alguém — defendeu-se e ela riu, dando a volta no carro para saltar a porta do lado do carona.
— Não é nervoso Phil, é medo mesmo — provocou e ele revirou os olhos, antes de abrir a porta e sentar-se no banco do motorista. Após alguns segundos sentindo o volante sobre seus dedos, ele girou a chave na ignição e sentiu o motor vir a vida.
— Uma dica, liga o rádio — ela sugeriu e olhou- com expectativa, enquanto ele girava o botão de On/Off do toca fita, que no segundo seguinte acendeu e começou a executar a primeira faixa da mixtape especial que Melinda fizera: Piece of my heart.
— Eu já disse hoje que eu te amo? — ele perguntou com uma risada ao ouvir a voz de Janis e a chinesa só revirou os olhos.
— Cala a boca Philip, e bota esse carro pra rodar — pediu e sem hesitar, ele obedeceu, acelerando seu belo Corvette para longe do campus.
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