Corona Radiata

3 Me leve para Corona Radiata uma última vez


Notas iniciais
FELIZ NATAL GALEROUS Esse cap vai pro Mika. Mesmo que você só critique minha fic, no fundo eu sei que você gosta dela tanto quanto gosta de mim.

Colin olhou para a janela e viu mais uma tarde ensolarada chegando ao fim no asilo disfarçado de condomínio e colônia de férias para idosos. Estava cansado de se sentir inútil, cansado de ser sempre deixado de lado por todos, cansado de olhar para a janela e sempre ver o sol, sempre ali, brilhando, em contraste com seu coração tão calejado por sempre ser a segunda opção. Queria voltar a se sentir vivo, voltar a ver a lua durante o dia, voltar para onde se sentia feliz; ou então tomar alguns tarja-pretas a mais e fazer companhia a seu filho, cujo aniversário de morte era hoje.

E, como uma demonstração da Lei de Murphy, é claro que tudo piorou; e se lembrou do Pior Dia De Sua Vida, em que abandonar tudo foi uma opção mais agradável que continuar lá e ver Nastia se casando por obrigação com seu colega de classe. Voltou para Cambridge, abandonou o piano, seguiu em frente, construiu uma família; porém seu coração nunca mais foi o mesmo, e os sonhos felizes que tinha da sua época em Corona Radiata o atormentavam cada vez mais.

Se levantou então pela primeira vez em meses, e foi para o piano que George mandou colocarem no quarto. Começou a tocar a música mais triste que já ouvira, sobre um homem que empareda sua esposa morta para poder morar para sempre com ela; mas não pôde terminar graças a alguma enfermeira engraçadinha que decidiu bater à porta.

— Elinor, se for refrigerante de limão, trate de dar pr'aquele seu cão sarnento!

— Não é Elinor — diz uma voz de menino que Colin reconheceu como sendo de Matthew.

— Entre, Matt.

O menino entra no quarto, desesperado, com seu Reznik na mão.

— Não sabia que o senhor tocava, vovô.

— Há quase cinquenta anos que não tocava. Eu fiz faculdade de Música antes de estudar em Cambridge.

Os olhos do garoto brilham de alívio por saber que mais alguém na família compartilhava de seu amor por música.

— Onde? Por que o senhor nunca me contou?

— Até mesmo seu pai achava que eu sou só um professor de Química sem graça.

— Essa música que o senhor tocou... é aquela do Lindemann, não é? A do cara que empareda a mulher morta.

— Eu ouvi ela há uns meses e ficou na minha cabeça, só isso — disse Colin, numa tentativa desesperada de fugir do assunto — Agora vamos ao que interessa.

— Isso é o que interessa! — interrompe Matthew — Eu poderia vir pra cá mais vezes, tá tudo tão sombrio lá em casa ultimamente. Eu não consigo tocar nada alegre desde que papai morreu, e ainda apareceu uma mulher chamada TARDIS que propôs que eu me mudasse para Ingrays, desde que eu me casasse com uma princesinha.

— Mas quem cuidava disso era o Tsoy.

Matthew, que já não estava entendendo muita coisa, passou a não entender absolutamente nada.

— O senhor parece familiarizado com isso tudo, mas por quê?

— Eu fiz música na Universidade Nacional de Corona Radiata, amava Ingrays pra cacete e tinha uma namorada, aí a mãe dela ficou doente e o marido que arranjaram pra ela era meu colega de quarto. Os dois casaram no dia da minha formatura. Eu podia cometer suicídio ou largar tudo e voltar pra Cambridge. Então eu voltei, fiz Química, nunca mais encostei num piano e só consegui achar algo de lá por aqui uma vez, que foi esse Reznik aí.

— E a vovó?

— Quem ela realmente amava morreu na guerra. Éramos infelizes pra caramba, até que seu pai nasceu e ficamos menos infelizes. Ela morreu doze anos depois e eu fiquei feliz por ela, porque finalmente ia se encontrar com seu verdadeiro amor sabe-se lá onde. Seu pai começou a querer ser músico, e cada nota que ele tocava partia meu coração, porque me dava saudade de Ingrays. Ele se deu bem a ponto de conseguir manter você e sua mãe razoavelmente bem, até que apareceu uma Supervisora de Maltchiks que deve se chamar Pardis, que propôs que você se casasse com a neta de Nastia. Estou certo?

— Mas a rainha tem um filho, não tem? Por que ele não vira rei de uma vez?

— Não é assim que as coisas funcionam por lá. Não existem reis, e sim maridos da Rainha. Se a futura rainha casa com um príncipe, ele perde o título quando ela assume o trono e tem duas opções pra vida dele: trabalhar no Parlamento ou cuidar da papelada dela.

— Monarquia parlamentar misândrica, é isso?

Colin ri.

— É mais uma questão cultural. A estrategista que fez Ingrays se separar da Rússia foi uma mulher, então eles escolheram criar essa tradição, e não deu merda até agora. Pra que mudar o que está bom?

— Vovô. O senhor sabe alguma história sobre o Mr. Meebles?

— Ah, esse Reznik. A Rainha Marina ficou indignada quando descobriu que não existia um mascote nacional. Ela tinha muito talento pro que hoje vocês chamam de design, e desenhou um dinossaurinho com a cor da família Ingrays, que é tão bonitinho que ninguém quis mudar nada nele até hoje. Eu andei viajando há uns anos, e acabei encontrando um antigo amigo de Ingrays, que é dono de um antiquário perto da universidade. Ele tinha um Reznik novo lá e eu decidi comprar pra você.

Matthew olha para seu Mr. Meebles sorridente e não consegue deixar de sorrir junto.

— Eu queria morar lá com o senhor, e não com a mamãe.

— Eu também queria morar com alguém que se importa comigo. Eu posso morar com você desde que tenha alguma enfermeira que possa cuidar de mim. Fale com Pardis com cuidado ou Nastia me joga numa mansão-hospital, e eu definitivamente não quero isso.

— Mamãe pode falar com ela. Eu só preciso de um telefone.

Colin se levanta e anda lentamente até o botão de emergência. Elinor vem correndo, porque mesmo tendo certeza de que é alarme falso, dessa vez podia muito bem ser verdade.

— Senhor Bellamy! O senhor está de pé!

— Estou de pé e precisando urgentemente de duas coisas: um telefone e uma garrafa de refrigerante de mirtilo.

— Mas isso não é urgente, senhor Bellamy. E eu nem sabia que existia refrigerante de mirtilo.

— Existe, e é mil vezes melhor que essa porcaria sabor limão que nem mesmo seu cão sarnento merece tomar.

Elinor ri.

— O senhor não muda nunca, senhor Bellamy — diz enquanto sai em busca do telefone.

— Peça o telefone de Pardis, Matthew. E me chame para falar com ela se for preciso. A orientação dos supervisores da rainha em casos de maltchiks crescidos é deixá-los escolher seu destino, e eles devem deixar alguma forma de contato. Se não for o telefone, ela deixou o endereço de algum dos palácios.

Alguém bate à porta.

— Sou eu, trouxe um telefone! — diz Elinor.

Matthew abre a porta e vê a enfermeira de vinte e poucos anos sorrindo ao carregar um telefone nas mãos. Sorrindo também, Colin pega o telefone e disca o número da casa de George e Agatha.

— Agatha Bertram e Matthew Bellamy, quem fala?

— Agatha, que tipo de contato Pardis te passou?

— Como o senhor sabe disso tudo? Matthew não ouviu nada da conversa entre eu e Pardis!

— Eu já estudei em Ingrays, sei como as coisas funcionam por lá.

— Ela deixou o telefone pessoal da rainha.

— Isso dificulta um pouco as coisas.

— Eu também fiquei espantada, não sabia que o desespero deles chegou a esse ponto. Colin, você poderia ter essa conversa com Matthew e a rainha, por favor? O senhor foi meu professor, sabe que não levo jeito pra conversar formalmente.

— Já tive a conversa com Matthew. Não se preocupe, com Nastia eu sei me virar. Se quiser eu posso levá-lo até Corona Radiata no seu lugar, tendo em vista sua dificuldade em tirar uma licença-prêmio.

Ela ri do outro lado da linha.

— Obrigada, professor. O DDI de Ingrays é 57 e o número da rainha é 555-RADIATA.

— Quanta criatividade. Eu é que agradeço, Agatha.

Colin desliga o telefone, emburrado.

— Matthew. Eu não tenho coragem pra falar com a Rainha pelo telefone. Você poderia quebrar esse galho pra mim, por favor?

— Tudo bem! Já que o senhor não consegue eu preciso treinar, porque alguma hora eu falarei com ela, não é?

— E eu também, mas quero adiar isso o máximo possível. Obrigado. É 057-16-555-RADIATA. — disse ele, na dúvida sobre qual era o DDD de Corona Radiata.

Matthew disca o número.

— Caislean Cloiche, Chelsea na linha.

"É a princesa Chelsea?", pensa ele, admirado.

— A Supervisora de Maltchiks me deu esse número. Aqui é Matthew Bellamy.

A princesa sorri do outro lado da linha.

— Como Pardis é rápida! Olá, Matthew! Quer que eu passe para Nastia ou prefere falar comigo?

— Com a senhora, se puder esclarecer a situação.

— Sua mãe não deve ter conseguido explicar muito bem. Tecnicamente você tem sorte, Matt. Eles me trouxeram à força pra cá. Não vai ser ruim pra você, porque só queremos que Katherine se case depois dos 17, e ela só tem seis anos. A sugestão de você se mudar o quanto antes foi minha, me desculpe. É que ela é minha filha, e não queria que ela se casasse com alguém que não conhece. Eu queria que vocês fossem amigos, para que vocês possam se aturar quando o casamento chegar.

— Não tinha ninguém melhor, Alteza?

— Pelo amor de Deus, me chame de Chelsea! A sugestão de um Bellamy foi ideia de Nastia, por causa do Bolshi General da Independência. Katherine nasceu no aniversário de 200 anos da independência de Ingrays, e ela decidiu usar a história como desculpa, porque aparentemente estudou com alguém da sua família na faculdade que nunca pôde terminar. Eu aprovei a ideia, porque adoro o trabalho de seu pai no The Tornados, e porque eu também vim de fora, então vamos nos dar bem aqui.

— Eu só queria uma condição pra poder vir. Eu posso até morar em Corona Radiata se precisar.

—Nossa, é muito mais do que esperava! Diga o que precisa, ficarei feliz em providenciar. Já que você quer morar aqui, você prefere morar fora do palácio?

— Era uma das coisas que eu ia dizer. Minha mãe não é muito boa em se adaptar com lugares novos, então eu preferia morar com meu avô, mas ele é idoso e só pode ir se tiver uma enfermeira.

— Ele quer uma enfermeira daqui ou prefere trazer uma de Cambridge?

— Vovô, o senhor quer levar alguma enfermeira daqui pra cuidar do senhor em Corona Radiata?

— Por mais que insista em me dar aquela porcaria, Elinor Grimes é a melhor enfermeira que já cuidou de mim; então, se ela quiser, posso levá-la.

— Posso sim, senhor Bellamy.

— Ele prefere trazer a enfermeira dele em Cambridge, Chelsea. Ela se chama Elinor Grimes.

— Tudo bem. Eu mando Pardis falar com os superiores dela. Posso arrumar facilmente uma casa para os três, mas não garanto que ela será em Corona Radiata. Provavelmente a casa será em Aftermath, fica a uma hora de ônibus de Caislean Cloiche.

— Aftermath? Pra quem ia se mudar pra Leeds está mais que ótimo.

Ela ri do outro lado da linha.

— Leeds é horrível! O pior lugar da Inglaterra! Estão me chamando, Matthew. Foi um prazer conversar com você, espero que sejamos amigos.

— Já somos. Eu é que agradeço.

Ela desliga o telefone.

— Aftermath?! — resmunga Colin — Não tinha nem mesmo um cinema lá!

— O senhor dirige ainda?

— Minha carteira venceu, mas Elinor dirige muito bem pra uma mulher. Aliás, por que você nem pensou duas vezes antes de querer vir junto?

— Não tenho mais nada que me prenda a Cambridge. Minha mãe morreu há um ano e terminei meu noivado há algumas semanas. Nunca mais vou ter outra chance tão boa de largar tudo e seguir em frente.

— O que Gerard fez? — perguntou Colin.

— Me trocou pela Dra. Mary, da geriatria. Não está sendo fácil olhar pra cara dela todos os dias. Eu precisava dessa chance. Eu posso levá-los de carro até Ingrays se quiserem.

— Não precisa. Nastia consegue passagens na primeira classe pra todos nós num estalar de dedos. Quer apostar que é isso o que ela vai fazer?

Notas finais
Deem um presente de natal para essa pobre ficwriter, escrevam um review, finjam que ainda dá XP :c