Notas iniciais
Olá, olá! Editando isso aqui no dia seguinte, porque ainda tô aprendendo a mexer nesse novo Nyah!/Plusfiction. Essa one-shot é dedicada à minha amiga oculta, Oh Carol e faz parte do Projeto One-Shot Oculta 2024. Eu escolhi o combo 1, composto pela música Harleys in Hawaii da Katy Perry e uma imagem de um homem e uma mulher na praia, carregando pranchas de surf. A frase escolhida foi "ela era uma daquelas raras pessoas que tinham o que queriam e queriam o que tinham" e a característica é ter toque físico como linguagem do amor. Além das referências do combo, tentei fazer algumas referências a história dela e lendo por aqui, eu deixei linkado as fics dela. Carol (e pessoas que não são a Carol), espero muito que você goste! Boa leitura! p.s.: Berry, muito obrigada por segurar a minha mão nesse processo. Sem você essa história não teria saído

Oahu, Hawaii — Championship Tour

O mundo odeia pessoas confiantes demais. Quando se sabe que é bom no que faz, te chamam de arrogante ou egocêntrico. E se você for uma mulher confiante? Bem, aí é até pecado.

Eu sabia o quão boa era, lutava todos os dias para estar onde estava e sabia reconhecer meus talentos na água. A prova disso era o segundo ano consecutivo no ranking das melhores surfistas do mundo, fazendo o Championship Tour mais uma vez. Mesmo assim, eu evitava dizer com todas as letras que sabia que era uma boa surfista — não pegava bem — , o que era bom em momentos como aquele, porque até ótimos surfistas tinham dias ruins na água.

Era inverno no Havaí, o que significava que o clima estava perfeito. Uma chuva forte caiu durante toda a manhã, mas as nuvens foram embora e no início da competição, o céu estava tão limpo que não parecia que havia caído uma única gota de água do céu. O vento característico da estação formava ondas incríveis no mar azul e eu me sentia extremamente grata por estar ali, naquele lugar que amava.

Cada rodada da competição no surf era formada por um dia de baterias. No Championship Tour, a elite do surf mundial, as baterias femininas eram formadas por três surfistas, onde as duas primeiras colocadas iriam direto para a próxima fase e a terceira iria para a repescagem.

Estava na penúltima bateria com Jéssica e Lauren — Jess era uma surfista veterana incrível e uma boa amiga, enquanto Lauren tinha a minha idade, mas não era tão próxima —. Como eu tinha a preferência, remei e esperei por uma onda perfeita, mas quando achei que tinha encontrado, entrei no tempo errado e precisei me esforçar para fazer uma manobra decente. Jess e Lauren vieram em seguida, então foi a minha vez novamente e eu tentei fazer um floater, quando entrei no tempo errado de novo, uma manobra corrida onde a onda estava quebrando.

Compensei as duas primeiras manobras desleixadas, dando um bom impulso e pegando velocidade pra fazer um aero perfeito.

Quando saí da água, sabia o que tinha errado. Caius, meu treinador, provavelmente estava perto dos juízes, afoito pela minha nota e mantendo distância. Ele sabia que aquele não era o momento para comentar minha performance.

Emmett também sabia, mas como o irmão incrível que ele era, não esperou eu me aproximar o suficiente pra começar a falar:

— Você pegou a onda muito tarde e isso afetou seu equilíbrio, seu floater ficou desleixado.

— Eu sei — falei revirando os olhos.

Finquei minha prancha no chão, mas continuei em pé, olhando para Emm de cima e questionei:

— Você não devia estar se alongando? Você tá na primeira bateria e a competição feminina tá quase acabando.

— Quando você vai aprender que eu gosto de te ver competindo? — retrucou ele.

— Cara, me deixa em paz! — falei empurrando sua cabeça.

— Mamãe disse pra eu ficar de olho em você.

— Como se você obedecesse tudo o que nossos pais mandam — falei, revirando os olhos mais uma vez.

— Vai, chega de reclamar. Senta aí, você precisa se alongar de novo — mandou.

— Você é muito chato — reclamei, mas obedeci e sentei ao lado dele pra alongar.

— Seu aero estava perfeito — comentou espelhando minha posição com os braços inclinados para a esquerda.

— Eu sei — disse sorrindo.

Emmett era um pé no saco, mas ele também era uma das minhas pessoas favoritas do mundo e viver na estrada com meu irmão, fazendo o que amávamos, era realmente um privilégio. Eu era sua fã número um, mas também sua maior crítica, porque alguém precisava manter o ego gigantesco dele sob controle.

Tínhamos dividido equipamentos por anos, até termos dinheiro e patrocinadores para nos bancarmos sozinhos. Mas mesmo agora, com mais dinheiro do que poderíamos sonhar, dividimos algumas pessoas da equipe, incluindo minha melhor amiga.

— Emm, você não tá se esticando o suficiente. Vou bater uma foto e mandar pra instrutora de pilates de vocês — disse Rose se aproximando.

Eu levantei o corpo, que estava esticado, com uma das mãos tocando o pé e olhei pra cima.

Rose era minha melhor amiga desde criança, antes mesmo de irmos para escola, pois morávamos na mesma rua. Comecei a surfar ainda criança, deslumbrada pela água e pelas manobras com as aulas do pai de Rose — assim como Emmett —, e minha amiga veio no pacote, me acompanhando no mar ou esperando na beira da areia com algum livro.

No momento em que decidi seguir no surf profissional e perguntei se Rosalie queria ir comigo, ela não pensou duas vezes e o resto era história. Emmett tinha roubado o coração dela duas temporadas atrás e desde então ela dividia a atenção, mas eu sabia que ainda era sua Swan favorita.

Emm resmungou algo por causa do comentário e ela se abaixou pra ajudá-lo a esticar as costas.

— Bells, você não vai acreditar quem tá aqui no Havaí — disse Rose com a voz baixa, o exato tom de fofoca.

— Não sei, alguém famoso?

— Bem, sim, mais ou menos. Meio famoso no surf. Eu vou contar, porque você não vai adivinhar — falou rápido, mantendo o mesmo tom. — Edward Cullen.

— Não! Por essa ninguém esperava — comentei ajeitando a postura. — Ele não vai competir, né? O CT tá fechado desde o ano passado e ele não tem ranking para isso. Sério, se ele for competir pode trancar a WSL e jogar a chave fora, porque a credibilidade deles foi pro lixo.

— Não, ele tá listado como treinador da Victoria.

— Uau, ninguém esperava que ele fosse assumir o lugar do Carlisle depois dele ter ido embora — comentei.

— E ela nem falou pra ninguém — continuou Rose. — Mesmo que a Vic não fale com todo mundo, esse tipo de fofoca voa entre as equipes.

— Deve ter sido de última hora, certeza que foi difícil convencer o Edward a assumir o posto — comentou o Emmett.

Eu e Rose nos olhamos, segurando o riso. Era tão comum, mas ver meu irmão participando das nossas sessões de fofoca sempre me fazia rir.

— É, o Emm tem razão. Depois de tudo, não imaginava ouvir sobre o Edward relacionado ao surf nunca mais — comentei.

Edward Cullen vinha de um legado. Enquanto eu sentia que tinha começado tarde demais no surf e que meu nome ainda precisava ser construído, Edward estava na terceira geração de surfistas de sua família. Anthony Cullen havia sido campeão por anos, assim como seu filho Carlisle, pai de Edward e Victoria. Anthony se aposentou do surf com 40 anos, mas Carlisle sofreu um acidente de carro no auge da carreira e as sequelas desse acidente mudaram o equilíbrio dele na água. Todos comentavam sobre a tristeza que era sua aposentadoria precoce.

Quando Edward começou a competir, com 10 anos, não foi surpresa pra ninguém o quão natural ele era, estava em seu sangue. Ele era uma máquina de ganhar, parecia ainda mais promissor que seu avô e seu pai, o que o fez ganhar o apelido de filho de Poseidon. Competiu na WSL Junior até a idade limite, mas quando todos achavam que ele faria uma transição natural para o surf profissional, ele simplesmente parou de competir. Ninguém soube exatamente o porquê, já que ele desapareceu e não falou com ninguém sobre. Seu pai, apesar de continuar na mídia, não tocava no assunto e dizia estar focado em treinar Victoria, que era 8 anos mais nova do que Edward.

As fofocas eram infinitas, mas até os surfistas que eram mais próximos dele não sabiam exatamente o que tinha feito ele parar de competir. Victoria começou a competir na Junior com 14 anos e mesmo que todos estivessem curiosos, o assunto nunca surgiu.

No final da última temporada, Carlisle anunciou que iria focar em administrar a marca de equipamentos esportivos da família dele e que Victoria continuaria competindo com outro treinador. Todo mundo especulou quem assumiria o cargo e alguns até disseram que ela pararia de competir como o irmão, mas aquilo era um plot twist.

— Você viu ele? — perguntei.

— Não, tava conversando com o treinador da Lauren sobre a festa que a Billabong vai patrocinar mais tarde e ele falou sobre a lista de convidados, parecia que estava doido pra contar pra alguém que tinha visto o nome do Edward lá.

Era comum que alguma equipe oferecesse festas durante o ano de competição, a Billabong costumava ser a inicial, geralmente na primeira rodada do CT. Eu tinha um contrato com eles, então era obrigada a ir ao evento, mas iria mesmo se não estivesse no meu contrato, adorava aquelas coisas.

— Você acha que eles vão tentar assinar com ela? — questionei.

— Olha, eu acho que ela é deserdada se assinar um contrato desse. A Cullen Curl já sem o Edward e com a Victoria em outra equipe? Seria um escândalo.

— Mas se o Edward voltou… — comentou Emm.

Edward e Emmett competiram por alguns anos no WSL Junior, já que os dois tinham a mesma idade, mas nunca foram muito próximos, porque o Cullen era muito fechado. No último ano em que eles competiram, Edward ganhou o campeonato e Emm ficou em terceiro lugar, mas enquanto Emm já competia paralelamente no profissional adulto, Edward parou de competir.

Depois de terminar de me alongar, continuei na praia com eles até meu irmão competir. Emmett foi perfeito, fez dois aeros seguidos e ainda conseguiu um tubo, que ele não deixou de jogar na minha cara enquanto voltávamos para pousada onde estávamos.

Tomei um banho para tirar o sal e a parafina do corpo, vesti um maiô terracota e fiz uma amarração em uma canga, que tinha o fundo da mesma cor e flores brancas. Coloquei uma sandália no pé e deixei o cabelo solto, ainda molhado. Passei uma maquiagem leve no rosto, o suficiente para esconder as marcas de cansaço por ter acordado cedo, mas sem excesso para manter a estética clean girl.

Eu bati uma dúzia de fotos no espelho do quarto e escolhi a melhor para os stories, onde postei a foto com a legenda “Depois de um dia de competição, um luau é tudo o que preciso. Que tal o meu look?”.

Fiz uma anotação mental de que precisava postar um outro story antes de dormir, de preferência um vídeo conversando com as pessoas. E pedir pra Rosalie tirar uma foto melhor da minha roupa, pra postar no feed.

Nunca fui uma garota pobre, mas com dois filhos tentando ser surfistas profissionais, meus pais se esforçaram para nos manter. Entre roupas que ficavam pequenas rápido demais em estirões de crescimento e equipamentos estragados, eu sabia o valor do dinheiro. Ele não vinha fácil.

Então quando os patrocinadores começaram a chegar graças ao meu talento na água — e muita luta de outras surfistas por pagamentos igualitários independente do gênero —, virar influencer foi quase natural. As pessoas adoravam acompanhar a rotina do surf e quanto mais engajamento, mais os patrocinadores estavam dispostos a pagar.

Eu sabia que aquilo tudo era passageiro — o surf, os patrocinadores, a fama —, mas eu estava aproveitando enquanto podia.

Quando encontrei Rosalie e Emmett, ri do visual com camisetas combinando, tendo a certeza que meu irmão havia escolhido a roupa deles, porque ele era brega como eu.

Nós dois tínhamos herdado aquilo dos nossos pais, que estavam juntos a mais de 40 anos. Eles eram melhores amigos um do outro, meu pai um roqueiro introvertido e minha mãe uma bailarina sociável, encontraram um meio termo e nos criaram em uma casa cheia de amor, companheirismo e respeito mútuo. Observando que era possível ter um relacionamento duradouro e saudável, acabei criando certas metas pra mim.

Eu queria aquilo, o companheirismo, a breguice, mas Rosalie e Emmett deram sorte.

A maioria das outras pessoas no meio não estavam muito interessadas em um relacionamento sério e aqueles que não estavam no surf, não costumam entender a dinâmica. Eu tinha tentado, duas vezes. Angela e eu ainda éramos adolescentes, mas ela odiou que eu viajasse tanto e quando fui para o profissional, ela não estava disposta a largar tudo pra me seguir. Jacob também odiou as viagens assim que a paixão do começo esfriou, odiou ainda mais que eu ganhava muito mais do que ele em algo que, pelas palavras dele, era “fútil e hippie demais”.

Eu queria alguém que me entendesse. Que respeitasse a vida que eu escolhi e me admirasse por isso. E enquanto não encontrasse, tudo bem continuar sozinha.

A Billabong tinha fechado um restaurante enorme no meio da praia e mesmo antes do sol se pôr, o lugar já estava cheio de surfistas. O Championship Tour contava com 36 homens e 18 mulheres, mas eles geralmente convidavam todos os surfistas da Challengers Series — a série principal da liga mundial —, e os nomes que eles achavam promissores da Qualifying Series — a segunda divisão da liga mundial de surf —, além de suas respectivas equipes.

Com a vida de influencer, festas de patrocinadores eram algo com que eu estava acostumada, mas eram aquelas no meio do circuito que eu realmente gostava.

Eu conhecia o restaurante, já havia comido ali em um dia comum, era um lugar bonito, cheio de peças rústicas em madeira e luzes amarelas que tornavam o lugar mais aconchegante. Naquela noite, a equipe da Billabong havia estendido aquilo, colocando luzinhas penduradas do lado de fora do restaurante e uma fogueira enorme, com vários lugares em volta pra sentar.

No alto falante tocava música de praia, algo entre um rock envolvente e música latina, e já havia gente dançando. Emmett levou Rosalie pra pista e eu passei primeiro no bar, querendo uma pina colada pra me fazer companhia enquanto fugia da representante da Billabong e a sua tentativa de um novo patrocínio de prancha.

Enquanto eu esperava pela bebida, fui surpreendida:

— Oi, Bella! — falou Victoria, sentando ao meu lado.

— Oi, Vic! Edward — respondi, virando em direção aos dois.

— Bella.

Victoria era seis anos mais nova do que eu e tínhamos nos cruzado em alguns eventos e competições desde que ela começou a competir profissionalmente como adulta, mas ela ainda não estava em uma posição alta o suficiente no ranking para competir com a elite.

Vic era linda, parecia a definição de verão pra mim. Seu cabelo ruivo era cacheado e volumoso, cheio de personalidade, um contraste com seu rosto delicado, cheio de sardas e os olhos verdes. Ela usava um vestido verde de alcinha e tinha uma expressão animada.

Seu irmão era como uma sombra. Ele estava sério e os olhos verdes iguais aos de Victoria, não brilhavam. O cabelo que eu sabia ser de um tom de cobre um pouco mais escuro que o da irmã, estava tão curto que quase não dava pra notar a cor original. E enquanto a irmã usava uma roupa de acordo com o ambiente, ele vestia calça e camisa preta, parecendo completamente fora do lugar.

Era estranho como os dois pareciam opostos, Victoria era verão e Edward inverno, mas de alguma maneira os dois pareciam inalcançáveis da mesma maneira. A cada vez que ela se aproximava voluntariamente, eu estranhava.

— Eu vim agradecer a receita que você me mandou de pão de banana, você tinha razão, é ótimo pra comer no café da manhã como pré treino — disse ela com um sorrisinho.

— Eu tenho uma receita de pão de maçã ótima também, dá pra revezar as duas pra não enjoar — falei animada. — Eu faço as duas e embalo bem, ajuda muito quando estou hospedada em lugar que não tem cozinha e eu preciso manter a dieta. Posso te passar se você quiser.

— Por favor — pediu ela. — Vi a competição pela internet hoje, seu aero estava incrível.

— Obrigada. Precisei compensar o floater desleixado — expliquei ainda chateada com a manobra.

— Sua entrada foi um pouco fora do tempo, mas ainda assim ficou bem maneiro. Você é uma surfista maravilhosa.

— Você também é — devolvi o elogio.

— Eu tenho muito o que aprender, não consegui me qualificar para o CT — respondeu encolhendo os ombros, Edward se aproximou da irmã e passou um dos braços pelos ombros dela.

— Faz só dois anos que você compete com os adultos, não precisa ter pressa. Certeza que no ano que vem você vai competir comigo — falei. — Treinador novo, maré nova.

— Mesmo quando o treinador tá obrigado? — comentou com uma expressão divertida, olhando de relance pro irmão.

— Você tá obrigando seu irmão? Eu amo Emmett, mas nem amarrada que eu escolheria ele pra ser meu treinador — comentei rindo. — Ele é um carrasco.

— Eu já estava acostumada a treinar em família, então não mudou muita coisa. Edward é até mais tranquilo do que nosso pai, acho que tá meio enferrujado.

— Você me quis, eu não queria voltar — disse ele sério, olhando pra irmã.

— Eu precisava de você — disse ela em um tom de voz mais suave.

— Eu tô aqui — respondeu ele, espelhando o seu tom.

Eu me sentia uma intrusa, mas sabia que além de rude, me afastar só chamaria atenção. Não sabia se mudava de assunto ou se comentava mais alguma coisa.

Vic decidiu por mim:

— Vi a minha agente passando, vou dar um oi. Você vem comigo, Edward? — perguntou a ruiva.

— Com certeza não — disse ele fazendo uma careta.

Vic se despediu e se afastou, mas Edward continuou ali, pegou um banquinho ao lado do meu e pediu uma bebida pra ele.

— Não estou muito animado pra conversar com algumas pessoas. A agente dela vem tentando me convencer de voltar a competir desde o momento que me viu perto da água. E tem todos os outros, perguntando porque eu voltei e porque eu parei — explicou antes que eu perguntasse.

— Bem, lá se vai a minha chance de perguntar porque você parou e porque você voltou — falei em tom de negação.

Aquilo o fez rir pela primeira vez na noite e eu gostei daquilo. Seu sorriso era perfeitamente torto e o som da sua risada era delicioso.

— Mas eu sei porque você voltou — falei retomando o assunto. — A Vic pediu e você disse sim, mesmo sem querer. Você faria qualquer coisa pela sua irmã, assim como eu faria pelo meu.

— Você entende — respondeu ele.

Quando trouxeram a bebida dele, ao invés de um mini guarda-chuva, tinha uma plumeria enfeitando o drink.

— Ah, não acredito que você ganhou um drink com flor — reclamei.

— Você gosta de plumerias?

— É minha flor favorita — falei dando de ombros.

Ele não pensou duas vezes antes de tirar a flor do copo, lamber o cabo e colocar a flor no meu cabelo.

— Não reclamei pra roubar a flor de você — falei.

— Ficou bem em você — disse ele olhando pra mim, o rosto um pouco inclinado.

— Obrigada — respondi sentindo meu rosto esquentar.

Nós terminamos nossas bebidas em silêncio, quando ouvi a mudança de música no auto falante, Bob Dylan começou a tocar:

— Quer dançar? — perguntei não muito segura.

— Claro — respondeu depois de alguns segundos, levantando e estendendo a mão.

Não havia muita gente na pista de dança, a música era um rock clássico e suave, mas Edward não se distanciou muito e me guiou no ritmo da música. Eu gostava de dançar, apesar de não ser uma dançarina incrível, mas ele tinha ritmo.

Ele colocou uma mão levemente na minha cintura e segurou a minha outra mão, me aproximando e afastando de acordo com o que a música pedia, até me girou em um momento. Seu toque suave era confortável, nada invasivo e surpreendente.

Dançamos música após música, independente do ritmo, Edward era um bom dançarino. Fizemos uma pausa para buscar um novo drink e comer, mas logo voltamos para pista de dança, os dois querendo fugir.

***

Fernando de Noronha, Brasil — Qualifying Series

Eu odeio gente good vibes, é tão falso” dizia o usuário 123hatervibes. “E o conteúdo é sempre o mesmo, ou publi, nem parece gente de verdade”, dizia outro comentário respondendo o primeiro, o usuário realliferules.

Aqueles eram os comentários leves, de uma onda de comentários maldosos desde minha última publicidade com uma marca de protetor solar. Eram comentários sobre meu corpo, meu estilo de vida, minhas publicações. Alguns até vasculharam publicações antigas só pra reclamar de algo.

Eu estava acostumada com os haters, eles existiam desde o começo, quando minha conta era menor, mas quanto mais eu crescia, os haters pareciam crescer na mesma proporção. Os comentários sobre minha aparência eram algo rotineiro e alguns dias me abalavam mais do que outros, mas quando falavam sobre o meu conteúdo, realmente tocavam na ferida.

Eu era uma surfista profissional, uma atleta de alto rendimento, campeã mundial e muito próxima de uma medalha olímpica, não era uma influencer good vibes qualquer.

Rosalie me encontrou com o celular na mão e logo questionou:

— Qual o motivo da cara feia? — disse, puxando uma cadeira ao meu lado.

Nós estávamos no Brasil, hospedadas em um hotel na beira do mar em Fernando de Noronha. Eu amava o país, já tinha visitado várias vezes por causa das competições, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro, mas gostava tanto do país que também tinha ido mais de uma vez fora da temporada.

— Haters — expliquei, travando o celular e olhando pra ela.

— Eu já te falei pra parar de ficar lendo os comentários do Instagram, você sabe que as pessoas têm inveja de gente gostosa — falou. — Deixa eu responder por você.

— Pra você xingar todo mundo, igual faz no perfil do Emmett? Não obrigada — respondi, rindo.

Quando pedi pra Rosalie me seguir na estrada, ela não pensou duas vezes antes de dizer sim, ela gostava de surfar, mas não tanto quanto eu e meu irmão, nunca quis ser profissional. Com o fim do colégio, ela estava meio perdida no que fazer a seguir e eu lhe dei a oportunidade perfeita.

Ela que teve a ideia de tornar o meu perfil nas redes sociais algo mais comercial e apesar de eu ter um controle maior sobre os posts, responder os comentários, Rose assumiu a posição de assistente sem que eu pedisse. Ela planejava as postagens patrocinadas, me lembrava dos compromissos, batia fotos e filmava. Emmett pediu pra ela cuidar das redes dele assim que viu como aquilo tinha me beneficiado.

Rosalie acabou nunca indo pra faculdade, no lugar disso fez alguns cursos e aprendeu as coisas na prática, e era muito boa no que fazia. Só que apesar do profissionalismo, ela também era muito próxima de nós dois pra ser completamente imparcial e entrava no próprio perfil pra xingar de volta os piores haters.

Emmett e eu tínhamos uma vida muito interligada. Quando ele chegou no nível profissional e eu ainda estava no Júnior, o pai de Rosalie precisou parar de me treinar, pra acompanhá-lo nas viagens. Foi aí que Caius, recém aposentado do surf masculino, viu meu potencial pro estrelato e começou a me treinar.

Nós tínhamos o mesmo personal, Aro, que nos acompanhava a cada 15 dias, mas que tinha começado viajando conosco, pra nos impedir de fazer burrada sem sua supervisão. Rosalie era nossa assistente, além da responsável principal pelas contas do Emmett, que contava com uma equipe grande de mídia. Além deles, nós compartilhávamos uma nutricionista e Harry, nosso agente.

Harry sempre falava que eu precisava abrir um pouco a mão do controle das minhas redes sociais, como Emmett fazia, mas eu gostava da conexão que eu criava daquele jeito. Meu medo era abrir mão do controle e os comentários sobre eu ser fútil e distante ficarem mais intensos.

Minutos depois Emmett chegou com o café da manhã e comemos ali mesmo, olhando o mar da varanda da pousada. Depois do café, fomos para a academia com Aro, Caius e John — o pai de Rosalie —, para treinar musculação e em seguida fomos andar de skate até a hora do almoço.

Depois do almoço nos separamos, eu fui fazer crochê na areia e aproveitar a vista.

Era final do verão em Noronha, o dia estava quente e seco, sem nuvens no céu e o mar estava agitado. Eu passava mais tempo na praia do que a maioria das pessoas e em meu tempo livre, gostava de continuar ali perto da água. Eu amava aquilo, o cheiro de água salgada, o som das ondas quebrando e até o barulho de gente sendo feliz, o que era comum em lugares como o Brasil.

Não importava o lugar no mundo, estar na praia era estar em casa.

No final da tarde, a equipe me encontrou na areia pra surfar, porque o mar estava perfeito naquele horário e acabamos esbarrando nos irmãos Cullen. Todos com pranchas debaixo do braço, menos Edward.

A equipe não precisava surfar, Caius podia pegar a minha prancha se precisasse me mostrar algo que eu não estivesse conseguindo fazer, mas era comum que todo mundo fosse pra praia com sua prancha, porque no final todos gostavam de surfar.

Treinamos separadamente, mas não consegui evitar de ver Edward treinando Vic apenas na areia. Aquilo era uma loucura.

— Você fez um floater lindo — disse Emm mexendo no meu cabelo assim que sai da água, seu sorriso com covinhas aparecendo.

— Eu fui incrível mesmo — concordei. — Mas preciso ser consistente, acha que consigo fazer ele na próxima bateria?

— Claro que consegue, você é incrível — disse sério.

— Você também é — falei encostando a cabeça em seu peito, sem ligar muito pra seu traje de banho tão molhado quanto o meu e o abraçando.

— Eu e Rose vamos sair pra jantar, quer vir com a gente? — perguntou passando a mão no meu cabelo.

— Não, vocês precisam de um tempo sozinhos — falei me afastando do seu abraço. — Preciso de 5 minutos sem ser vela de vocês.

— Você precisa de uma pessoa, pra gente fazer encontros duplos — apontou.

— Sai do meu pé — falei empurrando seu ombro, não com tanta força por causa da diferença de altura.

— É sério! Ia ser tão legal.

— A gente já não se desgruda, você quer mais tempo junto? Sai daqui!! — falei rindo. — Sem contar que você teve sorte, a Rosalie é perfeita e viaja com a gente. Não tem gente sobrando por aí querendo seguir alguém com uma rotina como a minha.

— Ang era muito nova quando vocês namoraram e Jake foi um caso à parte, ele era muito inseguro — disse Emm, citando meus exs. — E você sempre pode namorar alguém do surf se o negócio do relacionamento a distância não funcionar.

— Bem, me apresenta alguém interessante e eu te digo se esperava ou não.

— É um desafio? Você vai ter um par até o final da temporada!

— Não é um desafio, nada de me arranjar com seus amigos. Aí depois a gente termina e o circuito vai virar um eterno de férias com o ex — falei séria.

— Tarde demais, já tô investido e pensando em uma lista de pretendentes — falou animado.

Eu já estava pronta pra retrucar de novo, quando Vic gritou se aproximando:

— Ei, onde você vai comer, Bella? — Seu cabelo ruivo estava encharcado, mas os cachos continuavam ali.

— Na minha pousada mesmo, Rose e Emm vão ter um encontro — expliquei.

— Estamos hospedados no mesmo lugar, quer jantar comigo e com o Edward? — perguntou animada.

Seu irmão não estava muito longe, ele vestia uma bermuda preta, camiseta e tênis da mesma cor. Com aquele cabelo baixinho, ele parecia tão deslocado, mesmo carregando a prancha da irmã por ela.

— Claro, se não for atrapalhar. — Dei de ombros.

Eu não ligava de comer sozinha, mas preferia companhia. Não conseguia decifrar a expressão de Edward, ele parecia tão fechado, mas sua irmã estava tão animada que não pareceu certo recusar o convite.

— Vou trocar de roupa e a gente se encontra no restaurante? — perguntei.

— Perfeito.

O clima estava agradável, então coloquei um shorts, uma regata e um chinelo. Meu cabelo começava a pedir uma hidratação potente, pois toda a água do mar e o sol constante exigiam cuidados. Até cogitei sair do quarto com uma touca de hidratação na cabeça, mas desisti pensando em Edward.

Vic usava um vestido azul e sandálias, Edward estava com uma versão da mesma roupa da praia, que eu só conseguia ter certeza que era outra pela falta de areia.

Nós montamos nossos pratos e sentamos em uma mesa no canto, perto da piscina. O lugar estava cheio de turistas, já que era final de temporada. Aro, Caius e John tinham decidido sair e ninguém tinha perguntado pra onde, porque a última vez que eles estiveram em Noronha, um surfista brasileiro tinha levado eles pra uma festa bem adulta com alguns famosos do país e as coisas que a gente ficou sabendo, traumatizaram a Rosalie pra sempre — ninguém queria ouvir o pai falando sobre aquelas coisas.

A equipe da Vic também não estava por ali e o começo do jantar foi silencioso até Vic puxar assunto:

— Tô pensando em fazer uma tatuagem — comentou.

— Sério? Já tem algo em mente? — perguntei.

— Ainda não, mas queria algo relacionado ao surf.

Eu ri e Edward me acompanhou.

— O que foi? Muito clichê? — perguntou, o rosto fazendo uma careta.

— Muito clichê, mas acho que todo surfista que tem tatuagem, tem pelo menos uma tatuagem de surf. Eu tenho duas e meia — expliquei.

— E até eu tenho uma — revelou Edward.

Edward tinha algumas tatuagens visíveis, mas eu não conseguia enxergar a de surf. Fiquei tentada a pedir pra ver, mas Vic foi mais rápido e pediu pra ver as minhas.

— Tem essa aqui no braço, que eu fiz com o Emmett — falei, virando o braço direito e mostrando a silhueta de uma surfista em um traço delicado. Embaixo estava escrito “esperando por grandes ondas”. Emm tinha uma igual, com a silhueta de um surfista — Tem essa aqui também. — Mostrei as três diferentes ondas que eu tinha na costela. — Eu tenho as fases da lua nas costas também, que não são exatamente de surf, mas tem relação.

Eu tinha outras tatuagens, a silhueta de Jesse e Celine no braço esquerdo, com uma fala de Celine embaixo “Isn't everything we do in life a way to be loved more?”, porque aquele era meu filme favorito. E um copo de cerveja com um par de sapatilhas do lado, pra representar os meus pais.

— Eu pensei em uma prancha na costela, mas ainda não decidi o traço. Tô entre só um traço fino mesmo ou algo em aquarela — comentou.

— Eu acho bem bonito aquarela. Mas talvez fazer só o traço seja melhor pra primeira tatuagem, pra você se acostumar com a dor. A costela já é um lugar que dói bastante, algo muito trabalhado de primeira pode te assustar — comentei.

— A Bella tem razão, quanto mais artística a tatuagem, mais dolorida. E de primeira o melhor é algo menor — disse Edward.

Vic pareceu refletir por alguns segundos.

— Você tem o contato de algum tatuador ou estúdio de confiança?

— Tenho, eu fiz a maior parte das minhas tatuagens em Teahupo’o. Dá tempo de você pensar bastante no que você quer até a temporada passe por lá — comentei. — Acho que vou fazer outra inclusive.

— Você me passa o contato?

— Claro.

Nós continuamos falando sobre tatuagens, eu não consegui ver a tatuagem de surf do Edward, mas vi as outras com detalhes. Ele tinha uma mochila na panturrilha direita, um farol na esquerda, um retrovisor de moto no braço direito e uma frase no mesmo braço “If not now then when?”.

Quando acabamos de comer, decidi ficar do lado da piscina com meu crochê e chamei Vic e Edward. Edward aceitou, mas Vic disse que ia assistir uma série e nos dispensou.

— Você precisa entrar na água — falei assim que ficamos sozinhos.

Estávamos sentados em um mini sofá, no gramado.

— Uau, você foi rápida — comentou com um riso seco. — Eu não quero estar aqui.

— Dá pra perceber, mas não é sobre você. É sobre a Vic — falei. — Você não precisa subir em uma prancha se não quiser, apesar de ser melhor se você subir, mas você precisa entrar na água.

— Eu mostro tudo pra ela na areia, faço as correções necessárias, nós temos treinado bastante no skate também — argumentou.

— Mas você sabe que não é a mesma coisa e definitivamente não é o suficiente, você é surfista, sabe disso — falei.

— Eu não sou surfista, me aposentei — me corrigiu.

— Não preciso saber o que aconteceu com você, porque você brigou com o mar e não se considera mais surfista, mas isso não vai funcionar se continuar assim.

— Eu nem queria estar aqui — insistiu.

— Já disse, dá pra perceber — apontei. — Mas você já tá aqui, você disse sim e precisa melhorar.

— Isso aqui é temporário, Vic pediu pra eu treiná-la enquanto quem ela quer como próximo treinador não está disponível — continuou tentando argumentar.

— Temporário ou não, você precisa ajudar sua irmã enquanto está aqui — retruquei. — Mudanças são difíceis e trocar de treinador tantas vezes em pouco tempo não vai ser fácil. E se ela estiver muito baixo no ranking, ela pode ficar desanimada e ser mais difícil de subir quando ela estiver com a pessoa nova, vai piorar a adaptação dela, então você precisa tornar a vida dela mais fácil.

Edward não me respondeu de imediato, parecendo refletir sobre aquilo. Eu claramente não o conhecia, mas não era preciso pra saber o quanto ele se importava com a irmã. A prova daquilo era estar ali em primeiro lugar, mesmo sem querer.

— Faz anos que não subo numa prancha — comentou.

— E você não sente nenhuma falta? — questionei.

Ele não me respondeu de imediato, ao invés disso pareceu pensar em silêncio, até que revelou:

— Na maioria das vezes eu não sinto falta alguma, parece que todas as minhas memórias estão entrelaçadas em coisas ruins — disse. — Então eu sonho em estar no mar de novo e tudo parece tão real, o cheiro do mar, a força da água, a adrenalina na veia. E quando eu acordo parece que falta um pedaço meu.

O tom de voz de Edward parecia magoado, carregava camadas de tristeza. Eu queria saber o que tinha levado aquilo, mas mesmo curiosa, sabia que se ele quisesse, iria me falar.

— Sinto muito sobre isso — falei. — Você é a primeira pessoa que eu conheço que já surfou e não parece querer voltar. Como você vive sem a adrenalina?

— Ah, eu tenho uma moto — disse sorrindo enquanto dava de ombros.

Não foi difícil imaginá-lo em uma moto, aquelas roupas escuras, a aparência distante, o cabelo raspado, as tatuagens. Tudo encaixava bem com o estereótipo de motoqueiro.

— Por que isso não me surpreende? — comentei rindo.

— É, eu não fujo muito do estereótipo né? — Me acompanhou rindo, olhando pras próprias roupas. — Mas é sério, andar de moto é incrível, libertador. Eu gosto de viajar, de fazer trilha e a moto é um jeito de fazer isso mais rápido.

— Eu imagino, sempre quis aprender, acho que deve ser incrível andar de moto. Mas tô sempre adiando — confessei. — E não é muito prático na estrada, já que estou sempre com equipamentos de um lado pro outro.

— Posso te levar pra dar uma volta quando pararmos perto o suficiente pra eu buscar a minha moto — ofereceu ele. — Eu aluguei uma no último mês, mas acho que a primeira vez precisa ser especial, melhor ser na minha Harleys.

— Você ofereceu e eu vou cobrar — avisei. — Eu amo experimentar coisas novas, gosto de adrenalina. É o bônus do surf eu acho, conhecer lugares e coisas novas.

— Disso eu sinto falta — confessou Edward. — Das cidades, das pessoas. Eu ainda viajo claro, mas competindo eu podia ir pra tantos lugares.

Seu semblante escureceu antes de continuar:

— Não que eu tivesse muita liberdade, Carlisle morria de medo que eu me machucasse.

Aquilo com certeza tinha mais coisa ali, mas ver sua expressão magoada me impediu de instigar o assunto. Decidi seguir outro caminho.

— Talvez o universo esteja te dando uma nova chance — comentei. — Aproveitar as oportunidades que o surf oferece, criar lembranças novas pra substituir as lembranças ruins.

— Eu não tinha olhado pra situação por esse lado — ponderou. — Vic não é muito fã de explorar, mas posso aproveitar a oportunidade.

— Posso fazer companhia se você quiser — ofereci sem pensar muito.

— Obrigado, vou adorar — respondeu olhando em meus olhos.

***

Bathseba, Barbados — Qualifying Series

A instabilidade do surf como uma carreira era algo que sempre espreitava a minha mente, era uma profissão arriscada, com uma aposentadoria precoce. Eu tinha sorte de poder fazer o que eu amava e que aquilo me desse tantas oportunidades, mas e depois, o que eu faria? Qual outro trabalho me permitiria explorar Barbados no meio de uma semana qualquer em março e ainda ser paga por isso? Não existiam muitas opções.

O Championship Tour tinha me levado para Portugal no começo do mês, em seguida encontrei Edward na Austrália por causa da Qualifying Series, e nós tínhamos começado a colocar nosso trato em prática, explorando o país no tempo livre. Assim que a competição acabou, nós pegamos o primeiro voo pra Barbados, antes mesmo do restante de nossas equipes, pra ter tempo livre para ir até a Animal Cave Flower.

Eu era patrocinada por uma grande empresa de aluguel de carros, então mesmo em outro país, a primeira coisa que fiz foi alugar uma picape. Edward nem pestanejou antes de sentar no banco do passageiro com seu tablet no colo e perguntar se podia ligar o som, colocando pra tocar Surf Curse assim que eu dei permissão. Adorava aquela música e não pensei duas vezes antes de começar a cantar ela a plenos pulmões:

I dream of you almost every night — cantei de maneira desafinada.

Hopefully, I won't wake up this time — cantou Edward comigo, tão alto quanto, porém mais afinado.

Quando a música acabou, Edward falou:

— Você fica bem assim, cantando no volante, filmei você um pouco — avisou. — Vou te mandar, mas você pode apagar se quiser.

— Obrigada. Pelo elogio e por filmar. Vou postar no feed mais tarde e marcar a locadora, sem o som. Quem sabe com algo mais espontâneo param de comentar que eu pareço um robô nas minhas fotos — mencionei, desviando um pouco o olhar e encontrando Edward inclinado em minha direção.

— Comentário de hater? — questionou.

— Sim, tenho tido uma onda de comentários reclamando das minhas postagens. Uma parte reclama que eu incentivo um padrão de corpo irreal, que ajudo a manter essa indústria da magreza.

— Mas você é uma atleta de alto rendimento?! — comentou Edward com indignação.

— Pois é — falei rindo. — Meu perfil é muito claramente o perfil de um atleta, eu posto sempre sobre os meus treinos e rotina nos stories, eu treino todos os dias desde a adolescência, deixo claro que meu corpo é resultado de uma rotina intensa e regrada, incentivo projetos sobre aceitação do próprio corpo, mas não é o suficiente. E ainda esbarra na outra parte dos haters.

— Tem mais de um tipo?

— Na minha classificação, pelo menos dois tipos, mas bem provável que existam mais — comentei. — A outra parte reclama que eu sou fútil, que essa vida good vibes é fachada, que meu conteúdo é robótico e sem graça, que eu não sou espontânea. É tão irritante. Eu sei que se eu compartilhasse um pouco do outro lado, eles diriam que é forçado, que estou reclamando de boca cheia.

Estava tão frustrada com os comentários reclamando, Harry já havia insistido pra eu deixar uma equipe lidar com aquilo, mas se comigo tão envolvida já me achavam distante e falsa, o que achariam com uma equipe?

— Eu posso morrer a cada vez que subo em uma prancha, uma manobra pode dar errado, posso ter um mal súbito, um animal pode me atacar. Posso me machucar na academia e nunca mais me recuperar, posso sofrer um acidente não relacionado ao surf e nunca mais surfar. Esses medos são uma constante na minha vida e eu nunca posso deixá-los falar mais alto, se não eu não entro na água — desabafei.

— E mesmo que seja perigoso, você ama o que faz. A adrenalina fala mais alto.

— E eu amo o que eu faço — concordei. — Eu tive a sorte de encontrar uma profissão que eu amo, mas quanto tempo eu tenho? Você conhece algum surfista profissional que continuou no auge depois dos 40 anos? Jéssica tem 37 anos e tem falado em se aposentar porque quer ser mãe. E depois? O que eu faço depois de viver a vida dos meus sonhos?

Emmett trabalharia na escola de surf de John até John se aposentar, então ele e Rosalie assumiriam o local. Mas eu não queria aquilo, eu queria mais. Queria as viagens, queria continuar andando pelo mundo. Eu poderia levar uma vida de influencer e manter as viagens, mas se enquanto eu ainda sou uma atleta de alto rendimento já há tantos comentários ruins, o que acontecerá quando eu me dedicar exclusivamente às redes sociais?

— Então eu posto minha rotina e sou grata pela vida que eu levo, e se eles acham que isso é falso e superficial, bem eles que se fodam — falei tentando encerrar o assunto.

— Isso aí, eles que se fodam — concordou Edward.

Eu ri de sua prontidão em concordar e ele me acompanhou.

— Quando eu parei de competir as coisas não eram assim — comentou Edward. — Você sabe, as redes sociais já existiam e as revistas de fofoca ainda eram algo forte, mas eu sinto que piorou demais. Acho que as coisas ficavam na bolha antigamente, se alguém odiasse a sua vida, ela falaria mal de você com os amigos dela, mas dificilmente o comentário chegaria até você. Agora não, se uma pessoa te acha desinteressante, ela vai com muito prazer comentar em uma foto sua ou nas suas mensagens privadas dizer o quão desinteressante e sem graça te acha.

— Sim, as pessoas ficaram mais corajosas com o tempo — concordei. — Alguns ainda se escondem atrás de perfis falsos, mas eu não consigo nem contar o tanto de gente que me xinga e quando eu vou abrir o perfil da pessoa, tá lá: Karen, mãe de três, casada com meu presente de Deus.

Edward riu alto com aquilo e eu o acompanhei.

— As vezes acho que eu deveria ouvir meu agente e deixar alguém cuidar das minhas redes sociais por mim.

— Você realmente deveria. A equipe da Vic cuida das redes sociais dela e parece ótima, às vezes eu vejo um ou outro comentário, mas ela nem vê — comentou Edward.

— Ela não tem nenhum perfil privado? — questionei.

— Carlisle nunca deixou e ela nunca insistiu.

— Nossa, acho que sou viciada demais pra não ter nenhum perfil fechado — comentei. — Se meus pais não deixassem, provavelmente teria feito escondido.

— Vic é mais passiva, não questiona muito — explicou Edward. — Quando meu pai dizia não, ela dizia tudo bem.

— Porquê eu tenho a impressão de que você não era essa pessoa? — comentei, desviando meu olhar da estrada pra Edward.

— Porque eu realmente não era — respondeu com um sorriso e um olhar distante. — Talvez no começo, eu idolatrava tanto Carlisle que apenas dizia sim. Deixar de brincar com meus amigos porque precisava treinar? Tudo bem, eu amava surfar. Sair da escola porque eu precisava de mais tempo na água? Tudo bem, quem gostava de ir pra escola mesmo? Mas fui crescendo e começando a questioná-lo. Por que eu não podia gostar de fazer outra coisa? Por que eu não podia dirigir? Por que eu precisava me afastar dos outros garotos, se todos pareciam amigos mesmo competindo?

Meus olhos estavam na estrada de novo, mas a cada frase nova eu conseguia sentir a mágoa em sua voz. Anos de burburinhos e especulações ali, diante de mim sem que eu pedisse.

— Era difícil equilibrar a vontade de ser bom, de deixá-lo orgulhoso, com os questionamentos que pioravam a cada ano — continuou ele. — Até que eu não aguentei mais e parei de competir. Carlisle nunca me perdoou por isso, por desistir do meu dom — Edward riu amargo. — Achou que se parasse de falar comigo, eu eventualmente voltaria a competir. Dez anos depois e continuo sem subir em uma prancha.

— Sinto muito que seu pai seja um escroto — falei com sinceridade.

— Eu não lamento pelas coisas que não consigo mudar — disse Edward. — Mas obrigado. É bom colocar pra fora.

— Deve ser horrível ver seu pai ser idolatrado e ele ser um babaca.

— Ah, você não sabe da metade — riu Edward. — Mas eu demorei pra perceber, por muito tempo ele foi meu herói também e era frustrante não ser o suficiente pra ele quando eu estava dando o meu máximo. Mesmo quando comecei a perceber que ele não era tão perfeito assim, ainda lutei pra ser bom e não era o bastante. Os outros estavam em último plano. Quando me afastei, o único problema era Vic, eu tinha medo de que ela sofresse o mesmo que eu, mas minha mãe a protegeu.

— Vic parece doce, ela é apaixonada pelo surf, lida bem com esse meio, mas ainda é reservada como você era — comentei.

— Você lembra de mim competindo? — questionou surpreso.

— Claro, você era incrível na água. Honrava o apelido de filho de Poseidon — comentei sem sentir vergonha. — E você era super bonitinho, mesmo com aquele cabelo grande ou na fase que teve o cabelo loiro.

— Nossa, você com certeza tá me zoando — disse Edward. — Eu fiquei horrível loiro, meu cabelo tava todo ressecado e eu tava magro demais, o rosto estranho, todo anguloso.

— Edward, o seu rosto é todo anguloso. As suas maçãs do rosto sempre foram bem aparentes — falei pensando em como ele tinha um rosto que parecia ter sido esculpido por Vênus.

— Isso é um jeito de dizer que eu sou feio?

— Edward, eu não vou massagear seu ego, para de caçar elogio — falei tirando a mão do volante pra socá-lo.

Ele riu.

— Eu também lembro de você competindo — disse ele. — Você sempre foi fenomenal, parece que você é uma extensão do mar, não sei se ele te controla ou se é você que está no comando, como Moana.

— Com certeza é o mar que está no comando — falei rindo. — Eu só o respeito.

— Eu lembro de assistir uma competição sua e estar na areia me preparando pra bateria dos meninos, Carlisle tinha me deixado sozinho e eu fiquei ali, vendo você surfar e pensando o quanto você ficava bonita com seu traje néon. Até que notei Emmett torcendo por você e parei de olhar.

— Por favor, não fala que achou que Emm era meu namorado — falei com nojo.

— Não! — disse rindo. — Mas seu irmão é bem mais alto do que eu e eu não queria apanhar.

— Você achou que apanharia do Emm por me achar bonita? Emmett é muito de boa, ele tá fazendo uma lista de quem me acha atraente.

— Bem, é bom eu colocar meu nome na lista da próxima vez que eu o ver.

Eu não sabia se Edward realmente me achava atraente ou se tinha falado aquilo só pra não me deixar constrangida por admitir que tive uma quedinha por ele na adolescência. Suas expressões eram sempre muito transparentes, mas eu me sentia constrangida demais pra desviar os olhos do volante e encara-lo.

Se fosse verdade, então o que faríamos com aquilo?

— O que você tá fazendo? — falei mudando de assunto e apontando para o tablet.

— Meio que trabalhando — explicou. — Não sei se comentei que trabalho com animação.

— Acho que não.

— Desculpa.

— Não tem problema — disse dando de ombros. — Acho que o assunto só não veio à tona e nem passou pela minha cabeça que você fizesse outra coisa além de ser o treinador da sua irmã. Me conta mais.

— Acho que enlouqueceria se me dedicasse só ao surf — confessou. — Eu estou em alguns projetos, diminuí um pouco minha carga de trabalho, mas tenho dado conta de tudo.

— Uau, workaholic?

— Provavelmente — admitiu. — Eu sempre gostei de desenhar. Era meu único hobby não relacionado ao surf e eu adorava, usava todo meu tempo livre pra desenhar. Quando parei de competir e pensei no que fazer, a lista não era muito grande. Comecei a ser educado em casa com 14 anos e não era muito inteligente, então a faculdade não pareceu uma opção. E mesmo que eu tivesse notas boas o suficiente, não tinha dinheiro pra isso.

— Você competiu desde criança, seu pai é o herdeiro da Cullen Curl e você não tinha dinheiro pra faculdade? É, realmente, o sistema de ensino americano é um fracasso.

Edward riu do meu comentário.

— Dinheiro a família tinha, mas Carlisle parou de falar comigo quando parei de competir e minha mãe não tinha dinheiro o suficiente pra isso — contou. — Eu tinha o dinheiro das competições que ganhei depois dos 18, mas não era o suficiente pra faculdade. Pra me manter sozinho? Sim. Então foi o que eu fiz. Mesmo assim eu trabalhei em um fast food por um tempo e comecei a vender minha arte em paralelo, fazendo pequenos serviços aqui e ali, aprendendo as coisas na prática. Quando vi, uma agência grande me chamou pra um trabalho e eu acabei ficando.

— Isso é incrível. Fico feliz que você encontrou algo que goste — comentei. — No que você tá trabalhando agora?

— Um monte de coisa — falou. — Mas você tá falando nesse momento? Tô fazendo algumas alterações na arte de um jogo que estamos trabalhando. O projeto tá bem na fase inicial, o que pra mim é a melhor parte, porque posso ser criativo à vontade, mesmo que depois peçam um monte de mudanças.

— Posso ver?

— Claro — respondeu, levantando o tablet na altura dos meus olhos.

Era difícil manter os olhos na estrada e ver tudo o que a imagem tinha, mas eu tentei mesmo assim. A tela estava cheia de versões do que eu imaginava ser o mesmo personagem — um lobo azul sorridente —, em várias posições.

— Esse é o Totó, é o primeiro personagem, mas planejamos criar cinco no total, pro jogador escolher — explicou. — Vai ser um jogo de fuga, em primeira pessoa.

— Você também programa?

— Eu entendo uma coisa ou outra, pra conseguir lidar melhor com as demandas dos programadores, mas não programo muito bem. Minha parte é animação e arte estática.

— Você é muito bom nisso, sério.

— Valeu. Comecei a rascunhar minha próxima tatuagem — confessou.

— Eu quero ver! — pedi animada batucando no volante. — Faz uma pra mim?

— Mostro sim e faço sim, assim que você não precisar mais focar na estrada.

— Combinado.

O resto do trajeto até Animal Flower Cave seguiu o mesmo ritmo, com muita conversa e música de fundo, mesmo que eu estivesse prestando atenção na estrada e Edward estivesse trabalhando.

Na Austrália, mesmo com a estranheza de sair juntos pela primeira vez intencionalmente e de maneira planejada, Edward também tinha sido uma boa companhia. Ele era muito mais fácil de conversar do que parecia, visto sua expressão séria, roupas escuras e cabelo baixinho.

Quando chegamos no lugar, estacionei o carro na beira do caminho e dei a volta pra pegar minha bolsa de crochê e o protetor solar. Edward já tinha saído do carro e tirado a camiseta.

— Passa protetor nas minhas costas? — pediu ele.

— Claro — concordei agradecendo aos céus por não ter trazido um protetor solar em spray.

Com o protetor em mãos eu finalmente consegui ver a tatuagem de surf de Edward. Ele tinha um retângulo no meio das costas com uma arte bem realista de uma tempestade com raios e uma grande onda.

Parecia uma representação de sua relação com o surf, e depois do que ele tinha compartilhado, eu entendia porque ele tinha aquilo desenhado na pele e porque ele tinha parado de surfar.

O mar era uma força da natureza e eu o respeitava, mas se eu o enxergasse sempre como uma tempestade, também não me arriscaria na água.

Terminei de passar protetor nas costas de Edward e tirei minha saída de praia pra ele retribuir o favor.

Com os dedos longos de Edward deslizando pelas minhas costas, lembrei de minutos antes, dele falando que eu era bonita e desejei que me tocasse de outra maneira. Com mais firmeza e comigo apoiada em alguma superfície.

Quando ele terminou, eu finalizei as partes que eu não precisava de ajuda e vesti a peça de roupa de volta.

— Pra você — disse Edward com uma plumeria na mão, sorrindo torto.

— Obrigada, coloca pra mim?

Ele nem hesitou antes de se aproximar de mim, colocar meu cabelo atrás da orelha e ajustar a flor ali.

— Perfeita — disse ele olhando em meus olhos.

Edward passou a mão na minha bochecha com leveza antes de se afastar e dar alguns passos pra trás. Queria que ele tivesse dado passos para frente, mas eu ignorei a vontade de tomar uma atitude.

— Quer que eu leve sua bolsa? — perguntou.

— Tudo bem.

O trajeto entre o estacionamento e o restaurante onde o guia nos esperava não era muito longo, mas eu usei cada segundo pra pensar na familiaridade que era estar com Edward. E no desejo de que ele continuasse me tocando.

Ele iria embora em breve, ele tinha uma relação complicada com o que eu mais amava fazer, mas mesmo assim o crush de infância parecia ter amadurecido com a gente.

A trilha entre o restaurante e a caverna era curta, o que era uma bênção visto que eu estava de chinelo.

Estava acostumada com a beleza da natureza, passava minha vida de praia em praia ao redor do mundo, mas ser rotineiro não tornou aquela experiência menos impactante.

A caverna cheia de estalactites era impressionante, de tirar o fôlego, com uma vista para o mar de Barbados. Assim que nos aproximamos o suficiente, tirei a saída de praia novamente e fiquei só com o meu biquíni laranja. Deixamos a sacola com o guia, que disse que ia ficar de fora e se ofereceu pra tirar fotos nossas na água.

— No três? — perguntei pra Edward, segurando sua mão.

— Um — começou.

— Dois.

— Três.

A água cristalina e gelada nos envolveu assim que caímos, a temperatura perfeita para o dia quente que fazia do lado de fora.

Mergulhamos separados por um tempo, até decidirmos competir debaixo d'água pra ver quem atravessava o espaço mais rápido. Acabamos passando pra um pega-pega aquático.

— Eu desisto, tô enferrujado — disse Edward ofegante, nadando pra perto de mim novamente, depois de tentar fugir.

— Fracote — zombei.

Ele não revidou, apenas se aproximou com uma expressão suave.

— Obrigado — disse ele.

— Pelo quê?

— Por me fazer aproveitar a água — disse mais perto, olhando nos meus olhos.

Ele estava tão perto que eu achei que iria me beijar. Eu queria.

— De nada.

— E por ser ingênua — completou tocando em mim antes de voltar a nadar. — Te peguei.

***

Rio de Janeiro, Brasil — Qualifying Series

Quando voltamos para o Brasil, Edward tinha uma lista de coisas pra fazermos juntos, desde ir para o Pão de Açúcar, até um passeio no jardim botânico e finalizar a noite em uma roda de samba na Lapa.

Uma surfista brasileira tinha me ensinado o básico do samba alguns anos atrás e eu sentia que já não passava vergonha, mesmo não sendo uma dançarina excelente. Edward era um dançarino mais solto, mas em sua primeira vez dançando samba, não conseguia esconder que era gringo.

Como eu não tinha permissão para dirigir no Brasil, pagamos um motorista pra nos levar à Saquarema depois de um dia explorando o Rio de Janeiro e eu pude fazer o trajeto de quase duas horas tentando convencê-lo a surfar.

— Por favor! Você vai estragar a Operação N! — falei fazendo biquinho enquanto tocava seu braço.

— Operação N?

— Sim, operação não permitir que Edward desperdice as oportunidades!

— Você é ridícula — disse rindo.

— Isso é um sim? Te venci pelo charme?

— Isso é um sim — respondeu olhando pra mim.

A cada momento que passávamos juntos, se tornava mais fácil e confortável ficar ao lado de Edward. Nos tocávamos de maneira natural, sem desconforto e, quando ele me olhava, conseguia enxergar que me queria.

Eu queria algo sério, mas seria tão ruim se eu também aproveitasse a oportunidade? Aproveitar a química recíproca que tinha com Edward, mesmo que ele fosse embora em pouco tempo?

Chegamos em Saquarema nas primeiras horas da manhã, antes mesmo do sol nascer, mas fomos para pousada dormir, porque precisávamos. Emmett, Rose e o resto da minha equipe já estavam ali, mas Victoria e o resto da equipe dela só chegariam no outro dia.

Dormi até tarde naquele dia e reorganizei minha rotina pra treinar no tempo que eu tinha, tentando acostumar meu corpo com a viagem de carro e a noite mal dormida, então quase não vi Edward durante o dia. Mas no final da tarde, eu bati na porta do quarto dele e ele já me esperava, shorts curto azul escuro e uma camisa um pouco mais clara, um boné virado pra trás e uma expressão séria.

— Eu sei que tenho te pressionado, mas a gente pode deixar pra lá se você não se sentir seguro em voltar pra água — falei me aproximando dele.

— Não, você tem razão — disse ele segurando minha cintura e me trazendo ainda mais perto. — Tá na hora de voltar pra água.

Edward me segurou por alguns segundos antes de me soltar e dar meia volta para dentro do seu quarto, pra pegar uma prancha que eu não sabia se era de Victoria ou se ele havia comprado.

Mesmo sendo outono no Brasil, o clima em Saquarema ainda era quente até no final da tarde, e a praia estava cheia, então apesar da pousada ser beira mar, Edward e eu caminhamos pela areia até encontrarmos um lugar mais tranquilo pra surfar.

— Pronto? — questionei.

— Não — admitiu ele. — Eu devo estar completamente enferrujado.

— Você só vai saber se tentar.

Eu não havia colocado a roupa de surf, querendo levar aquele momento como diversão e não treino — até porque seria completamente errado treinar com o treinador de outra —, usava um biquíni comum embaixo de um shorts jeans e uma blusinha de crochê que eu mesma havia feito.

Apesar do calor, o vento forte ajudava a formar ondas perfeitas e eu sorri com a vista assim que paramos.

— Quer ir primeiro? — perguntei.

— Não — disse ele rápido. — Preciso de 5 minutos.

Eu já havia me alongado antes de sair e não tinha quase 10 anos sem surfar, então tirei a camiseta e o shorts, deixei debaixo da sandália e me aproximei do mar.

O oceano era como um bom amigo, um mentor e uma entidade, tudo ao mesmo tempo. Ele dizia o que fazer para aqueles que entendiam, e modéstia a parte, depois de tantos anos na água, era fácil ouvir o que o mar me dizia. Observei a onda se formar e procurei o lugar correto pra entrar, então remei até onde queria e encontrei o pico, perfeito. Então só segui o que meu corpo pedia.

Eu peguei mais três ondas, antes de voltar pra areia e encontrar Edward já sem camisa, suas coisas ao lado das minhas.

Não falei nada, apenas sentei no chão e fiquei o observando de costas. A tatuagem de tempestade, aquelas costas definidas e a vista pro mar, parecia uma obra de arte feita pra mim.

— Tá tudo bem se você não quiser fazer isso hoje — reforcei.

Ele não respondeu, só entrou na água.

Eu o observei esperando, analisando o mar como o profissional que ele foi. Ainda era. Existiam certas coisas que se tornavam naturais depois de tantos anos, e eu imaginava que para ele, que havia sido criado no mar, vinham com naturalidade mesmo depois de tanto tempo.

Ele remou para uma onda muito boa, que formou uma parede linda. Edward estava um pouco longe do pico, então teve que trabalhar um pouco para que a onda não o engolisse, mas quando finalmente achou o lugar certo, foi lindo.

Era impossível me colocar no lugar dele, saber o que ele estava sentindo no momento, depois de anos sem se permitir viver aquilo. Mas era lindo de assistir, aquele parecia o lugar dele e eu odiei Carlisle por afastá-lo dali.

Eu o assisti pegar mais uma meia dúzia de ondas grandes e entre desequilíbrios e entradas erradas, tive a certeza que Edward poderia competir se quisesse. Ele estava enferrujado e suas manobras eram modestas, um pouco inseguras, mas de alguma maneira ele ainda parecia dominá-las com naturalidade. Conseguia enxergar ele competindo, ganhando prêmios.

Quando ele começou a sair da água, eu levantei da areia sorrindo, eufórica por compartilhar aquele momento com ele e querendo elogiá-lo.

Edward correu da água, a expressão determinada com a prancha debaixo do braço.

Perto o suficiente ele jogou a prancha dele no chão e correu ainda mais na minha direção.

— Obrigado — disse ele bem perto, o corpo molhado, os olhos vermelhos.

Eu não tive tempo de dizer que não era nada, ou de elogiá-lo, antes dele me surpreender e me puxar pra perto, me beijando. A atração que eu sentia por ele parecia crescer a cada momento que compartilhávamos, então a surpresa do início do beijo não foi o suficiente para que eu não retribuísse o beijo na mesma intensidade, colocando uma das mãos no seu pescoço e outra no seu peito.

Sua boca tinha gosto de mar e a maneira como seu braço se encaixou firmemente na minha cintura parecia tão natural, que me deixou fraca. Eu compartilhava a euforia do momento, a adrenalina de estar na água e de finalmente provar da atração mútua e intensa entre nós dois.

Com a respiração ofegante e a sombra de um sorriso, Edward se afastou apenas o suficiente pra nos deixar respirar, mantendo seu olhar no meu.

— Obrigado — repetiu ele.

— Pelo beijo? Não precisa agradecer, eu também aproveitei — provoquei.

— Também, mas por insistir que eu deveria voltar pra água.

— Vai tentar de novo?

— Você vem comigo?

— Claro.

Edward me deu um beijo rápido antes de pegarmos nossas pranchas e meu coração, ainda acelerado, ficou ainda mais inquieto. Nós corremos pro mar lado a lado e esperamos pela próxima onda, com uma distância decente pra não nos atropelarmos no processo. Eu avisei que pegaria a próxima onda e Edward respeitou minha preferência, mas pegou a mesma onda.

Eu não conseguia ver Edward na minha retaguarda, mas eu gritei avisando que eu iria para a direita e ele retribuiu o gesto, dizendo que iria para a esquerda. O barulho alto do mar e a emoção do esporte me dominavam, e saber que Edward estava ali perto de mim, apenas algumas remadas de distância, parecia tornar a experiência ainda mais eletrizante.

Surfamos algumas ondas, até que Edward avisou que voltaria para a areia, porque o fôlego dele já não era o mesmo, e eu continuei no mar por mais algum tempo.

Quando me dei por satisfeita, Edward me esperava sentado em cima de sua prancha, eu finquei a minha no chão e ele estendeu sua mão, me puxando para sentar ao seu lado em seguida.

O céu de Saquarema começava a ficar laranja, finalizando o dia de maneira perfeita.

— Você parecia natural ali — comentei olhando pra frente.

— Foi como voltar pra casa — admitiu.

Sem cerimônias, Edward se mexeu e colocou a cabeça no meu colo, o rosto virado pra frente. Com a mesma naturalidade, eu coloquei a mão em seu cabelo molhado e comecei a fazer carinho.

— Eu sei exatamente o que fazer, não preciso pensar muito pra saber qual onda pegar, consigo entender o vento e a força da água. É quase tão natural quanto andar de bicicleta — contou. — Mas a voz do meu pai tá ali no fundo.

Sua voz tão cheia de euforia, pareceu quebrar ao falar de Carlisle.

— Não preciso me esforçar pra escutar a voz dele falando que minha postura está errada, que entrei no tempo errado, que não fui ousado o suficiente — continuou ele.

A cada palavra, seu tom ficava mais desanimado, mais magoado.

— Depois das primeiras ondas, eu tava tão animado e mesmo assim conseguia ouvir a voz dele reclamando do tempo que eu passei sem treinar.

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— Desculpa insistir tanto.

— O beijo ajudou a calar a boca dele — disse, virando o rosto pra mim, um sorriso que não chegava aos olhos. — E eu estou tão exausto de fugir de algo que eu gosto por causa dele. Eu já perdi tanta coisa, não podia deixar ele tomar mais isso.

Sua voz carregava angústia e mágoa, e me deixou inquieta. Queria tirar aquela dor e tristeza dele, mas não sabia o que fazer, então continuei mexendo em seu cabelo.

Ele virou novamente o rosto em direção ao mar e voltou a falar:

— Carlisle sempre foi obcecado por alimentação saudável, mas as coisas pioraram quando comecei a competir. Eu não podia tomar sorvete, doces eram apenas para datas comemorativas e só fui tomar refrigerante quando me tornei o filho rebelde — contou. — Fui acompanhado por uma nutricionista desde pequeno e em alguns momentos, era Carlisle que pesava a minha comida. Ele tinha um peso ideal na cabeça dele, que me faria pesado o suficiente pra não ser levado pela água, mas leve o suficiente pra que fosse fácil fazer manobras.

Eu tinha começado a ser acompanhada por uma nutricionista por vontade própria quando entrei na liga adulta e era muito grata pela profissional que me acompanhava, ela era tão responsável pela minha performance quanto todos os outros da minha equipe, mas mesmo com uma dieta restritiva, ela me lembrava que eu precisava dos meus momentos de liberdade na alimentação. Não conseguia imaginar os estragos na mente de uma criança que teve tanto controle.

— Eu também não podia fazer coisas arriscadas. Skate era bom, porque treinava o equilíbrio. Mas futebol era ruim, porque não servia para ajudar com o surf. As atividades extras do colégio eram inúteis, mesmo quando eu gostava de algo, como as apresentações de artes, ele achava chato e ignorava — continuou ele. — Violão era bom, porque qual surfista não participou de um luau com música ao vivo? Mas eu também não podia ser muito sociável, porque aqueles eram meus competidores e eu não podia fazer amizade com o inimigo. Só podia ter amigos no colégio, mas com 14 anos ele resolveu que me ensinar em casa daria mais tempo pro surf.

Seu corpo tenso se afundava cada vez mais no meu colo.

— Quando saí da escola, fiquei tão animado. Qual criança não ia querer ser educada em casa pra poder surfar à vontade? — questionou de maneira retórica. — Mas eu não imaginava tudo o que eu ia perder. Não tinha muitos amigos no colégio, mas fui perdendo os que eu tinha porque paramos de ter coisas em comum, a vida deles foi acontecendo e a minha ainda era dedicada ao surf. Baile da escola, clubes estudantis, a chance de ir pra faculdade… Eu perdi toda a experiência. Tirei minha carta de motorista mais tarde, porque ele preferia me levar para os lugares. Toda minha vida girava em torno do surf. Era tudo sobre me preparar para a próxima competição. Mesmo assim, não parecia o suficiente.

— Parece muito solitário — comentei ainda mexendo em seu cabelo.

— E era mesmo.

— Quando eu descobri que alguns surfistas estudavam em casa, eu e Emm imploramos pra estudarmos em casa também e nossos pais não deixaram. Eu fiquei tão magoada, não entendia o porquê deles não deixarem. Eu já sabia que queria ser surfista, porque precisava ir pra escola? — contei. — Com o tempo eu aceitei, as vezes achava que tinha demorado demais pra me dedicar totalmente ao surf, mas eram águas passadas. Nunca passou pela minha cabeça tudo o que eu teria perdido.

— Eu não contei pra gerar pena — disse ele. — Pobre menino rico que largou a escola pra surfar e perdeu o baile da escola.

— Eu não sinto pena por isso, mas pelo tratamento que seu pai te deu — falei. — Todo mundo lamenta pelo astro que parou a carreira no auge, idolatra ele por manter a empresa da família em alta, mas ninguém imagina o que as frustrações dele fizeram com você. Ele estragou algo bom, algo que você amava e isso é uma pena.

— Carlisle realmente estragou um monte de coisa — concordou ele. — O casamento com a minha mãe, a minha relação com tudo que envolve o surf e com Vic por tabela.

— Mas vocês parecem próximos — comentei confusa.

— Agora provavelmente sim, mas fiquei ausente por muito tempo no início da adolescência dela. Ela ainda era tão grudada com Carlisle e tão obcecada com o surf, que eu não era tão presente quanto deveria. Fazia anos que eu não assistia uma competição dela.

— Bem, você tá aqui agora e é isso o que importa.

— Temporariamente.

O laranja e roxo do céu foi se dissipando enquanto a noite ganhava espaço em Saquarema, o vento que continuava formando ondas perfeitas foi ficando mais forte e o clima abafado se transformou em uma noite agradável.

A vista do oceano quebrando era hipnotizante e familiar, mas depois de ouvir o desabafo de Edward, aquele momento tão bom tinha um quê agridoce. Era irônico como o que pra mim era casa, no sentido de conforto e afeto, para ele também era casa, porém uma que não era um lar.

***

Queensland, Australia — Challengers Series

Os primeiros eventos do ano da Challengers Series foram marcados na Austrália. Não era a primeira vez que eu ia para o país naquele ano, muito menos a primeira vez que eu e Edward íamos juntos, mas aquilo não diminuiu a nossa animação para explorar o país.

Nosso plano era fazer um passeio privado no planalto de Atherton, para aproveitar o lago e as cachoeiras, depois iríamos acampar e se tivéssemos sorte e tempo, tentaríamos andar de balão. O que era um programa em dupla, acabou virando toda uma excursão em grupo por causa da volta do campeonato.

Eu competia em algumas rodadas da Qualifying Series apenas para não ficar parada e aumentar minha pontuação, mas fazendo o Championship Tour, já estava inserida entre as 64 surfistas que disputavam a liga principal do surf feminino. Muitas surfistas não faziam como eu e outras competiam em suas próprias regiões, então quando o Challengers começava, era o momento de reencontrar alguns amigos.

Emmett tinha ficado magoado por não ter explorado o Rio de Janeiro com a gente, então ele e Rosalie foram os primeiros a somar no nosso passeio. Victoria não era muito fã de acampar, mas depois de pesquisar o lugar e descobrir que era um acampamento Nutella, chamou Jéssica e o que era um passeio em dupla com Edward, se tornou uma pequena caravana.

Nós marcamos de nos encontrar em Cairns, onde nossa pequena excursão começaria. Como eu, Rose e Emm chegamos primeiro, minha melhor amiga aproveitou para bater algumas fotos minhas para alimentar minhas redes sociais, até que notei Edward e a irmã chegando e perguntei:

— Você acha que é o suficiente? — perguntei para Rosalie, ansiosa olhando na direção de Edward.

Minha melhor amiga virou ao redor e riu quando notou quem era.

— As últimas tem um pouco de baba escorrendo, mas a gente tira na edição — gracejou.

— Ridícula!

— Você que tem cara de boba apaixonada e eu que sou ridícula?

— Eu não posso me apaixonar, Edward vai embora logo.

— Ué, então aproveita enquanto ele tá aqui. Carpe diem e blá-blá-blá, essa coisa de surfista.

Ignorei sua provocação e me afastei dela, querendo me aproximar de Edward.

Depois dos beijos na praia em Saquarema, continuamos nos falando nos 10 dias que ficamos sem nos ver, mas não tivemos a conversa e eu sinceramente não sabia em que pé estávamos. Ficantes? Algo Casual? Será que eu queria rotular o que tínhamos? Eu sabia que de qualquer maneira, se tivéssemos algo, seria temporário, já que a presença de Edward no circuito tinha prazo de validade.

Mesmo assim, tentei não correr em sua direção e falhei. Por sorte Edward fez sua parte e me encontrou no meio do caminho, me envolvendo em seus braços com rapidez.

— Oi — falei com a cabeça afundada em seu peito.

— Oi, senti sua falta — respondeu, a voz meio abafada por ele estar enroscado em mim.

— Eu também.

Nos braços firmes de Edward eu me sentia segura e confortável, envolvida completamente naquele cheiro familiar de limpeza e frescor que ele sempre exalava.

Era fácil perder a noção de tempo ali, aconchegada nele, então quando Vic chamou minha atenção rindo, percebi que estávamos grudados por um tempo além do socialmente aceitável.

— Oi, Bella! Eu também ganho um abraço assim?

— Oi, Vic — respondi me afastando de Edward.

Eu não precisava de um espelho pra saber que estava corando. Abracei Vic rapidamente e quando nos soltamos, Edward passou o braço de volta pela minha cintura, o que fez ela continuar:

— Desculpa o meu irmão, ele não foi muito abraçado quando era criança e aí cresceu e ficou assim, meio carente — implicou com um sorrisinho diabólico.

— Vic — repreendeu ele..

Parecia apenas provocação entre irmãos, mas não consegui impedir minha mente de imaginar o Edward mais novo — aquele que eu tinha visto crescer a distância —, implorando atenção de um pai que só se importava com o surf e aquilo partiu meu coração, então apertei ele de volta.

Nós três engatamos em um diálogo com Rosalie e Emmett enquanto esperávamos os outros aparecerem, ainda grudados um no outro. As pessoas foram chegando e não estranharam nossa proximidade, ou quando Edward ofereceu carregar minha bolsa de crochê enquanto ele já estava de mochila, ou como fizemos todo o passeio de mãos dadas.

Apesar de não ser muito adepta dos casos de uma noite ou de relacionamentos curtos no geral, eu estava acostumada com a volatilidade do romance no mundo do surf, com nossa rotina intensa de viagem, grande parte dos surfistas se intitulavam praticantes do amor livre. Era comum que algum surfista aparecesse com alguém e fosse fotografado sem parar com essa pessoa, então três meses depois estaria sozinho ou com um novo alguém. Era normal até entre os próprios surfistas da WSL. Claro, teria fofoca por um tempo, mas o drama não duraria muito. Então, tocar Edward a todo instante provavelmente parecia apenas algo normal para os outros, com o tanto que estávamos andando juntos nas últimas semanas.

Nossa primeira parada foi a Cathedral Fig Tree, que ficava no centro do parque nacional de Danbulla. A figueira era algo de tirar o fôlego, completamente imponente, com muitas outras árvores ao redor, o que tornava a vista ainda mais bonita.

O guia que nos acompanhava, riu da nossa fila pra tirar fotos:

— E pensar que aqui era um lugar pra meditar e entrar em contato com sua paz interior.

— É que você não entende a paz que é ter um feed bonito — disse Jéssica rindo também.

— Pelo menos tirem uma foto em grupo — pediu ele.

— Pera, eu trouxe minha polaroid — disse Rosalie tirando sua máquina fotográfica da bolsinha que estava pendurada no pescoço.

O grupo se juntou como o guia pediu e tiramos duas fotos, uma no celular de Jéssica e outra na câmera de Rosalie. Depois da foto, tiramos cinco minutos para apreciar a vista sem olhar o celular, então voltamos para a minivan em direção ao próximo destino.

Tomamos café da manhã na beira do lago Eacham, um lago de cratera vulcânica com águas cristalinas e partimos para o planalto de Atherton, onde fizemos uma caminhada e paramos no mirante de Millaa Millaa. Nossa última parada com o guia foi a cachoeira de Josephine Falls.

O dia inteiro havia sido repleto de paisagens incríveis, mas o último lugar havia sido proposital para nos deixar impressionados. Cheio de pedras lisas e uma queda poderosa, Josephine Falls era esplêndida.

— Que coisa linda, nem parece que matou um monte de gente — disse Emmett citando o site do governo que alertava os perigos do local.

As sessões de fotos foram rápidas ali, todo mundo com pressa de aproveitar a cachoeira.

Por sorte, a correnteza do rio naquele dia estava fluindo de maneira agradável e não no modo ceifadora de turistas. Tínhamos dado sorte e apesar de ser o começo da alta temporada, Josephine parecia uma piscina privativa, com um toboágua natural.

— Não é irônico que passemos 90% do nosso tempo na água e, quando temos um tempo livre, vamos pra água também? — perguntou Jéssica deitada em uma pedra.

— Obrigada, Poseidon — disse Emmett.

— Cada rio costuma ter um deus próprio, então a gente provavelmente deveria agradecer o patrono dessa cachoeira em específico — comentou Vic.

— E esse lugar é de origem indígena, então acho que agradecer um deus grego é completamente errado — completou Renata.

— Então obrigado, deusa Josefina — disse meu irmão acariciando uma pedra.

O guia escutava nosso diálogo rindo, sem interferir. E eu não queria dizer que provavelmente o nome do lugar havia sido renomeado pelos colonizadores, então apenas balancei a cabeça em negação antes de voltar pra água.

Depois de aproveitar Josephine Falls ao máximo, o guia nos levou de volta para o início de nossa excursão, onde tínhamos deixado nossos carros. Nos dividimos novamente e fizemos uma pequena procissão de volta à Danbulla, onde ficava o Downfall Creek, o lugar que havíamos reservado para montar acampamento.

Downfall era uma das seis áreas de acampamento do parque de Danbulla, era um espaço à beira do lago Tinaroo, com permissão para pesca e bem próximo à floresta. Com a taxa que pagamos para montar acampamento, poderíamos nadar no lago, andar de barco, fazer trilha pela floresta, mas como nosso tempo era escasso e já tínhamos andado bastante no decorrer do dia, optamos por apenas aproveitar a vista e fazer uma fogueira.

O dia foi escurecendo enquanto montávamos nossas barracas, então determinamos que quem terminasse primeiro deveria começar a fogueira. Quando finalmente anoiteceu, todas as barracas estavam montadas e a fogueira estava acesa.

Formamos um círculo ao redor da fogueira e Liam, um dos surfistas que havia ido com a gente, apareceu com um violão. Renata, ao ver a cena, caiu em uma gargalhada que foi logo justificada.

— É que isso é tão clichê — disse ela. — Eu também trouxe um violão no carro.

Outros dois surfistas disseram a mesma coisa e Jéssica disse:

— Eu trouxe um ukulele.

— Que grupinho previsível — comentou meu irmão rindo. — Todo mundo aqui sabe tocar violão?

— Claro, eu fiz sucesso nas festas na época da escola — disse Liam.

— Cabelo grande, descontraído, popular. Clichê demais — apontou Renata. — Sorte que eu era essa pessoa, então não caia em papo de surfista.

— Eu também era e caia bem fácil — disse Jéssica.

— Eu não sei tocar violão — comentou Victoria baixinho.

Edward estava sentado entre nós duas à minha esquerda, mas eu consegui ouvi-la mesmo assim.

— Carlisle nunca te ensinou? — questionou Edward franzindo o cenho.

— Eu perguntei uma vez e ele disse que eu deveria focar no surf, não pedi de novo — deu de ombros.

— Posso te ensinar se quiser — ofereceu Edward.

— Obrigada!

Os dois conversavam baixinho, o outro lado da roda sem ouvir a troca entre os irmãos. Liam tinha começado a tocar Wonderwall do Oasis, a música mais clichê possível para uma fogueira, mas que fez todo mundo começar a cantar junto.

O violão foi passando de mão em mão, enquanto comemos e conversamos, até que parou em Renata e ela começou a cantar uma música em espanhol e francês que eu adorava, o Ukulele de Jéssica estava com outra pessoa.

— Quer dançar? — perguntou Edward oferecendo sua mão.

— Claro.

A música era um reggae latino alto astral e mesmo apenas no violão, era perfeita pra dançar. Nós não éramos os únicos em pé, Jéssica e Liam dançavam juntos, assim como Rosalie e Emmett, Victoria e outras duas surfistas.

Me gusta la moto, me gustas tú. Me gusta correr, me gustas tú.

Qué voy a hacer? Je ne sais plus. Qué voy a hacer? Je suis perdu. Qué horas son, mi corazón?

A letra parecia refletir os meus próprios pensamentos, eu gostava de Edward. Gostava da maneira que ele olhava pra mim com aqueles incríveis olhos verdes, gostava do som da risada dele e de como meus dedos deslizavam facilmente em seu cabelo cor de cobre, que voltavam a crescer. Gostava de como ele prestava atenção quando eu falava e da maneira que me tocava.

Eu gostava dele, ponto.

Mas o que fazer com isso quando o tempo dele por aqui tinha prazo de validade?

Eu acreditava na teoria de que cada um de nós era um pouquinho das pessoas que passavam na nossa vida. Eu era a determinação do meu pai e a curiosidade da minha mãe, era apaixonada pelo surf como Emmett e era fiel como Rosalie. Eu amava Gilmore Girls como Angela e minha baliza só era boa, porque Jacob havia passado semanas me ensinando a estacionar direito.

Cada pessoa que passava em nossa vida deixava algo e nós deixávamos algo de volta, e nada disso era intencional. Mas às vezes os ciclos se encerram de maneira conturbada e a parte que aquela pessoa tocou, se torna dolorosa demais.

A atração que eu sentia por Edward era tão intensa, era como se ele fosse um imã e eu metal, atraídos um pelo outro. Parecia incontrolável e avassalador, mas ao mesmo tempo tão certo.

E quando acabasse partiria meu coração, não havia dúvidas nisso. Minha única dúvida era se eu conseguiria me recuperar disso.

Quando o violão chegou na mão de Edward, eu tinha finalizado uma cerveja e dançava com Jéssica, reconheci a música do Arctic Monkeys nos primeiros acordes. Apesar da maioria saber tocar violão, nenhum de nós sabia realmente cantar. Ninguém era desafinado demais, mas era uma benção que ninguém precisava viver da música.

A voz de Edward era rouca e familiar, ele tocava concentrado nas cordas enquanto cantava.

You call the shots, babe. I just wanna be yours.

***

Califórnia, Estados Unidos — Challengers Series

A maré nos levou de volta pra Califórnia e Edward achou que era o momento perfeito para me levar para finalmente dar uma volta de moto.

Ele tinha ido pra casa na frente, então quando cheguei em São Francisco, me buscou de carro no aeroporto. Semanas viajando juntos e era a primeira vez que eu o via atrás de um volante, porque ele cedia facilmente a direção pra mim.

Vê-lo dirigindo trouxe muitos tons de surpresa, começando pelo Volvo prateado que ele guiava. Na estrada, Edward acelerava com facilidade e pra minha surpresa, ele era um daqueles motoristas que dirigiam o carro com um braço só. O outro ele não demorou pra colocar na minha perna, o que me fez rir.

— Eu não imaginava que você era esse tipo de motorista — comentei olhando pra ele.

Edward virou brevemente em minha direção e indagou.

— Que tipo? Que corre?

— Não, você tem uma moto, é claro que você seria o tipo que corre — refleti. — Mas a postura relaxada, só uma mão no volante. Combina com as tatuagens e a mão na minha perna.

— Ultrapassei um limite?

— Não. Só me fez pensar se você é sempre assim. Se Emmett estivesse aqui no meu lugar, você também estaria com a mão na perna dele?

— Claro, meu sonho sempre foi apalpar seu irmão — disse revirando os olhos.

— Bem, da próxima vez vou convidá-lo — falei rindo.

— Piadista.

— Também senti sua falta — falei colocando a mão em cima da sua.

O caminho do aeroporto até o apartamento de Edward foi rápido, já que ele gostava de pisar no acelerador. Antes que pudéssemos nos atualizar sobre os dias separados, ele já estava estacionando o carro.

O prédio em que ele morava era antigo e bonito, uma arquitetura que parecia dizer algo e não aquela coisa super moderna e impessoal, eu gostava. Apesar de antigo, nós subimos de elevador até o décimo andar e Edward me guiou pela mão – na outra, levava minha mala de rodinhas, enquanto a mochila carregava nas costas – pelo corredor, até seu apartamento.

A porta era exatamente igual a dos outros apartamentos do andar, mas assim que a atravessei, luzes piscando Edward gritaram na minha cabeça.

Logo na entrada havia um corredor, com uma sapateira de madeira cheia de sapatos organizados – e que eu imaginava ter sido arrumada recentemente –, e um cabideiro, além de uma porta que ele explicou dar para o banheiro. As paredes do corredor eram brancas, mas foram os quadros na parede que diziam que aquele lugar era de Edward.

Ele tinha muitas peças ali, quadros com e sem moldura, organizados de um jeito profissional e harmônico, mas que eu tinha certeza de que tinha sido ele a organizar.

O corredor dava direto em um cômodo espaçoso e aberto, a mistura de uma sala normal, escritório, sala de jantar e cozinha — com uma bancada que separava a cozinha do resto do espaço —, tudo se integrava e ao mesmo tempo tinha seu lugar específico. O espaço era lindo e funcional, tinha a cara dele.

O sofá verde de tecido estava cheio de almofadas de cores complementares, havia um cacto gigante em um dos cantos e uma flâmula de crochê que eu mesma tinha feito, estava pendurada em uma das paredes. A cozinha era algo à parte, com muitos eletrodomésticos na bancada e madeira por todo canto.

O conjunto todo era muito Edward, artístico, aconchegante e bonito.

— Ainda bem que eu cheguei a tempo de tirar o pó do meu apartamento — comentou Edward.

— Por quê?

— Porque se não você estaria inalando um monte de pó do tanto que esse apartamento tem ficado fechado e ia atrapalhar sua inspeção minuciosa.

— Meu Deus! Desculpa — ri me afastando de uma coleção de pôster na parede, inclusive o de Mulholland Drive. — Eu estou um pouco surpresa e encantada.

— Surpresa? Você tava esperando outra coisa?

— Sim — falei apertando os lábios. — Não me leve a mal, mas tava esperando um apartamento masculino genérico, cheio de coisas que uma decoradora qualquer disse que ficaria bom. A outra opção era que seu apartamento ainda seria cheio de coisas do antigo proprietário, eu mesma não mudei metade dos móveis do lugar que comprei.

Edward fez uma careta com a minha confissão, mas não parecia bravo.

— Estou ofendido.

— Não fica assim! Olha o seu guarda-roupa, imaginei que ia encontrar algo parecido.

Ele riu.

— Ah, isso é recente. As roupas foram escolhidas de propósito, achei que se eu parecesse avesso a ideia de estar ali, Vic ia me liberar da função de treinador mais rápido. Mas eu gosto de cor.

— Então agora que você tá se divertindo posso esperar você em uma camiseta havaiana floral?

Edward fez um barulho exagerado de ofensa antes de dizer:

— Eu gosto de cor, mas tenho bom gosto!

— Tá dizendo que eu não tenho bom gosto? Eu usei uma camisa assim na primeira vez que fomos para a Austrália.

Edward se aproximou mais de mim e prendeu os braços na minha cintura, ele tinha aquele sorriso torto no rosto e com a cabeça levemente inclinada pro lado, ele ficou indecente enquanto dizia:

— É que tudo fica bem em você, meu bem.

— Você é muito liso, sorte que eu gosto de você.

Eu eliminei a distância entre nós, capturando os lábios dele nos meus.

Mesmo depois de semanas fazendo aquilo, beijá-lo ainda me deixava sem fôlego. Até quando o beijo era lento, era intenso.

— Eu estava brincando sobre a inspeção, você pode bisbilhotar à vontade — disse Edward, ainda me segurando pela cintura.

— Não queria ser intrometida, mas fiquei encantada. Esse lugar é tão você.

— Como assim?

— Ele é impressionante e aconchegante ao mesmo tempo — expliquei. — A gente se conhece faz tempo, pelo menos de vista, e eu sempre te achei impressionante. Mas agora a gente se conhece de verdade e eu continuo te achando impressionante, só que eu sei que não é só isso.

Eu apertei ele um pouquinho antes de continuar.

— Viu? Aconchegante.

— Prefiro aconchegante do que carente, então vou aceitar o elogio.

— Tem que aceitar, é um elogio mesmo.

Edward inclinou a cabeça e grudou a testa na minha. Com os olhos fechados, ele deu um sorriso pequeno antes de confessar.

— Fiz uma faxina tão grande no apartamento.

— Queria me impressionar, bagunceiro?

— Sim — disse ele, voltando a abrir os olhos.

— Você sabe que não precisa, você já viu meu quarto de hotel, eu também não sou muito organizada.

— Eu sei, mas eu quase não tenho ficado em casa. Um amigo vem toda semana cuidar do meu cacto, mas isso aqui tava um caos e eu queria causar uma boa primeira impressão.

— Tarde demais pra uma primeira impressão — comentei rindo. — Mas conseguiu me impressionar. Vai me impressionar ainda mais quando me levar pra andar de moto, qual o plano?

— Pensei em terminar de guardar suas coisas e atravessar a ponte pra almoçar do outro lado, em Oakland, o que acha?

— Posso tomar um banho? Preciso tirar a sujeira do avião.

— Fica à vontade.

Apesar do banheiro na entrada, Edward me levou para sua suíte e eu não perdi a oportunidade de bisbilhotar mais um pouco.

O quarto dele era tão ele quanto o resto da casa, as paredes de um cinza texturizado como uma tempestade estavam cheias de fotografias, do lado da cabeceira da cama – uma peça de madeira incrível –, tinha uma coleção de polaroids milimetricamente ajustadas, incluindo algumas que tínhamos tirado com a câmera de Rosalie nas viagens.

A cama king size estava cheia de travesseiros e um edredom azul pesado. Do lado esquerdo da cama ficava uma mesinha com o mesmo material da cabeceira, do lado direito uma estante de madeira e metal, com livros organizados e duas plantas.

O banheiro pessoal de Edward era bastante azul, limpo e cheio de toalhas fofinhas, com uma banheira tentadora que me fez pensar em transformar o almoço em um jantar, e passar a tarde ali com Edward. Porém resisti.

Depois do banho, coloquei uma calça jeans – Edward tinha me sugerido vestir calça para andar de moto –, e um top azul. Edward havia trocado de roupa enquanto eu tomava banho e vestia uma versão parecida da minha roupa, mas no lugar do top, uma camisa de manga curta.

Ele segurou minha mão novamente na viagem de elevador até a garagem e só soltou quando chegamos em sua moto.

Não era a primeira vez que eu via uma Harley na minha frente, mas aquilo não me impediu de ficar impressionada com o quão bonita era aquela máquina.

Edward me entregou um capacete preto e liso, com cheiro de novo e disse que eu poderia colocar adesivos se eu quisesse, assim como o capacete dele. Coloquei o capacete na cabeça e Edward ajeitou-o no lugar, mas não abaixou a viseira.

— Essa moto não tem onde você segurar, então você vai precisar segurar em mim — disse ele sorrindo torto. — Pode segurar firme. Eu vou assumir que você não tem problema com velocidade, porque você passa o dia surfando e eu já te vi dirigindo, mas se for demais para você, me grita que eu desacelero. Ah, é importante seguir o meu corpo, se eu for para a esquerda, você vem comigo, ok?

— Ok — respondi animada.

Edward subiu primeiro, claramente acostumado, e me estendeu o braço como apoio, eu segurei ali e puxei seu corpo enquanto subia, pois a moto era realmente alta. Não tive vergonha de segurar Edward com firmeza, sabendo que se eu vacilasse viraria pedacinho.

— Pronta?

— Com certeza.

Ele ligou a moto e foi como ver um tigre ronronando, aquele barulho era poderoso. Edward foi devagar no começo enquanto saíamos do estacionamento para a rua.

Foi quando entramos na ponte e ele aumentou a velocidade que eu finalmente senti.

A emoção, a adrenalina, a liberdade.

Não sabia se a sensação de pilotar era a mesma, mas estar na garupa de Edward era como estar no mar. Era poderoso, libertador, intenso. Eu tinha pouco controle, mas aquilo não me assustava, pelo contrário, me encantava ainda mais.

Comecei a rir, adorando a sensação do vento no meu rosto e imaginando como seria estar sem capacete e com o cabelo ao vento.

A água ladeava os dois lados da ponte e o vento úmido era familiar.

— Isso é incrível! — gritei sem saber se Edward conseguiria me ouvir.

— Eu sabia que você ia gostar — gritou ele de volta, o tom de voz de quem estava sorrindo.

O trajeto até o outro lado foi mais curto do que eu gostaria, desejei fazer uma viagem mais longa, quem sabe para outro estado, na garupa de Edward. Talvez uma roadtrip de verdade, sem um roteiro fixo, só seguindo a orla da praia.

Edward escolheu um restaurante de comida havaiana na marina, o lugar era bem característico, com vigas de madeira e decoração tipicamente havaiana por todo o lado. Um cara com camisa havaiana e um colar de flores nos levou para uma mesa perto da janela e serviu nossos pedidos.

Assim que o garçom se afastou, o celular de Edward começou a tocar e ele pediu licença pra olhar seu e-mail ali na mesa.

Ao invés de pegar o meu celular, fiquei ali observando-o.

A expressão séria naquele rosto anguloso poderia facilmente estar em uma passarela ou em uma revista de moda, os olhos verdes brilhantes e a boca bonita. Ele tinha meia dúzia de sardas clarinhas no rosto, o que era um milagre, pois branco daquele jeito e ruivo, ele devia ser cheio delas assim como a irmã, mas tinha apenas algumas e era realmente um charme. Seu cabelo não estava mais tão curto e depois de tirar o capacete, ficou uma bagunça. Ele era tão bonito.

Eu queria algo sério. Alguém que me entendesse, que combinasse comigo, que me quisesse. Não apenas a atleta, ou a influencer, mas que quisesse a parte pública e os outros pedacinhos que eu guardava apenas pra quem se aproximasse o suficiente.

Edward parecia gostar dessa outra parte, provavelmente mais do que da parte pública. Só que aquilo ali era temporário. Não importava o quanto nós estivéssemos nos divertindo nesses últimos meses, assim que pudesse, Edward iria embora. E eu sabia disso.

Eu estava tentando ser casual, aproveitar o momento, como eu tinha sugerido que ele aproveitasse as viagens. Mas tinha sido ingênuo da minha parte achar que eu conseguiria viver aquilo e não me apegar a ele.

— Pronto, avisei que vou ficar o dia off — disse Edward, guardando o celular. — Tô animado pra saber o que você vai achar da comida daqui. Eu adoro, o dono é realmente havaiano.

— Confio em você.

Edward estendeu a mão em cima da mesa e eu sorri ao aceitar seu toque.

— Não consigo acreditar que você mora na Califórnia e passou todos esses anos sem entrar no mar — comentei.

— Era impossível evitar a praia, mas conseguia não me molhar.

— Você nunca pensou em ir pra mais longe? Mudar para um estado sem praia?

— Eu cogitei no começo, queria me afastar o máximo possível. Mas mesmo depois da separação, minha mãe e Vic continuaram na Califórnia e eu não queria ficar tão longe delas — confessou.

— Admiro sua força de vontade, ver o mar tão de perto e não molhar nem o pé.

— A teimosia é uma coisa poderosa — comentou rindo. — Eu achava que se entrasse na água de novo, acabaria cedendo. Não sei se faz sentido.

— Faz sim. Foi a sua maneira de colocar um limite, pelo menos naquele momento.

— Mas agora eu sei que posso aproveitar o mar de novo. Obrigado.

— Não precisa agradecer, eu só dei um empurrãozinho.

— Preciso sim, você me fez aproveitar o mar de novo.

Não queria o elogio, aquilo não era um favor para ele ou para Victoria, eu gostava da companhia e era um prazer ver Edward na água de novo.

— Animada para Teahupo'o?

— Sim, eu amo viver na estrada, mas é muito bom quando as competições me levam de volta para o lugar que eu chamo de casa. Você vai ter a chance de bisbilhotar o meu apartamento — falei. — Já se prepara que você vai encontrar um monte de móvel velho do antigo proprietário.

— Vou levar uns pôsteres pra pendurar na sua parede. Os da trilogia Before já são certeza, tem algum pedido?

— Me surpreenda. Gostei daquele de Titanic na sua coleção.

— Eu fiz o design, queria algo que combinasse com os outros.

— Você é talentoso. Terminou o desenho das nossas tatuagens?

— Terminei, quer ver? — perguntou pegando o celular.

— Claro.

Edward me entregou o celular aberto em um desenho, um par de selos de cartas. Uma delas tinha o desenho de uma plumeria, a outra, uma onda.

— Pensei na onda ser a sua tatuagem, já que você vive na água e ama isso, mas posso trocar se você quiser — explicou ele.

A ideia de uma tatuagem combinando havia simplesmente surgido em algum momento e nós levamos a ideia a sério. O selo de carta tinha sido ideia minha, por causa das viagens que estávamos fazendo, como um cartão postal na pele pra sempre, marcando o momento.

Fazer uma tatuagem em conjunto poderia parecer algo grande e arriscado para algumas pessoas, mas não era uma questão pra mim. Eu não era o tipo de pessoa que me arrependia do que fazia. Se tudo desse errado, pelo menos as tatuagens não se completavam e eu podia apreciar a lembrança do momento.

Ter ele ali, marcado na minha pele, era apenas um detalhe. Ele já estava impregnado em mim de outras maneiras.

— Não, eu amei.

***

Teahupo’o, Taiti Evento especial

Para mim era impossível imaginar uma realidade onde eu não morasse em uma cidade litorânea.

Tinha crescido em Virginia, em um lugar turístico que era parada de surfistas, mas quando eu comecei a fazer meu próprio dinheiro e me senti adulta o suficiente para comprar uma casa, não passou pela minha cabeça comprar algo onde cresci. Não fazia sentido para mim voltar para minha cidade e não ficar na casa dos meus pais.

Então Teahupo'o surgiu na minha mente. A vila era conhecida pelas ondas gigantes e apesar do apelido sombrio, Mar dos Crânios Quebrados, pareceu o lugar perfeito para chamar de meu.

Mesmo que a casa fosse minha, eu passava menos tempo do que deveria no Taiti e o lugar parecia estéril comparado ao apartamento aconchegante de Edward.

A sala e a cozinha estavam cheias de móveis rústicos que não combinavam entre si, coisas herdadas do antigo proprietário, tirando a televisão gigante e o sofá confortável que eu havia escolhido. Hospedar Edward e a irmã — Victoria estava muito baixo no ranking para participar desse tipo de evento, mas o sobrenome da família fazia maravilhas —, tinha me deixado autoconsciente.

O único cômodo que refletia minha personalidade era meu quarto, as paredes cor de areia, uma cama de casal que sempre estava com um jogo de cama azul e o chão com tapetes de crochê que eu mesma havia feito. O quarto provavelmente tinha mais coisas do que deveria e estava longe do ambiente milimetricamente organizado que eu mostrava nas redes sociais, que era na verdade meu quarto de hóspedes.

O surf era a maior parte da minha vida e eu amava, enquanto ser influencer tornava as coisas mais fáceis e lucrativas, além de ser uma plano para o futuro, mas eu lutava constantemente sobre meus limites. Até qual ponto da minha vida eu queria mostrar? O quão vulnerável eu poderia ser? Meu quarto era um limite. Eu podia mostrar os hoteis onde eu ficava pelo mundo e até a vista da minha varanda, mas desde que comprei a casa, quis manter aquele pedacinho só pra mim.

Minha família aparecia no meu perfil livremente — Emmett mais do que meus pais, porque estávamos sempre juntos —, porque eu os amava e me orgulhava deles. Meus amigos surfistas não ligavam da exposição, então era comum postar uma ou outra foto com eles no feed e aquilo era recíproco. Eu tinha poucos amigos que não faziam parte desse círculo, alguns não ligavam de aparecer, enquanto outros não gostavam de aparecer nem nos stories.

Com Angela eu ainda levava uma vida comum nas redes, mesmo competindo. Com Jacob foi diferente, caótico. No começo, ele aparecia de bom grado nas redes sociais e ele mesmo foi ganhando seguidores, mesmo sem aspiração alguma pra se tornar uma personalidade na internet. Era ridículo que ele fosse publicamente meu namorado, mas aquilo não impediu a chuva de comentários elogiando ele em nossas fotos juntos ou a horda ousada, que foi no perfil pessoal dele flertar descaradamente.

Era difícil definir o que eu e Edward tínhamos. Eu gostava dele e não tinha dúvidas que pelo menos a atração era recíproca. Ele tinha passado de um conhecido de longe para uma das pessoas que eu mais conversava, fora a minha equipe. Era confortável estar com ele e eu desejava mais do que isso, mas tinha aceitado que aquilo era tudo que eu poderia ter, porque apesar de Edward estar tão envolvido quanto eu, ele tinha uma vida para voltar. Em resumo, éramos amigos coloridos.

Nós tínhamos uma coleção de fotos juntos das nossas viagens e eu não queria compartilhar nenhuma delas. Em partes porque Edward havia abdicado de sua vida pública — até assinando os projetos no trabalho com o sobrenome de solteira da sua mãe, pra evitar perguntas sobre sua vida antiga e a associação com a marca da família —, e, por outro lado, não queria ninguém dando em cima dele.

Além de Edward e Vic, meu irmão e Rose também estavam hospedados na minha casa. Com o evento no dia seguinte e a tatuagem na parte da tarde, acabamos acordando cedo pra aproveitar a praia. O lugar estava cheio mesmo sendo cedo, a competição tinha levado uma onda de turistas para o Taiti, surfistas profissionais e curiosos, mas conseguimos encontrar um pedaço de areia livre pra deixar nossas coisas.

Depois da primeira rodada de ondas, Edward resolveu sair da água e eu o acompanhei. Nós sentamos em cima de sua prancha, o corpo molhado de Edward grudado no meu, me abraçando pelas costas. Ele distribuía beijos leves na minha pele exposta e as sensações, combinadas com a vista do mar, se aproximava muito do que eu imaginava ser a perfeição.

— Quer voltar pro mar? — perguntou ele com a cabeça no meu ombro.

— Você quer voltar pro mar? — devolvi a pergunta. — Ainda escuta a voz do Carlisle?

— Tem se tornado cada vez mais fácil de ignorar.

Edward me ajeitou em seus braços, me apertando mais um pouco, mas voltou a descansar a cabeça no meu ombro. Eu inclinei meu rosto para mais perto dele, nós estávamos tão grudados, mas mesmo assim não parecia o suficiente.

— Sempre pensei nas coisas que Carlisle tinha me privado — continuou ele. — Os amigos, o tempo livre, minha saúde mental. Parar de surfar foi a maneira que arranjei de recuperar o que eu tinha perdido, mas não percebi que estava me privando de algo que eu também gostava.

— Fico feliz demais com isso, que você se permita fazer algo que gosta.

Queria perguntar para ele sobre o depois, se ele se sentir confortável no mar novamente significava que podiamos ter algo mais permanente, mas o medo da resposta era mais forte e eu continuava com aquela ansiedade pra mim, tentando me convencer de aproveitar o momento. Ele estava ali e era meu por enquanto, o que mais eu poderia querer?

— Acho que finalmente vou ceder e deixar uma equipe cuidar das minhas redes sociais, Harry, Jess e Rose não saem do meu pé e eu tô tão cansada de lidar com os haters — comentei.

— Finalmente, vou poder parar de responder os comentários te xingando.

Aquilo me pegou de surpresa, então me afastei um pouco de seus braços e o encarei antes de questionar:

— Você tava respondendo meus haters e eu não notei? Mas eu te sigo no instagram!

— Fiz um perfil falso pra responder eles — explicou sorrindo sem a menor vergonha na cara. — Eu sou PlumeriaPlatt30.

— Não acredito nisso — comentei rindo desacreditada.

— Eu odeio esses comentários e odiava pensar em ver você lendo esses comentários sem ninguém te defender, então eu resolvi fazer isso.

— Você é inacreditável — falei voltando pro seu abraço.

— De nada. Você vai fazer um perfil privado pra você?

— Com certeza, sou viciada demais nas redes sociais pra ficar longe.

— Vamos aproveitar e fazer seu perfil agora?

— Claro.

Peguei meu celular na bolsa e Edward me ajudou a escolher um nome de usuário, bellswave, escolher uma foto de perfil e assistiu enquanto eu seguia meus amigos mais próximos. Ainda estava tentando lembrar de todo mundo quando recebi a notificação de que haviam me marcado em uma foto no perfil novo. Assim que abri, vi a foto e sorri.

Era eu e Edward na Austrália, dançando juntos perto da fogueira, a foto já estava em seu perfil fazia semanas, mas ele não havia me marcado pra não rastrearem ele à antiga vida. Não tinha sido um problema pra mim, entendia e respeitava sua privacidade, mas ver a marcação mexeu comigo. Apesar de temporário e da falta de rótulos, não éramos um segredo. Eu me sentia em paz.

Continuamos ali por um tempo, com Edward me mostrando as melhores respostas dele em seu perfil fake, o que me rendeu boas risadas. Quando eu decidi voltar pra água, grande parte dos surfistas tinha decidido sair do mar, alguns tinham saído até da praia. Edward voltou junto comigo, nós dois lado a lado carregando nossas pranchas debaixo do braço.

O mar de Teahupo’o era impiedoso, conhecido por grandes ondas, mas quando Edward e eu entramos na água de novo, esperamos, mas o mar não formou nenhuma onda. Tudo estava calmo demais.

***

Califórnia, Estados Unidos — Final da Championship Tour

A final do campeonato principal da WSL foi marcada na Califórnia. Eu adorava o meu país, a Califórnia era um lugar incrível, mas comparado ao Havai, onde tínhamos iniciado o campeonato, finalizar nos Estados Unidos era um pouco decepcionante. Imaginava que muito dinheiro tinha rolado para que a final fosse ali.

Minha posição no ranking era muito boa e a possibilidade de ganhar o campeonato era grande. Além disso, estando no top 5, eu já tinha uma vaga garantida nas olimpíadas de Paris, no ano seguinte — assim como Emmett, que tinha ficado em segundo lugar no masculino.

Meus pais tinham atravessado o país para ver os dois filhos na final e Vic, apesar de ainda não disputar nessa liga, foi com o irmão assistir.

O clima em San Clemente era quente, mas com muito vento, o que era perfeito para surfar. A areia da praia estava cheia como todo dia de campeonato, cheia de turistas querendo assistir a final.

Eu assisti as três primeiras baterias, com um misto de confiança e ansiedade que apenas o surf conseguia despertar em mim, observando cada rodada para ver com quem eu iria competir, até que chegou a minha vez. Renata estava em quinto lugar, mas ganhou as duas rodadas e acabou competindo comigo.

Como eu estava com uma pontuação maior do que a dela, a preferência era minha e eu aproveitei isso. Renata tentou, mas minhas manobras foram melhores e eu passei para a última rodada.

Lauren era quem encabeçava o ranking, então depois que eu ganhei a terceira partida, nós disputamos a partida final. Lauren tinha a preferência, mas quando eu caí na água, o universo se alinhou.

Minha primeira onda foi longa e impressionante, então emendei um floater e um aero, ambos perfeitos, o que me fez sair do mar com um sorriso no rosto. Nós surfamos outras duas ondas cada uma, mas Lauren não conseguiu igualar as minhas manobras.

O campeonato era meu, como se tivesse sido escrito nas estrelas. Mais 200 mil dólares para a minha conta.

Já estava acostumada com o turbilhão que era depois de vencer. Meu corpo cheio de adrenalina e euforia, enquanto uma onda de jornalistas e fotógrafos invadia meu caminho, me enchendo de perguntas sobre o mar e meus sentimentos. Tudo parecia passar em um piscar de olhos e eu não conseguia lembrar de metade das coisas que eu disse.

Quando finalmente me vi livre das entrevistas, voltei para o hotel e corri para o chuveiro para tirar o sal do corpo e parti para o hotel para a festa que a Billabong estava patrocinando.

— Parabéns, Bella! Tô orgulhosa de você — disse Jéssica assim que me viu chegar na festa, me abraçando forte.

— Obrigada, isso significa muito pra mim — falei devolvendo o abraço. — Não acredito que você vai mesmo se aposentar.

— Chegou a hora.

— Queria que você fosse para as olimpíadas comigo.

— Não era pra ser — deu de ombros.

Jéssica tinha passado o campeonato muito bem no ranking, como sempre, mas na sexta rodada do Championship Tour, ela pegou uma gripe terrível e ficou afastada da água por alguns dias, quando voltou, não conseguiu subir no ranking e acabou ficando fora do top 10. Ela poderia concorrer a uma vaga de outra maneira, mas estava decidida a se aposentar mesmo sem uma medalha olímpica. No lugar dela, eu não desistiria. Não estava perto de me aposentar, mas quando chegasse a hora, queria que ainda estivesse no auge, queria dizer que aproveitei todas as oportunidades possíveis. Mas Jéssica não se importava, ela era uma daquelas raras pessoas que tinham o que queriam e queriam o que tinham, se o universo tinha entregado aquilo para ela, não iria reclamar.

— Mas pode ficar tranquila, você não vai se livrar de mim tão fácil.

— Claro que não, você é minha amiga — falei.

Jéssica ia continuar, quando Edward chegou e perguntou:

— Posso roubar a campeã um pouco? — disse ele sorrindo.

— Como se você fosse soltá-la em algum momento — disse Jéssica rindo.

— Vamos dançar? — perguntou ele pra mim, sem discordar de Jéssica.

— Claro.

Um reggaeton que eu não conhecia saía dos alto falantes e Edward não demorou para colocar as mãos em meu quadril e me puxar para perto. Ele me guiava com maestria, como alguém que sabia o que estava fazendo e eu seguia seus comandos, aproveitando o toque e a música.

Eu estava eufórica, como se estivesse no topo do mundo e nada pudesse me tirar daquele lugar. A única coisa que poderia tornar aquele momento melhor, seria beijar Edward, mas com a quantidade de jornalistas que estava por ali, eu estava autoconsciente demais. Teria que levá-lo para um canto escuro quando as pessoas estivessem mais alcoolizadas.

Nós dançamos música atrás de música e o desejo de levar Edward para um canto não diminuiu, então quando comecei a notar que as pessoas ao redor estavam cada vez mais desinibidas, dei um jeito de levar Edward de volta para o meu quarto.

Tranquei a porta e estava pronta para tirar o vestido, quando Edward falou sério:

— Eu preciso te contar uma coisa.

Antes que ele dissesse, eu já sabia. Então falei:

— Vic achou um treinador, né?

— Sim, Jéssica vai treinar ela. Elas começaram a montar um plano de treino, estabeleceram metas para os torneios — contou ele. — Eu tô livre do surf.

— Grande dia pra nós dois, eu ganhei o Championship Tour e você ganhou sua liberdade de volta — falei tentando sorrir, mas imaginando que havia saído mais próximo de uma careta. — Elas estão conversando faz tempo?

— Eu não sei, acho que já deve ter um tempo. Mas Vic me contou essa semana, fiquei enrolando, não queria te desconcentrar.

— Obrigada.

Sentada ao seu lado, olhei para nossas tatuagens que se espelhavam no pulso esquerdo, uma plumeria para ele e uma onda para mim. Uma lembrança permanente de algo que eu sempre soube que seria temporário.

Todas as conversas e rótulos que eu procurava, mas nunca pedi, pairavam na minha cabeça. Queria oferecer um relacionamento a distância, mesmo que minhas últimas experiências ainda me assombrassem. Queria pedir para ele ficar, mesmo que eu soubesse o quanto ele queria ir embora desde o começo.

Mas eu não fiz nada disso.

Me aproximei dele com o coração partido e acelerado, coloquei a mão atrás de seu pescoço e juntei nossos lábios em um beijo. Eu já estava morrendo de saudades e ele não havia partido ainda.

— Sexo de comemoração? — sugeri de olhos fechados, tentando fazê-lo rir.

***

Ericeira, Portugal — Challenger Series

Apesar das competições da elite terem chegado ao fim, a temporada de surf não tinha acabado e o Challenger Series nos levou para Portugal.

Ericeira era uma vila em Portugal, conhecida pelos ótimos lugares para surfar, sendo a melhor reserva de surf da Europa. Era um lugar apaixonante e de tirar o fôlego, e assim que pousei no lugar, mandei uma foto para Edward, dizendo o que ele estava perdendo.

Mesmo depois dele partir, nós continuamos conversando como tínhamos feito nas semanas anteriores, menos a parte de fazer planos para explorar. Aquilo não estava ajudando para diminuir a intensidade dos meus sentimentos, mas eu simplesmente não conseguia me afastar, e sinceramente nem queria. Deixaria o tempo lidar com aquilo.

Depois de uma temporada grudada com seu irmão e com uma das minhas amigas mais próximas sendo sua treinadora, não me surpreendeu quando Vic perguntou se podíamos surfar juntas em Ericeira algum dia.

Nós encontramos um beachbreak — um fundo de areia, o que tornava as ondas menos perigosas —, entre os oito quilômetros de praia que formam a zona mundial de surf. Era um dos trechos mais movimentados, já que eram mais seguros do que os trechos de corais, mas depois do dia intenso na água, queríamos algo menos desafiador.

Surfamos juntas por um bom tempo, até Vic resolver sentar na areia. Eu continuei no mar por um tempo, até notá-la encolhida em cima da prancha.

Sentei-me ao lado dela sem saber o que fazer. Ela não chorava, mas seu corpo encolhido parecia chateado. Tínhamos ficado mais próximas nos últimos meses, mas não sabia se ela gostava de ser tocada, então espelhei os seus movimentos, dando-lhe espaço, mas mostrando que estava disponível.

— Edward te contou por quê meu pai parou de me treinar? — perguntou ela.

— Não, ele falou por que ele parou de competir, mas nunca contou o seu motivo.

— Bem, se Edward te contou sobre ele, então você já sabe que meu pai é um babaca — disse rindo, o que me fez rir também.

Aos poucos a risada foi sumindo e eu notei seu olhar desfocando em direção ao mar, antes de continuar.

— Os oito anos de diferença me distanciaram um pouco de toda a situação. Eu não era completamente cega, mas acho que meus pais e Edward tentaram me poupar de algumas coisas — contou. — Sei que meu pai traiu minha mãe por anos e agora sei que meu pai fez a vida do Edward um inferno, mas na época eu só entendia a parte da separação e imaginava que Edward apenas tinha decidido defender a honra da minha mãe.

Victoria soltou os próprios joelhos e cruzou as pernas em pose de borboleta, ainda com os ombros encolhidos e continuou:

— Quando eu era criança tinha ciúmes da relação do Edward com meu pai. Eles viviam na estrada surfando e eu tinha que ir pra escola, não parecia justo. Então quando Edward parou de surfar, surgiu a oportunidade perfeita pra eu finalmente ter a atenção que eu queria.

Daquele jeito Victoria parecia o irmão, o tom de voz deixando claro que aquele assunto não era confortável.

Eu estendi meu braço e toquei em seu joelho, tentando lhe transmitir algum conforto.

— Minha mãe provavelmente me protegeu mais do que conseguiu proteger Edward, mas eu queria tanto agradar meu pai, que não ligava que Carlisle fosse um treinador rígido. Se eu pensasse muito antes de ceder à alguma decisão, bastava dizer que “Edward teria feito de bom grado”, então eu obedecia.

— Não parece muito seu irmão — comentei.

— Talvez no começo, mas não depois — concordou Vic. — Mas eu não fazia ideia. Meu pai sempre pintava Edward como o surfista perfeito e eu sabia que ele preferia treiná-lo, então eu fazia o melhor pra que Carlisle ficasse satisfeito comigo.

Notei como Vic chamava mais Carlisle de pai, ao contrário de Edward que o chamava mais pelo nome. Os dois falavam do pai com ressentimento, mas enquanto o sentimento de Edward parecia ser predominantemente raiva, o de Victoria misturava saudade com tristeza.

— É claro que nada era o suficiente pra ele e aquilo tudo era só uma maneira de me manter obedecendo. Até que eu fui crescendo e Edward começou a se abrir comigo, as dúvidas começaram a aparecer na minha mente. Como meu irmão era o surfista perfeito e mesmo assim ele e meu pai não se falavam? Mas isso não foi o suficiente pra eu dar um basta, eu entendi que ele era um babaca, mas era um babaca que entendia de surf e me faria vencer.

— É difícil sair de situações tóxicas — tentei confortá-la. — Ainda mais quando é alguém da família.

— Ele me mantinha isolada das outras pessoas, isso era uma das poucas coisas que ele fez muito parecido comigo e com Edward. Acho que isso ajudou a dificultar a me distanciar dele — comentou Vic. — O surf é minha vida e eu me sentia tão solitária. Minha mãe odiava tudo relacionado ao surf por causa do meu pai, assim como Edward. Tirando meu pai, eu sentia que não tinha ninguém, até fazer amizade com a Tânia.

— Australiana? Vocês começaram juntas no WSL adulto, né?

— Isso. Ela é minha melhor amiga — explicou. — Nós competimos no WSL Junior algumas vezes, mas como não tinha muito apoio da família, nos encontrávamos menos. Ela engravidou no final da temporada passada, foi um acidente, mas ela não tem uma rede de apoio e desistiu de competir profissionalmente. Sabe o que meu pai falou?

— O que?

“Ainda bem, assim ela não vai mais te distrair” — ela riu seco. — Eu estava devastada, minha única amiga de verdade teria que se afastar e a única coisa que importava pra ele era que eu ficaria mais focada. Eu sempre me entreguei completamente para o surf, o mar era minha prioridade, mas aquilo nunca seria o suficiente para ele. Aquilo foi a gota d'água e eu disse que não queria mais ser treinada por ele, que iria arranjar outra pessoa. Ele odiou, mas nós não brigamos feio. Acho que uma parte dele estava aliviada de não precisar mais me treinar, ele sempre deixou claro que preferia que fosse Edward no meu lugar.

— Será que seu pai queria viver o sonho dele através do seu irmão, já que teve que se aposentar antes da hora? — ponderei.

— Talvez. Ou talvez ele seja apenas essa pessoa completamente ruim e narcisista mesmo.

Edward e Victoria eram os dois lados da moeda. Dois surfistas talentosos que dividiam o mesmo pai carrasco, com diferentes versões da mesma criação traumatizante.

— Eu só não imaginava que me sentiria ainda mais sozinha sem o meu pai — confessou. — Então vi você e Emmett em uma festa e bolei o plano perfeito. Vocês dois estavam sempre juntos, então porque meu irmão não podia voltar a competir também? Me fazer companhia.

— Foi um plano ousado — comentei.

— Eu jurava que com um mês viajando comigo, ele ia sentir vontade de voltar a surfar e competir.

— Você só não imaginou o quão relutante ele seria.

— Não — concordou. — Ele era o surfista perfeito, como ele poderia não querer entrar na água?

— Carlisle ferrou com ele.

— Sim. Eu não tinha noção do quanto, só percebi quando ele finalmente cedeu, com a certeza de que seria temporário. Eu fiquei desesperada com a possibilidade. Tinha planejado tudo, mas ele só queria voltar pra vida dele longe da água. Até que vocês se aproximaram.

Vic virou em minha direção com um sorriso triste.

— Vocês se aproximaram tão rapidamente que eu achei que ele finalmente ia ficar por perto.

Me aproximei de Vic passando um braço por seus ombros, querendo consolá-la.

— Eu aceitei que ele não voltaria a competir, mas você o faria ficar por perto. Realmente acreditei que você tinha feito ele superar.

— Carlisle realmente estragou a relação do seu irmão com o surf, Vic — comentei. — E eu fico feliz que consegui dar um empurrãozinho pra ele voltar pra água. Mas tem certas coisas que eu não posso curar.

— Eu sei disso. Só que eu sinto falta dele.

— Eu também sinto falta dele, mas eu não podia implorar pra ele ficar.

— Não quero mais ficar sozinha — confessou.

— Você não vai, eu não vou deixar.

***

Oahu, Havaí Evento Especial

Depois de passar a manhã treinando com Emmett e Rosalie, saí da água pronta para voltar para a pousada e passar a tarde assistindo Gilmore Girls, fazendo crochê.

Estava aproveitando a paz que era não precisar cuidar das minhas redes sociais, surpresa com o quanto de tempo livre eu tinha agora que uma equipe cuidava de tudo por mim. Se eu parecia fria, distante ou fútil não era mais da minha conta.

— Vamos almoçar juntos e fazer um passeio à tarde? — perguntou Rose grudando o braço no meu. Emmett caminhava atrás da gente carregando a própria prancha e a de Rose.

Pensei nos meus planos de ficar no quarto com meu crochê e por alguns segundos cogitei recusar o convite. Amava meu irmão e minha melhor amiga, mas não estava no clima de ficar de vela.

Então pensei em Edward e todas as coisas legais que tínhamos feito nos últimos meses. Em minha tentativa de fazê-lo aproveitar as oportunidades, eu também me permiti viver mais. Sentia falta dele, mas deveria seguir meus próprios conselhos.

— Claro, decidiram o que fazer?

— Ainda não, mas Jéssica e Vic vão encontrar a gente no restaurante, pensei em decidirmos juntos — disse Rose.

A ideia de sair com mais gente me animou.

Jess era uma boa amiga e eu estava feliz que ela continuaria por perto mesmo depois de sua aposentadoria. E eu adorava Vic, tínhamos nos aproximado por causa do seu irmão, mas depois de seu desabafo e da minha promessa, tinha colocado ela debaixo da minha asa. Ninguém se sentiria solitário se dependesse de mim.

Na pousada, em quinze minutos, troquei de biquíni, joguei um vestido por cima e peguei minha bolsa com repelente, óculos de sol, dinheiro e protetor solar.

Nós almoçamos em um restaurante típico de comida havaiana, à beira mar, em uma mesa na areia. A comida me fez pensar em Edward e o restaurante que ele me levou depois de conhecer seu apartamento, então bati uma foto da comida na mesa, com sua irmã de fundo, e encaminhei pra ele com a mensagem “estamos comendo por você”.

Estávamos decidindo pela sobremesa, quando eu percebi uma silhueta se aproximando.

Parecia uma miragem.

Com uma bermuda clara, uma camisa azul e aquele cabelo ruivo bagunçado que eu reconheceria em qualquer lugar — agora que ele tinha abandonado o buzzcut —.

— Vic, você tem falado com o seu irmão? — perguntei. — Tem alguém muito parecido com ele vindo em nossa direção.

— Por que você não vai lá ver? — disse ela sorrindo.

Aquilo já respondia tudo.

Eu levantei correndo da mesa, com a Rose gritando que eles pagariam a conta.

A cada passo, Edward ficava mais nítido na minha frente e meu coração ficava mais agitado.

Nós continuamos nos falando, mas era diferente vê-lo pessoalmente.

— Oi — falei.

— Oi, senti sua falta — disse me abraçando.

Era irônico como em tão pouco tempo eu tinha me apegado, estar de volta em seus braços era como estar em casa.

— Quer dar uma volta? — perguntou.

— Claro.

Edward estendeu sua mão e eu aceitei de bom grado, entrelaçando nossos dedos, feliz por ele estar ali.

O clima do Havaí estava quente por causa do verão e a praia estava mais cheia do que no início da temporada, quando ainda era inverno, então tivemos que desviar de algumas pessoas para caminhar na areia. Eu não me importava, porque Edward estava ali.

— Quando eu decidi parar de surfar, achei que Carlisle nunca mais iria me controlar, que ele nunca mais ditaria nada na minha vida, mas eu estava errado — disse Edward depois de um tempo. — Quando parei de competir, também me privei de algo que eu amava. Mas você me trouxe de volta.

— Já falei, não quero créditos por isso.

— Mas eu reconheço, você querendo ou não. Dificilmente teria entrado na água de novo se não fosse por você e eu sou grato pelo seu incentivo — falou parando na areia e olhando pra mim.

— Tudo bem, se você acha que eu ajudei, fico feliz por isso. Te ver na água é um privilégio.

— É bom demais voltar a fazer algo que eu gosto, mas nesse tempo desde que voltei pra casa, percebi outra coisa.

— O quê? — perguntei com expectativa.

Edward segurava minhas mãos enquanto falava, era automático tocá-lo.

— Eu realmente não quero competir. Nunca mais na minha vida — contou.

Aquela frase não me surpreendeu, vê-lo na água era hipnotizante e ele ainda era natural na água, mas Edward continuava odiando as competições. Dava para perceber como ele fazia careta toda vez que ouvia a palavra ranking.

— Não é só pra irritar Carlisle, nem porque ele me traumatizou pra caralho, o que é verdade e eu preciso lidar na terapia. Eu amo o que eu faço e apesar de ainda amar surfar, não preciso competir pra aproveitar isso. Mas também não quero mais esconder o meu passado, não ligo se as duas partes da minha vida se encontrarem.

Meu coração se encheu de conforto, era bom demais saber que ele era feliz assim como eu. Amávamos o surf de maneiras diferentes e estava tudo bem.

Ele se aproximou um pouco mais e transferiu uma das suas mãos pra minha cintura. Eu o mataria se ele tivesse voado até ali só pra dizer isso.

— Eu amo ficar com você, não só porque me fez ver o melhor em uma situação que eu não queria estar, mas porque você é incrível. Você é uma surfista fenomenal, uma pessoa divertida, além de gostosa pra caramba e você é minha melhor amiga — disse ele. — Eu quero viajar com você, quero dançar com você, quero te mandar mensagem de madrugada, quero te ver competir e ganhar, quero andar de moto com você, quero desenhar tatuagens pra você, quero plantar um pé de plumeria na minha varanda pra você, quero postar foto com você em todas as redes sociais. Eu quero tudo com você. Eu amo você. E foi besteira não ter dito isso antes, mas eu tô dizendo agora. E se você quiser, a gente pode fazer dar certo.

— Eu amo você também — falei antes de beijá-lo.

Com os lábios dele nos meus, o universo pareceu se alinhar. Nosso corpo se encaixava, como se fosse feito para estar junto. A endorfina corria nas minhas veias, celebrando estar com ele novamente depois de um mês separados.

Beijá-lo era equivalente a pegar uma boa onda, intenso e cheio de adrenalina no começo, até que ficava suave como uma onda quebrando na areia.

— Isso quer dizer que você é meu namorado agora? — perguntei quando nos afastamos um pouco.

— Sim, e isso quer dizer também que você vai precisar dividir seu quarto comigo porque eu não reservei quarto algum e não tem mais lugar na sua pousada.

— O que você faria se eu dissesse não?

— Ia tentar te convencer depois de te levar pra dar um passeio, aluguei uma moto.

— Bem, eu já disse sim, mas você ainda pode tentar me impressionar.

Edward riu e entendeu a deixa, então manteve apenas uma das mãos na minha cintura e me encaminhou até o lugar onde uma Harley um pouco menor que a dele estava estacionada.

Ele colocou o capacete na minha cabeça e me ajudou a subir, do mesmo jeito que havia feito da outra vez e eu o apertei ainda mais. Edward acelerou sem me dizer para onde estava me levando e eu não me importei. Não precisava de um roteiro, porque eu confiava nele e porque confiava no universo.

Como poderia não confiar, quando eu tinha tudo o que eu queria?

Vivia a vida dos sonhos, fazendo o que eu mais amava no mundo, que era surfar e ganhava por isso. Eu estava no topo, como a melhor surfista do mundo e com as Olimpíadas no meu futuro.

A única coisa que eu desejava era romance, um amor de tirar o fôlego e que fosse meu, que me entendesse.

Eu não esperava que fosse Edward.

Ele tinha sido arrastado de volta para o mar e a correnteza o trouxe para mim.


Notas finais
Fim! Carol, foi dificil escolher entre os combos, mas quando bolei essa história, me apaixonei tanto nesses dois que foi difícil parar de escrever (dá pra ver né? kkkk). Espero de coração que você tenha gostado, eu fiz tudo com muito carinho. Pessoas que leram até aqui e não são a Carol, o que acharam? Espero que também tenham gostado. Beijos e até a próxima!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.