Coroas e destinos
30 O Nascimento do Herdeiro e o Reencontro
Dois longos anos haviam se passado sobre as terras de La Push e as florestas de Forks. O tempo, inexorável, trouxera uma prosperidade serena ao litoral sob o reinado sábio e apaixonado de Taylor e Carlie. Contudo, para Jacob e Renesmee, os anos não haviam curado a ferida; apenas ensinaram a alma a sangrar em silêncio.
No Palácio do Sol Nascente, o dia amanheceu sob a bênção de um sol dourado e brando. A grande cidadela vestira-se de festa, ornada com estandartes azuis e prateados. O motivo da celebração ressoava em cada canto do reino: a Rainha Carlie dera à luz o seu primeiro filho, o pequeno Príncipe Bernardo, cujo batizado e apresentação aos reinos ocorria naquela tarde.
Na suíte real da ala sul, Carlie repousava sobre travesseiros de seda macia, segurando nos braços o pequeno feixe de mantas brancas. O bebê, de cabelos escuros e pele alva, dormia serenamente. Ao seu lado, Taylor mantinha-se ajoelhado, o olhar marejado de um orgulho e de uma devoção incalculáveis, beijando repetidamente as mãos da esposa e a testa do filho.
— Ele é perfeito, Carlie... — sussurrou Taylor, a voz embargada pela emoção, acariciando as bochechas rosadas de Bernardo. — Um verdadeiro herdeiro para La Push. Você me deu o maior presente de toda a minha vida.
Carlie sorriu, exausta mas radiante de felicidade.
— Ele tem os seus olhos, Taylor... — respondeu a rainha, roçando o nariz na bochecha do bebê. — Mas o meu único desejo é que a chegada do Bernardo traga a luz que esta família perdeu há dois anos.
O som das trombetas reais ecoou no pátio principal do palácio, anunciando a chegada da comitiva de Forks.
Edward e Bella desceram da grande carruagem de gala, seguidos pelos guarda-reais. E, logo atrás, trajando um vestido fluido de veludo roxo e um manto de pele negra sobre os ombros, emergiu Renesmee.
Dois anos de isolamento haviam esculpido na ex-rainha uma beleza ainda mais imponente, contudo austera. O seu olhar acobreado carregava uma maturidade profunda e uma distância melancólica. Ela já não era a jovem impulsiva do passado; era a Grã-Duquesa de Forks, uma soberana de postura impecável e coração blindado.
No topo da escadaria de pedra, Jacob aguardava a recepção ao lado dos anciãos.
Como Príncipe e Primeiro-Conselheiro, ele envergava trajes austeros de couro e lã escura. Ao ver Renesmee atravessar o portão, o ar faltou-lhe nos pulmões. O coração de Jacob, anestesiado por vinte e quatro meses de trabalho ininterrupto e noites em claro, acelerou numa batida desordenada e dolorosa. Ela estava ali, a poucos metros de distância, tão linda e inalcançável quanto uma estrela.
Quando as comitivas se encontraram, o protocolo real impôs a sua rigidez. Edward e Bella abraçaram Jacob com um respeito solene. Por fim, Renesmee parou diante do ex-marido.
O silêncio entre os dois pesou mais do que o uivo do vento marinho.
— Príncipe Jacob — cumprimentou Renesmee, mantendo a voz cristalina e perfeita, inclinando a cabeça com uma polidez impecável.
— Grã-Duquesa Renesmee... — respondeu Jacob, a voz rouca e trêmula, baixando o olhar por um segundo diante da intensidade dos olhos dela. — Seja bem-vinda de volta a La Push.
Não houve toque, não houve abraço. Apenas a consciência cortante de que o tempo passara, mas a ausência continuava a queimar a pele de ambos.
A Cerimônia do Batismo
O Salão do Sol Nascente estava lotado por nobres, chefes de matilhas e diplomatas de ambos os reinos. O Ancião Billy Black, junto ao Rei Edward, conduziu o ritual sagrado de bênção do pequeno Bernardo, ungindo a testa do bebê com águas do oceano e óleos das florestas antigas.
— Que o Príncipe Bernardo seja a ponte de paz definitiva entre Forks e La Push, guiado pela honra, pelo amor e pela sabedoria! — declarou Billy, sob os aplausos emocionados de todo o salão.
No meio da celebração, Carlie correu para os braços da irmã. As duas seguraram-se num abraço demorado e emocionado.
— Oh, Nessie! Que saudade eu senti de você! — exclamou Carlie, chorando no ombro de Renesmee. — Veja o seu sobrinho... ele é lindo, não é?
Renesmee pegou o pequeno Bernardo nos braços pela primeira vez. Ao sentir o calor daquela vida nova e a respiração suave do bebê contra o seu peito, uma lágrima solitária e quente escapou pelo seu rosto.
— Ele é abençoado, Carlie... — sussurrou Renesmee, sorrindo verdadeiramente pela primeira vez em anos. — Você e o Taylor merecem toda a felicidade do mundo.
Afastado no canto do salão, encostado a uma pilastra de madeira, Jacob observava a cena. Ver Renesmee com o pequeno Bernardo nos braços destruiu o resto de armadura que ele construíra. A imagem da mulher que ele amava segurando um bebê fez ressurgir o fantasma de todos os sonhos que eles haviam sepultado no passado.
O Confronto na Varanda das Sombras
A noite caíra e a festa estendera-se pelos grandes salões. Buscando um refúgio da barulheira e dos olhares curiosos, Renesmee caminhou até à Varanda dos Ventos, um terraço isolado que dava para o oceano revolto.
A brisa gelada da noite balançava os seus cabelos acobreados enquanto ela observava a lua refletida nas ondas.
O som de passos firmes sobre a pedra fez o seu corpo tensionar. Ela não precisou de se virar para saber quem se aproximava; o calor característico do corpo dele precedia a sua presença.
Jacob parou a dois passos de distância, mantendo as mãos escondidas nas dobras do manto.
— A noite está fria para se estar aqui fora, Nessie — disse ele suavemente, rompendose o silêncio de dois anos.
— O frio de La Push nunca me incomodou, Jacob. Você sabe disso — respondeu ela, sem se virar. — Parabéns pelo sobrinho. O Taylor e a Carlie formaram uma família maravilhosa.
— Sim... eles conseguiram o que nós destruímos — confessou Jacob, a voz carregada de uma amargura profunda.
Renesmee virou-se devagar, encarando-o de frente. Sob a luz da lua, os olhos dele refletiam uma dor acumulada que nem o tempo fora capaz de apagar.
— Nós não destruímos nada, Jacob — corrigiu ela, a voz subindo de tom, alimentada por dois anos de angústia reprimida. — Você desistiu. Você preferiu entregar a sua coroa, esconder-se atrás de papéis e conselhos, e alimentar o seu próprio orgulho ferido a encarar o meu amor!
— Não era orgulho, Renesmee! Era vergonha! — disparou Jacob, dando um passo à frente, os olhos brilhando intensamente com as lágrimas contidas. — Uma vergonha que me devorou vivo por dois anos! Você acha que foi fácil para mim? Acha que foi fácil ver você entrar naquela carruagem e ir embora?! Eu morri naquele dia, Renesmee! O homem que você conheceu morreu e o que sobrou foi essa casca que trabalha até à exaustão para não enlouquecer com a sua ausência!
— Então por que você nunca foi atrás de mim?! — gritou Renesmee, batendo com a mão no peito dele, lágrimas de raiva e dor transbordando dos seus olhos. — Por que me deixou apodrecer na solidão de Forks?! Eu esperei por você, Jacob! Eu esperei semanas, meses! Eu teria perdoado tudo, teria esperado que você se curasse, mas você me descartou como se a nossa história não passasse de um erro!
Jacob segurou os pulsos dela, puxando-a para perto. O contacto físico inesperado fez o ar estalar entre os dois como uma descarga elétrica. O calor da pele dele e o perfume da pele dela colidiram, trazendo à tona a paixão avassaladora que tentaram sufocar por tanto tempo.
— Eu não fui atrás de você porque achei que era o seu libertador! — desabafou Jacob, a respiração desordenada, o rosto a milímetros do dela. — Eu achei que, sem mim, você teria uma vida limpa, sem as marcas e a imundície daquela armadilha! Eu me isolei nesta dor porque achei que esse era o meu único dever como o homem que a amava mais do que a própria alma!
— Seu tolo... seu grande e orgulhoso tolo... — murmurou Renesmee, a voz fraquejando, encarando os lábios dele com uma saudade desesperada. — Você nunca entendeu nada... A minha única libertação era estar ao seu lado.
O silêncio da noite foi preenchido pelo som pesado das suas respirações. A proximidade era uma tortura de desejo e mágoa. Jacob olhou para a boca de Renesmee, o corpo inteiro tremendo com a vontade de puxá-la para um beijo e apagar os dois anos de separação.
Contudo, as marcas do passado, a anulação do casamento e a nova realidade que ergueram ao longo de vinte e quatro meses pairavam entre eles como uma muralha de pedra.
Jacob soltou os pulsos dela devagar, dando um passo atrás, e fechou os punhos com tanta força que as unhas cravaram na pele.
— A cerimônia acabou, Grã-Duquesa... — disse Jacob, a voz num fio quebrado, esforçando-se para recuperar a postura oficial. — O seu quarto na ala leste está preparado.
Renesmee recompôs a sua postura, limpando as lágrimas do rosto com as costas da mão. O seu olhar tornou-se novamente firme e impenetrable.
— Tenha uma boa noite, Príncipe Jacob — respondeu ela com uma frieza cortante, passando por ele sem olhar para trás.
Jacob permaneceu sozinho na varanda, sob a chuva fina que começara a cair sobre La Push. O pequeno Bernardo trouxera a bênção da vida para a casa real, mas na escuridão daquela noite, o ex-rei e a ex-rainha percebiam que o reencontro só servira para provar que a chama do amor deles continuava acesa — queimando-os por dentro na mesma proporção em que os destruía.
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