Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo
5 Taças de Vinho, Pernas no Colo e Fogo Cruzado
O som distante dos últimos carruagens se esvanecia na noite fria de La Push. O grande baile de dezoito anos havia chegado ao fim, e o suntuoso Salão de Festas agora dava lugar à intimidade acolhedora da Sala de Estar Real. A imensa lareira de pedra estalava, projetando sombras alaranjadas sobre os sofás de couro e os tapetes persas.
Jogados nos estofados, com as gravatas frouxas e os sapatos jogados pelos cantos, a família real saboreava o descanso. Jacob e Edward dividiam uma garrafa de vinho tinto encorpado, enquanto Renesmee e Bella beliscavam queijos nobres e frutas secas numa grande bandeja de prata.
No sofá principal, a Princesa Jaqueline estava completamente desparramada. Sem as rasteirinhas e com o pesado vestido verde ligeiramente amassado, ela descansava com as pernas esticadas sobre o estofado, segurando uma taça de vinho e soltando um longo e dramático suspiro de alívio.
— Minhas costas estão destruídas — resmungou Jaqueline, dando um gole no vinho. — Acho que cumprimentei quinhentos nobres hoje. E trezentos deles tinham o hálito fedendo a alho ou discursos prontos sobre a lua.
— Bem-vinda à vida adulta, minha filha — riu Jacob, esticando as pernas e bocejando. — Amanhã o seu avô Edward vai te ensinar a arte de fingir que está prestando atenção enquanto dorme de olhos abertos.
Nesse momento, as portas de madeira da sala se abriram suavemente. Bernardo entrou, tendo trocado o casaco rígido de gala por uma camisa de linho branco levemente entreaberta no peito e calças escuras sob medida. Ele carregava uma taça de cristal com um líquido dourado e trazia no rosto aquele sorriso lento e presunçoso que Jaqueline tanto odiava — e que fazia o seu coração dar saltos estúpidos.
Sem pedir licença, o Duque caminhou até o sofá onde a princesa estava espalhada.
— Com licença, priminha — disse Bernardo, a voz grave e macia.
Antes que Jaqueline pudesse responder ou protestar, ele simplesmente se sentou na ponta do sofá e, com uma naturalidade desconcertante, pegou as pernas descalças dela e as acomodou confortavelmente sobre o seu próprio colo.
— Ei! Quem disse que você podia usar as minhas pernas como apoio de braço, Bernardo? — disparou Jaqueline, erguendo o tronco de golpe, os olhos verdes faiscando. — Tira as suas mãos de mim!
— Fique quieta, Jaque — respondeu ele, mantendo uma das mãos firmes sobre os tornozelos dela enquanto usava a outra para levar a taça aos lábios. — Suas pernas estavam ocupando o sofá inteiro. Estou apenas fazendo um favor à etiqueta real. Aliás, seus pés estão gelados... o exército italiano me ensinou que cavalo cansado precisa de descanso, e vejo que a minha priminha trabalhou duro hoje.
— Cavalo cansado?! — repetiu ela, incrédula e profundamente indignada, tentando chutar o peito dele, mas ele segurou seu calcanhar com facilidade, rindo baixo. — Você é um brutamontes sem educação, Bernardo! Passou três anos na Europa e voltou mais folgado do que quando partiu!
— E você continua adoravelmente estressada — provocou o Duque, usando o polegar para fazer uma carícia circular e quase imperceptível no tornozelo macio dela. — Sabe, na Itália, as mulheres nobres agradecem quando um Duque se dispõe a acomodá-las com conforto.
— Então volta para a Itália e vai encontrar uma tonta para fazer massagem no pé dela! — devolveu a princesa, o tom debochado tentando disfarçar o arrepio involuntário que subiu por sua espinha com o toque quente dele.
No outro canto da sala, Jacob abriu a boca para intervir na discussão dos dois, mas Renesmee tocou suavemente o braço do marido, dando-lhe um olhar significativo.
— Jacob, querido... acho que a noite foi longa demais. Vamos para o quarto — disse a Rainha, levantando-se e puxando o Rei.
— É, a minha idade já não permite ficar acordado até tão tarde — concordou Edward, piscando para Bella, que já acompanhava o movimento.
Em questão de dois minutos, sob sussurros abafados e risadinhas cúmplices das mães e avós, todos os adultos abandonaram a sala de estar, fechando as grandes portas atrás de si e deixando apenas o crepitar da lareira para preencher o silêncio.
Jaqueline nem percebeu a debandada geral, concentrada demais em encarar o primo com todo o deboche que conseguia reunir.
— Pronto, os adultos foram embora — disse ela, cruzando os braços e mantendo as pernas presas no colo dele por pura pirraça. — Agora me diga, 'Vossa Excelência Devassa', quanto tempo vai demorar para a primeira fofoca de escândalo com o seu nome sair nas gazetas de La Push?
— Depende — Bernardo inclinou-se ligeiramente para a frente, diminuindo a distância entre os dois. Seus olhos cinzentos fixaram-se nos lábios desenhados dela. — O que as gazetas deveriam escrever? Que o Duque Herdeiro voltou para reivindicar a única coisa que realmente importa para ele?
A respiração de Jaqueline deu um tranco. O tom de deboche de Bernardo havia sumido, substituído por uma intensidade crua e perigosa.
— Reivindicar? — zombou ela, embora a sua voz tenha saído um pouco mais baixa do que pretendia. — Você acha que eu sou o quê, Bernardo? Uma das suas conquistas fáceis de taverna? Um troféu para você pendurar na parede do seu quarto depois de um banquete? Eu não sou uma das suas italianas bobas!
— Você nunca foi como nenhuma delas, Jaque — murmurou ele, a voz descendo para um tom grave e rouco que fez o ar da sala ficar subitamente pesado.
Com um movimento ágil e controlado, Bernardo deslizou a mão do tornozelo para a barriga da perna dela, subindo lentamente até a curva do joelho de Jaqueline, enquanto se aproximava ainda mais. A distância entre os seus rostos encurtou até que o calor da respiração dele raspasse na pele da bochecha dela.
— Você me enlouqueceu durante três anos inteiros — sussurrou o Duque, os olhos queimando em pura atração. — Cada noite naquela terra distante, tudo o que eu pensava era no seu deboche, na sua teimosia... e em como você fica linda quando está brava comigo.
Jaqueline sentiu o peito arfar. O cheiro dele — uma mistura envolvente de amadeirado, couro e o vinho forte — inundou seus sentidos. Por um segundo aterrorizante e glorioso, a resistência da princesa ameaçou ruir. Seus olhos baixaram involuntariamente para a boca dele, e ela sentiu a mão firme de Bernardo tocar a sua cintura, puxando-a milímetros mais perto. O clima entre os dois estalou como eletricidade pura; a boca dele estava a um sopro da dela, e o beijo parecia inevitável.
No entanto, o orgulho de Jaqueline disparou um alarme de emergência na sua mente. 'Ele acha que me ganha com esse charme barato?'
Com uma agilidade impressionante, Jaqueline usou a perna que ainda estava livre para dar um empurrão firme contra o peito de Bernardo, desvencilhando-se do aperto dele de surpresa. Ela se levantou do sofá num salto, ajeitando o vestido verde de uma só vez com um gesto dramático.
Bernardo piscou, um pouco atordoado pela rejeição abrupta, e encostou-se no sofá, respirando fundo enquanto um sorriso de canto — meio frustrado, meio fascinado — voltava a aparecer em seu rosto.
— Boa tentativa, Primo — disparou Jaqueline, empertigando o corpo e erguendo o queixo com um deboche triunfante, embora suas bochechas estivessem coradas de calor. — Mas se você quiser o meu beijo ou qualquer outra coisa, vai ter que ralar muito mais do que três anos no exército. A fila de lordes interessados começa lá fora!
— A fila pode ser longa, Jaque — respondeu Bernardo, a voz grave ecoando pela sala vazia enquanto ele erguia a taça de vinho em um brinde solitário —, mas nós dois sabemos que nenhum daqueles almofadinhas tem o que é preciso para aguentar o seu fogo.
— Boa noite, Bernardo! Vê se não dorme no sofá! — debochou a princesa, virando as costas com um farfalhar elegante de saias e subindo a escadaria a passos rápidos, com o coração martelando no peito como um tambor de guerra.
Sozinho diante da lareira, Bernardo tomou um longo gole do seu drink e soltou uma risada baixa e rouca. O jogo apenas começara, e ele não tinha intenção alguma de perder.
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