Correntes
1 Acorrentado
Acordou assustado, não sentia o chão aos seus pés, estava sendo carregado, mas não de maneira suave e delicada como uma mãe carrega seus filhos, mas sim de um jeito brusco, com raiva e desprezo pelo então corpo pendente. Sacudido de um lado para outro, estava confuso e desorientado.
Abriu os olhos que até então repousavam adormecidos, embaçados ainda pelo sono conseguiu distinguir apenas umas poucas imagens, um arbusto, flores, grama, terra, pedra, cimento. Tentou inutilmente observar seu carrgador, mas o sol era muito forte e apenas se notava uma mancha escura. Pelo formato parecia ser um homem de grande porte, musculoso, suficiente para carregá-lo sozinho, apesar de não pesar muito, aliás, era bem leve. Mas a figura não deixava de amedrontá-lo, e conseguia imaginar a cara daquele individuo, carrancuda e severa, ou quem sabe apenas impassivel, mas certamente não era feliz nem delicada.
Para onde estava sendo levado? Qual seria o motivo? Nada daquilo fazia sentido. Experimentou fazer alguns movimentos, tentar escapar daquelas garras de seu raptor, mas o resultado foi o esperado, nada, nem um músculo se moveu. Teria sido dopado? Não sabia. Ainda estava tonto, concluiu que sim.
Finalmente foi depositado no chão, e dolorosamente sentiu aquele piso frio e duro, aspero. Ouviu o som metalico de correntes pesadas sendo arrastadas. A essa altura já coseguia ver com clareza, mas ainda o corpo não lhe respondia, parecia um pesadelo. O homem que o havia levado até ali voltou com uma corrente entre as mãos, colocou-a em seu pescoço e prendeu-a ao poste situado no meio daquele "patio" de concreto. Como havia imaginado a cara dele não estava nem um pouco contente, e de vez em vez lhe lançava olhares de desprezo e repreensão. Mas repreensão pelo que? será que ele havia sido alvo de alguma das tantas travessuras que costumava fazer? Mas tudo aquilo era muito exagerado para tão pouca coisa. Deveria ser outro motivo, poderia ter sido confundido com outro alguém, estava assustado, muito assustado.
Seu raptor terminou de fixar as amarras de metal e se apressou a sair. O cenário era aterrorizador, não que houvessem coisas desagradáveis ou repulsivas, era exatamente o contrario, não havia nada, era uma cela, grades em três direções e uma parede para servir de suporte. Uma pequena portinhola era a única saída por terra, porém estava bem trancada, com algo que parecia ser um cadeado, porém maior. O teto? Não havia teto, era descoberto e para piorar a chuva ameaçava chegar.
Passou-se meia hora, ou mais, mas certamente pareceu-lhe mais. Aos poucos conseguiu sentir o restante do corpo e lentamente foi recuperando o movimento. Já aflito do tempo que passara alí começou a procurar uma maneira de escapar, não aguentava mais aquele lugar vazio e monotono, ele não era um passarinho que pudesse ser enjaulado, precisava sair, a qualquer custo. Foi então que lhe ocorreu a primeira obvia solução, escalar as grades, não eram muito altas, seria uma saída fácil, simples, se não estivesse amarrado, pior do que isso, ao tentar chegar na grade percebeu que a corrente era muito curta, e a única extremidade que alcançava era a parede lisa, branca, morta.
Passou o resto do dia em uma tentativa frustrada de se livrar daquela coleira de metal, até que, já exausto, adormeceu. Foi acordar somente no dia seguinte, sentia-se fraco, não tinha forças para mais uma tentativa de escapatória. Ouviu um ruido em uma das extremidades. Um pote, com comida e água, conseguiu, por pouco, arrasta-lo para sí e, ao olhar para o lado livre da cerca, avistou uma garotinha, de uns 5 anos aproximadamente, não era bom adivinhando idades. Ela sorriu e foi embora. Ele a reconheceu, já a vira, era uma vizinha! Significava que estava perto de sua casa. Isso, mais o alimento, lhe deu forças e esperança.
O homem então voltou, mas desta vez menos severo, mais amolecido. Não entendia o que teria acontecido para tamanha mudança de humor, só sabia que isso poderia significar sua saída dalí e a possivel explicação para toda essa confusão. As mãos chegaram suavemente e retiraram a corrente de seu pescoço, mas a mirada ainda tinha um resquicio de reeprensão, mas desta vez mais relaxada. O homem olhou-o fixamente e pronunciou: "espero que tenha aprendido a lição" e abriu a porta permitindo sua passagem. Que lição era essa ou por que estivera amarrado até então não tinha mais importância, pois ao longe avistou uma mulher, sua mulher. Saiu correndo em disparada latindo feliz para os braços de sua dona.
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