Cornered

2 Fora de Campo


A manhã veio calma e tranquila, assim como a consciência do homem ainda na cama. Os raios de sol da manhã invadem o quarto através da única janela disponível, e Sniper abre os olhos. Sua cabeça lateja fortemente e ele se sente pesado, mas levanta assim mesmo. Não é uma ressaca que o impedirá de trabalhar.

Ele rapidamente procura por um uniforme para vestir e em dois minutos já esta pronto. Sniper olha pela janela, e constata a altura do sol no brilhante céu azul. Que horas eram?

Sniper levanta seu pulso esquerdo e checa seu relógio. São exatamente sete e vinte e cinco em Harvest. Sniper está vinte e cinco minutos atrasado.

Suas pernas o levavam o mais rápido que podia, mas ainda assim não era o suficiente. Sniper já suava e arfava enquanto corria, seu fôlego lhe deixando na mão graças a incontáveis anos de cigarros desmedidos. Harvest não era um campo de batalha muito extenso, mas ainda assim tomou tempo para ir dos dormitórios – cerca de algumas dezenas metros da base – até a cabine de respawn.

Ao chegar lá, encontra o time inteiro – Spy, Soldier e Demoman – lhe esperando. Sniper finalmente os alcança e se apoia na parede, sem fôlego. Ao olhar para cima percebe o olhar de desprezo que Soldier esta lhe dando por se atrasar. Sniper bufa, irritado.

“Está atrasado” Spy anuncia o óbvio.

“Não me diga” entre fortes inspirações e expirações, Sniper consegue formar palavras entendíveis “Por que ainda estão aqui?” ele pensa em dizer me esperando, mas muda de ideia no último instante.

“Problemas técnitos” Spy explica “Tem alguma coisa errada com a máquina Respawn”

“Ah... okay” Sniper jamais gostara daquela coisa, a máquina que os trazia de volta a vida toda a vez que morriam. A sensação era terrível ao ser trazido de volta. Assim que morriam, os mercenários podiam sentir a máquina os puxando de volta com garras invisíveis. Essa 'energia' – se é que pode ser chamada assim – os torcia, contorcia, esticava e deformava at é que aparecessem novamente na sala de Respawn. Sniper tinha ânsias de vômito toda a vez que voltava a vida. Aquilo não era natural, e nunca seria, mas como morte era uma casualidade naquele trabalho, ele a tolerava, pelo bem de seu emprego.

Minutos se passaram e Sniper recupera o fôlego. Para esperar o tempo passar, ele resolve checar sua Assassino de Aluguel – seu rifle preferido dentre tantos em seu quarto – uma vez mais. Ele esvazia a única bala da arma e põe outra no lugar, checa a mira, pressiona o gatilho levemente, mas sem atirar e verifica se ela esta limpa o suficiente. E claro que estava, elas sempre estavam – Sniper sempre tivera um cuidado com suas armas que ninguém conseguia copiar – em perfeitas condições. Mesmo assim, mesmo sabendo que elas estavam bem, Sniper refaz o processo todo novamente e checa seu rifle pela segunda vez.

“Sabe, fazer isso não fará o tempo passar mais rápido”

Sniper levanta os olhos e encontra Spy com as mãos nos bolsos, o cigarro nunca deixando o lado da boca.

“Eu sei. Eu só gosto de ter certeza de que não vou morrer por falha mecânica”

“Aham, claro” Spy pouco estava interessado no que Sniper dizia, tinha seus olhos plantados no horizonte, onde as grandes porções de terra se estendiam, sem uma viva alma em centenas de quilômetros. O instinto de Sniper desperta e lhe diz ter algo errado, Spy está distante demais.

“Está tudo bem?” ele pergunta.

Spy não responde de imediato, ao invés disso, encara a linha do horizonte com olhos distantes e preocupados.

“É só que...” Spy suspira e balança a cabeça negativamente, como se mudando de ideia “Esqueça”

Sniper levanta uma sobrancelha, desconfiado, mas deixa passar. Spy podia ser muito estranho as vezes.

“ATENÇÃO. TODOS OS PROBLEMAS COM RELAÇÃO A MÁQUINA RESPAWN FORAM CORRIGIDOS. FAVOR VOLTAR AS ATIVIDADES NORMAIS” a voz feminina da Administradora de repente ressoa dos alto falantes.

“Ah, pronto” Sniper sussurra consigo mesmo. Um sinal para que todos pudessem voltar a rotina.

“TRÊS... DOIS... UM...” a Administradora anuncia o início da partida “COMECEM!!” exclama sua voz, robotizada pelos aparelhos de som.

Sniper dispara, assim como os outros membros to time Vermelho, para fora da cabine de respawn, gritando seu grito de guerra. Soldier e Demoman seguem-no de perto enquanto Spy se dirige para o outro lado, como sempre. Sendo um espião, frequentemente Spy preferia agir sozinho a compania de outros. No entanto, Sniper não o culpava, afinal, aquele era o seu trabalho.

Rapidamente ele sobe as escadas, o rifle em mãos, para o seu ponto favorito naquele campo de batalha. Sob passos rápidos e decididos, Sniper atravessa os corredores em segundos, e logo alcança seu destino final: o segundo andas do prédio em frente a cabine de respawn dos vermelhos.As janelas eram amplas e davam para praticamente o campo de batalha inteiro. Dali Sniper poderia dar o melhor suporte para seus companheiros e avistar todo e qualquer Azul que pudesse se aproximar para matá–lo. Sniper levanta sua Assassino de Aluguel e aponta-a na direção da base dos Azuis. Ele olha através da mira e suspira levemente. A única coisa a fazer agora é esperar.

Momentos se passam e nenhum Azul aparece. Mas Sniper não cometeria o erro – o qual já cometera centenas de vezes – de sair correndo atrás do alvo. Sniper era o especialista em longa distância, seria suicídio enfrentar qualquer mercenário de dano mais pesado como Heavy ou Pyro. Então ele espera.

O momento passa e a paciência de Sniper é recompensada. De repente o par Azul Heavy-Medic aparecem por trás da construção dos Azuis. Medic andava rapidamente, sempre perto de seu enorme companheiro, enquanto Heavy vai na frente para cuidar da segurança de seu amigo alemão. Sniper sorri. Muito conveniente.

O som do tiro é inaldível, mas atinge o alvo em cheio. A bala percorre o espaço entre o cano do rifle e a cabeça do membro do Azul em milésimos de segundos. Medic grita de surpresa e seu corpo se contrai uma vez mais antes de desabar, morto. Sniper ri consigo mesmo, recarregando a arma.

Mas a morte de seu companheiro não passa despercebida. Heavy nota a morte de seu médico e entra em um tipo de frenesi de fúria. Ele localiza Sniper e aponta sua minigun para o australiano, e dispara. Os projéteis perfuram a madeira e atravessam o buraco da janela sem vidros, deixando buracos na madeira em locais variados. Sniper joga-se no chão no mesmo segundo, evitando as balas por pouco.

A rajada de tiros continua e Sniper continua abaixado.

Quando finalmente os tiros terminam, ele se levanta rapidamente e mira em Heavy. Sniper não se posiciona corretamente, então o tiro não acerta a cabeça do Azul, mas seu peito, na altura do pulmão. Heavy é empurrado para trás ligeiramente, mas não cai. Aquele tiro, obviamente, não seriao suficiente para parar o grandão, aquele homem era um tanque.

Sniper recarrega o mais rápido que pode, mas, no processo, escuta o grito de seu inimigo la em baixo. Confuso, Sniper levanta os olhos de seu rifle e avista Heavy atingindo o chão, morto.

Atrás dele, Spy está de pé, ajeitando sua gravata enquanto encara o corpo do Russo.

“Valeu, companheiro!” Sniper sorri e acena para Spy enquanto o francês apenas balança a cabeça negativamente, repreendendo-o. Sniper ri baixinho com o mal humor de seu amigo.

Spy desaparece em pleno ar, ativando sua invisibilidade. Satisfeito com o trabalho de ambos, Sniper volta para sua posição inicial. Através de sua mira ele avista Soldier combatendo Pyro. O mercenário Azul luta ferozmente contra Soldier, e refletindo todos os foguetes lançados pelo Vermelho. Soldier anda para trás, desajeitado, lançado pragas e xingamentos enquanto empurrado por Pyro. Sniper assiste, calmo, enquanto espera pelo momento certo. Ambos os combatentes estão lutando no segundo andar do prédio dos Azuis, totalmente alheios à presença de Sniper, do outro lado do campo de batalha. Sniper continua mirando, sem atirar, aguardando o momento perfeito. Seu olhar, através da mira do rifle, seguem Pyro pacientemente. Soldier e Pyro estão dentro do sengundo andar, por isso Sniper não tem uma mira clara, apenas quando ele passava em frente a uma das janelas. Sniper poderia ate tentar acertá–lo atraves delas, mas era muito improvável que Pyro ficasse, pelo menos por alguns segundos, parado em frente a janela, exposto.

A oportunidade então veio. Soldier, numa tentativa desesperada de se livrar de Pyro, pula a janela para o telhado da casa, correndo, e sem munição, aparentemente. Ele tinha sua picareta em mãos, mas não se atrevia se aproximar do piromaníaco para desferir-lhe um golpe. Pyro segue Soldier de perto, seu lança-chamas a postos, e pula janela afora. Sniper sorri, apontando a mira do Assassino de Aluguel para a cabeca de Pyro, ele puxa o gatilho.

Pyro é arremessado para trás, gritando. Ele larga o lança-chamas e faz uma pirueta ao cair. Soldier estava pronto para usar uma granada e se surpreende ao ver Pyro ser jogado para trás. Ele se vira num pulo, procurando o autor do tiro, e finalmente encontra Sniper do outro lado, na contrução Vermelha. Soldier, então, faz uma continência militar para Sniper, que sorri, satisfeito. Nada melhor do que um bom dia no trabalho.

Passado isso, Soldier corre o telhado e pula para o chão, visivelmente ferindo a perna no processo, mas ele não parece se importar. Ele corre para dentro da grande casa azulada, onde, Sniper tinha certeza, poderia conseguir alguns kits de primeiros socorros e mais munição.

Sniper acena com a cabeça para si mesmo, e volta a olhar através da mira de sua arma. Os pensamentos que um dia o afligiram, agora eram distantes, e um otimismo crescente estava o dominando. Mesmo em meio ao combate, Sniper se sentia tranquilo, seu corpo, relaxado. O peso do rifle em suas mãos sempre reconfortante, os raios de sol batendo em sua pele, refletindo em seus óculos, beijavam-no carinhosamente, como se cumprimentando um velho amigo. Era bom tirar a cabeça dos problemas de vez em quando para fazer o que ele realmente gosta de fazer.

Nesse caso, matar.

Mas, entenda, Sniper não é um assassino sanguinário. Na verdade, ele despreza mortes desnecessárias, matando apenas para defesa ou dinheiro. Afinal, se alguém o paga para matar outra pessoa, não é um sinal de que essa mesma pessoa deve morrer?

Dessa forma que Sniper sempre seguiu com a vida, o que funcionou extremamente bem com ele, aparentemente. Afinal, você não precisa depender de ninguém se nunca errar.

Sniper bufa, satisfeito consigo mesmo.

Mas seus pensamentos, de repente, são perturbados por um movimento em sua linha de visão periférica. Entretanto, o movimento captado pelos olhos do profissional não vieram do campo de batalha, como ele esperava, e sim do horizonte, longe, nas dunas de terra. Sniper desvia sua atenção da base dos azuis e aponta sua mira na direção de onde o movimento havia vindo.

Ele varre o horizonte com seus olhos, não encontrando nada. Apenas o céu azul podia ser visto beijando a terra vermelha de Harvest.

E então aconteceu novamente, Sniper capta o movimento uma vez mais, e foca sua mira no que ser estranho. Sniper observa o objeto – ou ser? Sniper não sabia ainda dizer – localizado a centenas de metros da base Harvest. Que raios é aquilo?

De pé, ao lado de uma árvore morta e sem folhas, alguém encarava a bagunça do combate. Por causa da má posição do sol das sete e meia da manhã, Sniper não consegue definir direito o ser estranho que os vigiava. Mas certas coisas ele podia, sim, dizer: o sujeito era grande. Muito grande. Talvez não tão grande como Heavy, mas com certeza grande, e Sniper se pegou pensando em suas chances contra um cara daquele tamanho, e chegou a conclusão de que eram poucas caso ele se aproximasse para um combate corpo a corpo.

Sua mira, então, começou a focar melhor o individuo, contornando seu entorno envolto em sombras, e Sniper começou a definir melhor quem quer que fosse aquele homem – pelo tamanho, Sniper presumiu que fosse um homem, pois não era fisicamente possível para uma mulher ter um tórax daquele tamanho – e viu que algo nele lhe era familiar. Mas... quem poderia ser? Se ao menos sua mira pudesse focar um pouco mais...

TOC

Mas de repente um som ecoa atras dele, e ele se vira num pulo rápido. Porque ficou demasiado distraído com aquele ser estranho, deixou de prestar atenção nos seus arredores. Sniper abaixa seu rifle, sacando seu machete – o qual Sniper gostava de chamar de Estoque Tribal – para lidar com seu inimigo.

Pulando pela janela, Sniper viu Scout, segurando sua Forca da Natureza contra o corpo, pronto para atirar. Sniper dá um passo a frente, o machete erguido, enquanto Scout se aproxima, mas antes que ele pudesse desferir um único golpe, Scout pressiona o gatilho, e atira contra Sniper.

Sniper sente os impactos do tiro como se um aríete o tivesse atingido, e ele é jogado para trás, contra a parede, deixando seu machete cair no processo.

A dor o desequilibra por alguns instantes, e antes que ele possa recuperar seus sentidos, Scout se aproxima com seu Batedor de Bostom, e desfere-lhe o golpe de misericórdia.

Os epinhos do taco atingem Sniper em cheio em sua cabeça, arrancando-o violentamente do mundo dos vivos.

Sniper cai no chão frio e duro, arfando.

“Puta merda...” ele pragueja, a ansia de vômito dominando-o. Sniper estava na sala de Respawn uma vez mais, ele havia sido morto por Scout “Porcaria... Mas que porcaria...” Sniper continua a sussurrar ao se colocar de pé, ele odiava ser mandado de volta para a sala de Respawn.

“Você deveria tomar mais cuidado”

E pela centésima vez naquele dia, o coracao de Sniper dispara e ele se vira rapidamente para enfrentar o perigo. No entanto, quem estava sentado no banco, encarando-o, não era nenhum Azul, era Spy. E ele tinha uma expressão de deboche no rosto “Ah, mon dieu, quem você achou que fosse? Um Azul?”

“Eu sei lá! Como é que eu vou saber?!” Sniper exclama, na defensiva. Ele não tinha pensado nisso “E o que você esta fazendo aqui, afinal?”

Spy levanta os olhos do chão e encara Sniper, sério.

“Pyro”

A palavra lança arrepios na espinha de Sniper, que arqueia as sobrancelhas momentaneamente. Ser morto por aquela abominação e realmente ruim.

“Ah... Entendi. Bom, eu posso dar cabo dele pra você poder sair, se quiser”

“Agradeço, mi amigo. Ele provavelmente está esperando eu sair invisível”

Sniper engole em seco, feliz por não ter o trabalho que Spy tinha. Sendo um especialista em longa distância, Sniper nunca teve nenhum problema real com Pyro, pois, geralmente, Sniper o matava antes que pudesse ser queimado vivo. Spy, no entanto, requeria que aproximação com o alvo para, aí sim, poder eliminá–lo, e frequentemente as coisas se complicavam quando Pyro estava por perto, fazendo seus eventuais 'spy-checks'. Sniper realmente, realmente, nao culpava Spy por ter medo do integrante do time azul.

Sniper deixa a sala Respawn para ir recuperar seu amado rifle, que provavelmente ainda estava no chão do segundo andar do predio vermelho. Sniper, entretanto, tem seus pensamentos longe da batalha. O que realmente ocupava sua mente era a origem daquele ser que estava de pé ao lado da árvore, fora dos limites do mapa.

Algo dentro dele dizia que algo estava errado e ele confia, pois, depois de todos aqueles anos no deserto australiano, Sniper aprendera que ele deveria confiar em seus instintos acima de tudo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.