Corpo de Humana... Coração de Yokai
3 Nunca te abandonaremos, querida Takara

O grupo, agora com mais um elemento, caminhava silencioso, quando Shippo lembrou a todos.
– Minna-san, ainda não nos apresentamos formalmente!
– Tens razão Shippo! – Exclamou Kagome. – Eu sou a Kagome.
– És sacerdotisa?
– É... pode-se dizer que sim...
Takara não disse mais nada.
– Eu sou a Sango! Sou exterminadora de Yokais.
Takara deu um passo atrás com olhar desconfiado.
– Não precisas de te preocupar... só extermino os maus Yokais.
Takara semicerrou os olhos.
– E como os destinguem?
Sango não se atrapalhou.
– Normalmente são aqueles que atacam os vilarejos.
Takara ficou pensativa por um momento, antes de se virar para o monge.
– Eu sou Miroku... já agora... – Miroku chegou perto de Takara e segurou-lhe as mãos, olhando-a bem nos olhos. – Você gostaria de ter um filho meu?
Antes de Takara poder espantar-se com a pergunta, um osso voador aterrou na cabeça de Miroku.
– Seu mulherengo pervertido! – Gritava Sango, batendo-lhe novamente com o Hiraikotsu na cabeça. – Não perdes chance!
Takara revirou os olhos.
– Eu sou o Inuyasha! – Disse por sua vez o hanyou. – E podes crêr que só aturo todos estes elementos porque Kagome insistiu.
– E quanto a ela? Kagome?
– Hã... ela é minha detetora de fragmentos.
– Inuyasha... OSWARI!
Enquanto Inuyasha se afundava no chão, Takara ficou a pensar que realmente Kagome era uma sacerdotisa especial e a sua arte de detetar fragmentos podia ser muito útil. Ela era sem dúvida o elemento chave do grupo. Além disso dominava completamente o hanyou.
Por fim só restava o Yokai raposa e a gatinha de duas caudas.
– O meu nome é Shippo! E esta é a Kirara!
– Mew.
– Muito prazer, Shippo-kun! Kirara! – Cumprimentou Takara com um sorriso. Deu até uma carícia rápida na gatinha.
Os outros olharam entre si confusos. Porque Takara cumprimentava tão carinhosamente Shippo e Kirara?
– E tu? – Perguntou Inuyasha. – Não vais apresentar-te?
– Sou Takara. – Disse alto e bom som, voltando a uma posição firme. E depois disse com uma ponta de orgulho. – E como já disse, sou uma Yokai!
– Lamento estragar a tua apresentação, mas o teu cheiro é humano! – Replicou de novo o hanyou, fazendo Takara cruzar os braços e olhar para ele em desafio.
– Meus pais são Yokais, por isso, eu sou Yokai também! O que definem por pais?
Inuyasha respondeu de imediato.
– São quem nos põe no mundo!
Mas Kagome finalmente percebeu.
– São quem cuida de nós e nos ama...
Takara concordou com Kagome e voltou a trilhar o caminho de areia seca, fazendo novamente, todo o grupo ir atrás dela.
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A menina tinha medo! Tremia ante a imponência dos rugidos e o aterrorizante som de raspar. Sentia os Yokais todos à volta dela olhando de soslaio uns para os outros. Lutariam primeiro entre si para decidir quem ficaria com o prémio, ou matariam primeiro a peça de caça?
A menina selou o seu destino. Não aguentou mais e gritou. Gritou o mais alto que conseguiu, clamou por ajuda de olhos completamente cerrados. Sabia que o seu pedido de socorro seria incompleto, os Yokais iram rasgar-lhe a garganta e beber do seu sangue antes sequer que o vento levasse qualquer som para a aldeia. Por isso mesmo manteve os olhos fechados, porque seria mais rápido, acreditava ela, seria menos doloroso.
Dois focos de luz surgiram de entre as árvores. A luminosidade era suficiente para cegar, suficiente para intimidar os restantes Yokais mais fracos que recuaram. Os mais ousados atiraram-se sobre a presa sendo de imediato empurrados e mortos por dentes de luz.
A tudo isto a rapariga assistiu, de olhos agora arregalados. Lobos de luz estavam a matar os Yokais mostruosos cujas garras e escamas eram incapazes de machucar os recém aparecidos. Inconscientemente, a criança acalmou-se, parou de chorar e de gritar. Não queria saber de mais nada... se aquelas belas criaturas a iam comer, que se regalassem. Seria bem melhor servir de comida ao que ela chamou Deuses da lua, do que continuar a ser atirada de mão em mão, ficar abandonada naquela floresta, padecer de sede e fome ou mesmo ser triturada pelos dentes amarelos de um Yokai semelhante a um minotauro e derretida em veneno de Yokai serpente.
Quando nada mais restava que um monte de ossos de Yokais, os lobos de luz aproximaram-se e para espanto da garota, tomaram uma forma quase humana, um homem jovem e belo de olhar vivo e alegre e uma mulher linda, perfeita, de olhar meigo e carinhoso. Os dois continuavam cobertos de luz, porquanto que, ao agarrar a mão que o ser de forma masculina lhe estendia, a menina acreditou estar morta e que iria ser carregada por aquele ser divino.
– Ela está gelada! – Constatou a mulher acarinhando-a delicadamente.
– Deve estar com fome, sabe-se lá há quanto tempo está aqui! – Acrescentou o homem. – Estás com fome?
Ela acenou em afirmativo.
– Se vieres connosco, podemos alimentar-te!
A menina seguiu-os ainda entorpecida.
– Vê só, querido, encontramos um Takara (tesouro).
– E qual... ela parece realmente especial.
Foi assim que a menina orfã que fora rejeitada tão cruelmente pelos pais ganhou um nome, ganhou uma família, ganhou uma vida!
Mas a felicidade é algo tão momentânio como a chuva de Agosto. Podemos assemelhar seres inteligentes (como humanos e Yokais) aos caranguejos que são pescados. Atirados para um balde, poucos teriam destreza o suficiente para treparem e fugirem. E nem mesmo esses conseguem fugir, porque os invejosos que não foram capazes, agarram-se aos companheiros e puxam-nos para baixo, condenando todos à caldeirada.
A felicidade aparente é o que nos causa maior número de inimigos.
– Aqueles dois Yokais são uma vergonha para a espécie. Andam de um lado para o outro com aquela humana que adoptaram. É nojento! Protegem-na como se fosse uma filha de sangue. Odeio humanos, que morram!
Outros Yokai apoiram a idéia, dando asas ao rancor guardado, dizendo coisas que não teriam coragem de falar pela frente.
– Se eles não fossem tão poderosos, eu juro que acabaria com eles mais aquela humana!
– Talvez eu possa ajudar!
– Quem é você? – Perguntou o Yokai nativo que comandava o grupo de Yokais revoltados. Não conhecia aquele indivíduo o que significava que não era da zona.
Observou-o. Era impossível ver-lhe o rosto que estava coberto com uma capa de babuíno branco.
– O meu nome é Naraku! Os lobos de luz têm algo que eu quero! E poderei fornecer um exército de Yokais para as vossas causas... se me entregarem o fragmento branco da jóia de quatro almas.
– É impossível! Aqueles dois são muito fortes graças a esse mesmo fragmento. Morreremos todos se o tentarmos roubar.
Naraku soltou uma risada maligna.
– Mas agora... eles tem um ponto fraco! Eu diria até, uma lamentável fraqueza!
Enquanto o plano sangrento estava a ser formado, do outro lado da floresta, Lawrence, o lobo de luz, ensinava a Takara o nome das estrelas.
De repente parou. Com a sua audição apurada conseguia perceber grande agitação ao seu redor. A floresta estava em festa, uivos e rugidos de euforia ecoavam nas copas das árvores, o troar de passadas fazia o chão vergar.
– Takara, consegues ouvir?
– O que, meu pai?
– O desequilíbrio da Natureza.
– Ouço sim! São os outros Yokais!
Ambos cheiraram o ar.
– Tem um cheiro diferente no ar. São visitantes? – Supôs Takara. Nesses anos de convivência aprendera a desenvolver os sentidos a um nível inatingível para qualquer ser humano.
– Muitos novos Yokais! Por isso a festa... — «Parece um exército» Pensou para si mesmo.
Pegou na menina, que agora já tinha mais de sete anos, e sentou-a ao colo.
– Takara, quero dar-te uma coisa!
– Um presente? – Perguntou com os olhos brilhando de emoção e curiosidade.
O Yokai em forma de homem não sorriu. Pelo contrário o seu rosto estava sério.
«Uma condenação, minha querida filha. Me desculpa, Takara!»
Retirou do manto um fragmento branco como a neve e mostrou-o a Takara.
– Este é o fragmento branco da jóia de quatro almas! O central, o mais importante! – Explicou-lhe o pai. – Sem este pequeno pedaço, Midoriko nunca irá vencer os Yokais... nunca irá ter paz. Só este fragmento pode decidir o destino da jóia, pode destruí-la, purificá-la, amaldiçoa-la eternamente. E esta noite, nomeio-te guardiã do fragmento. Serás responsável por ele.
Takara recebeu-o com as mãos juntas em concha e guardou-o como se este fosse feito de gelo e pudesse derreter-se ao seu toque.
– Como ele surgiu? Porque é tão importante? Porque é branco?
– Terás de descobrir por ti mesma...
Takara olhou para o pai, vendo nos olhos habitualmente alegres, um laivo de tristeza.
– O que vai acontecer? Isto quer dizer o quê? Vocês vão me abandonar? – Perguntou com os olhos a encherem-se de lágrimas.
O pai abraçou-a fortemente.
– Nunca te abandonaremos, querida Takara. Aconteça o que acontecer, estaremos sempre contigo.
Takara queria acreditar, mas o seu coração pesava e sufocava-a em angústia e medo.
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