Correr E Esconder

1 Capítulo único.


Notas iniciais
Espero que gostem ♥ De verdade.

Correr e esconder

Você não sabe que está apaixonado até se forçar a fazer algo que até então considerava impossível, e jura estar fazendo isso por uma boa causa.

Eu juro que estou fazendo isso por uma boa causa.

Minhas mãos estavam geladas e meus dedos não dobravam. Nós estávamos ali, ambos com os dígitos congelando, e mesmo assim não demos as mãos. Você sabe que essa pessoa sequer cogita corresponder seu amor quando ela não dá a mínima para você.

John não dava a mínima para mim ou para minhas boas causas.

Para ser sincera, eu não sei se John realmente se importava com alguma coisa. Acho que era por isso que nossas mãos estavam sofrendo com a temperatura baixa e não fazíamos nada. Ele, porque não ligava, eu, porque não tinha coragem.

Aliás, eu nunca tinha coragem de fazer nada quando o assunto era John e juro que tinha uma boa causa para isso também.

“Não está sentindo frio?” Ele perguntou com um tom de preocupação. Meu coração segurou uma batida.

“Não sinto meus dedos” Eu respondi sincera. John se aproximou, e eu quase podia sentir o calor de suas roupas. Ele não se se encostou a mim. Eu não reclamei.

“Estamos quase chegando”

O silêncio voltou a fazer sentido. Todas as vezes que ele falava, eu me sentia mal de alguma forma. Na maioria das vezes, minha respiração parecia querer acabar, e uma angústia desconhecida preenchia meus pulmões até o ar voltar. Inspira, expira. Aí ele se cala, e eu peço por mais. Eu amo ouvir o tom da sua voz e, por mais que me doa na alma, eu prefiro tê-lo desse modo a me perder em memórias.

Não sei se tinha um bom motivo para isso.

Continuamos andando na rua vazia. A madrugada gelada estava extremamente escura, e eu me perguntei quantas horas eram. Meus pés doíam, e o cheiro de bebida ainda estava impregnado em mim. Estávamos voltando de uma festa qualquer a qual eu havia o chamado, como era de costume de fazermos no sábado pela madrugada.

“Nós não estamos chegando” Eu expus a realidade. Ele deu um meio sorriso sem graça, como se sua esperança tivesse sido acabada com minha última sentença.

Estávamos longe de casa, tanto eu, quanto John. O único lugar que nos aguardava e estava por perto, era a estação de metrô. Eu sequer sabia se o metrô funcionava de madrugada. Eu sequer sabia quantas horas eram. Suspirei com força, e minha expiração fez o ar demonstrar-se frio – uma fumaça divertida se formou em minha frente.

Nós não conversamos mais depois disso, e eu meio que sabia o porquê.

John odiava tudo o que eu fazia.

Eu não o culpava por isso. Eu não era uma pessoa muito certa, apesar de tudo.

Haviam derramado alguma bebida alcoólica bem forte em mim e molhado minha meia calça preferida com um cheiro que eu detestava, mas eu sabia que John só podia sentir o cheiro da droga quando chegava perto de mim. Ele não me viu tomar nada, mas sabia que eu havia usado pelo simples fato de ser eu. E se querem saber, eu realmente usei. Eu sabia que ele não me suportava depois de todas as festas. Mas eu continuava o levando para todas.

Nós somos adolescentes, afinal. Acho que isso bastava, ou no mínimo, esperava que sim.

Eu já havia me acostumado com seu jeito de me tratar há bastante tempo. Ele ignorava minhas dores e me culpava por minhas conseqüências. Eu buscava sua atenção e agonizava sua existência.

Era como se estivéssemos brincando de correr e esconder. Como se eu estivesse sempre correndo e ele sempre escondendo.

O meu bom motivo? Não tenho certeza. Acho que eu comecei a correr quando percebi que o amava. Acho que estou correndo até hoje. Querem uma boa dica? Não acho que amor seja uma boa causa para nada. Não é uma boa justificativa para o modo que eu fingia viver, mas eu deixava desse modo.

Porque não importa o quanto eu corra, John sempre estaria escondido.

Escondido atrás de minhas desculpas, em cima de meus problemas. John estava escondido dentro de minhas festas. Ele estava escondido bem debaixo de meu nariz, mas eu não poderia fazer nada em relação a isso.

Voltei a usar drogas depois que o conheci. Seus olhos azuis me entorpeceram e fizeram minhas pernas bambearem. Quando ele me tocou com um simples cumprimento, eu percebi que queria cada vez mais disso. Sua voz grave me fez esquecer toda minha tristeza por algum tempo e sua risada derramou a realidade, deixando-me depressiva de novo.

Foi então que eu percebi que ele não se importava nem um pouco comigo. Não me julguem errado. Eu não me perco porque sofri de um amor não correspondido. Eu me mato aos poucos por perceber que qualquer droga seria menos letal que John.

John para mim era uma droga. John odiava drogas.

Nós chegamos à estação de metrô. Parecia estar mais frio ali. Eu amava frio, mas minhas roupas eram finas de mais para agüentar a chegada do inverno. Eu sentei em um banco sujo qualquer. Ele continuou de pé.

Ele detestava como eu não ligava para a maioria das coisas e como eu levava minha vida; detestava o modo como minha infelicidade me carregava. Ele detestava minhas pupilas gigantes e o gosto de LSD. John detestava ver que eu estava magra de mais. Detestava o modo como eu estava sempre remoendo meus problemas ou gritando minhas músicas preferidas (que ele odiava também). Ele detestava todas as festas e a minha rua. Ele detestava minha melhor amiga e minha escola.

John me detestava, e tentava inutilmente esconder isso.

Porque por mais que ele me odeie e me julgue desnecessária, ele estava lá. E o único bom motivo que eu via para isso, é que ele tentava esconder de si mesmo o quanto ele me repugnava, como se os caminhos certos estivessem ali em frente. Como se estivesse tentando me consertar.

O metrô estava chegando. Eu ouvi seu barulho de longe, e o reconheci fácil. Levantei-me com pressa, um tanto quanto nervosa. Olhei para John. Seus olhos azuis me fitavam com força.

Até um tempo atrás, eu considerava o suicídio algo impossível. Eu sempre aceitei as drogas e a sujeira para evitar esse tipo de ato. Sempre corria atrás de novas causas para fugir dessa realidade frágil que era forçar a própria morte. Eu dei uns passos para frente de John. Eu podia sentir seu olhar me empurrando, e doía.

Andei lentamente alguns passos. Ultrapassei a linha amarela que limitava o espaço seguro e o suicida. Suspirei – novamente a fumaça branca apareceu.

Seria um bom modo de morrer. Eu iria acabar com tudo que me incomodava e deixaria de incomodar John, e não precisava ter um bom motivo para isso.

Eu poderia acabar com todas as minhas boas causas e excluir minhas certezas. Poderia jogar para cima tudo o que quisesse, e ele não iria precisar mais se esconder. Nós iríamos acabar com essa brincadeirinha sem graça.

O metrô passou por mim. Eu não havia pulado. Não havia me despedido, não havia me matado.

Eu estava viva, e cheirando a álcool.

“Vamos, Sam” Ele me chamou ao ver a porta do metrô abrir. John entrou e fez um sinal breve com a mão, como se dissesse para me apressar. Eu dei ombros e entrei no vagão vazio. Sentei-me do seu lado. A janela do outro lado mostrava o amanhecer gelado.

Eu ainda estava com frio, e ainda me sentia mal por algo que sequer sei. Procurei por um bom motivo por ter ido de novo ao encontro de John dentro do primeiro metrô do dia.

E então, eu me lembrei do meu melhor motivo: Eu ainda estava correndo.

Notas finais
Comentários? ;-;
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!