Cores invisíveis
1 Contornos oblíquos
Notas iniciais
Cores invisíveis
E se a tudo tingem aquela cor
Se vestem a tudo nesta casca
Não soubesse a falta da lasca,
Antes seria tempo de sabor
Liberdade, corre turva de dor
Que jeito há de passar a nevasca?
Lealdade, espalha-se à rasca
Embriagado povo palia tumor
E sabe-se que falta pedaço
E mesmo veste a cor festeira
Passos fortes, emudecidos
Antes, graça corriqueira
Hoje, sabores destruídos
E deixam a cor falsar seu aço
“Não abre os olhos se vê escuro
Não há de derramar se não mira
Cerra os olhos, e não admira
Ceguei-te, assim teu olhar costuro
Que cor farei verdes como puro?
Venha, prove de mais mentira
Que cor, se amarelas na ira?
Venha, enche de lealdade o furo
Colorirei as trevas de seu mundo
Sorrisos ao samba, louve o campo
No seu olhar, amor é colorido
Se já é cego, a voz eu tampo
Sorri ao fogo que lhe foi servido
E então, arranco e aleijo a tudo.”
“Cerra os olhos e evita o mal visível!”
Cerrei os olhos e deixei-me previsível
“Bem não há de mirar, só há de existir”
Minha terra, as palmeiras hão de resistir
Enfim sangrei verde e amarelo
Mirei nosso cinza esquecido
Pátria de contorno varrido
E morri de descaso ao belo
Enfim sangrei o que era gelo
Sem olhos postiços detido
Tomei cinza nas mãos, tinha ido
Apagar fogo que não mais velo
Terra sem mais sabiá cantador
Sábios sem mais terra a provar
Antes, que há de rico a surgir?
E se verdade que hei de tingir
Brasil, ocultos não hão de entoar
Hoje, seria tempo de sabor.
E se ainda toma-me por tolo
Não mais poderá safar em seu consolo
Acordam que falas sonegadas suas
Não mais podem espantar nenhuma
das vozes vivas nas ruas.
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