Correntes de Andrômeda
10 Deuses
Notas iniciais
Os deuses se ofendem com facilidade. A teimosia e impertinência dos homens os iravam com facilidade e quando irados, nada poderia detê-los em seu profundo ódio.
A voz novamente demorou-se. Desde que sua sobrinha se fora para treinar sobre os cuidados da própria Atena, a voz passou a ocupar menos noites.
A graça dessa relação entre deuses e mortais se encontra no fato de que o comportamento dos homens se espelhava no comportamento dos deuses, aqueles que os criaram e seus “pais” por assim dizer.
Os filhos gostam de imitar seus pais afinal e esse inocente imitar chega a ser admirado por um tempo, mas logo nossos pais se irritam e pedem que paremos, e quando não paramos sua ira recai sobre nós.
¬ Zeus! – bradava a formosa deusa Hera, facilmente identificada pelo pavão bordado em seu véu. – Precisa por um fim nisso! Atacam nossos templos e profanam nossas imagens!
¬ Podemos tentar falar com eles! – rebatia Hefesto em desafio a sua mãe, com seu martelo em uma mão e a mascara de ferro e couro escondendo seu rosto.
¬ Podemos chegar a um acordo! – completava Atena batendo sua lança no piso lustroso e vestindo sua bela armadura. – Uma trégua!
¬ NÃO!! – trovões estouraram, fazendo com que a voz do senhor dos deuses fosse a única. – Eu criei os homens e eles retribuem meu amor com rebeldia?! Não haverá trégua!
¬ Até que enfim alguma ira no senhor, meu pai.
Todas as atenções se voltaram logo para o trono antes vazio do deus da guerra, onde o próprio agora se encontrava confortavelmente sentado, empunhando sua lança e alimentando o abutre pousado em seu ombro. Como ele entrou ali sem que tivessem notado?
¬ Ares. – a deusa da sabedoria se limitou apenas a um rosnar baixo.
¬ Anos a fio eu observei, meu pai, e vi sua fúria moderada pelo amor. – seu tom de voz era bastante calmo, mas existia algum desdém ali. – O senhor os criou por uma razão, os criou para que as preces deles nutrissem a nossa imortalidade, mas o senhor os ama demais. – falava como se a existência humana fosse o maior erro dos deuses. – Eles se fortaleceram e agora sou obrigado a agir porque somos todos ameaçados.
¬ O que deseja? – o senhor dos deuses conhecia bem o seu filho e sabia que tinha uma razão para ele estar ali além de criticar-lhe.
¬ Solte a mim e meus filhos encima deles, meu pai. – dirigiu-se à Zeus em um tom que beirava a mistura aflição e desejo pela batalha. – Eles voltarão a rezar e o senhor a se banhar em admiração e medo. Nós voltaremos a ser fortes!
¬ O lugar dele é entre a carnificina e a dor! – acusou o senhor do submundo segurando seu elmo negro, nada vindo da guerra personificada podia ser bom. – O lugar dele não é aqui!
¬ Não me diga onde é meu lugar, Hades! – rebateu mal educado. – Você é tão odiado quanto eu, então não fales de meu peso sendo que o teu é maior!
Ares levantou-se de seu trono, o simples ato liberou um cheiro horrível de sangue e suor, caminhou tranquilamente até estar frente a frente com o senhor dos deuses e se ajoelhou perante o pai antes de seguir com seu discurso.
¬ Você diz que o amor deles nos alimenta, mas não é assim com todos. O medo e dor deles é o que me alimenta, meu pai. – disse se curvando ainda mais perante o deus.
¬ Zeus. – chamou o senhor dos mares portando seu tridente. – Vosso filho diz a verdade. Escute-o.
O deus refletiu as palavras de seu filho, assim como as de seus irmão e demais filhos. Ergueu-se de seu trono e tocou a cabeça de seu filho, logo escorregou a mão, forçando o deus da guerra a mirá-lo.
¬ Vá. – declarou. – Faça o que quiser.
¬ Pai! – Atena jamais se calaria frente aqui escolha insensata. – Nós precisamos...
¬ Silencio Atena! – rosnou Zeus. – Seu irmão está certo. A insolência deles tem um preço. Como crianças, eles devem ser lembrados da hierarquia. – voltou para seu trono e apontou para as nuvens, as afastando e mostrando o alvo. – Vá, meu filho, faça com que se desentendam e voltem para nós.
Ares apenas fez uma pequena reverencia, se desfez em vários abutres e sua presença sumira daquele solo sagrado. Agora não tinha mais retorno e Atena não conseguia se conformar com a escolha de seu pai.
¬ Meu p-...
¬ Cale-se Atena! – bradou Zeus. – Eu já tomei minha decisão, e não será você a desobedecer-me! – trovões estouraram quando o senhor dos deuses voltou a se erguer. — A reunião acaba aqui! Estão todos dispensados. – e partiu acompanhado de Hera.
Aos poucos os deuses, muito desgostosos com a escolha de Zeus, foram partindo. Restando apenas três deuses, os mais inconformados com a situação.
¬ Hades... – Atena chamou em um tom contido, sabia que o deus dos mortos ainda nutria certo ódio por si. – Agradeço por ao menos o senhor te-...
¬ Nada do que falei foi por você, Atena. – cortou-a no mesmo instante. – Falei porque vi e sei que Ares ainda trará desgraça para o Olimpo. – o deus deu-lhe as costas e começou a se desfazer em sombras pouco depois de colocar seu elmo. — Agora me dei licença, tenho de voltar para meu reino.
Atena era a deusa da sabedoria e guerra, mas ainda era um ser com sentimentos bastante parecido com os dos humanos. Dentre esses sentimentos estavam os de medo, preocupação e tristeza.
Logo lágrimas escorriam pelo rosto da deusa, formando rios no mundo mortal, pois sua dor se transformou na chuva que tudo destruía tamanha a dor que carregava.
¬ Atena... – chamou Hefesto, um dos poucos deuses que ainda a apoiavam.
¬ Ele não me ouve mais... Zeus não me ouve mais... — respirou fundo tentando controlar seu choro. – O que eu faço agora? Eles não estão prontos e graças a Afrodite, dois estão mortos... – soluçou e segurou sua lança com firmeza, odiava chorar por ser incapaz de agir. – O que eu faço agora?
Hefesto segurou sua mão e a puxou para um abraço. Não era segredo para ninguém que era apaixonado pela deusa da guerra estratégica, entretanto jamais a tocou por respeito aos seus ideais, se ela o queria como seu irmão, ele seria seu irmão a qualquer momento e hora.
¬ Tenha fé nos homens. – foi a resposta do deus ferreiro.
Logo mais a deusa começou a urrar contra o peito do outro deus. Como ter fé se tudo aparentava estar perdido?
Não viu nada daquela vez, tudo estava escuro. No entanto, ouviu a voz lhe dizer para nunca perder a fé.
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