Cores

1 Cores - Capítulo Único


Notas iniciais
?” Eu realmente enrolei bastante até conseguir entregar isso e ter coragem pra falar pra minha própria soulmate que EU NÃO IA TERMINAR A TEMPO DO ANIVERSÁRIO DELA, DOIS ANOS JÁ ESSA PALHAÇADA, obrigado quarentena, pelo menos isso você me proporcionou.

?” @boblee-

?” Presente de aniversário de 2019, e ainda sai outro esse ano!

Hans odiava saber que existia almas gêmeas, e ele odiava ainda mais ter uma alma gêmea. — Que falta de sorte. — Tudo na sua vida poderia ser muito mais simples se ele buscasse suas inspirações em cores ao invés de saber que estava fadado pelo resto de sua vida saber que nunca iria enxerga-las. E completamente e inteiramente sozinho, de corpo e alma. Pelo visto.

O ruivo, — ou pelo menos disseram que seu cabelo era ruivo, para ele era mais um tom de cinza mais escuro do que o claro, mas não chegava a ser preto.— atualmente estava no meio do Central Park, sentado num banco de madeira cinza, usando roupas cinzas e olhando a folha do bloco de notas branco, as palavras eram escritas em preto com a caneta em suas outras mãos. Ele estava olhando as pessoas caminharem, as vezes de mãos dadas, se olhando como se aquilo fosse a coisa mais perfeita e incrível do mundo, as vezes com seus animais de estimação, felizes e alegres. Ele odiava o romance, então porque escrever sobre? seus leitores falavam que ele tinha jeito com a palavra, e ele teve uma vaga inspiração para escrever.

Era tão vaga, que ele poderia muito bem associar o próprio sentimento ao cinza, a cor que ele passou a odiar. Mas era a única que enxergava.

Engraçado, as pessoas sempre associavam o cinza como uma cor triste, sem graça, tudo o que era triste, repetitivo, sem graça, sem sentimentos, estava ligado ao cinza. Talvez fosse por isso que todo mundo não enxergava as cores ao nascer.

Mas por algum motivo, que desconfiava saber, ele não conseguiu mais escrever depois do capítulo 1, o livro até então sem nome ficou parado por duas semanas seguidas até que ele se forçou a escrever. Baboseiras, baboseiras, como ele odiava tudo aquilo! Porque, de todos os mundos paralelos ele teve que ser um escritor neste em questão. Era simples, todos sabiam disso. Depois que sua alma gêmea nasce outra vez você passaria a enxergar sem cores até que conseguisse encontrar-las novamente nessa vida.

Hans não lembra de ter enxergado cores, provavelmente era muito pequeno. Sua vida para ele, começou com 5 anos, e nesta mesma época ele já não enxergava mais com cores, e precisava usar óculos. Desde então, tudo passou a ter cores cinzas, branco e preto com variações. Não era como se ele importasse com tudo isso, toda tristeza era misturada com frustração, e mais tarde viraria uma vida chata e monótona. Ele não se importava.

Se não fosse seus livros, talvez ele precisasse de um terapeuta. Mas conseguiu passar por seus 26 anos sozinhos e sem enxergar cores, com seus livros, aventuras e o álcool. — A vida não fora fácil, nunca é. — Ele era o décimo terceiro filho de seus pais, uma família influente, cheia de médicos, advogados e empresários. Sua mãe era uma herdeira de uma herança enorme, seu pai dono de uma enorme linha de exportadores, seu irmão mais velho estava agora a se candidatar como vereador.

E tinha ele, o mais novo, Hans, o escritor. Ele podia muito bem ter uma vida confortável, num apartamento de luxo em um dos hotéis de seu pai, sem ter que se preocupar em trabalhar, como sua amada mãe havia lhe proposto.

Hans queria ver o mundo, com seus próprios olhos, aventurar-se, conhecer novas pessoas sem ter que ser a sobra, o último, a sombra ou o tal filho de um empresário rico. Mesmo que com "ver" signifique sem cores.

— Merda.— resmungou. Rasgando o papel, ele amassou a folha com raiva, jogando-a no lixo, o papel bateu na lateral e por fim caiu dentro da lixeira. Ele passou a mão pelos cabelos e cruzou os braços logo em seguida. Se as árvores que foram cortadas para que o papel virasse seu bloco de notas o vissem agora, cairiam em cima do homem.

Romance, o que ele tiraria desse gênero? A série de Piratas que ele escreveu nos últimos tempos lhe renderam muito, mas muitas coisas boas, talvez mais tarde virassem uma trilogia de filmes ou uma série, mas romance não era seu forte. Ele nunca se apaixonou. Coçando os cabelos e empurrando novamente o óculos pelo nariz cheio de sardas, ele ponderou novamente o destino.

Seria pedir muito ao menos um sinal? — exclamou para cima, e encarou o céu cinza. Sitron, o labrador marrom que estava descansando aos seus pés levantou a cabeça, o animal o encarou como se ele fosse louco.— Ah não olhe assim para mim, eu não consegui escrever.

Louco? Hans pensou, não é ele que está conversando com um cão esperando que ele respondesse de volta.

Uma risada tirou ele de seus pensamentos, era um casal andando de mãos dadas a sua frente. A mulher tinha os cabelos pretos, cacheados da cor cinza claro, a roupa era preta, com certeza, usava botas e encarava um cara mais alto, igualmente usando roupas pretas, ou um cinza bem escuro, eles se olhavam apaixonadamente e intensamente, tal olhar Hans nunca conseguia descrever em seus livros. O homem suspirou, apoiando em seus joelhos e tomando um impulso de levantar, ele colocou o bloco no casaco, pegando a guia de seu cachorro amarrada ao banco para por em sua coleira novamente.

Ele nunca conseguiria escrever o próximo livro, talvez sua vida de escritor acabou. Sitron fungou e chorou aos pés de seu dono, expressando compreensão. Dando um sorriso rápido, ele achou melhor voltar para casa e assistir a um filme em preto e branco novamente, e assim como todos os dias.

Em um mundo que você só poderia enxergar as cores, se encontrasse sua alma gêmea, as coisas eram difíceis para quase todas as pessoas. Haviam relatos de muitos e muitos, alguns encontraram suas almas gêmeas em seus melhores amigos. — Pura tacada de sorte. Outros não tiveram tanta sorte, e morriam sem enxergar cores, existia uma cirurgia corretiva, mas quase ninguém queria fazê-la.

Encontrar sua alma gêmea, era um dos relatos mais significantes de sua vida, o sentimento de ver-los pela primeira vez era indescritível, e ao perceber que encontrou, as cores encontravam sua vida assim como o oxigênio encontra as células em seu corpo. Era aleatório, você não esperava, um baque desse não tinha nem aviso.— Era natural, assim como o papel deixa de ser branco com a tinta.

Hans tinha as mãos nos bolsos enquanto atravessava a rua, Sitron caminhava suavemente a sua frente, o cachorro era bem treinado, apesar de ser enorme, era tão delicado como as borboletas. Hans encarou suas costas, ele era escuro, o pensamento de nunca conseguir ver as cores de seu melhor amigo o assustava bastante e com isso um tremor passou pelo seu corpo.

No mesmo momento que seu cão parou na calçada, olhando para outra esquina. Olhou na mesma direção curioso, mas não viu nada. Estranhamente tudo parecia totalmente sincronizado, e em câmera lenta. Sitron deu um puxão, fazendo com que a guia saísse de suas mãos, e Hans cambalear para frente para agarra-la.

— SITRON!– berrou ao dar o primeiro passo, esperando em um homem que segurava uma sacola de pães, o tal moço foi empurrado para a parede, olhando furiosamente para o ruivo que gritou um pedido de desculpas.

A preocupação de perder o seu cachorro para um dos carros fez ele correr ainda mais rápido, não percebendo que o mesmo cão encontrou dentro de uma floricultura. O lugar era estranho, era grande, tinha quadros na parede, assim como mesinhas de café e várias, várias flores. Seu coração bateu contra seus ouvidos, desesperado por perder seu cachorro de vista, o som lá fora de carros buzinando o fez querer vomitar.— SITRON! AMIGO!– gritou novamente.

Um latido, vindo de dentro, mais ainda, da loja, o fez suspirar em alívio. Ele não se incomodou em passar da bancada, e ir para uma espécie de estufa simplificada e improvisada. O homem olhou para os lados, esperando encontrar alguém, parecia vazia, como um cachorro consegue ir tão longe?

Hans resmungou ao finalmente por os olhos no labrador, sua língua estava para fora enquanto ele mastigava alguma coisa, estava babado e cheio de migalhas. O sorriso ainda conseguia tirar uma risada de seu peito. Na frente do cão, havia uma mulher, acariciando a pelagem espessa do animal, ela riu enquanto recebia atenção da língua molhada de Sitron.

— Me desculpa, eu não faço ideia de como ele parou aqui, mas garanto que não vai ser mais um problema para você.— disse Hans se aproximando.

— Sitron é um bom nome.— A risada na mulher fez algo borbulhar no seu peito, enquanto ela acariciava o cachorro. Seu cabelo era de um ainda claro, era enorme, estava trançado com flores de diversas espécies em meio das madeixas.— Se eu não adorasse cachorros, eu chamaria o guarda. Mas esse amiguinho aqui ganhou meu coração.

A mulher se levantou, não se virou a princípio, mas limpou as mãos no avental de seu corpo. Provavelmente sujas pela saliva, Hans olhou com expectativa para seu rosto, algo estava diferente. A mulher se virou para encara-lo. Com certeza foi diferente.

Com os olhos arregalados.

Cores, ele conseguia enxergar cores, foi a primeira coisa que ele notou ao encarar diretamente seus olhos. O sorriso da mulher se desfez para que ela pudesse ofegar levando a mão a boca. Cores, pelo amor de deus ele enxergava cores! Era com certeza, de longe, agora e para sempre a cor favorita dele, era os olhos dessa mulher que ele não sabia o nome.

O coração batia contra seu peito, e podia jurar que se não fosse pela adrenalina do momento, suas pernas teriam cedido e ele acabaria no chão como manteiga derretendo. As mãos pequena da moça se precipitaram em sua frente, mas ela se conteve ao perceber que era demais.

Hans não teria isso, seu cérebro agora não conseguia mais fórmula nenhuma ação se não fosse para essa mulher, que dia e hora eram para que ele pudesse gravar isso até o dia que ia morrer. Pegando as mãos na mulher, ele acariciou a palma macia entre os dedos.

Suas mãos eram coloridas, eles eram da mesma cor, aparentemente, ele não sabia que cor era essa. Hans sorriu ofegante enquanto aproximava seus corpos. — Oi.— era baixo, e tudo o que ele conseguia dizer no momento.

Ela riu novamente, o som fez seu coração pular ainda mais, isso era possível? Foda-se, ele achou que era possível voar agora. Era seu novo som favorito. — Oi.— ela sorriu, em seguida mordeu o lábio inferior. Com certeza, era a coisa mais linda que ele tinha posto os olhos. O nariz redondo, os cabelos claros de uma cor que brilhava, se ele fosse apostar, acho que era amarelo. Os olhos enormes, com as cores intensas, ele entendia agora o que aquele casal sentia.

As sardas espalhadas pelo nariz, as bochechas que mudavam de cor. Ele tinha ganho na loteria, de tão feliz que podia se sentir. — Eu sou Hans.

— Rapunzel. – ele riu, mas pelo seu rosto ela compreendeu que ele não estava tirando sarro de sua cara. Claro, esse momento parecia um conto de fadas, e ela era a princesa.

— Eu posso te tirar dessa torre então, e ver todas as cores que perdemos?– ele sugeriu.— Porque, eu finalmente, te encontrei.

Rapunzel entrelaçou seus dedos com os de Hans, sentindo a palma tremer em expectativa e encolheu os ombros. Em nenhum momento nenhum dos dois conseguiu desviar o olhar, era hipnótico. — Olhe em volta, estamos numa floricultura, é meio difícil pintar quadros sem ver as cores sabia?

Hans concordou.— Eu imagino, como imagino. Uma vez até tentei, mas acho que ficou uma mistura de cinza, cinza e preto. — ao olhar em volta, as cores ganharam vida assim como o mar molhava seus pés, tudo era colorido, nunca se sentiu tão inspirado em toda sua vida. As folhas, eram verdes, ele presumiu, se as aulas de biologia ainda estavam fortes em sua mente.

A cor dos olhos dela eram verdes, sua nova cor favorito. As flores tinham cores variadas, a terra também tinha cor, o chão, seu cachorro estava colorido. E agora sua vida era colorido, e isso era tudo o que ele precisava. Sitron se levantou, e andou de volta para seu dono, se sentando ao seu lado novamente com um enorme sorriso no rosto.

Hans sorriu negando com a cabeça antes de olhar Rapunzel, tudo estava no seu devido lugar, parecia que tinha começado a viver, e tudo o que ele sabia era que o nome da vida agora era Rapunzel, e ela tinha olhos verdes. — Eu posso te pagar o que o meu cachorro comeu enquanto você me diz, se souber, que nome tem as cores.

Com um sorriso de canto, Rapunzel cruzou os braços.— Sorte a sua, é que eu conheço um café, que é uma floricultura, que é uma galeria.

Sim, que sorte a minha.

Notas finais
também postada no spirit: https://www.spiritfanfiction.com/historia/cores-19610272
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!