Coroas de Ferro e Veludo

10 A Verdade Sem Máscaras



​O Grande Conselho de Aethelgard nunca estivera tão agitado. O som das vozes sobrepostas ecoava nas abóbadas de pedra como um enxame de vespas furiosas. No centro da mesa circular, Dhorwack MacKenzie permanecia de pé, sua expressão era uma máscara de granito. Ele esperou o silêncio, mas o que recebeu foram olhares de fuzilamento e sussurros carregados de desdém.

​— Meus senhores — a voz do Rei cortou o tumulto, grave e absoluta. — Não convoquei esta reunião para pedir permissão, mas para comunicar uma decisão. A mulher que reside atualmente sob este teto não é uma convidada passageira. Elowen Styles permanecerá em Aethelgard ao meu lado.

​O impacto foi imediato. Lorde Hoth, ainda com o ego ferido pela humilhação anterior, levantou-se bruscamente, as veias do pescoço saltadas.

​— Isso é uma abominação! — gritou ele, batendo com o punho na mesa. — Vossa Majestade perdeu o juízo por uma meretriz de Valerius? O sangue dos MacKenzie é sagrado! Trazer uma... uma mulher dessa estirpe para o coração do reino é cuspir na nossa história e nas nossas leis!

​— Ela é uma mancha na coroa! — gritou outro conselheiro, seguido por um coro de aprovação. — O povo vai se revoltar! O clero vai excomungá-lo! Não permitiremos que uma cortesã se sente à mesa onde rainhas puras já estiveram!

​Dhorwack abriu a boca para retrucar, mas antes que a primeira palavra de fúria saísse de seus lábios, as portas do conselho se abriram sem qualquer anúncio.

​Elowen entrou. Ela não usava as sedas provocantes de sua casa em Valerius, mas um vestido de veludo negro, fechado até o pescoço, e o coração de diamante brilhando como um farol em seu peito. Seus passos não eram hesitantes; ela caminhava com a autoridade de quem já enfrentou monstros piores do que homens de capa e título.

​— "Rainhas puras", Lorde Hoth? — a voz dela era gélida, cortando a gritaria como uma lâmina de aço.

​O conselho emudeceu. Elowen parou ao lado de Dhorwack, encarando cada um daqueles homens com um olhar que os despia de suas hipocrisias.

​— Engraçado ouvir sobre pureza de homens que financiam suas guerras com o suor dos pobres e escondem seus próprios vícios sob mantos de religiosidade — disse ela, aproximando-se da mesa. — Eu conheço o nome de cada um de vocês. Conheço as dívidas de jogo que Lorde Hoth tem em Valerius. Conheço os acordos por debaixo dos panos que o senhor, Duque de Arren, faz para evitar impostos sobre o trigo. Eu vim de um lugar onde as máscaras caem, e garanto a vocês: minha honestidade como cortesã é muito mais limpa do que a integridade de qualquer um nesta sala.

​Ela bateu as mãos na mesa, inclinando-se para frente com uma fúria controlada que fez os homens recuarem.

​— Eu não vim pedir seu respeito, pois o respeito de homens pequenos não me serve. Eu vim dizer que este Rei estava morrendo de tédio e dever vazio, e eu sou a única coisa que o mantém acordado. Se vocês tentarem derrubá-lo por minha causa, lembrem-se de que eu sei exatamente onde cada um de vocês guarda seus segredos mais sombrios. Eu não sou uma "mulher da vida"; eu sou a mulher que conhece a vida como ela realmente é, não como vocês a pintam em seus pergaminhos.

​Claire, observando tudo de um canto sombreado da sala, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela olhou para o irmão. Dhorwack não estava mais tenso ou estressado; ele olhava para Elowen com um orgulho que beirava a adoração. O brilho em seus olhos voltara. A postura era firme. Claire percebeu, naquele instante, que Elowen não era apenas uma amante ou uma distração perigosa. Ela era o sangue novo nas veias de um homem que estava se tornando pedra.

​Elowen Styles não era apenas uma mulher da vida. Ela era a vida retornando ao Rei, uma força da natureza que Aethelgard teria que aprender a aceitar ou seria consumida por ela.