Cortinas Vermelhas
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
Boa leitura!
Cortinas Vermelhas.
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Catalina não imaginava que iria ser chamada (de seu camarim, muito bem, obrigada) quando só faltavam vinte minutos para o concerto.
Claro que ela esbanjava orgulho e felicidade por, em seus plenos 24 anos, tocar como primeiro violino numa das orquestras mais conceituadas do mundo: Chicago. Para muitos outros musicistas do mundo inteiro, ela havia alcançado o ápice da música clássica.
Enquanto, calmamente, afinava seu violino – concentração; hn, esse lá me parece um sol sustenido; cordas duplas, violino afinado com sucesso –, Taiane – uma das pessoas que ela mais admirava dentro do local, e que já estava no primeiro oboé há um bom tempo – veio em sua direção, afoita e com a língua coçando. Taiane mexeu nos cabelos loiros encaracolados e franziu as sobrancelhas finas. O nariz torceu-se.
– Uma pessoa está a sua espera, Caty – disse com a voz ambígua. Deu um sorrisinho.
A violinista revirou os olhos, porque já sabia muito bem quem era. Com certeza, as pálpebras semicerradas, que revelavam apenas parte de seus olhos negros profundos e a boca franzida, mostravam claramente o seu descontentamento diante a visita inesperada.
– Diga que eu morri em uma explosão, por favor! – pediu.
Taiane bufou e sentou-se no banco onde a violinista estava se preparando para o concerto.
Catalina calmamente tirou o arco de seu case e puxou o breu de um pequeno estojo dentro dele. Destampou o potinho e mirou um pouco a substância escura e sólida. Observou a resina com cuidado... era fácil notar que a substância já fora usada em demasia – por causa do uso, já dava para ser ver o desenho da crina do arco.
Segurou pelos lados forrados e, suavemente, mas com vigor, esfregou-o para cima e para baixo ao longo do comprimento dos fios do arco – movimentos estes, repetidos três ou quatro vezes.
Oh, isso era tão irritante. Claro que se, para que obtivesse um desempenho melhor, não precisasse do breu – somente para que os fios ficassem rígidos – não se daria ao trabalho de realizar tal processo. Por exemplo, a tarefa terminou sujando-a com restos da substância.
Para o seu azar, o vestido era preto, e ela lembrava-se de ter separado-o na lavanderia semanas atrás.
Maldito breu, pensou Catalina, enquanto passava a mão pelos cabelos curtos.
– Ele já tinha previsto que você diria isso, então pediu para dizer que não irá sair daqui enquanto você não for falar consigo. – Taiane fez uma pausa... seus olhos começaram a brilhar. Virou-se para Catalina e segurou suas mãos firmemente. – Quem dera se eu tivesse alguém assim. Certamente que eu deixaria o oboé de lado e mandaria qualquer concerto natalino ou orquestra para os ares. – seus olhos desanimaram e seu rosto ficou vermelho. – Vá.
A oboísta, na verdade, não parecia muito feliz com o próprio emprego ou até mesmo instrumento.
Isso era ruim. Muito.
A violinista não estava nem um pouco contente com a visita indesejada. Mas decidiu recebe-la, para que, ao menos, desfrutasse de um pouco de paz. Para todo caso, de, por exemplo, de ser agarrada, levou o violino na mão esquerda, segurando-o pelo braço.
Uma ótima arma contra tarados.
Não pôde evitar uma risada abafada usando mão livre, e, a pouco menos de 4 metros, pôde avistar o Samuel e a sua maldita cabeleira negra. Ele sorriu para ela, não um sorriso de todos os dentes, mas um repuxar de lábios. O sorriso estava lá, não é mesmo? Uma simples curva e uma pequeníssima fenda, que mostrava pouco de seus dentes.
Oh, como Catalina odiava esse sorriso.
Maldito, pensou ela. Apertou um pouco mais o braço do violino. Samuel teve pena do pobre instrumento.
Pobre alma.
– Catalina. – chamou-a.
– Klein.
– Já fomos quase casados, Catalina. Por que a insistência em me chamar pelo sobrenome e não por Samuel, então? – a voz debochada. Uma veia surgiu na testa da mulher.
– Ainda bem que fugi antes de cometer essa loucura, concorda? – retrucou.
Sobre isso, ninguém esperava pelo episódio de fuga.
Samuel, mais precisamente, não esperava.
Quem diria que Catalina, de uma hora para outra, desistiria de casar quando faltavam apenas dez minutos para sua chegada na igreja? Na cabeça dos convidados – que eram muitos, em sua opinião – isso não haveria de ser sequer chegado a virar um pensamento.
Claro, todo mundo ficou chocado.
Seu pai ficou chocado – afinal de contas, no casamento de sua única filha, o homem tinha insistido em pagar desde o vestido da noiva até o último bem casado da festa. O homem, já velho, quase que teve um ataque do coração com o ocorrido inesperado.
Foi uma terrível fenda em sua carteira, que provavelmente demoraria anos para regenerar-se.
Catalina – com toda a sua pose de pessoa que não dá a mínima pra nada – pensou: “Quis pagar, agora aguente o prejuízo.”
– O que você veio fazer aqui? – perguntou com a voz seca e preparou o violino, para no caso de um ataque surpresa.
– Vim assistir o concerto – Catalina apertou com a mão livre o vestido negro e olhou-o, esperando por mais. Já estava pronta pra tacar-lhe o violino na cabeça, aguardou com calma sua deixa. – e ver a minha estupidamente adorada noiva tocar.
Ela semicerrou os olhos e falou, destilando veneno – Não sou sua noiva, Klein. Eu fugi no casamento. Eu te falei que não queria nada sério.
Oh, mulher difícil era aquela. Provavelmente teria de amarrá-la e colocá-la em uma mala para que pudessem casar.
Por esse motivo, não se abalou tanto. E vamos fingir que ele não ficou frustrado por um determinado tempo. Afinal, não queremos ninguém constrangido ou envergonhado aqui, não é?
Isso nunca.
– Já disse que não quero compromisso, Klein.
– É muito normal uma pessoa casar-se com a pessoa que ela ama. Você me ama e eu te amo.
Bem, só que, no caso, eu não sou uma pessoa normal.
– Quem disse que eu te amo? – ela corou e apertou com força demais o violino.
Pobre instrumento.
Ele aproximou-se perigosamente da violinista e roubou-lhe os lábios. Depositou a mão em seu ombro, para que ela não fugisse, e acariciou-a com língua. Catalina fechou os olhos e soltou o instrumento.
Coitado.
O violino caiu no chão com um baque surdo; pelo impacto, o cavalete voou longe.
Bem, Catalina soube imediatamente que o violino precisaria visitar um luthier. Agora, entretanto, isso não era problema, porque ela aproveitaria com todo o coração o beijo de seu futuro marido.
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