Cores dão Vida
1 Capítulo 1
Notas iniciais
As tardes de domingo me dão agonia. Elas são todas iguais. Sempre toda a minha família resolve tirar uma soneca para desenfadar da semana cansativa. Tudo isso porque sou a segunda menor de idade da casa, não trabalho. Mas é claro, Bianca, minha irmã mais nova, vai dormir com mamãe e papai nessas tardes, junto com o Ursinho — nome que ela deu para o urso de pelúcia dela.
Então ficamos a sós, eu e o silencio.
Estamos em janeiro. Meus pais já começaram a trabalhar dia dez, mas eu e Bianca só voltamos a estudar em fevereiro.
É incrível e intrigante como a mesma coisa acontece em todo começo de ano. Temos sempre a mesma expetativa nesse tempo. Material escolar, roupa nova, uniforme, matricula, a ida ao salão de beleza um dia antes das aulas começarem, que mamãe insiste em fazer com suas adoráveis filhas, e minha ansiedade sem limite que ela chama de tico nervoso.
Não moro numa mansão, mas minha casa é bem grande e confortável, bonita até. É um bom lugar para se morar no interior do Ceará.
Eu nasci no São Paulo, mas meus pais preferiram vir para cá. Um lugar mais tranquilo, saudável e aconchegante. Segundo eles, sempre gostaram de cidades interioranas, e não posso mentir dizendo que eu não penso assim. As poucas vezes em que fui para minha terra natal me senti um golfinho fora d’água.
Tic tac, tic tac.
Olho para o relógio de parede que fica acima da mesinha do computador da sala. Ele marca duas da tarde.
Não posso nem ligar para os meus amigos. Penso, e começo a contar nos dedos da mão — apesar de mostrar só dois dedos de amigos de verdade no final.
Renata foi para um sitio onde não pega sinal nem em cima de uma árvore de eucalipto, tenho certeza que agora ela está se divertindo de montão, já que lá está com aquele primo terceiro... O Fernando, melhor dizendo, Fê, foi passar as férias na casa dos tios naturebas que não usam telefone, internet, nem TV. Não sei como ele está sobrevivendo sem o seu equipamento de fotografia que não desgruda dos dois computadores que ele tem em casa.
Depois de andar pela casa inteira, sento no sofá e suspiro, ainda tentando achar alguma coisa na mente para fazer.
Não vou ler, porque já li todos os livros que comprei nessas férias. Meu violino está no conserto, depois de Bianca ter pulado de uma vez na minha cama e ter feito o pobre do instrumento partir no meio com o impacto – confesso que chorei muito nesse dia. Minha maquina fotográfica ficou no escritório do trabalho da mamãe. Ela é arquiteta e me pediu a maquina emprestada para tirar umas fotos de uma obra e depois mostrar para o chefe imagens de alta definição. Não pude dizer não, é minha mãe e, pra falar a verdade foi ela quem comprou, mas isso não tirou o aperto no meu coração em deixa-la levar minha bebê para um lugar em construção.
Bem, faz um tempo que não falo com meus irmãos mais velhos. Desde o natal que não os vejo. Não que eu esteja fazendo deles uma ultima opção, negativo! Só acho que eles são muito ocupados para ficar batendo papo
comigo.
Mesmo assim pego meu notebook e me tranco no quarto. Deito na cama e abro na minha rede social privada que mal acesso.
Jonasdabaleia estava online há cinco minutos.
Sorrio ao ver o nome no meu irmão, lembrando do dia em que ele e a namorada se conheceram. Eles ainda eram crianças, quando ele se apresentou para ela e a mesma perguntou: Jonas, tipo o Jonas da baleia?
Jonas riu alto com aquilo. Foi na passagem do ano novo da nossa igreja evangélica. Estávamos todos brincando no parque improvisado que o pastor alugou para as crianças e era uma da manhã. Papai queria vir logo para casa mas eu e meus irmãos não — na época Bianca não havia nascido ainda. Nós tínhamos passado a tarde dormindo e tínhamos feito nova amiga ali, que na verdade se chamava Aninha. Enfim, ele cedeu quando mamãe disse que era ano novo, e ninguém estava dormindo àquela hora.
Ligo a webcam e clico no botão de chamada.
Depois de meio minuto ele aparece na tela do notebook.
– Aê Nandinha! – ele sorri secando o cabelo cacheado com uma toalha rosa.
– Oi Jonas da baleia – sorrio.
Ele está no seu quarto do apartamento que nossos pais alugaram para ele e minha irmã Giovana, gêmea de Jonas. Eles foram fazer faculdade no Rio, acabaram voltando para a cidade grande, já que lá havia mais oportunidade de estágio e emprego fixo. Foi a melhor opção.
– E aí? Quais as novidades? – ele coloca a toalha no ombro – quero saber de tudo. Faz tempo que não te vejo. Tá sumida pirralha!
Reviro os olhos para o sotaque estranho que ele adquiriu nesses pouquíssimos anos lá.
– Tudo na mesma. Mamãe e papai trabalhando e Bianca naquela fase de trazer amiguinhas pra casa. Elas estão destruindo nosso quintal com bolinhos de lama! – rio, e Jonas também – Mas... foram vocês quem sumiram de vez, não eu.
– Foi mal, Nandinha – diz ele ficando mais sério agora – Você sabe né? Agora que a faculdade voltou da greve... – ele arque as sobrancelhas e balança a cabeça – voltou com tudo!
Rio e assinto.
– Cadê a Gi?
– Giovaanaaa! — Ele canta alto, fazendo vibrato na voz. E baixo o volume para não acordar ninguém. Jonas vive cantando, esse é um defeito e uma qualidade dele. Às vezes exagera na dose – a Fernanda tá aqui!
– Aqui?! – Ela berra de algum cômodo da casa.
Jonas olha para mim e balança a cabeça.
– Aqui, aqui, não né? Mas na Web sim!
– Já vou Nanda! – ela grita de volta.
– Quando começa suas aulas? – Jonas volta sua atenção para mim.
– 03 de fevereiro.
– Sortuda – ele ri.
– Sortuda nada – rebato – queria que isso começasse logo.
– Por quê? Não vai me dizer que não gosta mais das férias! Você sempre amou!
– É mas... antes parecia que eu tinha coisas pra fazer a todo minuto. E aqui estou eu, atrapalhando vocês.
– Quem está atrapalho o que aqui? – Gi aparece atrás de Jonas.
Ela sorri. E seu sorriso é de uma velha e dócil amiga distante. Queria poder abraça-la, e convidá-la para passar a tarde aqui em casa comendo brigadeiro comigo, falando sobre a vida, como costumávamos fazer quando eu tinha 13 e ela 16. Foi uma fase boa, quando eu alcancei sua linha de pensamento e passei a enxergar as coisas com mais maturidade, assim como ela.
– Oi, Gi! – ponho a mão na tela e ela faz o mesmo.
– Oi Nanda! Como está bonita! – ela sorri mostrando seus dentes perfeitamente retos e brancos.
Sacudo a cabeça, discordando, e não deixo ela intervir e falo:
– Como vai?
– Tudo ótimo aqui, menos a distancia ente nós e você aí.
– Hum...
– ESPERA. – Giovana grita, olhando para Jonas.
– O quê? – ele está fazendo careta e esquivando-se para direita, ganhando distancia dela.
– Você! – Giovana grita mais alto, arregalando os olhos.
– O QUÊ!?
– Estava enxugando o cabelo com a minha toalha de algodão nova! – Giovana está indignada.
– Foi mal manin...
– Que maninha que nada! – ela está brava mesmo, empurrando-o para fora da cadeira e sentando na mesma. Tapo a boca com a mão para não gargalhar – Sai daqui e me deixa só com a Nanda.
Jonas faz bico.
– Nem vem com isso! Você sabe que eu odeio o cheiro desse seu shampoo para homens de cachos!
Jonas sorri e faz careta ao mesmo tempo, e beija sua bochecha. Depois se despede se mim e sai correndo.
– Vocês são hilários – digo, agora rindo.
– Arr! – ela faz cara de brava mas logo ri da situação.
– Quando começam suas aulas?
– Em fevereiro.
– Boa sorte na nova escola.
– Ah, obrigada. – suspiro.
– Você não queria sair do IBM né?
Balanço a cabeça.
Ganhei uma bolsa de estudos numa escola de ensino médio inaugurada há dois anos e não pude recusar. Vai ser uma ajuda para os meus pais, e para mim mesma. Mas eu gostava do meu antigo colégio.
Respiro fundo e olho para o teclado do notebook.
– Meus amigos estão lá, os melhores professores que já tive...
– Mas pense bem Nan – ela sorri, tentando me animar – você pode conhecer pessoas novas lá! Professores bons também, e quem sabe um garot...
– Não começa Giovana! – olho séria para ela – você sabe que eu não gosto quando fala nisso.
– Ué, mas o que há de errado nisso? – ela coloca as mãos na cintura – você já vai fazer dezesseis e...
– Você vai fazer dezenove e está na mesma! Não lembra mais do que falamos uma vez? Que o iriamos esperar até...
– Tudo bem, tudo bem – ela diz levantando as mãos, vendo que eu estava começando a ficar vermelha – eu entendo. Mas isso não significa que você deve parar de sonhar.
Forço um sorriso.
– Eu não parei de sonhar, só comecei a permanecer de olhos abertos.
Giovanna me observa por um tempo, como se comentasse algo consigo mesma mas depois desistisse do argumento e balança a cabeça, revelando um sorriso largo que nunca vi antes.
– Você disse que estou na mesma... — uma pausa – mas não mais!
– O. Que?!
– É isso mesmo – sua risada é delicada.
– Como... como não me contou antes?!
Estou indignada. Como ela teve a coragem de me esconder uma coisa dessas?
– Por que descobri ontem – ela ri da minha cara – descobri que ele gosta de mim e que eu gosto dele.
– Qual o nome dele? E como se conheceram? Me conta tudoooo!
– Nós estavamos na faculdade e eu estava tomando vitamina de moran...
Justamente agora a rede sem fio tinha que cair!
Soco o travesseiro irritada ao mesmo tempo que solto uma risada contente. Fico feliz pela minha irmã. Ela merece alguém do seu lado. Só preciso saber agora que tipo de garoto ele é.
Dou um pulo da cama ao escutar meu celular. Esqueci de abaixar o volume do toque. É uma musica cantada pelos minions.
– Alô?
– Naaaanda! – Renata grita do outro lado da linha.
– Oi! Você conseguiu ligar!
– Sim! – sua voz indica que está dando pulinhos.
Rio da situação.
– E como conseguiu isso?
– Abre a porta da sua casa.
– O q...
– Abre!
– Tudo bem, estou indo.
– Adivnha?
Ela está parada na porta de casa, com um sorriso que se estende até as orelhas.
Não tento disfarçar minha reação de surpresa. Como ela saiu do sítio tão rápido? Segundo ela teria de ficar lá até a próxima semana.
– Como chegou aqui tão rápido?
Recebo seu abraço apertado. Ela ignora minha pergunta e diz gritando e acordando a casa inteira:
– Eu vou estudar na sua escola nova!
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