Corpóreos

1 Prólogo


Notas iniciais
Bem vindos ao Maravilhoso Mundo de Arthur, um mundo não tão maravilhoso assim...
Boa Leitura!

A noite estava tão fria quanto as noites de Julho, a chuva caía impiedosamente batendo contra as vidraças. Era a terceira noite consecutiva de tempestade, o que não era comum durante a primavera. A luz amarelada tremia e piscava pelas constantes quedas de luz, o que dificultava um pouco o fim de minha leitura. Joguei o livro na cama e me estiquei na cadeira com rodinhas, girando de um lado para o outro. O som da chuva me acalmava embora parecesse ameaçador de certa forma, o sono já estava chegando quando outro som me puxou de volta para a realidade.

− Posso ficar com você hoje? – Era minha irmã mais nova, medrosa e frágil demais para que eu pudesse dizer não. Naquela noite seus olhos pareciam mais arregalados que o normal.

− O que houve Emy? – Perguntei fazendo um gesto pra que entrasse.

− Pesadelo... E trovões... – Sem hesitação alguma a pequena se jogava em minha cama e se encolhia entre as cobertas. Era uma menina tão pequena que eu mal acreditava que já tinha 6 anos, sorri ao tentar lembrar de como eu era nessa idade.

− O pai e a mãe já estão dormindo? – Sentei-me ao seu lado na cama.

Ela apenas assentiu apertando seu coelho de pelúcia contra si.

Contei algumas histórias que papai me contava pra dormir quando era mais novo, lembrava de muitas, mas bastou duas ou três até que Emily dormisse. Fiquei ali ainda um tempo mexendo em seu cabelo antes de cair no sono em uma péssima posição.

Eu não fazia o tipo que acorda com qualquer barulho, era preciso mais que raios e trovões para me fazer acordar de um sono profundo, mas naquela noite algo me acordou. Uma voz estranha, de um timbre diferente de qualquer outro que já tivesse ouvido ressoava tão perto que podia dizer que estava dentro de minha própria mente.

Para minha surpresa, ao passar os olhos por todo o quarto notei a ausência dela; Emily não estava ali. O quarto estava escuro e silencioso, assim como o resto da casa. O quarto de Emily, logo ao lado do meu, também estava vazio, a cama ainda bagunçada denunciava que alguém em algum momento estivera ali. Desci as escadas esperando apenas o breu, mas lá estava ela. Descalça e de pé de frente para a lareira, Emily parecia imóvel.

− O que houve pequena? – Perguntei aproximando-me devagar, talvez estivesse sonâmbula novamente, pensei.

Havia algo de diferente, algo tão sutil que mal podia ser notado, uma presença quase imperceptível pairava sobre o lugar. Emily virou-se para mim, seus olhos arregalados com aquele brilho que apenas os olhos dela tinham, seu corpo magro e frágil tremia um pouco, mas não havia expressão em seu rosto.

− Vamos voltar para o quarto. – Dois passos em sua direção foram o suficiente para notar que havia algo errado, muito errado.

− Ela disse que precisa de mim... – Sua voz saia como um sopro, inexpressiva – Preciso ajudar... – Seu olhar tornou-se vago, seu rosto tomou uma expressão de sofrimento misturado à ira – Ela precisa de mim...

Tentei tocá-la no ombro, queria que soubesse que eu estava ali, queria entender do que estava falando, mas era como se tentasse tocar o fogo, as pontas de meus dedos queimavam apenas por me aproximar.

− Melhor se afastar um pouco campeão... – A voz de papai vinha da escada.

Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios de Emily. Como se esperasse por aquele momento, como se parte dela estivesse ali só para aquilo. Porém seus olhos tremiam e temiam o que estava por vir.

− O que ela tem? – Perguntei obedecendo a papai e me afastando alguns passos.

− Algo útil... – Ele sorriu e pousou a mão em meu ombro como se quisesse me tranqüilizar – Espero...

− Não... – Berrou Emily, me fazendo dar um passo atrás – Não pode continuar! Não vou deixar fazer comigo o que faz com os outros!

Papai parecia calmo, aproximou-se vagarosamente sentando no sofá de frente para Emily que apenas o encarava. Vi mamãe descer as escadas sorrateiramente apenas observando a cena.

− Você é minha filha, jamais faria mal a você... Apenas não se deixe enganar por – Papai fez uma pausa, sua expressão tornou-se de repulsa − isso.

− Pegue todos os livros e cadernos de anotação que puder e vá para a casa do tio Bernardo, ok? – Mamãe sussurrou em meu ouvido assim que chegou ao primeiro degrau.

− O que está havendo, mãe? – Perguntei no mesmo tom, as palavras me escapavam com hesitação. Emily parecia não nos notar ali, via apenas a papai.

− Há coisas que você ainda é novo demais para entender. Mas seu tio vai explicar tudo. Agora vá. – Com um beijo na testa, mamãe apenas me empurrou na direção do escritório de papai.

Parei ali, escondido atrás da parede, apenas ouvindo por mais um tempo.

− Você ainda é uma criança. – Dizia mamãe.

− E já sou mais forte que vocês. – A voz de Emily demonstrava uma força que nunca havia visto antes. Era quase algo palpável. – Posso sentir ela, posso falar com ela, posso fazer o que quiser sem precisar ser assim como vocês...

− Não duvidamos disso... – Papai falava como se estivesse rindo, como se escondesse ironia em suas palavras.

­− Vocês sabem o que está começando, então por que não param? Por que deixam isso continuar?

− Por que é o certo. – Respondeu mamãe

O baque de algo na parede fez meu coração acelerar.

− Pra quem? – A voz de Emily parecia diferente agora. Eu só queria que parassem. Aquela não era minha irmã, aqueles não eram meus pais. E do que estavam falando?

Outro impacto.

− Para todos. – A voz de papai soou rouca.

− Vocês precisam parar... Antes que seja tarde...

Pela primeira vez na vida algo em mim parecia se agitar, algo parecia arranhar uma parede imaginária, como se quisesse vir à tona. Eu só queria que parassem.

Emily agora parecia ter duas vozes, parecia estar com tanto medo quanto raiva, parecia hesitar tanto quanto queria prosseguir.

Um clarão surgiu, mas não era um relâmpago, era como se alguém acendesse mil lâmpadas ali. E então tudo que pude sentir foi o calor de chamas tomando a sala.

− Isso acaba hoje! – Foi o ultimo grito que ouvi, a ultima vez que ouvi sua voz aguda, que uma vez já fora suave mas agora só demonstrava raiva.

Tudo que fiz foi entrar no escritório e seguir as ordens de mamãe, juntando tudo que pude e correndo para longe. Sabia que podia interromper e trazer Emily de volta ao normal, ou ao menos tentar, mas algo em mim não me permitia. Algo em mim queria apenas deixar acontecer. A agitação que se formava dentro de mim era tão confusa quanto os acontecimentos daquela madrugada tempestuosa.

Sai em direção a casa de tio Bernardo com a mochila nas costas e duas pastas de papai debaixo dos braços. A chuva castigava meu rosto, mas eu não podia parar. Imaginei que logo mamãe e papai surgiriam com a Emily de sempre nos braços, vindo me buscar, queria acreditar naquilo. Que tudo se resolveria no dia seguinte. Mas aquele barulho ensurdecedor não permitiu que minhas esperanças se elevassem tanto. Deixei as pastas caírem no asfalto molhado, mas não quis olhar atrás. Com o impacto, todas aquelas histórias que papai contava voltaram à mente. Enquanto a casa queimava bem atrás de mim uma das folhas destacadas das demais molhava vagarosamente jogada no chão. Apenas uma palavra me chamava a atenção.

Insiders.

Larguei tudo ali mesmo e apenas corri. Já não importava. Nada mais importava. Aquela agitação silenciosa em mim era a resposta. Eu sabia. E mesmo o que não soubesse aprenderia. Agora só me restava algo a fazer... Continuar.

Notas finais

Caso alguém aí goste de ouvir aquela musica de background vou deixar aqui o link da que ouvi enquanto escrevia.
https://www.youtube.com/watch?v=wJw5NzrLHz4

That's all folks!