Coroa de Flores - Interativa
3 Capítulo II - Apenas uma fita azul
Notas iniciais

***
Amber havia deixado sua casa há duas horas, com a certeza da sua decisão guiando seus passos. Ela havia penteado e arrumado os cabelos castanhos da melhor forma que pôde, e maquiado seu rosto para disfarçar o nariz sutilmente grande demais. Bancará um taxi para não suar e se descabelar durante a caminhada e gastou boa parte das suas economias no trajeto.
Entretanto, assim que seus olhos recaíram sobre seu destino final minutos depois, toda sua certeza se esvaiu como uma bola murcha.
Uma fila grande se estendia pela praça central e cada minuto mais três meninas se juntavam ao final da linha indiana. Amber, no entanto, estava sentada no meio-fio já a quarenta e cinco minutos, encarando seus pés e mastigando o lábio inferior, um hábito comum e irritante que aparecia toda vez que ela se via de frente à um problema que não soubesse solucionar.
O problema do momento era a escolha que a apavorava.
Seus olhos encaravam o chão sem de fato enxergar, e ela tentava clarear sua mente e pensar em algum plano. Por alguns segundos se culpou por ser tão impulsiva. Deveria ter pensado melhor antes de se comprometer com aquilo. Mas sua culpa logo se desfez em um desgosto amargo por sua covardia.
Seu olhar vacilou para a fita azul-clara enrolada ao seu pulso. Há três anos aquele acessório encontrará seu lugar físico junto a ela e o peso das lembranças que carregava a seguiam por onde fosse, como que de mãos dadas. Scott havia sido o que Amber gostava de chamar de amor adolescente, ainda que hoje ela reconhecesse o breve romance não podia ser chamado de um caso de amor.
Ainda assim, Amber percebeu que aquela fita era o motivo de tantas inseguranças e incertezas. Não Scott, mas a fita e o que ela representava. Uma corrente ao seu passado, ao seu lar e ao que ela conhecia como segurança. Suas lembranças, suas memórias. Se ela fosse até o fim com seu plano, se ela se inscrevesse e tivesse uma real chance de ser selecionada, ela estaria entrando em um mundo completamente diferente.
Sim, eram oportunidades, mas também eram escolhas que poderiam leva-lá para longe de tudo que um dia conheceu.
Seus planos nunca foram grandiosos, suas ambições eram — no máximo — descritas como simpáticas. Amber gostava de correr pela floresta, adorava viver junto da sua mãe e tia naquele orfanato que fora lar de tantos amigos, sonhava ser professora. Ela era simples e gostava disso.
Antes que pudesse tomar uma decisão, foi sugada dos seus pensamentos e reflexões pelo toque agudo do seu celular. Ela encarou a tela e sorriu diante a fotografia da sua mãe, uma moça baixinha, cheia de vida e força.
– Oi mãe… — atendeu em meia voz, deixando-se encolher no meio-fio com a dúvida torturando-lhe a mente.
– Querida, você conseguiu? Fez a inscrição? Anne acaba de chegar aqui e ela estava eufórica! Disse que havia uma fila imensa e levou horas! Contou que eles fazem uma entrevista antes de aceitar sua inscrição! Mas como ela saiu depois de você, a pé e já está de volta… Eu pensei que… Onde você está?
Amber riu com o turbilhão de perguntas e o tom ansioso e eufórico da mãe. Sua mãe era, sem dúvida alguma, sua maior inspiração. Se erguerá com tanta força depois que seu marido e pai de Amber fora tirado delas duas em um incêndio injusto. A mãe de Amber, Antanasia, era com toda certeza o pilar e o elo mais forte na vida da menina.
– Acabei me enrolando um pouco pela cidade, ainda não me inscrevi…
Amber não conseguiu reunir coragem para contar à sua mãe, uma mulher tão forte e segura, que estava com medo.
– Ah, Ambs… não demore muito, está bem? Sua tia está como uma louca aqui rezando e você sabe que ela não é muito disso.
– Hum, tudo bem. Agradece à ela por mim. Já, já estou em casa.
– Ok. E querida, uma última coisa.
– Sim?
– Eu acredito em você. — seu tom alcançou uma nota confessional que fez Amber espremer o telefone contra o ouvido e sorrir involuntariamente — Você é tão jovem e já sentiu tanto. É tão forte e eu acredito plenamente em você. Mostre à eles que você é mais do que um rostinho bonito. Mostre sua beleza interior e não há quem não se apaixone. Sei que é uma em milhões, mas você será A escolhida, se apenas quiser.
Depois de desligar o telefonema, claramente abalada e surpresa, Amber sentiu seu coração vibrar. Sua mãe sempre sabia o que dizer. Ela se levantou, certa da sua escolha, certa do que queria. Com uma dose de coragem e uma insaciável sede para vencer, Amber caminhou com confiança que caminhava os primeiros passos de uma nova fase. Uma fase que a levaria ao topo, ao trono e ao príncipe.
Fale com o autor