Corpse Groom

1 Único - Something strange


Notas iniciais
Pois é, sabe quando eu comecei a escrever essa OS? Na noite do dia 27, porque até o momento eu nem tinha me ligado que o Halloween estava tão próximo. Foi quase que levar um choque de realidade quando me falaram quando faltava apenas quatro dias para a data UAHSUHASUHAS como Halloween é o sonho de infância que nunca tive, nem a pau deixaria a data passar em branco.
Mas sério gente, eu nunca dei tanto meu sangue pra terminar algo a tempo.
Nem sei como consegui escrever 7k de palavras e ainda estudar pra minhas provas. AUSHUASHAUSH
Enfim, como não tinha tempo o suficiente, tive que excluir várias cenas que queria ter colocado, mas mesmo assim espero que gostem.
Boa leitura. ♥

Sabe quando você toma mais bebidas do que seu estômago aguenta, entra numa espécie de coma alcoólico e quando acorda não consegue nem se lembrar da cor do seu cabelo? Então, era mais ou menos essa sensação que você tinha nos seus primeiros momentos de morte.

Foi assim que Akise Aru se sentiu quando abriu seus olhos pela primeira vez, se deparando com um monte de pessoas pálidas demais para seu próprio bem o encarando com curiosidade.

O pior de tudo era que seu corpo inteiro doía naquele momento.

Havia várias pessoas gritando “recém-chegado”; era um barulho infernal. E na sua mente não era melhor — vários flashes de alguns acontecimentos estranhos passavam, mas em sua maioria, ele não conseguia ver os rostos. Ele mal conseguia ouvir suas vozes.

Ele viu uma mulher alta embalando um bebê de olhos avermelhados; depois veio a memória de um gato se esfregando na perna de um garoto albino com sete anos; e então esse mesmo garoto indo para a faculdade, depois um carro e...

Ele era aquele garoto albino?

E o que aquele carro fazia indo em sua direção?

Ele...

Akise tentou respirar fundo — oh, vejam, ele consegue se lembrar do seu nome! —, mas não conseguiu. Foi com pânico que ele notou que desde que abrira os olhos, não ingerira qualquer oxigênio, mas mesmo assim não sentia que estava sufocando.

Ele colocou a mão em seu peito, mas não sentiu nada batendo.

De uma forma trêmula, o garoto tocou em seu rosto com seus dedos, mas tudo estava tão gelado, tão gelado...

Ele arregalou os olhos e deu uma olhada ao redor, buscando por alguém que pudesse lhe explicar direito o que estava se passando.

O albino notou que estava numa espécie de bar, e lá se encontrava várias pessoas com espadas as perfurando, outras com algum pedaço de pele faltando, algumas claramente cheias de costuras e...

Oh meu Deus.

Aquilo era uma maquiagem desnecessariamente realista ou...?

— Bem-vindo, recém-chegado. — Uma voz extremamente fina o chamou, e logo ele se deparou com uma garota que não deveria ter mais de cinco anos com cabelos loiros o encarando, feliz. Sua pele, que antes parecia ser bem bronzeada, saudável, agora era uma cor tão pálida que mais parecia roxa. — Qual é o seu nome? E ah, parabéns, você está morto!

E foi aí que ele dera conta da sua realidade — que estava mais puxada para uma ficção de quinta categoria.

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Havia se passado duas semanas desde que ele tinha morrido.

(aquela palavra ainda soava tão estranho na sua mente, porque ele fazia as mesmas coisas quando estava vivo, mas ele simplesmente não podia sentir seu coração, a cada dia ele perdia mais cor e... e... e ele tinha certeza que não demoraria para os vermes começarem a comê-lo)

Akise, incrivelmente, tinha se adaptado perfeitamente bem com a sua vida pós-morte. Ou o máximo que conseguiria ao ter que se acostumar que passaria algum tempo num lugar com casas — que mais se pareciam cavernas — quase caindo aos pedaços onde tudo era iluminado por lamparinas; nada de Sol.

Ou qualquer tipo de luz elétrica, duh.

Ele estava sempre na casa/padaria/tanto faz de uma mulher que se denominava Nona e fazia bolos para vender. Eles tinham se conhecido dois dias depois de Akise chegar ali, enquanto o jovem estava totalmente perdido e horrorizado naquele mar de gente morta. Inicialmente, aquela mulher tinha assustado ele pra caralho. Com cabelos longos roxos e um tapa olho, ela mantinha uma feição tão entediada naquele local que ele nunca presumiria que a mulher era dona de uma padaria. Nona foi a única que se deu um pouco de trabalho de explicar algumas coisas para si e o ofereceu uma espécie de emprego em sua padaria.

Relutantemente, Akise aceitou.

Ele a ajudava na limpeza do local, e foi realmente engraçado descobrir que embaixo da terra havia uma cidade tão grande quanto a que ele morava quando vivo. Era ainda mais engraçado que todos eles viviam quase como num sistema socialista ali, só que sem nenhum ditador.

As pessoas até usavam uma espécie de dinheiro, que mais parecia folhas de papéis que há muito tempo alguém tinha pintado de verde, mas agora a cor estava mais que desbotada.

Contudo, as coisas não deixavam de ser menos confusas. Ele ainda não entendia direito como ele morreu, e nem o que mantinha todas aquelas pessoas ali embaixo. Uma vez Nona havia o dito que as pessoas que não realizaram seu principal objetivo de vida paravam ali, e só saiam quando os alcançasse.

Mas tudo bem. Ele preferia não pensar muito naquilo, pois sentia uma melancolia incrível. Sem falar que ele ainda tentava entender como as coisas funcionavam ali; não só como ele ainda conseguia sentir alguns sentimentos humanos e tal, mas como a cidade era organizada.

Como por exemplo, ele sabia que ali tinha uma grande Biblioteca, que parecia ser a estrutura principal daquele, hã, lugar. Lá era onde morava o grande Velho. Akise não tinha a mínima ideia de quem seria o tal do grande Velho, mas ele parecia ser alguém muito importante e inteligente naquele lugar.

Ou também qual era exatamente a moral de terem uma confeitaria, um bar e vários restaurantezinhos se estavam todos mortos e não precisavam de nada disso para se manterem saudáveis.

Ali também tinham vários shows de bandas pop punks, a maioria fazia cover.

E tinham hospitais para costurarem os mortos recém-chegados que tiveram um pedaço do corpo separado do outro.

Era uma loucura.

Akise chegou à conclusão que faziam tudo isso apenas para afastar a solidão da morte, se enterrando na ilusão de que se eles agissem como vivos, seriam menos mortos.

O que era algo impossível e meio... Ridículo.

Enfim.

Naquele dia — ele nem conseguia dizer se era dia ou noite, era sempre escuro ali em baixo, mas pelo menos ele tinha noção das horas que se passava: havia um sino que tocava ali em baixo a cada quatro horas; ou seja, seis vezes ao dia. Ele trabalhava por dois badalares —, depois do seu expediente, ele se encontrava no mesmo bar em que acordara depois de morrer com Kurusu Keigo, um cara que tinha morrido baleado. Os dois estavam bebendo algo que Akise não tinha certeza o que era e nem fazia muita questão de saber, mas não deixava de distrair sua mente.

(para onde aquela bebida ia se ele teoricamente não tinha estômago?)

Os dois estavam conversando sobre suas vidas, e Akise descobriu que Keigo tinha morrido um pouco depois dele nascer.

De repente, como um balde de água fria, ele notou que poderia ficar lá por quase vinte anos, afinal, sua idade era apenas vinte e dois. Ele poderia ficar vinte anos sem ver mais as estrelas, o Sol, a Lua. Sem realmente sentir a brisa de verdade e ver flores vivas, e passarinhos vivos também.

Ele não envelheceria mais, mas em compensação, começaria a apodrecer cada vez mais.

Isso, de alguma forma, o fez sentir-se enjoado.

Ele estava tão concentrado em olhar para seu copo com a bebida meio amarelada que quase nem notou quando uma outra pessoa parou na mesa dos dois.

— Posso? — Uma voz masculina meio rachada perguntou, e ambos os homens da mesa levantaram seus olhares.

Akise se deparou com um rapaz com cabelos castanhos escuros, quase pretos, e olhos azuis. Ele estava usando um smoking preto desbotado e meio rasgado em seus ombros, e mesmo que sua pele estivesse bem azulada, ele não parecia estar ali há tanto tempo.

— Claro. — Keigo assentiu com um sorriso, puxando uma cadeira para o garoto que parecia tão desconfortável. Ele sentou-se, enquanto Keigo dava pequenas batidas em seu ombro. — Antes de você chegar aqui, Akise, o Yukiteru era o novato. Sabia?

Ele continuou tagarelando sobre como Amano Yukiteru — que era o rapaz de terno, obviamente — tinha aparecido ali e como eles demoraram a achá-lo. Mas ele simplesmente não conseguia ouvir. Seus olhos estavam vidrados nos do outro rapaz.

Se seu coração ainda estivesse batendo, ele tinha plena certeza que ele teria falhado uma batida ou acelerado mais do que era possível.

Tudo naquele tal de Yukiteru gritava familiaridade. Seu rosto, seu terno, até mesmo seu jeito de falar, sendo que ele só ouvira a porra de uma palavra.

E ao olhar àqueles olhos azuis quase que arroxeados, ele pela primeira vez sentiu-se quase vivo após sua morte.

— Eu conheço você. — Amano Yukiteru se manifestou pela segunda vez, e aquilo não era uma pergunta.

— Eu... — Akise tentou umedecer sua boca, mas não conseguiu. Ficaram se encarando por alguns segundos, antes de Keigo pigarrear e murmurar algo sobre ir pegar um pouco de bebida para o mais novo integrante da mesa. — Eu não...

— Você é novo aqui, não é? — Ele então, sorriu, ignorando o que tinha falado antes. Como se não fosse importante. — Ouvi dizer que você trabalha com a Nona. A Minene. Na padaria, certo? Você não faz o tipo de quem trabalha em padarias... E até hoje eu me pergunto o que exatamente vem dentro dos bolos dela. Enfim, que tal depois do seu próximo expediente nós não irmos até a Biblioteca? Talvez o Velho tenha algo pra te dar, ou dizer sobre sua vida. Ele sempre tem algo para dar/falar. Ele conhece todos daqui, você sabe. Depois poderíamos ir para a praça...

— Por mim tudo bem. — Ele forçou um sorriso, sentindo-se incrivelmente tenso, mesmo sem saber o porquê. Talvez fosse porque o garoto não parecia tão morto assim. — Eu não conheço nada daqui, seria uma honra.

Keigo logo voltou ao local e entregou uma caneca para Amano, que agradeceu cordialmente.

Yukiteru e Akise não se falaram tão diretamente depois disso.

E o de olhos avermelhados não pode deixar de notar como o garoto de terno era estranho.

O cara parecia estar indo para um casamento, francamente...

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-

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Akise não sabia porque estava tão nervoso.

Seu turno havia acabado há vinte minutos — ou o que parecia ser vinte minutos, porque ele não sabia medir quanto tempo se passava, apenas quando o sino badalava. E era realmente horrível depender daquilo.

Enfim.

Ele ficou do lado de fora da padaria — ou seja lá o que ele aquilo era — notando a movimentação da “rua”.

Havia tantas pessoas estranhas ali.

Umas realmente se assemelhavam a zumbis enquanto outras pareciam realmente serem esqueletos.

Tinha pessoas com roupas chiques — mesmo que descuidadas —, exibindo seus brincos de diamantes polidos — ou o máximo que algo conseguia ficar polido naquele lugar que provavelmente se localizava em baixo da terra.

Tinha outros que estavam basicamente nus, usando apenas um calção ou uma sunga, em sua grande parte toda remendada. Havia pessoas que claramente haviam sido partidas no meio, com facas encravadas em seu peito, estômago...

Era um show de horrores. Se ele não tivesse tanta consciência que seu coração estava parado e não bombeava mais sangue, Akise teria plena certeza que aquilo nada mais era do que uma pegadinha de grande mau gosto feito por maquiadores profissionais.

Mas ali estava ele. Tão morto quanto os outros. E era questão de dias até ele ficar como eles; com a pele mais azul do que branca, sujo, parecendo um zumbi ou um esqueleto.

Aquilo era tão... Horrível.

— Oi. — Akise quase se assustou ao ver Yukiteru ao seu lado, olhando para o mesmo ponto em que ele há alguns segundos. O moreno não tinha mudado muita coisa de um dia para o outro (ou o que ele esperava ser um dia para o outro). Seu terno era o mesmo, mas agora o rasgão do seu ombro estava costurado com linha branca, fazendo um contraste esquisito.

E bem — era meio claro que seu terno seria o mesmo, não é como se tivesse lojas de roupas naquele lugar. Entretanto, com a quantidade de coisas esquisitas que tinha ali, era provável que ao menos uma existia sim. As roupas esquisitas das bandinhas pop punks precisavam sair de algum lugar, afinal. Ele perguntaria para Nona depois. Ele só esperava se lembrar.

— Tudo isso é muito estranho, não? — O garoto moreno retomou, afastando uma mecha do seu cabelo de seus olhos. — Ver as pessoas mortas agirem como vivas... Têm várias que até começaram a namorar depois de vir aqui. Você está aceitando as coisas muito bem, até. Me lembro que quando eu era recém-chegado, há um mês, eu passei basicamente minhas primeiras semanas pirando. Eu não suportava estar aqui, não queria admitir que estava morto. Às vezes eu ainda não consigo acreditar que meu coração realmente não batia mais, mas... — Ele deixou a frase no ar, como se ele já tinha cansado de falar daquele assunto. — Enfim. Que tal irmos visitar Machina? Ele pode te ajudar com algumas coisas, como já disse.

— Machina? — Akise perguntou, franzindo o nariz. Ele queria ter falado algo sobre o que Yukiteru estava dizendo, mas não achou que deveria; Yukiteru tinha adquirido um ar tão melancólico, quase como se tivesse deixado uma grande família para trás, coisa que Akise tinha a sensação de não ter.

— É. O Velho e tal. Esse é o seu nome verdadeiro. — Informou. — Então, quer ir lá ou acha que não aguenta? — Provocou.

— Por mim tudo bem. Não é como se eu tivesse que voltar cedo pra casa para dormir. — Ele tentou sorrir da sua própria piada — se é que aquela porcaria poderia ser considerada piada —, entretanto, Yukiteru apenas o olhou num misto de pena e compreensão. Talvez ele soubesse que em algum lugar da sua mente, Akise não tinha entendido muito bem qual era o conceito de estar morto, e que ele se encontrava nesse estado; o pior era que sequer o albino sabia a forma que tinha “batido as botas”.

Talvez essa seja sua função ali, afinal. Descobrir como morreu.

Mas suas divagações foram cortadas quando Amano colocou sua mão em seu ombro, mesmo sendo mais baixo, e o começou a arrastá-lo em direção contrária ao lugar onde “morava”.

Ele engoliu a seco, sentindo-se incrivelmente nervoso pelo outro ter sua mão ali.

Seria uma longa noite/dia.

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A Biblioteca ficava numa alta colina onde o nevoeiro parecia ser mais intenso. Provavelmente era por isso que ele não tinha nem pensado em explorar aquela parte da cidade melhor, era quase tão assustador do que andar em meio a pessoas com cabeças costuradas.

Aquele local era realmente confuso, na real.

Ali, havia uma capela onde se tinha missas todos os domingos — como eles sabiam que eram domingos era um mistério, mas... Espera, por que exatamente eles faziam missas? A fé deles era tão forte assim, mesmo depois de mortos? — e de acordo com Yukiteru, era o Bispo dali que sempre tocava o sino. Ele ficou encarando àquela capela por tempo demais, pensando em como exatamente um sino que ressonava pela cidade inteira poderia caber naquele local minúsculo.

Perto da capela, ficava a tal praça, que tinha alguns barrancos e vários bancos espalhados, um mais longe que o outro. Resumindo: ela era imensa. Naquele momento, era ali onde se localizava várias criancinhas, algumas brincando com larvas, aranhas ou animais zumbis/esqueléticos. Aquela cena era realmente degradante e triste, afinal, saber que aqueles moleques morreram tão cedo sem aproveitar quase nada da vida, deixando provavelmente suas famílias aos prantos não era uma coisa muito animadora, afinal. Entretanto, Yukiteru apenas ignorou os pirralhinhos. Akise resolveu fazer o mesmo e não comentar.

Depois de andarem por quase quinhentos metros depois da capelinha, eles chegaram numa espécie de castelo da Era Gótica. Coberto por um nevoeiro ainda mais forte, Akise podia até imaginar os morcegos voando em volta do local enquanto tocava This is Halloween.

Seu cérebro provavelmente estava apodrecendo para ele ter pensamentos desse tipo.

Os dois ficaram encarando o castelo por mais alguns segundos, enquanto o lado mais Edgar Allan Poe de Akise começava a surgir junto com sua mão, que estava já formigando para pegar uma caneta e escrever um conto sobre aquilo.

Amano lhe lançou um sorriso; seus olhos arroxeados quase que ganhando brilho de divertimento.

— Vamos entrar.

Ele empurrou os portões e os dois atravessaram o pequeno jardim com grama seca e vários troncos de árvore mortos.

Quando chegaram em frente a grande porta de entrada, Yukiteru apenas empurrou-o, dando espaço para Akise passar.

Ele o fez, meio desconfortável.

— Você não deveria meio que, sei lá, bater na porta antes? — O albino questionou.

— Machina já sabe que estamos aqui. Não faz diferença. — Respondeu o outro, enquanto Akise dava de ombros. Ele queria perguntar como Machina sabia de todas essas coisas, mas ainda tinha suas suspeitas se realmente gostaria de saber da resposta.

Eles andaram pelo local mal iluminado pela falta de lamparinas em linha reta, até chegarem e, uma porta no fim do corredor. Yukiteru a abriu, revelando um cômodo de aparência mais colorida; com uma escada em formato de caracol. Aquele local estava bem iluminado por conta das várias lamparinas, mas o que mais surpreendeu fora as paredes: ali deveria ter milhares de livros nas estantes dispostas ali; livros de tudo que era época com capas uma mais estranha com as outras. Por um momento, o albino teve vontade de pegar a maior quantidade que seus braços podiam aguentar e sair correndo dali. Ele não tinha mais coração, seria realmente difícil ele sentir-se cansado.

No momento em que os dois começaram a descer as escadas, Aru começou a ouvir alguns murmúrios, e não demorou a ele achar sua fonte: em uma mesa cheia de papéis espalhados e livros empilhados, havia um cara com uma capa escura escrevendo numa espécie de pergaminho fervorosamente.

— Senhor? — Yukiteru chamou-o. O Velho se virou para ele, antes de se levantar.

— Oh, Amano? O que estás fazendo aqui? Seu turno já não tinha acabado? Vai me dizer que rasgou seu terno mais uma vez, o? — então, ele riu, ou o que deveria ser uma risada. — Fifi já deve estar cheia de você.

E então, quando ele se pôs completamente de pé, Akise quase não conseguiu evitar de sentir um forte temor ao ver aquele... Aquele troço.

O Velho Machina — ou seja lá qual era o seu verdadeiro nome — era bastante alto e usava uma capa preta que tapava todo seu corpo, junto com uma grande máscara em seu rosto que mais se assemelhava a um capacete. Mas, quando ele mexeu seus braços, Akise conseguiu ver com completo horror que eles eram ossos puros. Não eram como os outros, que por mais esqueléticos que fossem, ainda tinham uma camada de pele roxa cobrindo-os. Aquilo lá era branco. E terrível.

Mas aparentemente, os dois estavam alheios à reação de Akise.

— Não, dessa vez juro que estou inteirinho. — Yukiteru deu um sorriso, dando alguns tapinhas no braço do recém-chegado. — Vim aqui apenas te apresentar ao novato, seu nome é Akise Aru, eu acho. Foi o que Keigo disse, pelo menos. — Deu de ombros.

O arrepio que Akise sentiu a seguir foi pior, quando a máscara do Velho focou seus “olhos” em si; eles eram inteiramente negros, como se fossem apenas buracos.

Talvez eles realmente fossem buracos.

Aquilo fora um choque da realidade tremenda.

Ele provavelmente ficaria daquele jeito em pouco tempo.

(Ou séculos. Keigo ainda tinha olhos decentes e estava lá há vinte anos)

Ele estava tão malditamente morto.

E naquele momento, a frase realmente significava o seu real sentido.

Ele sentiu seu corpo cambalear um pouco, enquanto Yukitero segurava-o, perguntando se ele estava bem e se não seria melhor voltar mais tarde.

Seus olhos refletiam uma preocupação profunda.

Como aquele garoto podia demonstrar um sentimento tão vívido sendo que seu coração não batia mais há um mês, pra mais?

E por que ele sentia-se tão quente por isso, sendo que ele não tinha sangue para fazer isso?

Aquilo era confuso. Talvez as pessoas dali que agiam como humanos não fossem tão loucas. As pessoas que namoravam também não.

Era surreal, e ele nunca ia se cansar de repetir isso. Akise realmente queria que fosse tudo um sonho e que em pouco tempo ele iria acordar.

Talvez ele acordasse do lado de Yukiteru Amano. Ele contaria seu sonho ao seu rapaz e os dois ririam...

Por que aquela cena lhe parecia tão familiar? E por que lhe veio à mente?

Ele não conseguia lidar mais com isso.

— Não se preocupe, Amano. — Ele ouviu Machina falando, enquanto Akise encostava seu rosto em suas mãos. Por precaução, ele enfiou seus dedos em seus olhos, sentindo ainda que ele estava ali. — Seu amigo apenas levou um choque. Isso é normal. Ele está passando por tudo que você passou nas primeiras semanas, lembra-se?

Machina voltou a sentar-se em sua poltrona, mas mesmo assim Yukiteru não soltou o albino, apenas abraçou ele mais forte.

A cabeça de Akise ficou perto do seu peito, mas ao ouvir que dali não vinha barulho nenhum, sua situação apenas piorou um pouco.

— Eu estou bem, obrigado, obrigado. — Ele murmurou, tentando se afastar de Amano.

Machina observava tudo com interesse.

— Bem, bem. Não tenho muito o que fazer para esse jovem. Até porque, é questão de pouco tempo até ele conseguir sair desse lugar. Para você também, Amano. — Ele falou com a voz simpática. Talvez estivesse realmente sorrindo sob a máscara.

Pelo menos isso o consolou um pouco. Ele não ficaria ali tanto tempo...

Akise se animou ainda mais por saber que havia a possibilidade de Yukiteru sair junto de si.

E então, ele realmente torceu para isso acontecer. Ele não queria deixar o moreno para trás, mesmo essa sendo apenas a segunda vez que eles aparentemente se viam.

Por algum motivo, a palavra de novo começou a tocar em sua mente, como um mantra.

Ele sentiu os olhos de ambos os outros homens da sala pesarem sobre si.

— Mas — Machina falou sem desviar seu olhar do albino, mas claramente não se referindo a ele —, você se lembra da caixa que você achou pouco tempo atrás, Amano?

— Aquela que você mandou eu não abr...

— Sim, essa mesmo. — O Velho o cortou. — Você ainda a tem?

— Sim, mas... — Ele tentou falar novamente, e o de capa novamente o interrompeu:

— Aquilo pertence ao Akise. Aos dois, na real. Quando achar que ele já se acostumou com a ideia de morar aqui, você poderia dar para ele. Você terá uma surpresa grande nisso, queira ou não. — Declarou.

Amano olhou para ele com uma cara sem expressão, mas dava para ver que ele estava meio surpreso.

E o albino sentia-se perdido, mas depois daquelas duas semanas, ele acabou por descobrir que aquele era um sentimento que ele iria experimentar mais do que gostaria.

— Eu...

— Não tenho mais o que o que falar para Akise. Amano, Seu amigo parecesse estar bem perdido, certo? Por que não o ajuda ir pra casa? Ou vão para outro lugar? Ou que tal ele ficar um pouco lá fora, enquanto nós não conversamos um pouquinho? — Sugeriu.

Akise queria teimar, dizer que como ele estava envolvido com a tal caixa, ele deveria sim saber de tudo. E também tinha direito de ficar ali.

E mesmo com a máscara, a forma em que o Machina lhe olhava... Akise sabia que estava perdendo alguma coisa.

— Mas sinta-se à vontade para voltar a qualquer momento. — Convidou.

Akise assentiu e olhou para Yukiteru.

— Me espere lá fora, por favor. — O moreno pediu, encarando o Velho com uma expressão meio decepcionada, como uma criança que pede um doce para a mãe, mas a mulher não lhe dá nada.

Akise, meio contrariado, fez o que lhe foi dito.

Ainda meio trêmulo, ele subiu as escadas da biblioteca e deu uma última olhada nos livros. Talvez ele voltasse sim para pegar algo emprestado.

(e foi só nesse momento que lhe ocorreu: como eles conseguiam ter tantas coisas usadas por humanos? Até aquelas bandinhas que tocava no Submundo — aquilo deveria ser o Submundo, obviamente — tocava com instrumentos de verdade, e usavam roupas de couro em um estando não tão deplorável)

Ele saiu do cômodo no momento em que Amano e Machina começavam a falar sobre alguma coisa. Ele tinha certeza que era sobre si.

Ele tentou umedecer seus lábios, e pela primeira vez, pensou em como exatamente Yukiteru tinha conseguido a façanha de trabalhar com Machina ou seja lá. Afinal, pareciam ser só eles dois.

Akise saiu do castelo o mais rápido possível, se escorando no portão do local.

Ao longe, ele ouviu badalar os sinos da Igreja; já haviam se passado mais quatro horas.

Não demorou para Yukiteru, para sua sorte, sair do grande castelo.

— Vamos então? — Ele convidou, ajeitando seu terno.

Os dois andaram lado a lado em silêncio, Yuki tinha perguntado se ele não gostaria de ir na praça apenas para espairecer, mas ele negou.

— Então... Você quer que a Fifi costure esse rasgo no seu casaco? — o de olhos azulados perguntou depois de um tempo.

Foi só então que ele se preocupou em checar que roupas estava vestindo durante todo aquele tempo: um casaco azul, uma camisa branca com colarinho e uma calça jeans. Seu casaco tinha um enorme rasgão no cotovelo, isso incluía sua blusa.

— Eu adoraria. — Akise confessou, franzindo suas sobrancelhas ao pensar em como sua cabeça andava nas nuvens para ele não reparar a forma em que se vestia. — Mas quem é ela? É a costureira oficial daqui?

— Tipo isso. Mas ela é uma aranha. — Yukiteru falou como se fosse normal aranhas costurarem, antes de dar de ombros. — Onde eu fico é por aqui. Amanhã vê se aparece na Biblioteca, Fifi mora lá também. Assim você pode pegar alguns livros emprestados também, eu vi a forma em que você encarou-os: como se fossem a coisa mais perfeita que já viu no mundo. Até mais, Akise Aru.

E com isso, Yukiteru deixou o albino sozinho ali no local, enquanto Akise teve mais certeza que aquele lugar era insano.

Porque fala sério, aranhas costurando.

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-

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Fazia três meses que Akise estava ali. De acordo com as contas de Minene, claro.

Esses três meses foram o suficiente para fazer ele se esquecer da sensação do Sol contra sua pele, de como a noite poderia brilhar quando a Lua estava cheia e sem nuvens para atrapalhar, de como era respirar.

Esses três meses foram o suficiente também para ele simplesmente aceitar sua nova vida.

E ah, uma coisa muito importante —, Fifi era realmente real; ou tão real quanto uma tarântula com habilidades de costura poderia ser.

Ele ainda não estava sem um braço ou olho, nem apodrecendo ainda — o que era bem estranho, afinal, seu corpo deveria ter começado a se decompor há eras —, mas sua pele claramente estava com uma cor mais azulada do que antes.

Nesse meio tempo, Yukiteru sempre tinha sido um de seus únicos amigos além de Keigo, cujo qual sempre estava convidando para beber consigo. Não era como se ele fosse um alcoólatra, mas é que ali realmente não se tinha o que fazer.

Ele, pelo menos, depois do seu turno na padaria com Minene — que agora estava fazendo bombas caseiras com sabe-se lá o intuito — ia sempre para a Biblioteca. Lá tinha diversos livros bons; mesmo que a maioria seja de autores que ele nunca tinha ouvido falar. Akise suspeitava que todos aqueles livros eram daqueles autores “fodidos e mal pagos” que não conseguiam fazer fama e deixavam seus livros mofando em sebos. Sim — exatamente daqueles caras que desejam fazer história, mas no fim, ficavam tão famosos quanto um vendedor ambulante qualquer.

Mas em compensação, Yukiteru e Akise estavam cada vez mais próximos. Além do fato de Akise estar sempre na biblioteca com o de terno, os dois geralmente iam para praça depois que o turno do moreno acabasse, ou iam assistir algum show.

Os dois ficavam apenas conversando sobre coisas aleatórias, às vezes até falavam sobre algumas lembranças do seu tempo de vida.

E então, há um mês e meio, as coisas entre eles começaram a mudar — tudo isso por casa da tal da caixa.

No fim, dentro da caixa se revelou ter os restos de seu antigo coelho, Sparky. Ao abri-la, o animal voltou à “vida”, sendo que ambos os garotos gritaram “Sparky!” ao mesmo tempo.

Os dois tinham se encarando por alguns segundos. Akise estava surpreso. Enquanto Yukiteru — bem, ele parecia chocado. Seus olhos perderam o foco por vários segundos, antes de ele começar a tossir descontroladamente, como se estivesse engasgado.

— De onde você o conhece? — Akise lembrava-se de ter perguntando, enquanto Amano dava de ombros.

— Eu lembro de ter dado ele pra alguém. Mas também lembro de um cachorro ter mordido ele e isso causou sua morte. Acho que você foi a pessoa a qual dei o coelho, então. — Ele falou tudo àquilo quase que roboticamente, tentando não citar nomes de ninguém. Seu olhar estava distante, e Akise não tinha certeza se queria entender o porquê.

Mas de alguma forma, aquilo parecia ser o ápice da sua loucura.

Acreditam que ao ouvir que Amano Yukiteru tinha lhe dado um coelho, Akise teve certeza que estava apaixonado por ele? Davam para acreditar na grande merda que a constatação daquilo era?

Bem, ele preferia acreditar que aquele provavelmente era um sentimento que deveria existir antes de ambos morrerem, claro, mas mesmo assim...

Toda vez que ele via aquele cara, ele sentia suas mãos tremerem e seu corpo inteiro esquentar. Ele quase que podia sentir algo acelerado em seu peito e borboletas sacudirem seu estômago. Mas ele realmente esperava que aquilo fosse algo psicológico — ele não tinha mais qualquer órgão funcionando.

(Era engraçado, porque era nessa parte que ele se perguntava como seu cérebro funcionava, ou como ele conseguia ver e... foco)

Mas aquilo não deixava de ser menos aterrorizante, porque ele tinha certeza que fazia respeito à sua morte.

Tinha que fazer.

Mas quanto mais envolvido Akise ficava, mais distante Yukiteru parecia estar.

Era como se ele tivesse algo a esconder.

Ugh, ele estava cansado dessa palhaçada.

Naquela tarde, Akise não tinha aparecido na Biblioteca depois de acabar seu turno com Minene, ele só não sentia que seria uma boa ideia passar aquele tempo incomodando Machina e Yukiteru, afinal, ele parecia ser um dos únicos mortos dali que podiam entrar a hora que quisesse naquele local.

Mas como o costume, estava indo se encontrar com Yukiteru na praça, e isso era algo quase inevitável, afinal, ele tinha plena certeza que independente de tudo, o moreno estaria ali.

O quinto badalar do sino tinha acabado de tocar, e com Sparky aos seus pés, ele se dirigiu ao seu costumeiro local mais afastado, cumprimentando alguns conhecidos no caminho, como a Tsubaki sei lá das quantas, uma moça que estava sempre usando um laço grande e vermelho na cabeça.

Quando ele chegou no local, Yukiteru já estava sentado no banco deles, que era perto dos barrancos.

Ele quase soltou uma risada nasal quando se lembrou da terceira — o que ele achava ser a terceira, pelo menos — vez que fora naquele lugar; ele tinha se aproximado demais do barranco e escorregado, caindo de uma forma bem feia do local.

E ao invés de ajudá-lo, Yukiteru apenas ficou rindo da sua cara, com seu jeito malandro.

(que não combinava com ele)

Entretanto, naquele dia, o moreno não estava quase que largado no banco com a cabeça nas nuvens. Ele estava sentado com uma postura excessivamente ereta, mordendo a ponta dos seus dedos, de uma forma pensativa-e-negativa.

Ele sentou-se ao lado do garoto, que apenas o olhou com os olhos azuis arroxeados mais frios que o normal.

E fora só naquele momento que ele notou o buquê de flores mortas em seu colo.

— Você nunca se perguntou se isso que você é aqui embaixo, é o que você realmente era quando podia respirar? — Ele questionou do nada, voltando a olhar para a escuridão.

Akise engoliu a seco, enquanto Sparky roçava seu corpo esquelético em Amano, que diferente das outras vezes, apenas ignorou-o.

— Já, na real. — Confessou. — Eu mal tenho lembranças de quando vivia...

— Sabe — Yukiteru deu uma risada sem humor —, eu consigo me lembrar de certas coisas. E com base nisso, posso dizer que você não era assim quando vivo. Você só sorria quando era sarcasmo. E mesmo assim podia ser excessivamente gentil. Você fazia faculdade de direito, sabia? Mas estava louco para ser perito criminal. Você sim fazia o tipo de pessoa que seria apta para trabalhar com Machina; sempre tão inteligente, perspicaz... Você tem noção do quão ruim foi minha queda por você? Isso nos levou a morte... — Ele murmurou baixinho a última parte.

Akise apenas encarou Yukiteru com a boca aberta e os olhos em choque.

Não, não.

Ele não queria ouvir sobre aquilo.

Se ele soubesse como morreu... Seria o fim.

(Literalmente)

As coisas eram de fato como ele tinha pensando; se ele descobrisse o motivo da sua morte, ele sairia dali.

Ele nunca teve uma sensação tão clara sobre isso como naquele momento.

Ele não entendia o porquê, mas de repente, ele sentiu um pavor em pensar que teria que enfrentar os mesmos sentimentos de quando chegou naquele lugar de novo.

Ele não queria ter aquela dor pós-morte pior que ressaca, ele não queria ter que se adaptar a outro lugar.

Talvez ele não quisesse se separar de Yukiteru, também.

E mais uma vez a frase de novo começou a passar como um mantra na sua cabeça.

Foi naquele momento que ele entendeu porque ainda tinha tantas pessoas naquele local tentando fazê-lo se parecer ao máximo possível com o mundo dos vivos: todos eles tinham medo do que realmente tinham sido quando respiravam. Alguns podiam encarar aquilo como uma segunda chance — mesmo estando mortos, poderiam moldar uma personalidade inteiramente nova. Seja lá onde eles tenham errado enquanto viviam, eles simplesmente poderiam ignorar tudo, sem se importar se precisassem consertar o erro ou não.

Isso era quase que uma doença, e o albino seria o próximo infectado.

Yukiteru se aproximou de Akise, colocando sua mão no rosto do garoto.

Os dois ficaram cara-a-cara, enquanto o moreno parecia desafiar o outro a se afastar.

Ele deslizou seu dedo frio pela bochecha do garoto de olhos quase avermelhados, fazendo um pequeno carinho.

— Eu não gostaria que você lembrasse de tudo. — Ele murmurou, e diferente do que ele achava, Amano não tinha hálito de coisa morta (mais conhecido como carniça), mas sim de algo que se semelhava a água velha. Tipo quando você guarda uma garrafa de água por muito tempo, e quando a abre fica um cheiro estranho. — As coisas foram injustas com nós, sabe... Éramos estudantes quase formandos. Eu fazia administração para futuramente controlar as empresas do meu pai que eu nem lembro mais do que era, talvez uma rede de hotéis ou farmácia, e você, como já disse, fazia direito. Nós nos conhecemos numa festa de fraternidades, estávamos bêbados, mas mesmo assim ficamos. Então, decidimos nos tornar amigos logo após isso. Ficamos um ano nesse “chove e não molha” que chamávamos de amizade, e confesso que foi um dos anos mais divertidos de toda minha vida. Aprendi muito sobre você. E então, depois de um tempo que estávamos namorando e eu estava prestes a me assumir pra minha família, eles inventaram que para dar ainda mais nome à empresa deles eu teria que me casar com Yuno Gasai. Sim, um pensamento totalmente ridículo, mas, eu fiquei quieto. E nosso relacionamento começou a desandar nesse ponto. Você não aceitava que eu ficasse mentindo para os meus pais, dizia que eu tinha que assumir tudo logo, antes que as coisas tomassem rumos drásticos. Como sempre, tu tinhas razão. Mas eu não queria decepcionar ninguém.

“Então eu fui enrolando todos. Eu enrolei minha família para adiar o casamento, enrolei Yuno, porque ela sempre me assustou e não tinha maneiras no inferno que eu gostasse de alguém tão irritante como ela, e enrolei você, dizendo que iria acabar com tudo rápido. Mas as coisas não foram bem assim e da próxima vez que notei, meu casamento com Gasai estava até marcado.

“Naquele dia, o que eu contei pra ti sobre a decisão do meu pai, você ficou possesso. Ficamos três meses sem nos falarmos, e quando você apareceu, foi no dia do meu casamento com Yuno. Eu juro por Deus — ver você entrando pela porta da Igreja e sentando-se ao lado de nossos amigos fora um dos piores sentimentos da minha vida. Foi naquele momento que eu decidi que não poderia mais enganar ninguém pela minha covardia. Então, eu interrompi o padre e bem, falei tudo naquele momento. E depois eu peguei e... E te beijei na frente de todos. Antes que as pessoas começassem a nos bombardear de perguntas e Yuno tivesse tempo de me bater, eu te segurei pela mão e juntos fomos para o seu apartamento. Naquele dia, fizemos planos de fugir, apenas nós dois. Iríamos nos casar naquela noite também. Eu tinha uma poupança só para mim e você tinha uma conta cheia de dinheiro de sua herança. Você dizia que tinha poupado aquele dinheiro para um momento especial ou sei lá, e estava certo que ele tinha chegado. Ou seja — nós poderíamos ter uma vida maravilhosa fora dali.

“Eu saí do seu apartamento, e então, quando estava indo pra casa arrumar minhas malas e me reajeitar pro nosso casamento-relâmpago, Yuno apareceu e me matou. Simples assim. Quando entrei no meu apartamento, ela estava segurando um machado, sentada numa cadeira; e seus olhos... Eu nunca vi nada tão psicótico na minha vida quanto o olhar dela. Ela levantou o machado e atirou-o no meu ombro, depois nas minhas costas. Eu ainda me lembro de vê-la me atirando num lago para esconder meu cadáver depois disso, mas eles descobriram-na, eu tenho certeza. E isso é tudo...”

Yuki parou de falar, e Akise não soube o que dizer.

(oh, então esse era o real motivo do rasgo no smoking de Yukiteru)

Aquilo parecia tão irreal, como se fosse uma estória de romance clichê para adolescentes histéricas.

Só que com um final totalmente infeliz, como Romeu e Julieta.

Um fracasso no cinema, basicamente.

Foi aí que sua cabeça começou a arder, e um misto de lembranças atravessou por si. Ele estava se lembrando de tudo. De todos os sorrisos que compartilhara com Yukiteru, das vezes em que eles foram ao cinema e da primeira vez que ele tinha comido McDonalds. Naquele dia, ele comeu tanto hambúrguer que passou mal do estômago e foi o Yuki que ficou reclamando sobre sua idiotice e fala sério, qual é o seu problema? Um BigMac era o suficiente; mas mesmo assim tomou conta dele.

Ele também se lembrou de quando o garoto de cabelos negros falou-lhe da história de noivado. Ele ficou possesso — estavam tentando tirar seu Yuki de si.

E a aparência do seu namorado também era tão diferente... Sua pele era tão vívida...

Depois, veio a cena que ele encontrou Yukiteru naquela cama da sala de autopsia, quando descobriram seu corpo no lago.

Ele nunca quis chorar tanto em sua vida.

O garoto moreno parecia entender a confusão em seu olhar, provavelmente era o mesmo que ele sentiu isso quando viu Sparky pela primeira vez.

(e o que aconteceria com o coelho naquele momento? Se eles saíssem dali...)

Yukiteru passou a mão sobre seus lábios azulados antes de se aproximar mais de si.

— Sabe qual é o meu real objetivo aqui? — Ele murmurou próximo demais de Akise, que engoliu em seco, tentando o máximo de si se controlar para não acabar com aquela mínima distância. — Beijar meu real noivo. Por isso ainda continuo de terno, esperando o momento em que cumpriríamos as nossas promessas.

E então, sem mais delongas, ele grudou seus lábios.

A boca de Amano estava fria, mas por algum motivo, Akise nunca tinha se sentido tão elétrico pro dentro. Ele sentia-se incrível.

O albino fechou os olhos no mesmo instante que suas memórias voltavam para si, dessa vez com mais força.

Ele lembrou-se da sua infância, quando morava com sua avó materna no interior, mais especificamente num sítio. Seu pai ia o visitar às vezes e sempre lhe trazia presentes legais, enquanto sua mãe era uma vadia.

Sua mãe era a pessoa com quem ele menos tinha lembranças, na real.

Ele se lembrou também de Haiku, o gato que estava sempre consigo quando morava lá, mas infelizmente sua avó tinha o dado para um vizinho. Ele lembrava-se de ter chorado como nunca naquele momento.

Ele também se lembrou de seus quatorze anos, quando seu pai o levou para a cidade com o intuito de fornecer ao seu filho uma “educação melhor”. Seu pai fora um cara muito importante da sua vida, e a única vez que ele chorou mais do que quando sua avó tinha dado seu gato para o vizinho, fora quando ele morreu de tuberculose um mês antes de ele passar na faculdade.

Ele se lembrou da primeira vez que tinha beijado Yukiteru, naquela festa estúpida da fraternidade que ele nem queria ir. Os lábios do garoto moreno tinham gosto de vodka e balinhas de morango; se lembrou de dois meses depois, quando os dois estavam tentando ser amigos, e Yuki lhe deu Sparky só porque ele tinha comentado que ele gostava de coelhos brancos.

Se lembrou de quando ele tinha pedido o moreno em namoro; céus, ele conseguia sentir seu nervosismo de novo naquele momento.

E então veio às lembranças das tardes em que eles iam para um parque e faziam piquenique, ou das noites em que eles subiam no terraço do colégio para observarem estrelas, mesmo que nenhum dos dois conhecesse constelações.

Depois veio a tal de Yuno nos seus pensamentos — uma garota irritante de cabelos rosa. Ela era obsessiva pelo seu Yuki de uma forma anormal.

E então, ela se lembrou de todas as demonstrações de afeto que ela forçava pra cima dele, tentando deixá-lo com ciúmes.

E depois ele se lembrou da sua morte...

Atropelado.

Depois que Yukiteru tinha morrido, ele ficou no fundo do poço.

Depois do casamento forçado desastroso, o moreno tinha prometido que eles iriam ficar juntos para sempre.

Mas o para sempre dele tinha apenas acabado. Não existia mais. Eles nem tinham se casado ainda, mas a morte tinha os separado.

E então, ele se afundou indo em bares.

Ele não se importava com o que seus amigos diziam: se aquilo ia passar ou não. Naquele momento, ele só não queria pensar. O álcool o ajudava pensar.

(foi nesse momento que ele notou uma coisa muito importante que o Velho lhe disse: quando as pessoas acordam no Submundo, elas ficam no último local onde se sentiram realmente vivos. Ele sentia-se vivo quando bebia, pois podia fingir que Yuki ainda estava vivo, e ele apostava que o garoto moreno tinha acordado na capelinha pois deveria ter se sentido extremamente vívido ao finalmente encarar toda sua família)

E foi numa noite, quando ele estava quase entrando em coma alcoólico, ele decidiu atravessar a rua sem cuidados nenhum. Isso, somando a um motorista dirigindo em alta velocidade, deu no que deu.

Essas foram as principais coisas que ele conseguiu distinguir; o olhar raivoso de Yuno, o riso de Yuki; os seus olhos sem foco naquele quarto branco junto com o cabelo molhado e escorrido; as luzes do carro e a buzina...

Era um misto de emoções e lembranças tão estranhas que ele achava estar vendo um filme, observando a trama da vida de outra pessoa, não de si mesmo.

Ele sentiu seu corpo ficar mais leve do que nunca e entreabriu os olhos, se deparando com seu namorado antes de morrer; sem aquele terno tão formal e a pela azulada.

E tudo ao redor deles brilhava.

Foi nesse momento, enquanto sua visão ficava cada vez mais anuviada e o corpo do seu namorado parecia pesar em cima de si, que ele teve plena certeza que eles ainda poderiam cumprir sua promessa de ficarem juntos.

Notas finais
Então foi isso. E sim, o final foi tosco e clichê, mas whatever.
Estava pensando que, talvez, no Valentine's Day eu faça uma fanfic com eles vivos, onde eles se conheceram na festinha marota até o ponto de suas mortes. Ia ser maior que essa? Com certeza, mas se começar a escrever mês que vem consigo acabar de boas sem parecer um zumbi HAHA
Então, qualquer erro (português, coerência) me avisem, por favor.
Feliz Halloween para todos. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!