Coroas e destinos

6 Sapatos, Seda e Subterfúgios



​O Salão dos Salpicos de Ouro, a divisão mais soalheira do Palácio de Forks, transformara-se num verdadeiro oceano de tecidos nobres, rendas importadas de reinos distantes e baús transbordantes de pedrarias. Gigantescos espelhos com molduras douradas refletiam o rebuliço da elegância feminina: rolos de cetim marfim, veludo bordô, damasco lilás e brocados prateados cobriam as mesas e divãs de veludo.

​Reunidas naquele ambiente perfumado a lavanda e flor de laranjeira estavam todas as matronas e princesas envolvidas na aliança real. A Rainha Isabella e a sua mãe, a Lady Renée — de regresso à corte com o seu marido, o Chefe da Guarda Real, Sir Charlie —, conversavam animadamente sobre os arranjos florais. A Duquesa Esme inspecionava as rendas finas ao lado de Sarah Black, a Rainha-Mãe de La Push, uma mulher de olhar nobre e sorriso acolhedor que acompanhara os filhos na comitiva. Para coroar o caos da moda, as duquesas Rosalie e Alice moviam-se como furacões entre manequins de madeira, tesouras de alfaiate e esboços de vestidos.

​No centro de um pequeno estrado, a Princesa Carlie ajustava a barra de um vestido de seda lilás com bordados de fios de prata. O seu rosto irradiava uma felicidade serena enquanto olhava para o próprio reflexo.

​— Oh, Carlie, minha querida! — suspirou Lady Renée, juntando as mãos ao peito com os olhos marejados de emoção. — Você parece uma visão celestial! Lembra-me tanto da sua mãe no dia em que se casou com o Edward... embora o seu pai estivesse mais pálido do que um pedaço de giz naquele dia!

​— Charlie quase desmaiou quando o Rei Edward pediu a mão de Isabella — gracejou Esme, oferecendo uma taça de chá de camomila a Sarah. — Esperemos que o Príncipe Taylor e o Rei Jacob tenham nervos mais fortes na subida ao altar.

​— Taylor é um jovem extremamente ponderado e doce, Duquesa Esme — interveio Sarah Black, com o tom orgulhoso de uma mãe devota. — Ele não tirou os olhos de Carlie desde o banquete de boas-vindas. O meu filho mais novo já perdeu o juízo por ela, e confesso que a minha bênção já é toda vossa.

​Carlie corou até à raiz dos cabelos loiros, baixando o olhar com um sorriso envergonhado, mas repleto de júbilo.

​— Ele é... indiscutivelmente um cavalheiro, Lady Sarah — confessou Carlie baixinho. — O Príncipe Taylor escreve versos encantadores e prometeu levar-me a conhecer os jardins de falésias de La Push assim que a cerimónia terminar. Sinto que o meu coração encontrou um porto seguro.

​— Que lindo, minha filha! — comoveu-se a Rainha Isabella, ajeitando uma pregadora de brilhantes no toucado da primogênita. — Fico imensamente feliz em saber que o seu futuro começa com tanto afeto.

​Do outro lado do salão, uma risada seca e nitidamente debochada cortou o clima romântico como uma tesoura de alfaiate.

​Renesmee estava atirada sobre uma chaise-longue de couro, com as pernas traçadas de forma nada real, enquanto jogava uma maçã vermelha para o ar e a apanhava com uma mão só. Ela trajava um vestido de montaria rasgado na barra e mantinha uma cara de tédio absoluto enquanto a Duquesa Alice tentava, em vão, medir a largura dos seus ombros com uma fita de veludo.

​— Fique quieta por cinco segundos, Renesmee! — protestou Alice, franzindo o nariz com indignação teatral. — Como é que vou desenhar o vestido do seu noivado se você se mexe como um urso enjaulado? Rosalie, ajude-me aqui com a fita!

​— Deixe a menina, Alice — sorriu Rosalie, cruzando os braços e ostentando um brilho divertido nos olhos. — Ela apenas está a digerir o facto de que terá de subir ao altar com o monarca mais convencido de todo o litoral.

​— "Monarca convencido" é uma generosidade da sua parte, tia Rosalie — desferiu Renesmee, dando uma mordida crocante na maçã. — O Rei Jacob de La Push é um selvagem arrogante, egocêntrico e com o cérebro do tamanho de uma avelã! A única coisa maior do que o ego dele é a quantidade de lama que ele ainda deve ter atrás das orelhas depois de ontem!

​A Rainha-Mãe Sarah soltou uma gargalhada genuína e profunda que ecoou pelo salão, surpreendendo a corte.

​— Ah, Princesa Renesmee... — disse Sarah, enxugando uma lágrima de riso no canto do olho. — Não precisa de medir as palavras comigo! Eu criei aquele rapaz e sei perfeitamente a peça que ele é. O Jacob precisava exatamente de alguém que lhe baixasse a crista com uma boa dose de lama de estábulo. Você prestou um serviço à coroa de La Push!

​— Vê? Até a própria mãe dele concorda comigo! — exclamou Renesmee, apontando para Sarah com a maçã. — Mas não pense que a minha vingança acabou na rampa do pátio, Lady Sarah. Se o seu filho pensa que ganhou um prémio ao conseguir este casamento de conveniência, vou garantir que a vida dele no palácio seja um longo e doloroso pesadelo.

​— Renesmee! — repreendeu Isabella, tentando manter a gravidade, embora a cantaria das outras mulheres tornasse a tarefa impossível. — Você vai casar com o Rei de La Push! Deve-lhe respeito de Estado!

​— Respeito compra-se com atitudes, minha mãe, não com títulos — rebateu Renesmee, levantando-se da chaise-longue com um olhar que combinava a teimosia dos Cullen e a ousadia dos Swan. — Já preparei uma lista para a nossa noite de núpcias e para as primeiras semanas em La Push.

​— Uma lista? — perguntou Alice, pausando a tesoura no ar, com os olhos a brilhar de curiosidade. — Que tipo de lista?

​Renesmee sorriu de canto, contando nos dedos com extrema precisão:

​— Primeiro: pedi aos cozinheiros que temperem todas as refeições do rei com açafrão amargo e pimenta-da-terra. Segundo: ordenei que os músicos da guarda toquem os cornetins de guerra mesmo à porta dos aposentos dele às cinco da manhã, diariamente. Terceiro: vou trocar os sapatos de gala dele por pares dois tamanhos menores antes da dança real de abertura. E quarto... garanto que dormirá no divã das visitas até que aprenda a pedir-me desculpas por ser um libertino de primeira categoria!

​O salão prorrompeu em gargalhadas. Rosalie batia palmas de entusiasmo, enquanto a avó Renée cobria a boca em choque divertido.

​— Por todos os santos! — exclamou Renée, olhando para a filha. — Isabella, a sua filha herdou o temperamento do seu pai quando ele tentava prender os rapazes da vila que se aproximavam da nossa casa!

​— Sir Charlie ficaria orgulhoso de saber que o espírito de vigia continua vivo na neta — comentou Esme com um sorriso doce.

​— Ah, o meu querido Jacob não sabe o que o espera... — suspirou Sarah Black, tomando mais um gole de chá com um contentamento indisfarçável. — Ele sempre disse que queria uma rainha com garra. Parece que os deuses ouviram as orações dele e enviaram um dragão em miniatura!

​— Podem rir à vontade — disse Renesmee, dando a última mordida na maçã com ar vitorioso. — Mas o Rei Jacob Black vai arrepender-se do exato segundo em que o mensageiro dele assinou aquele pedaço de pergaminho!

​— Veremos, minha sobrinha... veremos — provocou Rosalie, ajustando o manequim. — Mas tome cuidado, porque às vezes o caçador apaixona-se pela própria armadilha.

​— Eu? Por aquele monte de arrogância de La Push? — troçou Renesmee, caminhando até à janela e olhando para o pátio onde Jacob treinava espadas com os guardas. — Antes prefiro vestir este fato de noiva e atirar-me do topo da torre mais alta de Forks!