Coroas e destinos
15 O Trono do Sol e a Sombra de Ouro
O Salão Real de La Push amanhecera repleto de cidadãos, anciãos e representantes das terras do litoral. Era o dia da primeira audiência pública conjunta do Rei Jacob e da nova Rainha Renesmee. Sentados nos tronos duplos esculpidos em pau-brasil — Jacob com o seu manto de couro e veludo negro e Renesmee radiante num vestido azul-cobalto com bordados prateados —, os dois ouviam com atenção e firmeza os pedidos de pescadores, mercadores e chefes de tribos vizinhas.
Ao lado do trono principal, o Príncipe Taylor e a Princesa Carlie acompanhavam a sessão. Taylor anotava os decretos num pergaminho real, enquanto Carlie sorria encorajadora para os camponeses mais tímidos que se aproximavam para pedir auxílio para a colheita.
— ...e assim, Vossa Majestade, solicitamos o reforço dos guardas no cais do sul durante a época das grandes marés — concluiu o velho capitão de pesca, fazendo uma vénia solene.
— O pedido é justo, Capitão — respondeu Jacob, a voz firme ecoando pelas abóbadas do salão. — Sir Seth e os homens do mar organizarão as patrulhas já a partir do próximo amanhecer.
Renesmee inclinou-se ligeiramente, acrescentando com tom nobre e ponderado:
— E garantiremos que o imposto sobre a secagem dos peixes seja reduzido durante esta estação, para que as famílias do porto não sofram com o rigor do inverno.
O povo no salão irrompeu num murmúrio de aprovação e aplausos contidos. O antigo Rei Billy Black, sentado ao lado do Lorde Sam Uley no Conselho dos Anciãos, assentiu com a cabeça, visivelmente orgulhoso da compostura da nora.
Contudo, o clima de harmonia foi bruscamente interrompido quando as pesadas portas do salão se abriram de par em par, fazendo ressonar o bater do ferro contra a pedra.
— Anuncio a chegada da Ilustríssima Duquesa Genevieve da Casa de Beauvoir e da sua comitiva do Litoral Sul! — bradou o heraldo real, a voz vacilante.
Um silêncio tenso abateu-se sobre o recinto. Pelo corredor central, marchava uma mulher esguia, trajando um sumptuoso vestido de seda dourada que farfalhava a cada passo. Tinha os cabelos loiros presos num toucado cravejado de rubis e uma expressão de pura arrogância. Genevieve fora, nos anos que antecederam a aliança com Forks, a noiva mais cotada pelas famílias tradicionais para ocupar o lugar de rainha ao lado de Jacob — até que o tratado com a Casa Cullen fora assinado.
Jacob empobreceu a postura no trono, os olhos castanhos estreitando-se no mesmo instante. Ao seu lado, Renesmee ergueu o queixo, sentindo a mudança de energia no ar.
Genevieve parou diante dos degraus do trono, fazendo uma vénia lenta e propositadamente teatral.
— Vossa Majestade, meu querido Jacob — começou a duquesa, a voz aveludada carregada de uma intimidade calculada que fez o salão inteiro franzir o cenho. — Perdoe o meu atraso para as celebrações do seu matrimónio. A viagem a partir dos domínios do sul é longa, mas eu jamais deixaria de vir ver com os meus próprios olhos o destino do homem a quem um dia chamei de meu futuro rei.
Carlie olhou para Taylor com preocupação, enquanto Leah Clearwaters, encostada a uma coluna lateral, cruzou os braços com um sorriso perigoso, antecipando o espetáculo.
Jacob respondeu com uma voz fria e distante, sem responder à provocação velada:
— Seja bem-vinda a La Push, Duquesa Genevieve. No entanto, lembro-lhe que está perante a corte reunida. O tratamento correto para o soberano deste reino é Vossa Majestade.
Genevieve deu um sorriso venenoso, voltando o seu olhar afiado para Renesmee, examinando a jovem rainha de cima a baixo com evidente desdém.
— Claro, Vossa Majestade — disse a duquesa, inclinando a cabeça num gesto falso de submissão. — E esta deve ser a... princesinha de Forks. Devo confessar que a corte do sul ficou surpresa quando soube que o nosso grande Rei Jacob trocou as alianças do litoral por uma jovem educada entre os pinheiros frios do norte. Esperávamos uma rainha habituada aos costumes e à força da nossa terra, não uma flor delicada de estufa.
Um murmúrio de indignação correu entre os anciãos. Seth deu um passo à frente com a mão no punho da espada, mas Renesmee ergueu a mão num gesto calmo e imperioso, detendo qualquer intervenção.
A Rainha de La Push levantou-se devagar do seu trono. A sua postura era de uma soberana absoluta; o olhar prateado faiscava com a autoridade inabalável da Casa Cullen. Ela desceu o primeiro degrau da plataforma, parando a uma distância superior de Genevieve.
— A corte do sul parece estar lamentavelmente desinformada, Duquesa — declarou Renesmee, a voz suave, mas com um eco de autoridade que fez o salão silenciar por completo. — Se a sua casa estivesse mais atenta aos assuntos da coroa, saberia que esta "flor delicada" não veio para se adaptar às sombras do passado de La Push, mas sim para governar o seu presente e o seu futuro.
Genevieve ergueu uma sobrancelha, tentando manter a audácia:
— O povo deste reino conhece a minha linhagem, Princesa. Conhecem o peso do meu nome e a história que partilhei com Jacob muito antes de a sua família propor este acordo de conveniência.
— A história, minha cara duquesa — interrompeu Renesmee, dando mais um passo à frente com um sorriso elegante e cortante —, é um lugar onde os vencidos gostam de se refugiar quando o presente os ultrapassa. O seu nome pode ter peso no sul, mas nesta sala, perante este povo e ao lado do Rei, o seu título é apenas o de uma convidada. E convidados que esquecem a etiqueta e o respeito devidos à sua Rainha costumam encontrar as portas do palácio fechadas mais cedo do que esperavam.
Jacob olhou para a esposa, a boca ligeiramente aberta num misto de surpresa e absoluto orgulho. Ele ajeitou-se no trono e interveio com a voz profunda e resoluta:
— A Rainha Renesmee falou em meu nome e em nome de todo este reino, Duquesa Genevieve. A sua presença é tolerada pelo respeito à sua casa, mas a sua audácia termina aqui. Faça a sua vénia à sua Rainha ou retire-se imediatamente da nossa vista.
Genevieve empalideceu ao perceber que Jacob não apenas não a defenderia, como se colocava inteiramente ao lado da esposa. O salão inteiro observava a cena em silêncio absoluto. Com as mãos a tremer de raiva contida, a duquesa viu-se obrigada a dobrar os joelhos numa vénia profunda e humilhante perante Renesmee.
— Peço perdão... Vossa Majestade — murmurou Genevieve, a voz entrecortada de veneno e derrota.
— O seu pedido está registado, Duquesa — respondeu Renesmee com serenidade real, voltando a subir os degraus e sentando-se no seu trono com extrema graciosidade. — Pode recolher-se aos aposentos dos convidados. A audiência pública continuará.
Quando Genevieve se retirou a passos rápidos pelo corredor, o Salão do Sol irrompeu num aplauso entusiasmado vindo dos anciãos e dos camponeses.
Jacob virou-se para Renesmee, pegando na mão dela por cima do braço de carvalho do trono e beijando-lhe os nós dos dedos à vista de toda a corte.
— Devo confessar, minha rainha... — sussurrou Jacob com um brilho ardente nos olhos —, você fica terrivelmente magnífica quando coloca a nobreza no seu devido lugar.
— É o meu dever, Vossa Majestade — respondeu Renesmee, num tom rouco e cúmplice, apertando a mão dele de volta. — Mas não pense que escapou de me explicar essa "história do sul" assim que esta audiência terminar.
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