Correntes de Andrômeda
5 Mercadoria
Notas iniciais
A liberdade é algo extremamente precioso, mas só percebemos o seu devido valor quando a perdemos. Quando perdemos nossa liberdade, não passamos de mercadoria. Produtos que podem ser trocados e descartados a qualquer hora. Você lembra o que é ter sua vida decidida por outros? Você lembra o que é ser uma mercadoria?
Porque a voz estava tão amargurada? Não gostava de ouvi-la assim. Era como se seu próprio peito pesasse com a dor dela.
Em Esparta o sol se punha muito mais cedo do que em Atenas ou no Santuário, isso porque a ocidente a grande montanha o ocultava quando estava alto no céu, enquanto que em outros lugares era possível vê-lo até ele mergulhar no mar. Mas se existe algo que o sol não iluminava nem mesmo quando estava no seu ponto mais alto, era a cela de um escravo.
Existem escravos que trabalham e os escravos que lutam, os gladiadores. Tolos são aqueles que pensam que os gladiadores surgiram muito depois, pois eles já existiam muito tempo antes do que se pode imaginar.
Existe dois tipos de gladiador. Os que lutam. E os que morrem. Sua bênção e maldição foi ser um gladiador que luta.
O mercado de escravos era unido ao mercado normal, barulhento e cheio. Todos te tocavam, todos te observavam e nem todos tinham o dinheiro para pagar por um escravo, porém, sempre tinha um comprador interessado.
¬ Algum deles é de briga? — questionou o velho em belas vestes. — Logo terei uma luta e preciso de mais guerreiros.
¬ Alguns são bons para lutar, outros para morrer. — respondeu o pirata muito confiante. — Você vai precisar dos dois.
O velho estudava escravo por escravo, não deixava passar um único detalhe, ele queria os melhores. Logo deteve-se no jovem rapaz de olhos ametistas, este parecia nem ligar para o velho, apenas afagava o cão deitado ao seu lado.
¬ De pé!
Olhou para o velho e com um suspiro curto obedeceu. O velho o tocava e apertava, procurando saber o quão forte eram seus músculos. Olhou os dentes, procurando doenças que indicassem uma saúde fraca. Olhou as mãos, procurando sinais do que fazia antes de estar ali. Encontrou um espécime muito bom.
¬ O que fazia?
¬ Eu viajava. — respondeu. — Ás vezes guerreava.
¬ E o cão?
¬ Meu companheiro desde que nasceu.
O velho deu-lhe as costas e ele voltou a se sentar. O homem agora mirava a única mulher que tinha ali.
¬ Músculos fortes para uma esposa ou filha. — comentava o velho. — Cicatrizes sutis, mas obviamente feita por armas e punhos. Mãos calejadas com o uso da espada e luta corpo a corpo. Uma Amazona. — concluiu o velho. — Desertora?
¬ Talvez sim. — respondeu o pirata. — Mas quem se importa?
¬ Levarei seis quartetos. — ditou o homem. — Por mil.
¬ Mil?! — o pirata estava indignado. — Só este número vale 3 mil!
¬ Os escravos estão podres.
¬ Faz parte.
O homem virou-se para ir embora, mas o pirata não queria perder a venda, então adiantou-se atrás do velho.
¬ Não. Não. Não. Espere! Nós podemos negociar! — conseguiu parar o homem, que voltou a encará-lo.
¬ Eu vou pagar 3 mil. — disse o velho. — Mais 2 mil pelas bestas. E mais mil pelo cão do rapaz. São 6 mil para um velho amigo.
Não estava dando muita atenção para o desenrolar da história, só sabia que agora tinha sido amarrada com outras pessoas e era levada logo atrás de um carro para algum lugar.
¬ Tenha calma. — era a voz dele. — Ele vai nos explicar como as coisas funcionam e depois nos por a prova. Faça seu melhor, que no final, com muita sorte e bênçãos, será libertada.
¬ Sabe demais para um mero viajante. — sua voz estava rouca pelo desuso. — Sabe até demais.
¬ Não vou mentir. — rebateu. — Já vi bem de perto o que é a vida de um gladiador e já andei demais para saber o que vai ajudar e o que não vai.
Calaram-se e seguiram com o caminho, em pouco tempo estavam numa rica morada acoplada a uma caserna de madeira e pedra. Era uma arena de treino para aqueles que vão morrer.
Foram enfileirados debaixo do pórtico da arena, já era noite e sua única fonte de luz era a lua. O velho que os comprara andava de um lado para o outro, procurando algo em seus mais novos pertences, medo do que viria talvez.
¬ Eu sou Telemaco! — bradou o velho. — Devemos ficar juntos por uns dias que serão os últimos de suas vidas miseráveis, mais juntos do que se eu fosse a vadia podre que os colocou nesse mundo!
Cerrou os punhos com força e travou a mandíbula. Não se lembrava direito de sua mãe, mas aquele velho porco desgraçado não tinha direito algum de falar dela.
¬ Calma, Andrômeda. — era a voz dele lhe sussurrando. — Quando a cabeça não pensa, o corpo padece.
¬ Ele não tem o direito de falar isso, Argos. — devolveu o sussurro.
¬ Ele não tem direito à nada, mas o silencio é nosso único escudo, e um escudo frágil para complementar. — respondeu o rapaz. — Então fique quieta.
Olhou ao redor rapidamente. Alguns corpos sendo comidos por abutres, outros sendo usados para alimentar as feras e outros sendo queimados. Homens lutando, outros treinando, alguns comendo e outros sendo selecionados. Mas não importava para onde olhasse, a marca da morte estava em todos os lugares.
¬ Eu não paguei um bom dinheiro pela companhia de vocês! — o velho prosseguia com seu discurso. — Paguei para lucrar com suas mortes! E como a mãe de vocês estava lá no inicio, eu estarei lá no final! E quando vocês morrerem, e vão morrer, o som da transição de vocês serão palmas. — ele batia palmas apenas para ilustrar e depois fez uma leve mensura, também ilustra. — Gladiadores eu os saúdo.
Logo depois veio a seleção. Vermelho para os que lutavam. Verde para os que morriam.
Argos foi atacado sem dó alguma durante a seleção, mas atacou seu oponente com a mesma força, sendo assim, foi dado como vermelho.
Andrômeda foi outro caso, além de não querer revelar seu nome, fazendo com que a chamassem de Persa por conta de seus cabelos, ela também não queria lutar. Jogou sua arma de treino do chão e ficou frente a frente com seu oponente, sem dar um pio ou demonstrar qualquer coisa. Apanhou muito, mas manteve-se de pé o tempo todo, sempre com o rosto erguido. Acabou não recebendo cor alguma.
O velho apenas disse:
¬ A hora dela vai chegar.
Dias se passaram até que a tão falada hora chegasse. As pessoas acotovelavam-se e empurravam-se pelos melhores lugares da arena. Abutres sobrevoavam a arena, esperando sua refeição. Algumas pessoas já conversavam, berravam, brigavam, faziam apostas ou comiam. Em quase todos os rostos residia o mesmo olhar ansioso e quase ganancioso. Tudo isso para ver sangue tingir a terra.
Foram levados para um compartimento da arena onde armas lhe foram entregues, alguns recebiam escudos e outros ficavam com animais sobre seu comendo. Enquanto se equipavam, muitos a contra gosto, o velho que os comprou não parava de falar.
¬ Muitos de vocês pensam que não vão lutar. Outros peçam que não conseguem. — dizia o velho. — Mas todos dizem isso até chegarem na arena. Ouçam. — o velho silenciou-se com a mão atrás da orelha.
Podiam ouvir claramente. A multidão clamava por sangue, clamava por morte. Um desejo igual por sangue só seria encontrado no calor de uma guerra.
O velho pegou uma espada de lamina larga, o gladio, e o admirou por um tempo, como se fosse uma raridade ou um tesouro do oriente.
¬ Enfie esta arma no coração de outro homem, e eles vão aplaudi-los e amá-los. — afirmou o velho tendo o coro da multidão como fundo. — E vocês, podem amá-los por isso. — ensaiou alguns golpes. — Mas no fim, todos somos homens mortos.
Um por um, subiram à arena, alguns em pequenos grupos, mas o importante é que todos iam para arena e nem todos retornavam.
Teve a oportunidade de ver a luta de Argos por um vão na porta da arena. Ele foi posto ao lado de seu cão e com uma única espada, enquanto seu oponente tinha uma proteção completa e um tridente. A derrota parecia certa para o rapaz, mas ambos, cão e dono, trabalhavam bem juntos e em pouco tempo o adversário estava no chão, com a lamina de Argos atravessada em seu peito.
Ele e seu cão voltaram sujos de sangue. A primeira coisa que fez foi pegar água, limpar a si mesmo e o cão, e depois sentar-se junto a parede na espera de que tudo acabasse logo.
Era sua vez de subir à arena, tudo o que tinha era uma espada e a vontade de não lutar.
¬ Persa! — ouviu a voz de Argos chamar-lhe. — Não se esqueça de quem és! Só sairá daquela arena com vida se não esquecer!
As portas se fecharam atrás de si e a multidão gritava cada vez mais alto por sangue.
Seu oponente era um homem alto, muito alto, um gigante diria. Não tinha proteção alguma, exatamente como ela, mas possuía uma massa, que somada a sua força era capaz de matar três homens de uma vez.
O primeiro ataque de seu oponente abriu uma cratera no chão. Era grande, mas muito veloz, o que obrigou-a a defender-se com a espada. A força imposta por ele estava derrubando-a e tudo o que conseguiu fazer antes de cair foi acertar-lhe um chute no rosto.
Conseguiu desviar de outro golpe e levantar. Continuou sendo atacada sem clemencia alguma, mas voltou a cair, dessa vez não tinha saída.
A espada se quebrou em uma defesa. Se quisesse continuar viva teria que recorrer aos extremos, segurou a lamina quebrada com uma das mãos, cortando a palma, e voltou a se defender como podia com a espada quebrada. Seu adversário então prendeu seus braços no chão.
Enquanto a lamina se aproximava de seu rosto com velocidade, lembrou-se de algo que lhe era dito desde de menina. Os Cavaleiros de Atena usam seus corpos como armas para a batalha ao elevarem seus cosmos.
A espada nunca a acertou. Ela conseguiu empurrar o homem para longe depois de elevar um pouco seu cosmos a muito não usado, aquilo assustou toda a plateia, mas esta gritou mais alto. Gritavam o seu nome de guerra.
¬ PERSA!! PERSA!! PERSA!!
Não ligava para a adoração da multidão. Só queria sair daquela arena e para isso tinha que matar aquele homem.
¬ Se essa é a única maneira, que assim seja.
Ainda fazendo uso de sua força sobre humana, ergueu o homem do chão e o jogou para cima com toda sua força. Quando ele voltou a cair, ela já estava posicionada onde ele iria cair com um pedaço de madeira que arrancou do portão.
A madeira não precisou ser afiada para atravessá-lo, o peso dele fez todo o trabalho. Apenas precisou empurrar o corpo para o lado e deixar a multidão ver o sangue em sua pele.
Depois disso deixaram-na voltar para o compartimento. Ela se limpava, mas ainda sentia o sangue em sua pele. Por mais que se limpasse, aquele sangue nunca sairia.
Sentiu uma mão em seu ombro enquanto ouvia a multidão clamar seu nome.
¬ Não se culpe. — dizia Argos. — Podia ser o seu sangue naquela arena.
Continuou a se limpar. O sangue não saia.
Antes de acordar, tudo o que viu foram algumas cicatrizes. Cicatrizes sutis e uma cicatriz bastante evidente no braço, com um símbolo queimado nela.
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