Coroas e destinos
20 O Peso da Coroa e as Lágrimas de Seda
O soar dos tambores de guerra de Forks podia ser ouvido como um trovão soturno reverberando pelas montanhas até alcançar as falésias de La Push. A notícia de que as tropas do Rei Edward marchavam a passos largos em direção à fronteira espalhara o pânico pelas dependências do Palácio do Sol Nascente.
No Grande Salão de Armas, a nobreza e o Conselho dos Anciãos estavam em polvorosa. Mapas táticos cobriam a mesa central de carvalho, e Lorde Sam Uley, acompanhado por Paul Lahote e Seth Clearwaters, inspecionava as espadas e os relatórios dos batedores.
Foi então que o batedor real entrou esfalfado, caindo de joelhos perante a mesa:
— Vossa Majestade! O Rei Edward Cullen desfraldou os estandartes vermelhos e declarou guerra aberta a La Push! Batalhões inteiros de infantaria e cavalaria pesada já estão acampados na linha do rio Quillayute!
Um murmúrio de tensão correu entre os lordes. Lorde Sam Uley adiantou-se, batendo o punho na mesa:
— Precisamos de convocar a reserva do litoral imediatamente! Se Forks cruzar o rio antes de montarmos as nossas linhas de defesa, a cidadela ficará cercada!
O antigo Rei Billy Black adiantou-se com o seu bastão, a voz ecoando com a severidade de quem conhecia os horrores de um conflito:
— Sam tem razão! Jacob, ordene que se fechem as portas do palácio, alistem os jovens e posicionem os canhões no topo das falésias! Forks quer sangue, e nós defenderemos a nossa terra!
Todos os olhares viraram-se para o jovem rei. Jacob permaneceu em pé junto à janela, observando o mar agitado. O seu rosto, habitualmente marcado por um sorriso audaz, estava sombrio, envelhecido pela dor e pela culpa de ter perdido a sua rainha. Ele virou-se devagar, encarando a mesa de guerra.
— Não haverá alistamento. E não haverá canhões nas falésias — declarou Jacob, a voz grave e perfeitamente calma, cortando o frenesi da sala.
Um silêncio chocado abateu-se sobre o salão.
— O quê?! — exclamou Paul Lahote, dando um passo à frente. — Ficaste maluco, Jacob?! Os homens do norte estão armados até aos dentes! Eles vão marchar sobre o nosso povo!
— Jacob, ouça a razão! — interveio Billy Black, a voz alterada pela indignação paterna e real. ele adiantou-se com o bastão, parando diante do filho. — Eu sou o teu pai e fui o soberano deste reino antes de ti! Você não pode simplesmente cruzar os braços enquanto Forks marcha para nos destruir! Eu ordeno que você convoque o exército!
Jacob encarou o pai com o olhar erguido. A sua postura era a de um monarca inabalável que não recuaria diante de nada.
— Com todo o respeito pela vossa sabedoria, meu pai... mas o Rei deste reino sou eu — respondeu Jacob, a voz ecoando com uma autoridade tão imperiosa que fez os anciãos recuarem um passo. — A coroa está na minha cabeça. O tratado foi quebrado por causa de uma armadilha e de um erro meu. Eu não vou manchar a terra de La Push com o sangue do meu povo para travar uma guerra nascida de um mal-entendido!
— É o teu orgulho que nos vai matar! — vociferou Billy, batendo com o bastão no chão de pedra. — Edward Cullen não quer saber de conversas! Ele vem para vingar a honra da filha dele!
— Se Edward Cullen quer o meu sangue para lavar a honra de Renesmee, que ele venha buscar a minha cabeça! — bradou Jacob, o peito arfando enquanto encarava os lordes. — Mas eu não levantarei uma única espada contra o pai da minha esposa! Eu não enviarei os nossos jovens para a morte por uma mentira envenenada!
Taylor, que se mantivera em silêncio ao lado de Seth, aproximou-se de Jacob, colocando a mão no ombro do irmão.
— Jacob tem razão, meu pai — disse Taylor, com o olhar firme. — Armar as nossas tropas só provará a Forks que o pergaminho falso dizia a verdade. Se nos defendermos com violência, perderemos a razão e a oportunidade de expor quem realmente plantou aquele veneno.
Jacob olhou para Sam e Paul, o seu tom voltando a ser um decreto real:
— Mandem os batedores ao encontro das tropas de Edward. Sem armas. Entreguem esta mensagem ao Rei de Forks: o Rei Jacob Black aguarda-o na ponte do rio Quillayute, sozinho e desarmado, para responder por qualquer acusação. A guerra termina onde eu decidir que ela começa. E eu não vou guerrear contra a mulher que amo.
No Palácio de Forks: As Lágrimas de Seda
Enquanto a decisão de Jacob deixava o conselho de La Push atónito, a milhas dali, no ala oeste do palácio de Forks, o cenário era de absoluta devastação emocional.
O quarto da Princesa Renesmee transformara-se num rastro de dor e fúria. Vasos de porcelana quebrados jaziam em pedaços perto da lareira, a cortina de veludo fora rasgada e o toucador de espelho encontrava-se virado de lado, com frascos de perfume estilhaçados pelo chão de mármore.
No centro da imensa cama de casal, encolhida entre os lençóis e agarrada a um travesseiro, Renesmee chorava convulsivamente. Os seus cabelos acobreados estavam num emaranhado selvagem, as pálpebras inchadas e a túnica de seda manchada pelas lágrimas quentes que não paravam de cair.
A porta do quarto abriu-se suavemente. A Rainha Isabella entrou sem fazer ruído, segurando uma bandeja com chá morno e um pano úmido. Ao ver o estado de destruição do quarto e a agonia da filha mais nova, o coração de Isabella apertou-se. Ela colocou a bandeja sobre uma mesa intacta e caminhou devagar até a cama.
— Minha menina... — murmurou Isabella com infinita doçura.
Renesmee nem sequer ergueu o rosto, soltando um soluçado rasgado e doloroso:
— Vá embora, mãe! Por favor... vá embora! Eu não quero ver ninguém!
Isabella ignorou o protesto. Sentou-se na borda da cama e puxou a filha com ternura, ajeitando a cabeça de Renesmee sobre o seu colo. No início, a jovem rainha tentou resistir, mas a presença acolhedora e o calor materno de Isabella quebraram a sua última barreira. Renesmee abraçou a cintura da mãe, chorando como se o seu peito fosse partir ao meio.
— Dói tanto, mãe... — soluçava Renesmee, a voz sufocada pelas lágrimas. — Dói como se me tivessem cravado uma lâmina no peito! Ele mentiu-me! Ele olhou nos meus olhos no baile, disse que me amava... e tudo não passava de um plano podre para dominar Forks!
Isabella passava os dedos suavemente pelos cabelos desalinhados da filha, limpando as lágrimas que escorriam pelo rosto quente dela.
— Eu sei, minha querida... eu sei — disse Isabella com a voz serena e compadecida. — A dor da traição é a pior das feridas. Mas você está em casa agora. O seu pai, eu e a sua irmã estamos aqui para a proteger.
— Eu o odeio! — vociferou Renesmee, sentando-se bruscamente na cama com os olhos vermelhos e faiscando de raiva inconsolável. — Eu odeio o Jacob Black! Odeio o sorriso debochado dele, odeio aquele palácio imundo e odeio a mim mesma por ter acreditado que um selvagem daquele podia amar alguém como eu!
Ela agarrou num copo de cristal da mesa de cabeceira e atirou-o contra a parede com toda a força, fazendo-o estilhaçar-se num estrondo seco.
— Eu entreguei tudo a ele, mãe! — desabafou ela, o peito arfando enquanto voltava a esconder o rosto nas mãos, a tremer. — Entreguei a minha vida, a minha pureza, o meu coração... e ele trocou-me por aquela duquesa miserável e por pergaminhos de guerra! Eu dei-lhe uma estalada na cara, mas o que eu queria era ter destruído o coração dele como ele destruiu o meu!
Isabella segurou os dois rostos da filha entre as mãos, obrigando Renesmee a olhar nos seus olhos. O olhar de Isabella transbordava de uma sabedoria de quem já vira e vivera as maiores batalhas do amor e da dor.
— Renesmee, escute a sua mãe — disse Isabella, o tom firme, mas repleto de amor. — Você é uma rainha. É uma Cullen. A sua dor é legítima, e você tem todo o direito de chorar e de sentir fúria. Mas não deixe que esse ódio a consuma por dentro. O seu pai declarou guerra, mas as guerras travadas no calor da raiva costumam deixar feridas que nunca mais cicatrizam.
— O meu pai faz bem em destruir La Push! — retorquiu a jovem com teimosia trágica. — Eles merecem a ruína!
— O seu pai ama você e quer protegê-la — respondeu Isabella suavemente, puxando a filha para um abraço apertado novamente. — Mas a verdade é algo que costuma emergir mesmo do meio das cinzas. Deite-se aqui comigo... chore tudo o que precisar de chorar. A sua mãe não vai a lugar nenhum.
Renesmee fechou os olhos, desmoronando nos braços de Isabella. Enquanto a tempestade lá fora anunciava a marcha dos exércitos em direção à fronteira, no quarto de Forks a jovem rainha desfeita chorava a perda da sua inocência e do seu amor — completamente alheia ao facto de que, do outro lado do rio, o homem que ela jurava odiar preferia encarar a morte a levantar uma espada contra ela.
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