Coroa de Sangue

5 Capítulo 4- Arcadia


Notas iniciais
Música tema do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=vb9ieHYBIgg Espero que gostem!! Bjinossss!!

O sol inundava as colinas em Arcadia, Helena andava pela floresta cautelosamente, observando cada barulho a sua frente, com seu arco preparado para acertar o alvo, virou-se para trás com maestria quando viu passos se aproximando, logo viu um vulto dentre as densas arvores, era um javali, seus lábios curvaram em um largo sorriso, a janta já estava garantida.

Seguiu com a flecha os passos do javali e atirou com precisão, o fazendo cair no chão coberto por folhas alaranjadas.

Olhou a sua volta, apenas certificando-se de que não havia ninguém, afinal, estavam na floresta do rei, e teria problemas se a pegassem por lá, se aproximou do Javali que ainda se mexia e atirou uma flecha em sua cabeça, pegou uma corda em sua cintura e amarrou os pés em apenas um nó.

Era pesado, mas já havia carregado coisa pior, apressou-se saindo logo daquela floresta, já sabendo o conhecido caminha até em casa.

–Você enlouqueceu de vez... — pronunciou Dannie para sua irmã que colocava o javali em cima da mesa.

–Eu trouxe comida, pare de reclamar...- falou com indiferença, estava já farta dos avisos irritantes de sua irmã.

–Reclamar? Você se sacrifica muito por pouco...- Dannie se direcionou até a porta, mas foi impedida pelas duras palavras de Helena.

–Pouco?!Faltam dois meses para o inverno, e você sabe que não podemos ficar sem comida, pouco? Quase morremos no inverno passado pela pouca comida, não iremos passar por aquilo novamente!- cuspiu as palavras.

–Mas e se..

–E se o que?- disse a interrompendo.

–E se eles te pegassem? Eles iriam humilha-la em praça publica e depois iriam executa-la!- gritou Dannie.

–Chega!- disse Danna entrando na pequena casa, ouviu os gritos de sua irmã de fora.- Dannie, por favor, alimente os porcos para mim.

–Mas...- as duas olharam para ela, que assentiu saindo da casa.

–Quer ajuda?- disse para Helena pegando uma faca para tirar a pele, ela assentiu, perturbada com o ato da irmã, Danna não era de ficar calada.

–Não vais falar nada?- perguntou com receio, Danna sorriu.

–Digamos que eu também concordo com você, Dannie já presenciou muitas mortes em nossa família, ela apenas esta protegendo o que acha sua obrigação... — Helena e Danna cortavam a pele com maestria, já estavam acostumadas aquele tipo de trabalho.

Helena olhou para os olhos de sua irmã, e encontrou medo neles, algo estava errado.

–Danna?

–Hm?- disse sem parar de cortar.

–Fale o que houve... — Danna olhou para os olhos da irmã, mordeu o lábio inferior, olhou para os lados e suspirou.

–Hoje, fui à cidade e...Os portões estavam abertos...-Helena arregalou os olhos ao escutar aquilo, os portões nunca eram abertos, há mais de quinze anos que estavam praticamente presos, elas apenas viram além dos portões quando a prometida do príncipe havia chegado, eles foram fechados no dia do massacre e nunca mais foram abertos, era por esse motivo que a seca no inverno, era demasiada em Arcadia, eles tinham as terras de sempre e não podiam explorar as novas.

–Como? Por quê?

–Eu não sei, mas algo me diz que precisamos ficar preparadas. – Helena voltou a cortar a carne, mas logo parou, os portões estavam abertos, era a chance delas, abriu a porta chamando Dannie para dentro que logo veio em busca de folego.

–Escutem, por que treinamos todo esse tempo?- disse para as irmãs.

–Que pergunta é essa?- Danna soltou as facas limpando suas mãos cheias de sangue.

–Os portões estão abertos!

–Estão?- disse Dannie confusa.

–É a nossa chance, a nossa chance de fazer vingança. – Danna riu de suas palavras o que a deixou nervosa.

–Você esta se ouvindo? Helena, estamos no começo do inverno, sim, nós treinamos para que se algum dia, a criatura viesse para nosso vilarejo novamente, pudéssemos mata-los, mas...não sabemos mais nada, não sabemos nada dessa criatura, onde vive, ou se possui algum senhor, Helena, não seja precipitada.

–Se os portões se fecharem, então treinamos para nada... — disse Helena sem paciência. – é a nossa chance , eu sei que não sabemos quase nada mas e se...

–E se?

–E se houver algo além dos portões, estamos presos aqui há mais de 15 anos...

–Helena, se eles abriram os portões, então quer dizer que algo esta errado... – começou Dannie.

Helena colocou sua capa preta que estava pendurada no guincho do lado da porta.

–O que esta fazendo?- começou Danna.

–Preciso ver, com meus próprios olhos. – Danna olhou para Dannie que continha o mesmo olhar, o olhar de preocupação.

–Espere!- disse Danna também colocando sua capa, logo em seguida Dannie. — Iremos com você, tome. — entregou o arco e flecha para Helena. — não vamos despreparadas.- ela colocou a espada em sua cintura a escondendo debaixo da capa, Dannie e Helena fizeram o mesmo, mas com o arco.

–Algo me diz que isso vai ser divertido. — Dannie abriu um sorriso pensando no que sua irmã poderia fazer.

*************************************************

Philip andava impaciente pelo acampamento, aquilo era muito perigoso, o portão estava aberto e estavam acampados para fora de Arcadia, estavam ariscando demais.

–Meu senhor, assim o senhor não vai se acalmar... — disse Magnus.

–Com está a fronteira?- perguntou preocupado.

–Está sendo vigiada constantemente.

–Você acha que passariam pela fronteira?

–Acho que não majestade, nosso reino é o maior tanto de terra quanto de exercito, e além do mais, aquele precipício esta cheio de criaturas inimagináveis, eles não nos afrontaria por alguma razão...

–Então estais insinuando que eles teriam alguma razão para nos atacar?- Magnus olhou para o lado, sentindo o olhar frio de seu rei sob ele.

–Eu não sei, vimos às luzes azuis em nossas terras, e posso lhe assegurar de que elas não são nossas...

Philip olhou para o general friamente, há dois dias eles haviam presenciado algo surreal, entre as terras de Arcadia, vultos com tochas de fogo azul, não sabiam o que eram, apenas sabiam que aqueles seres haviam matado os trinta homens da guarda real.

Philip colocou as mãos na têmpora, fazendo círculos pequenos, tentando diminuir a tensão impregnada em sua face.

–E o povo?

–Têm perguntado sobre os portões, mas Julian já esta cuidando disso. — de repente, a atenção do rei foi direcionada para fora, onde os soldados faziam um alvoroço, irritado Philip saiu da tenda de estratégias, procurando o motivo daquilo tudo, Magnus o seguiu.

–Se afaste!- ouviu um soldado gritar, os outros começaram a gritar para tentar afasta-los do acampamento, Philip seguiu o olhar deles e não acreditou no que estava vendo, ou melhor, não conseguiu olhar direito.

Eram seis pessoas, se é que poderiam chama-los assim, eram praticamente tochas humanas, fogo azul fluorescente banhava todo seus corpos, Philip não sabia o que exatamente era aquilo, em extinto pegou sua espada e se posicionou em ataque.

–Homens!- gritou. – preparar posicionamento!!Magnus peça para que fechem os portões, rápido!!- Magnus assentiu rapidamente, subiu em seu cavalo e cavalgou velozmente em direção à cidade. — o que são vocês? – perguntou para si, se posicionou na frente de seus soldados. — o que você quer?!Por que veio até nosso reino?- disse para as seis criaturas em sua frente, eles estavam aproximadamente metros de distancia deles, não havia escapatória, não naquele momento.

–O tempo de Arcadia esta chegando ao fim!- gritou o do meio com a voz extremamente grossa.- apenas viemos para agilizar o processo!!- de repente ele e as outras cinco criaturas começaram a lançar bola de fogo por todo o acampamento.

–Homens!!!Recuar!!!!!- Philip correu para atrás de sua cabana, aquilo era inacreditável, não tinha como lutar contra aquilo, foi em direção ao seu cavalo, enquanto as criaturas queimavam vivos seus soldados e cavalgou até a cidade.

******************************************************

Julian caminhava impacientemente seu olhar sempre estava distante, a espera de alguém, ou de seu pai.

Os portões estavam abertos desde o crepúsculo, tudo o que sabia, eram que invasores, conseguiram atravessar a fronteira, e agora, de alguma forma, estavam em desvantagem.

–Senhora, não pode ficar aqui.- sua atenção foi para uma mulher que tentava investigar o por que daquilo, seus olhos transmitiam curiosidade, determinação, menos pavor, o soldado tentava impedi-la com o braço, mas ela se esquivava, querendo chegar mais perto.

Fitou-a por alguns instantes, não conseguiu reconhece-la pela capa que usava, mas viu seus olhos, eles eram intensos, pedindo por algo que não identificara, sem desgrudar os olhos nela se direcionou até os soldados que tentavam a segurar.

–Soltem-na.- disse ríspido. – soltem-na!!! – imediatamente eles a soltaram fazendo com que ela caísse no chão.- seu nome?

Ela olhou para cima, se encontrando com os olhos de Julian, abaixou a cabeça fazendo uma breve reverencia.

–Helena senhor, meu nome é Helena. – Julian estendeu a mão para que a pegasse, mas não fora preciso, ela se levantou sozinha o fitando logo em seguida.

–O que gostaria de saber senhorita...- ele a estudou. –Helena...

–O portão, há algo além dos portões não?- Julian riu da cara dela, ela era apenas uma camponesa, como ela ousava a tratar de assuntos confidenciais?

–Creio que isso não seja da sua conta minha cara...- havia algo nela, que o despertava, a coragem, a bravura, ou alguma coisa a mais...

–Não seja da minha conta?- disse alterando a voz.- Olhe ao seu redor milorde!- disse com os braços apontados para os camponeses que se escondiam em suas tendas, apenas observando de longe.- estão com medo! E você fala que não é da minha conta?- seu olhar era de puro ódio e inconformismo. -sei que vocês também estão com medo então, por favor, milorde, explique-nos o porquê de o portão estar aberto!- Helena colocou suas mãos na cintura a espera de uma resposta, o vento da gélida noite batia em sua face, estremeceu ao sentir as poucas rajadas inundar sua face, olhou para o príncipe a sua frente, nunca o tinha visto por aquelas redondezas, mas sabia que era o príncipe de Arcadia, pelas roupas.

Julian curvou seus lábios em um leve sorriso, ela era diferente, deu um passo em sua direção, mas logo o lugar fora preenchido com os gritos suplicantes de Magnus, o fiel escudeiro de seu pai.

–Eles estão vindo!!!Fechem os portões!!!!!!! – Julian olhou ao redor e o alvoroço havia começado, as pessoas corriam para suas casas gritando, olhou para sua frente e a mulher, a tal de Helena, ainda prostrada a sua frente, com brilho em seus olhos, direcionou o olhar para Magnus que entrou em Arcadia com seu cavalo, Julian se direcionou até ele, estava ferido, seu sangue escorria incansavelmente pela sua testa.

–Magnus, cadê o rei?- sua boca inchada abriu para falar algo, mas logo ouviram a luz do fogo se aproximando, Julian estreitou os olhos, nunca havia visto aquele tipo de fogo antes, mas o fogo não foi o que chamou a atenção, fora seu pai, que vinha na frente da nevoa azul, correndo em seu cavalo.

–Fechem os portões!- gritou Philip entrando pela fresta que estava aberta, os portões foram fechados antes que o fogo pudesse chegar a Arcadia. – Soldados separem-se para o norte, sul e nordeste, Magnus, acompanhe seus homens para o nordeste.

–Sim majestade.

–Não desgrude nenhum, minuto das muralhas.

–Sim meu senhor.- Magnus se direcionou para o caminho ordenado .

–Julian...

–Sim meu pai. — Julian estava preparado para o que der e vier.

–Quero que fique aqui, liderando a guarda da cidade e acalmando os cidadãos...- Julian olhou para a mulher que estava a metros de distancia a sua frente e sorriu.

–Com prazer meu pai...- disse o fitando.

–Ótimo...- Philip se distanciou dele se juntando a seus homens.

–Aliás, o que era quilo?- perguntou Julian curioso, Philip olhou para o filho, de repente lembrou-se de Morgareth, afastou tais lembranças dela, se recompondo novamente.

–Eu não sei, e algo me diz que não encontraremos a resposta tão cedo... — disse já de longe.

**********************************

Helena estava petrificada com o que acabara de ver, Danna correu em sua direção a tirando completamente do transe, arrastou ela até uma parte menos movimentada.

–Helena!- chacoalhou-a. — Helena? Helena!- gritou a tirando do transe.

–P- precisamos sair d-daqui...- disse entre pensamentos.

–Como? Por quê? Você viu aquilo não foi? Precisamos ajudar o povo a se estabilizar..- Danna deu os primeiros passos mas fora impedida por Helena.

–Não, não vamos a lugar algum... — Danna percebeu que sua irmã estava pálida, em choque.

–Você não esta bem, o que houve?- Danna colocou suas mãos em sua testa verificando sua temperatura.

–O fogo azul...Acho que já o vi...- Danna estreitou os olhos, lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Helena, ela apenas esperou a irmã continuar.- em meus sonhos.

–Seus pesadelos?- Helena assentiu.- O que são eles? Por que querem atacar Arcadia?- Danna segurou em seus ombros exigindo uma resposta plausível, Helena olhava para o nada, negou com a cabeça antes de olhar para uma Danna apavorada.

–Eles não querem atacar Arcadia... Querem nos atacar...- Danna arregalou os olhos ao ouvir aquilo.

–O que?- Helena assentiu, olhou diretamente para sua irmã.

–Meus sonhos, são invadidos por esse fogo azul, a procura de nós e quando nos acha...

–Quando nos acha?- Danna estava apavorada com o que acabara de ouvir, mas estava mais preocupada com sua irmã.

–E-eu não sei...Eu...

–Helena...

–As imagens ficam borradas!- disse já alterada, as lágrimas eram excessivas em seu rosto.- são sem nexo, castelos, guerra...Morte...Nossa morte...- Danna estremeceu ao ouvi-la, sabia que era apenas um sonho, mas já que ela havia sonhado com, o fogo...

–Seus sonhos... Eles...- Helena assentiu, era algo que nunca havia contado para ninguém , muito menos para suas irmãs, agora tudo fazia sentido em sua cabeça.

–Oh Deus... Você é vidente!- disse Danna se afastando de Helena. – Por que não nos contou?

–Tive medo...Muito...

–Q –quando foi o primeiro? – Danna olhava em seus olhos, sentiu o medo transbordar por eles, o medo da rejeição, entendeu o porquê dela não contar antes, ela tinha medo de que não iria aceita-la, Helena abaixou a cabeça, não queria falar sobre aquilo, não estava

pronta para falar sobre aquilo.- Helena...Eu estou aqui minha irmã...- disse a envolvendo em seus braços, Helena aninhou-se e pôs-se a chorar, Danna e Dannie a odiariam, sabia daquilo, mas não aguentava mais guardar aquilo para si...

–Foi com a nossa mãe... — disse entre choros, Helena a segurou fortemente para não ter que olhar em seus olhos, Danna ficou chocada com o que estava acontecendo, não entendeu suas palavras, se afastou de sua irmã para olhar em seus olhos, que permaneciam baixos.

–O que?

–Eu sonhei sua morte... — Danna nunca viu sua irmã tão vulnerável como naquele momento, seus olhos a fitavam surpresos.- Eu tive a chance de salvá-la...mas não pude!- Helena pôs- se no chão a chorar novamente, Danna olhava para o nada, não acreditava em suas palavras, eram mentiras, só poderiam ser...

–Danna... — Helena chegou mais perto de sua irmã, mas a mesma recuou-se a impedindo de a tocar.

–Não é verdade, não pode ser... Não pode...- Danna olhou para sua irmã caída no chão, foi até ela e agarrou seus ombros exigindo que a olhasse.- me diz que não é verdade Helena, me diz!- gritou fazendo sua irmã se recolher.

–Eu, sinto, muito...

–Você sabe o quanto me senti culpada? Sabe o quanto Dannie se sentiu culpada?- cuspiu as palavras para ela.

–E quanto a mim? Como você acha que eu me senti?- Helena estava muito ferida para continuar a encarando, com suas forças restantes levantou-se e saiu.

Danna ficou ali no chão, as lembranças de sua mãe estavam mais vivaz em sua mente, as lembranças daquele dia estavam frescas, colocou as mãos no rosto para abafar o choro que a cada vez se fortificava.