Coroas e destinos

4 Velas, Vinho e Espinhos



​O Salão dos Espelhos, ornamentado com colunas de mármore e ladeado por extensos vitrais que refletiam a luz trêmula de dezenas de lustres de cristal, fora preparado com opulência para o banquete de boas-vindas. Uma longa mesa de mogno cobria o centro do recinto, guarnecida com baixela de prata, pratos de porcelana pintada à mão e cálices de cristal lapidado.

​Ao redor da mesa, a corte da Casa Cullen exibia sua força e elegância. Além do Rei Edward e da Rainha Isabella, a família real contava com a presença dos duques e duquesas que sustentavam a estabilidade do reino: o Duque Carlisle e a Duquesa Esme, cuja serenidade impunha respeito imediato; o Duque Jasper, mestre das estratégias militares, com seu olhar observador; e a deslumbrante Duquesa Rosalie acompanhada do enérgico Duque Emmett, que já secava seu segundo cálice de vinho antes mesmo do primeiro prato ser servido.

​Do lado oposto, o Rei Jacob e o Príncipe Taylor acomodaram-se perfeitamente trajados. No entanto, o verdadeiro espetáculo da noite desenhava-se na distribuição dos lugares: por ordem do Rei Edward, Taylor fora assentado ao lado da Princesa Carlie, enquanto Jacob fora posicionado exatamente à frente da Princesa Renesmee.

​— Uma mesa verdadeiramente magnífica, Duque Carlisle — comentou Jacob, cortando com facilidade um pedaço de assado perfumado com alecrim. — Na corte de La Push valorizamos a fartura, mas deho reconhecer que Forks eleva o banquete a uma arte.

​— A hospitalidade é uma tradição sagrada nesta casa, Vossa Majestade — respondeu Carlisle com um sorriso ameno, inclinando o cálice. — Esperamos que este encontro traga frutos duradouros para ambos os reinos.

​— Ah, frutos com certeza trará! — gracejou Emmett, dando uma gargalhada grave que fez as velas da mesa balançarem. — Especialmente se o jovem rei conseguir sobreviver ao olhar da minha afilhada sem ser perfurado antes da sobremesa.

​Rosalie deu um leve toque com o cotovelo no marido, embora sustentasse um sorriso de canto.

​— Deixe os jovens conversarem, Emmett. Tenho certeza de que o Rei de La Push é perfeitamente capaz de lidar com a corte de Forks... ou assim dizem as más línguas que cruzam os mares.

​Renesmee, vestindo um traje de veludo carmesim que contrastava vivamente com a gravidade de seu olhar, apoiou os cotovelos de forma elegante sobre a mesa e fixou os olhos em Jacob.

​— "As más línguas", tia Rosalie, costumam ser extremamente generosas — disparou Renesmee, a voz doce encharcada de ironia. — O que chega até as nossas fronteiras não são apenas histórias de bravura, mas sim um catálogo extenso das façanhas românticas de Vossa Majestade. Dizem que não há taberna, feira ou vilarejo em La Push onde o rei não tenha deixado um corado coração partido.

​Jacob ergueu o cálice na direção dela, sem perder a compostura ou o sorriso charmoso que exibia desde a entrada no salão.

​— Fofocas de camponeses e bardos frustrados, Princesa Renesmee — devolveu ele, inclinando-se ligeiramente sobre a mesa. — Um bom governante precisa estar próximo do seu povo. Se a minha simpatia natural é mal interpretada por mentes demasiado românticas, não posso ser culpado por ser generoso com a minha atenção.

​— "Simpatia natural"? — Renesmee soltou um riso curto e sem qualquer humor. — É essa a palavra nobre para designar um libertino de marca maior? O senhor negociou um casamento de estado por mensageiro enquanto provavelmente oferecia as mesmas juras eternas a três damas de companhia no seu próprio palácio!

​— Renesmee! — repreendeu Isabella em um tom firme, embora trocasse um olhar de soslaio com Edward, que disfarçava um sorriso bebendo um gole de vinho.

​— Deixe, Rainha Isabella — interveio Jacob, os olhos brilhando com o puro entretenimento do debate. — A princesa é observadora. Mas garanta-me, minha senhora: um passado movimentado apenas prova que sei exatamente o valor de uma mulher extraordinária quando encontro uma. E até agora, o que vejo à minha frente é uma tempestade... e eu sempre fui um excelente navegador.

​— Pois tome cuidado para não naufragar, Majestade — rebateu Renesmee, aproximando-se o suficiente para que apenas os dois e os vizinhos mais próximos ouvissem seu tom cortante. — Porque nesta tempestade, não haverá botes de resgate para o seu ego.

​Enquanto a fogueira entre Jacob e Renesmee soltava faíscas que divertiam e deixavam a mesa em alerta, o clima no outro extremo da conversa parecia pertencer a um mundo completamente diferente.

​Taylor virou-se para Carlie, alheio às alfinetadas do irmão. A Princesa Carlie cortava uma fatia de torta de maçãs com uma delicadeza quase poética, o rosto banhado pela luz suave das velas.

​— Devo admitir, Princesa Carlie — disse Taylor, a voz caindo para um tom íntimo e caloroso —, que o seu irmão e a sua irmã parecem prontos para travar uma batalha de cerco, mas a sua presença traz uma paz inexplicável a este salão.

​Carlie corou levemente, ajeitando uma mecha dos cabelos loiros atrás da orelha antes de erguer os olhos doces para o príncipe.

​— Minha irmã apenas protege o coração com espinhos, Príncipe Taylor. Ela não gosta da ideia de ter seu destino traçado sobre papéis de cartas reais. E quanto a mim... bem, confesso que temia o que encontraríamos nesta aliança, mas o senhor tem se mostrado um cavalheiro extremamente atencioso.

​— Não há encenação em mim quando me dirijo a você, Carlie — declarou Taylor com uma sinceridade tão direta que fez a jovem princesa prender a respiração por um instante. — Quando meu pai sugeriu esta viagem, pensei ser apenas mais um dever de coroa. Mas agora... agradeço a cada legua de estrada que meu cavalo percorreu.

​Carlie sorriu, um brilho genuíno iluminando suas feições.

​— Talvez as estradas de Forks não sejam tão frias quanto dizem os mapas, Príncipe Taylor.

​— Com a sua companhia, duvido que eu venha a sentir frio algum dia — respondeu ele, tocando discretamente a borda da mão dela sobre a mesa para selar a promessa.

​De volta ao centro da mesa, Jasper observava a cena com um olhar atento de estrategista militar, inclinando-se para sussurrar ao ouvido de Edward:

​— O príncipe menor já capitulou sem disparar uma única flecha, meu rei. Quanto ao Rei Jacob... temo que ele esteja desfrutando demais de ser atingido.

​Edward deu uma leve risada, descansando a taça na mesa.

​— Jacob pensa que está no controle do jogo, Jasper. Mas ele ainda não percebeu que Renesmee não está jogando pelas regras da corte.

​— Mais vinho, Rei Jacob? — ofereceu Renesmee com uma polidez exageradamente falsa, erguendo a jarra de prata. — Ou o peso da sua reputação já está deixando a sua cabeça leve demais?

​Jacob estendeu o cálice com uma piscadela audaciosa.

​— Sirva o quanto quiser, Princesa. O meu vinho favorito sempre foi aquele que vem acompanhado de um bom desafio. E devo dizer: o seu temperamento é o melhor tempero que este banquete poderia ter.

​Renesmee serviu o líquido escuro até a borda sem derramar uma única gota, sustentando o olhar do rei com uma promessa silenciosa de guerra que estava apenas começando.