Notas iniciais
Olás! Passando aqui para avisar que a primeira parte do capítulo (antes do "¤") está sendo contada pelo ponto de vista do príncipe Magnus. Ele terá mais participações como narrador da história, mas estou deixando registrado aqui para não ficar confuso :) Aproveitem!

A reunião estava insuportável. Magnus passara as últimas duas enormes falas do Lorde Holsergeth se divertindo dentro possível ao encarar o movimento do pêndulo do relógio no canto da sala. Para a infelicidade de seu pai, que o repreendia sem nem ao menos olhar na sua direção, ele não sabia nem ao menos fingir prestar atenção quando o assunto abordado era muito chato.

Papeladas, burocracia e algumas outras tagarelices do reino. Se fosse algo mais relevante, ele com certeza não estaria naquele estado deplorável. Estaria pior, atuando no papel de príncipe jovem e tolo demais para tomar qualquer decisão importante. Àquela altura, estaria gritando com o pai, que diria, inexpressivo, que ele não tinha direito de dar opiniões.

E ele deixaria o cômodo frustrado, passando as mãos nos cabelos de raiva, mas ninguém se importaria.

Porque ele era apenas o jovem príncipe. No auge do poder como seu pai estava, não deveriam se preocupar se o treinavam para ser rei ou não. Não havia imprevisto ou morte súbita que os fizessem se preocupar com aquilo. E a mínima importância recebida e que um herdeiro do trono não devia ter o irritava e era a causa de muitas das punições que recebia.

Magnus sabia bem que tipo de filho Malvor esperava que ele fosse. Concentrado, sério, frio, poderoso. E ao perceber que ele falhava miseravelmente em sua postura justa e impulsiva, era clara sua preferência por Freya. A irmã mais nova do príncipe. E ele não sabia se aquilo era uma coisa boa ou não.

Ele observava o pêndulo ir de um lado para o outro, os olhos esbanjando tédio. Talvez não devesse ter comemorado tanto o início de sua ida às primeiras reuniões, anos atrás. Não mudava nada.

Então, como se fosse enviado dos céus, alguém bateu na porta da sala de reuniões e abriu, exibindo o uniforme de guarda real sobre a pele escura. Cedric Lancel.

Ele fez uma reverência culta a todos na sala e se direcionou ao rei, que se sentava na cabeceira da mesa como um deus de alto respeito.

— Vossa Majestade, a presença do príncipe Magnus é solicitada.

Sem muita demora, o rei Malvor fez um gesto com o pulso para que o filho saísse. Magnus ergueu-se de sua cadeira tão rápido que a arrastou no mármore, fazendo um barulho estrondoso que fez com que todos o encarassem, mas ele nem ligou. O peito ondulou, suspirando de alívio. E mesmo o repreendendo com o olhar, o pai também parecia aliviado por não ter que aguentar suas inconsequências à mesa de decisões. Ao menos estava livre daquela droga de reunião inútil.

Cada passo até o corredor foi mais prazeroso que o anterior. Cedric esperou que ele saísse para fechar a porta e então encarou o jovem.

— Foi minha mãe quem me chamou, certo? — ele perguntou já começando a andar para longe, arrumando um detalhe nas mangas da camisa requintada, mas o soldado o segurou pelo cotovelo antes que ele fosse embora para qualquer lugar que não fosse aquela sala de reuniões.

Qualquer outro soldado que ousasse tal gesto seria rapidamente mandado para uma punição séria, menos Cedric Lancel. O homem que lutava tão bem como o inferno e que ninguém se contentava ao dizer apenas seu sobrenome. E há três semanas fora denominado o guarda-costas sufocante do primogênito da família real.

Sim, ele vinha perseguindo Magnus para todo e qualquer lugar há dias e aquilo era insuportável. Principalmente porque não era como os outros soldados: que se perdiam fácil da mata de Fireeasy e respondiam a qualquer ordem que ele desse. Ele nunca admitiria em voz alta, mas Cedric não era somente o Terror da Guarda. Era também inteligente. Aquilo havia destroçado com os planos de Magnus de se livrar dele em segundos.

Aquilo o irritava profundamente. Como um soldado, nascido em qualquer família pobre do reino, conseguia ter tanto poder sobre o filho do rei? Sua liberdade de ir e vir havia sido tomada e a vontade de Magnus era jogar aquele homem do penhasco.

Até duas semanas antes, quando haviam acabado de passar por uma longa discussão envolvendo punições e teimosia do príncipe e encontraram o dragão. E não apenas ele: sua assassina.

— Quem lhe chamou fui eu — ele respondeu brusco e rígido, com aquela coragem irritante que mais nenhum servo do castelo tinha.

— Então suponho que eu prefiro ficar na reunião — ele começou a andar de volta para a sala, mas o soldado não o deixou continuar a andar. — Você está brincando com quem não deve, Lancel.

— Vossa Alteza também. E se você não acha que eu sou um idiota, não devia ter saído ontem.

Ele piscou, anestesiado por um instante, enquanto Cedric o encarava com os olhos brilhando em indignação e ódio.

Bem, Magnus realmente não imaginava que o descobririam. Havia sido o mais discreto possível ao pegar aquelas armaduras "emprestado" e sair quando o sol ainda começava a surgir à leste. Preocupou-se até mesmo em não sair com seu corcel, Vingador, e tudo correra bem, como ele previra.

Ele podia ter se controlado, mas não aguentava mais. Há semanas o príncipe estivera sendo obrigado a sair junto de alguém e ele não suportava observar as montanhas de seu quarto e saber que só poderia ir lá várias vezes menos do que ele necessitava e sempre com aquele cara na cola. Era impossível realmente sentir a montanha em situações como aquela. E ao acordar na madrugada daquele dia, com aquele pesadelo de o fazer suar sob os cobertores, ele não podia ficar dentro daquele castelo.

E mesmo surpreso com aquilo, não se importava em afirmar com o queixo erguido da mesma forma em que haviam lhe ensinado ainda na infância:

— Sim, eu saí. Fui até as Gêmeas North.

O homem devia estar a uma minúscula brecha de socar o príncipe, cedendo mais a cada segundo em que as palavras inconsequentes de Magnus saíam de sua boca.

— Se algo tivesse acontecido...

Se algo tivesse acontecido você mesmo seria o primeiro a dançar sobre minha cova — ele concluiu, devolvendo o olhar irado.

— Apenas para que logo depois Sua Majestade dançasse sobre a minha. Você não lembra do dragão que vimos? As matas de Fireeasy não são mais como você as conhece.

"Não são mais como você conhece". Como ele ousava dizer aquilo para o garoto que crescera entre aquelas árvores, que respirara o ar montanhoso daquela floresta desde os oito anos? Não era um dragão que mudaria aquela conexão mística que ele tinha com as montanhas; nem mesmo uma garota perdida com mais órgãos fora que dentro do corpo.

Desde aquele dia, os dois haviam evitado se falar, sobre aquele dragão ou qualquer outra coisa — normalmente, qualquer assunto os deixava a uma brecha de se socarem. E aquela garota ainda era um mistério. E ele sabia que Cedric queria que ele a matasse e quase o fazia por si próprio. Ele esperava que o homem tocasse naquele assunto para provocá-lo e ignorar seus sermões, porque se aquilo acontecesse, ele já tinha todos os xingamentos à postos para lançá-lo.

Ele não podia negar — apesar de o fazer, para si mesmo — que a forma como aquela jovem ruiva erguera sutilmente a cabeça o fizera perceber sua coragem. Podia estar ali, inundada em sangue e provavelmente paraplégica, mas tinha seu orgulho a zelar. Uma outra garota teria implorado por misericórdia, mas ela não. Isso não o enfurecera, como ele esperava, mas enquanto encarava aquelas íris verdes como pedras preciosas, ele sentiu uma certa curiosidade e um interesse entranho sobre quem na verdade era aquela garota. E ele sabia que Cedric Lancel a odiava ainda mais por isso.

— Que seja. Não quero saber. É só por isso que me interrompeu na reunião?

Ela tem que ir embora.

Magnus impediu que surgisse um sorriso de satisfação. Além de tudo, era tão, tão bom usá-la para irritar o soldado e quem quer que lhe dissesse que não devia dar abrigo a ela — era quase como suplicar que ele os contrariasse.

— Ela quem? Ah, a garota. Achei que tivesse sido bem claro ao explicar que ela fica e será bem mantida aqui.

— Diante do conselho e de seu pai, lembro-me de tê-lo ouvido dizer que ela ficaria até que estivesse recuperada.

— Exato. Não acha desumano querer mandar para se virar sozinha uma jovem que nem fica de pé?

Cedric Lancel o segurou pelo braço e o puxou até a parede oposta à porta, que era formada por grandes janelas que iam do chão ao teto, tendo visão do chafariz e o jardim à sudoeste do castelo. Entre as flores e arbustos bem podados, estava Jephinia e...

A garota. Ela caminhava a passos curtos e parecia perder o fôlego várias vezes, se apoiando com força na mulher ao lado, que sorria enquanto ela parecia concentrada demais em somente manter o coração batendo. Ela utilizava roupas de criadas e o cabelo ruivo estava escondido como era possível em uma touca típica das cozinheiras do castelo.

Mas não era possível. Ela não devia nem mesmo estar há duas semanas ali e de acordo com o relatório da própria Jephinia, levaria um mês para que pudesse voltar a andar, se sequer voltasse.

Talvez a diversão do príncipe em irritar Cedric não durasse tanto quanto queria, mas aquilo não pareceu relevante naquele momento. Elas alcançaram um dos bancos de pedras e a curandeira a ajudou a se sentar vagarosamente.

E ela parecia exausta ao apoiar-se no assento.

— Vossa Alteza não acha que já está na hora de deixar a ignorância de lado e se preocupar mais com o bem-estar de sua corte e de seu reino? Não sabe o que essa garota pode estar tramando. E sabe em que circunstâncias estamos.

Talvez pudesse ter se assustado e realmente levado em conta a observação do soldado, se não tivesse se esforçado para conter um sorriso. Quem demônios aquela garota era, como podia ter se recuperado daquela maneira?

Aquela parte do corpo de Magnus, a impulsiva e curiosa que seu pai sempre odiara e repreendera palpitou em algum lugar no fundo de sua mente e seus pensamentos voaram até o instante em que Cedric o virou, puxando-o pelo ombro.

— Está me ouvindo, Magnus?

O príncipe o encarou, puxando o ombro de volta com um impulso.

— Ela vai quando eu disser que vai. Ainda assim, não podemos garantir que ela sobreviverá. E a minha corte, a minha família e o meu reino não são problemas de mais ninguém.

Então o príncipe deixou o guarda raivoso para trás, sentindo a ira do homem preencher o corredor e o perseguir até virar a curva logo à frente.

¤

Após a caminhada no jardim maravilhoso do palácio, Jephinia lhe dera o melhor banho possível sem estragar as ataduras. Já fazia três dias desde que se erguera pela primeira vez e apesar de ser um esforço enorme, a dor era incrivelmente prazerosa. Ficar sobre seus próprios pés tirava aquela tensão e aquele sentimento ruim de estar o tempo inteiro entre quatro paredes.

E mesmo aproveitando a vista bem cuidada do castelo, teve concentração o suficiente para desviar os pensamentos para cada posição dos guardas de segurança e conseguiu ter uma média da altura dos muros que circundavam as tão bem colocadas torres de segurança, que estavam abarrotadas de soldados. Bem, Veena precisaria muito mais que alguns passos para escalar aquelas pedras que formavam uma muralha com quatro vezes o seu tamanho se quisesse fugir.

E fugiria. Vinha prestando atenção nos detalhes e se firmara em seu papel de boa moça indefesa para as poucas criadas que a visitavam. Jephinia... não imaginava que a mulher fosse uma ameaça e a cada dia mais sentia mais afeto pela senhora que vinha cuidando tão bem dela que parecia mais uma amiga. Com todos os seus limites, é claro.

E ao deixarem-na novamente sozinha naqueles aposentos, quando o sol alaranjado já sumia no horizonte, a garota encarou as caras cortinas e o dossel da cama tão perfeitamente decorado. O conforto e a comida maravilhosa quase pareciam um grande motivo para se aninhar ali e passar o resto de sua vida. Vinha se acostumando a eles e ao pouco luxo que tinha, mas já era muito mais do que se lembrava que um dia tivera.

Mas não. Não se renderia à riqueza a mais. Nenhuma moeda de ouro a faria esquecer-se de quem era e o que vivera.

Ela se arrepiou. Vivera muito até chegar ali.

E então caíra no sono. E um sono bom. Nenhum sonho que se lembrava, como de costume, mas nada que a fizesse despertar com o rosto ensopado ou gritos histéricos de algo que ela não se recordava. Uma das primeiras vezes que sua própria mente não lhe pregava peças enquanto dormia.

Já era noite, ela notou pelo azul que despontava das cortinas, a leve luz pálida da lua cheia que iluminava a grande janela. Por que havia acordado no meio da madrugada?

E antes que os a sua parte racional da mente pudesse intervir, afastou as camadas de cobertas e pelo para o lado e acendeu uma lanterna que a chefe-curandeira deixara na mesinha ao lado da enorme cama. Segurou-a com as mãos trêmulas e sentou-se no colchão macio, colocando as pernas suspensas no ar, os pés próximos do chão. E se preparou para tocar a madeira... Poderia fazer aquilo.

Mas antes de se erguer, a porta do cômodo abriu de uma só vez e o coração parou por segundos o suficiente para que ela pensasse ter morrido.