Coroas e destinos

19 O Selo do Desastre e a Declaração de Guerra



​A manhã seguinte ao Baile da Maré Alta nasceu sob um céu cinzento e carregado de névoa densa. No aposento real, o silêncio da alvorada trazia uma falsa sensação de paz. Renesmee despertou cedo, com o coração aquecido pelas lembranças e pelas juras da noite anterior. Querendo aproveitar que Jacob já se descera para uma reunião matinal com o pai e o irmão, decidiu escrever uma longa carta para Edward e Isabella, relatando como finalmente encontrara a felicidade no litoral.

​Ela caminhou até a grande escrivaninha de jacarandá no canto da antecâmara, procurando um frasco de tinteiro e um pergaminho virgem. Ao mover a caixa de madeira trabalhada onde ficavam os selos reais, uma folha dobrada com cera vermelha caiu sobre a mesa. Renesmee franziu o cenho. O selo era a marca pessoal de Jacob, mas a cera fora violada de forma descuidada.

​Curiosa, ela desdobrou o papel.

​À medida que os seus olhos percorriam as linhas manuscritas com a caligrafia idêntica à do marido, o sangue de Renesmee pareceu congelar nas veias. O documento era um relatório detalhado aos lordes do sul, descrevendo as princesas de Forks como "peões facilmente manipuláveis", afirmando que a união com a Casa Cullen fora apenas um movimento estratégico para desarmar o norte e que "o controle total de La Push sobre a coroa de Forks seria consolidado em breve".

​A visão de Renesmee turvou-se de pura dor, que em segundos se transformou numa fúria cega e avassaladora. O castelo de cartas desmoronara. Todas as palavras doces, cada toque e o beijo sob a luar da noite anterior pareceram-lhe agora um jogo cruel e frio.

​No Salão do Sol Nascente, o Rei Jacob, o antigo Rei Billy Black e o Príncipe Taylor saboreavam taças de vinho e riam alto, celebrando o sucesso da festa e a estabilidade da aliança.

​— A corte do sul ficou impressionada com a posição da coroa, meu filho — dizia Billy Black, sorrindo radiante. — Você e Renesmee nasceram para governar juntos.

​— Devo admitir, meu irmão — brinquei Taylor, erguendo o cálice —, nunca pensei que você se tornaria um marido tão dedicado.

​Jacob deu uma risada baixa, os olhos brilhando de felicidade.

​— Ela é tudo para mim, Taylor. Eu daria a minha vida por ela...

​BAM!

​As portas de carvalho do salão foram escancaradas com violência brutal.

​Renesmee marchava pelo corredor central como uma tempestade de destruição. O pergaminho estava amassado na sua mão trêmula. Ao seu lado, a Princesa Carlie avançava com o olhar em chamas, parecendo uma verdadeira onça prestes a saltar sobre a presa.

​— Renesmee? Carlie? — Jacob levantou-se de imediato do trono, franzindo o cenho preocupado. — O que aconteceu? Por que essa comoção logo cedo?

​— Cale a sua boca, seu monstro mentiroso! — gritou Renesmee, a voz embargada de dor e raiva, ecoando pelas abóbadas de pedra. Ela arremessou o pergaminho amassado com força contra o peito de Jacob. — LEIA! Leia a sua própria podridão!

​Jacob pegou a folha no ar, atônito. Billy Black e Taylor aproximaram-se rapidamente, lendo o conteúdo por cima do ombro de Jacob.

​— O que é isto?! — exclamou Jacob, horrorizado, com o rosto empalidecendo instantaneamente. — Renesmee, isso é falso! Eu nunca escrevi nada disso! Eu nunca vi este papel na minha vida!

​— Não tente negar! Estava nos seus aposentos privados! Selado com a sua cera! — vociferou ela, as lágrimas de humilhação finalmente correndo-lhe pelo rosto. — Você me usou! Usou a mim e à minha irmã! Fez-nos acreditar em cada palavra falsa, em cada juramento podre no altar!

​— Minha rainha, ouça-me! — pediu Jacob, tentando dar um passo à frente com as mãos erguidas em desespero. — Alguém forjou isto! É uma armadilha!

​— Chega de mentiras, Jacob! — interveio Carlie, dando um passo à frente com uma ferocidade nunca antes vista na doce princesa. A sua voz cortou o salão como uma lâmina. — Você já mentiu o suficiente! Ou ele também vai dizer que a minha irmã imaginou a cena da biblioteca?!

​Um silêncio sepulcral abateu-se sobre o salão. Billy e Taylor olharam para Jacob em choque.

​Renesmee estancou, virando-se para a irmã com o olhar arregalado.

​— Do que você está falando, Carlie? — perguntou Renesmee, a voz falhando num fio.

​— Ontem à tarde, Renesmee — revelou Carlie, encarando Jacob com puro desprezo —, eu peguei este traidor aos beijos com a Duquesa Genevieve nos cantos escuros da biblioteca! Ele não apenas hesitou como a beijou de volta!

​Renesmee sentiu o chão sumir sob os seus pés. Ela olhou para Jacob. A expressão de culpa e pânico estampada no rosto do rei foi a confirmação definitiva que ela não precisava.

​— Renesmee... me perdoe — sussurrou Jacob, com a voz embargada de desespero genuíno. — A Genevieve atacou-me... eu hesitei por um segundo, mas eu a afastei! A Carlie viu! Eu juro por tudo o que é sagrado que eu não a amo!

​— Você... me noja — sussurrou Renesmee.

​Em um movimento rápido e impulsionado por todo o ódio e desilusão que a consumiam, Renesmee deu dois passos à frente e desferiu um tapa violentíssimo na cara de Jacob.

​ESTALO!

​O som da bochechada ressoou pelo salão real. A força do golpe fez a cabeça de Jacob virar para o lado, deixando a marca vermelha dos dedos dela gravada na pele dele. O rei não reagiu; permaneceu de cabeça baixa, de corações partido, recebendo a dor como sua punição.

​— O nosso casamento acabou — declarou Renesmee, a voz agora fria como o gelo das montanhas do norte. — O tratado está estilhaçado. Mandem preparar a nossa carruagem imediatamente!

​— Renesmee, por favor! Não faça isso! — suplicou Taylor, tentando intervir enquanto segurava os braços de Carlie. — Vamos investigar! Isso é uma conspiração!

​— Solte-me, Taylor! — ordenou Carlie, soltando-se do marido com violência. — Se encostar em mim novamente, eu considerarei um ato de guerra! O Reino de La Push acabou para nós!

​Renesmee olhou para Jacob uma última vez, os olhos faiscando de ódio mortal.

​— Ouça bem o que vou lhe dizer, Jacob Black — proclamou a Rainha, cada palavra pronunciada como um decreto de morte. — A partir deste exato segundo, La Push e Forks são inimigos declarados. Não haverá trégua. Não haverá conversas.

​Sem esperar por mais uma palavra, Renesmee e Carlie deram as costas, marchando para fora do Salão do Sol Nascente. Minutos depois, a carruagem real das princesas cruzava os portões do palácio sob o galope furioso dos cavalos, deixando para trás um Jacob de joelhos no chão de pedra, segurando o rosto e devastado pela ruína do seu amor.

​O Regresso a Forks e a Fúria de Edward

​A viagem de volta a Forks foi um borrão de lágrimas e fúria. Quando a carruagem desgovernada parou no pátio da Grande Catedral de Pedra, os guardas reais de Forks correram para abrir as portas.

​Renesmee e Carlie desceram desgrenhadas, com os rostos marcados pelo choro e pela raiva. O Rei Edward e a Rainha Isabella, avisados da chegada repentina, desceram a escadaria do palácio a passos rápidos, acompanhados por Sir Charlie, Carlisle e Emmett.

​— Minhas filhas?! — exclamou Isabella, correndo para abraçá-las. — Meu Deus, o que aconteceu?! Por que voltaram?!

​Renesmee caiu nos braços da mãe, chorando como nunca chorara em toda a sua vida, enquanto Carlie, com a voz embargada e trêmula de indignação, tirou o pergaminho amassado do manto e entregou-o ao pai.

​— Eles nos enganaram, pai... — disse Carlie, as lágrimas correndo-lhe pela face. — Jacob usou a Renesmee! Ele manteve amantes no palácio, forjou acordos com o sul para nos subjugar e... e traiu a minha irmã na própria biblioteca! La Push riu da nossa linhagem!

​Edward desdobrou a folha. À medida que lia as palavras forjadas e ouvia o relato da humilhação sofria por suas filhas, a fisionomia do Rei de Forks transformou-se por completo. Os seus olhos, habitualmente calmos e ponderados, tornaram-se negros como uma tempestade de inverno. A sua aura de serenidade ruira, dando lugar à fúria de um pai e de um monarca atacado no seu bem mais precioso.

​Edward amassou a folha na mão até a cera estalar, jogando-a no chão de paralelepípedos. Ele olhou para Renesmee, vendo a dor da filha, e depois virou-se para a guarda real e para os seus lordes.

​— Sir Charlie! Duque Emmett! — ordenou Edward, a voz ressoando com uma autoridade terrivelmente gélida que fez todos os presentes estremecerem.

​— Sim, meu Rei! — responderam os dois de imediato, batendo os punhos no peito.

​— Convoquem os exércitos de Forks — proclamou Edward, sacando a sua espada cerimonial de aço valiriano e erguendo-a contra o céu cinzento. — Apontem os canhões e marcharão todos os nossos batalhões para as fronteiras do litoral. A Casa Black cometeu o seu último erro.

​Edward olhou na direção das montanhas que dividiam os dois reinos, o olhar queimando de vingança:

​— Está declarada a guerra a La Push!