Corpos Incompletos
1 Corpos Incompletos
Estava a chover lá fora e a pequena menina estava presa no seu ninho de paredes brancas. Não podia sair e temia que alguém entrasse. Não sabia ao certo se aquilo que a impedia de se mover era a chuva ou o medo. Talvez fossem ambos em simultâneo num salgado misto de terror e loucura.
A porta não podia ser aberta, por motivo algum. Por isso, mantinha-se imóvel, estática, naquela cama que nem era sua. Os minutos voavam desde o momento em que ali entrara, desde que a semente do ódio fora colocada no seu corpo. Tentava. Tentava esquecer-se. Esquecer-se sem nunca se esquecer de se esquecer.
No fim, decidiu fechar os olhos e nunca os abrir mais. Sonhou com um mundo branco mas inocente. Pequenos pássaros sem penas andavam pelo chão invisível, tentando voar mas sem sucesso, sem esperança.
A menina cansou-se. Cansou-se de sonhar. Cansou-se de chorar também. Olhou para o teto e depois para o exterior com o desejo de ver (desta vez) pássaros belos e livres no firmamento. Mas a chuva continuava. Não havia pássaros naquele céu.
Tentou encolher-se e falar baixinho. Ninguém a ouvia. Mas ela ouvia-se e ela talvez fosse alguém. Chegou à conclusão de que alguém a ouvia, afinal. Não estava só. Ainda não. Tinha-se a si.
Voltou à janela e descobriu algo novo. Algo que, pela primeira vez em muito tempo, lhe deu alegria, felicidade. Podia abrir-se. Devagarinho, abriu-a, quase sem conseguir acreditar. Colocou as suas coradas e inocentes faces no exterior, deixando as suas lágrimas humanas unir-se às lágrimas divinas. Suspirou e, de seguida, respirou o ar puro. Já tinha saudades de o fazer. Olhou para baixo e nada viu. Já era habitual. Como sempre, faltava-lhe algo.
Assim, com as suas esperanças agora depositadas única e exclusivamente na sua jovem ingenuidade, saltou. Finalmente, já podia sonhar em paz.
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