Coroas e destino 2 = Entre o dever e o desejo

10 Caos de Cetim, Guerras de Menu e um Noivo no Comando



​Se a preparação do baile de noivado fora um furacão, os preparativos para o casamento real eram uma verdadeira tempestade tropical. O Palácio de La Push virou uma praça de guerra elegante. Rolo de renda de Viena cruzava os corredores, arranjadores disputavam espaço para definir as flores da nave e a cozinha trabalhava em ritmo alucinante sob o comando de cinco chefs internacionais.

​Jaqueline tomara como missão de vida infernizar cada escolha de Bernardo. Porém, para a surpresa — e profunda irritação — da princesa, o Duque Herdeiro não fugia de reunião alguma. Ao contrário dos noivos tradicionais que se escondiam nas salas de armas, Bernardo fazia questão de participar de cada detalhe, encarando cada escolha como mais um campo de batalha.

​A grande provação do dia acontecia no Salão dos Banquetes, onde a mesa estava abarrotada com dezenas de amostras para o menu da recepção.

​— Não, definitivamente não! — exclamou Jaqueline, empurrando o prato de prata com a ponta do garfo. — Caviar de esturjão com creme de trufas é a comida mais sem graça e pretensiosa que já existiu. Parece sabão grelhado.

​— Jaque, é o prato preferido do Conde de Milão e de metade da nobreza que vem da Itália — argumentou Renesmee, massageando as têmporas ao lado de Carlie.

​— Pois o Conde de Milão que coma no hotel dele! O casamento é meu! — disparou a princesa, erguendo o queixo com desdém.

​Bernardo, sentado à cabeceira com a camisa de mangas dobradas e a expressão de quem estava se divertindo horrores, pegou uma torrada com o tal caviar, mastigou com calma e deu um gole no vinho.

​— O prato fica no menu — decretou Bernardo, a voz serena e cheia de autoridade.

​— O quê?! — Jaqueline virou-se para ele, os olhos verdes faiscando fúria. — Quem disse que você tem poder de voto sobre o meu menu, seu brutamontes?

​— O contrato do casamento, priminha. Nele diz 'comum acordo' — provocou o Duque, inclinando-se para a frente e apoiando os cotovelos na mesa. — Além disso, se dependesse do seu gosto, nós serviríamos carne assada na fogueira e batatas rústicas com cerveja preta.

​— E qual é o problema com carne assada e cerveja?! É a tradição Quileute! É muito melhor do que essas gosmas chiques que você aprendeu a comer nas suas farras em Roma! — rebateu ela, apontando o garfo na direção do peito dele.

​— O problema, minha noiva adoravelmente selvagem, é que teremos duques e reis de cinco nações diferentes. Precisamos de equilíbrio — disse Bernardo, chamando o chef com um gesto calmo. — Faremos o seguinte: o caviar entra na entrada para impressionar os almofadinhas, e a carneiro assado com molho de ervas Quileute será o prato principal. Satisfeita?

​Jaqueline semicerrou os olhos, tentando achar uma falha na lógica irretocável do noivo. Como não encontrou, soltou um estalo de língua irritado.

​— Satisfeita por enquanto. Mas você vai pagar o drinque de todo mundo que pedir cerveja!

​— Fechado — riu o Duque.

​À tarde, o martírio mudou de cenário. A Sala de Costura Real fora invadida pela estilista da nobreza, Madame Chen, que desfilava bonecos de madeira com amostras de seda, tule e organza. Jaqueline estava de pé sobre o tablado de provador, exausta depois de três horas sendo alfinetada.

​Nisso, a porta se abriu e Bernardo entrou sem bater, segurando uma pasta com a lista de convidados e a distribuição dos assentos.

​— Fora daqui! — gritou Jaqueline imediatamente, pegando uma almofada de alfinetes e ameaçando jogar na cabeça dele. — Dá azar o noivo ver o tecido do vestido antes do casamento! Você não conhece as tradições, seu animal?

​— Dá azar se eu vir o vestido pronto, Jaque — respondeu Bernardo, fechando a porta e encostando-se na parede com os braços cruzados, ignorando os protestos embasbacados de Madame Chen. — Agora você é só uma tempestade enrolada em dois metros de seda crua.

​— Você é insuportável! — esbravejou ela, enquanto a costureira ajeitava o corpete justo. — O que veio fazer aqui? Me atormentar mais um pouco?

​— Vim garantir que o meu lugar na mesa dos noivos não fique do lado do seu tio embaixador que fala cuspindo — disse ele, caminhando devagar até a base do tablado.

​Bernardo parou bem diante dela. Por estar no tablado, os olhos de Jaqueline ficaram na altura dos dele. Ele estendeu a mão e, com extrema leveza, ajustou uma mecha acobreada do cabelo dela que saíra do coque. O toque quente de seus dedos na bochecha de Jaqueline fez a princesa travar a respiração por um segundo, perdendo toda a pose de brava.

​— Você vai ficar uma visão incrível naquele altar, sabia? — sussurrou ele, a voz descendo para um tom íntimo e rouco que só os dois podiam ouvir. — Mesmo brava, gritando e tentando me esfaquear com um garfo de sobremesa.

​Jaqueline engoliu em seco. O coração dela deu aquela batida descompensada e traiçoeira que ela odiava admitir que acontecia toda vez que ele chegava perto demais. Mas seu orgulho, sempre de prontidão, assumiu o controle.

​— Não tente me amaciar com conversa mole, Bernardo — murmurou ela, estreitando os olhos, embora suas bochechas estivessem coradas. — Eu ainda não esqueci o beijo no baile de noivado. Você me envergonhou na frente de todo o reino.

​— Envergonhei? — o Duque deu um sorriso de canto, provocador e absurdamente irresistível. — Engraçado... não me pareceu que você estava envergonhada quando se agarrou na minha túnica para não cair.

​— Eu estava me segurando para não te dar um soco! — mentiu ela descaradamente, erguendo o queixo. — E mantenho a minha promessa! O casamento pode ter carne assada, caviar e a seda mais cara de Paris... mas a porta do meu quarto continua com uma tranca de ferro novinha em folha.

​Bernardo soltou uma risada baixa, dando um passo para trás e fazendo uma reverência zombeteira.

​— Nós veremos, Vossa Alteza... nós veremos. Trancas de ferro foram feitas para serem quebradas, e você sabe que eu sou especialista em invasão de territórios difíceis.

​— Sai daqui, Bernardo! — gritou ela, jogando finalmente a almofada de alfinetes, que passou raspando pela cabeça dele enquanto o Duque saía pela porta, gargalhando e deixando a princesa a ponto de explodir de raiva e desejo.