Cores
3 A Decisão de Yolanda
Notas iniciais
– Filha! – gritou Solange
Dalila acordou horas depois em sua casa. Cega, ficou confusa e só conseguiu reconhecer sua cama ao tatear a textura e sentir o cheiro de sabonetes e perfumes que vivia rodeando seu quarto. Solange entrou no quarto e foi falar com a filha:
– Meu amor, você está bem?
– Depende. . . Você está? Acha que eu não lembro de toda aquela confusão com o papai. Eu sei que o fato de ele ser alcoólatra te incomoda, mas dar sermão depois de ele quase perder a vida não vai melhorar nada. Está ouvindo? Nada!
Dalila ignorou a presença da mãe e adormeceu. Solange saiu de lá triste, mas a filha estava certa. O importante era convencer William que ele precisava de ajuda.
***
Vasta cidade provinciana
Vive de fé, bebe o samba e amém
Planos de outrora vagam na rua
Gritos do povo que clamam alguém
Maravilhosa, cala gigante
Paga fortuna e só anda de trem
Vem justiceira, mãe majestosa
Pede socorro a si mesma e além
Bernardo dormia profundamente enquanto Emerson ouvia música alta na sala. Ele e Lucas foram à sala:
– Emerson, os vizinhos vão vir até aqui reclamar ou você vai se mancar, desligar o rádio e dormir? Já são onze e meia da noite!
– Mas é a Maria Gadú. Você sabe que eu adoro ela.
– Dane-se se é Maria Gadú, poderia ser até Beyoncé, mas desliga a merda desse rádio que eu e o Lucas queremos dormir.
Emerson desligou o rádio, mas não foi dormir. Foi até o guarda-roupa e se trocou, dizendo que ia sair:
– Numa hora dessas, Emerson? — reclamou Bernardo
– Bernardo, se liga! Aqui é Copacabana, Zona Sul! O que mais tem é bar aberto a essa hora. Eu vou é tomar um belo de um porre, não me espere acordado.
***
Yolanda finalmente voltou ao seu apartamento. Timóteo já havia ido embora, só restava Isadora, que assistia um filme na sala. Yolanda foi por trás com um copo de água e jogou na cara da tia:
– Que palhaçada é essa, garota?
– Palhaçada? Não era palhaçada ficar agarrado beijando o meu namorado no sofá enquanto eu me trocava? Foi lindo para você, né? Cena de novela! Deu uma de atriz global, mas saiba que não vai ganhar nenhum Emmy por isso!
– Pare de falar com metáforas, que coisa maldita!
– Pois saiba que esse apartamento está no meu nome! E eu quero você fora daqui imediatamente!
– O que?
– Isso mesmo! Leve tudo o que é seu! Aqui você não fica nem mais meio segundo!
Isadora começou a chorar, falando que a sobrinha estava exagerando, mas Yolanda não se importou:
– Ah, vai ficar nesse lenga lenga? Pois veja só o que eu faço com você!
Yolanda pegou todas as roupas da tia e começou a jogar pela janela de seu quarto. Isadora não parava de chorar, mas a sua sobrinha não se conteve;
– Eu te odeio, Isadora! Isso mesmo, nunca mais eu ouso te chamar de tia! Você é uma mundana, uma vagabunda!
– Eu exijo respeito!
– Você não exige bosta nenhuma! Aqui é a MINHA CASA e aqui quem manda SOU EU! Eu quero você FORA DAQUI! Eu te odeio! E é melhor você pegar o resto das suas tralhas ou seus perfumes e aparelhos eletrônicos também irão ser jogados fora!
Isadora foi correndo pegar o resto de suas coisas, além de sua mala. Quando desceu o prédio, suas roupas estavam na calçada, sujas e fedidas. Aquele era a maior humilhação que ela tinha passado. Ela decidiu ligar para Timóteo:
***
– Alô? É você, Isadora?
– Sim, Timóteo. A Yolanda me expulsou de casa. Eu não tenho para onde ir, vem me buscar por favor!
– Claro, claro. Em um minuto estou aí.
***
Rosângela e Donato estavam conversando no escritório, seriamente preocupados com a situação de William:
– Donato, a Solange não estava brincando quando te ligou?
– Claro que não, a Solange nunca brincaria com isso! Mas o que me preocupa é se ela está abatida! Pobrezinha. . .
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