Cordões do Destino
1 Capítulo Único
O castelo dos Brando-Joestar erguia-se imponente sobre as colinas verdes do reino de Passione. Dentro de seus muros de pedra clara, a princesa Giorno Giovanna — filha única do rei Jonathan Joestar e do rei consorte Dio Brando — sufocava em silêncio.
O vestido daquele dia era de um verde-esmeralda profundo, o tecido pesado bordado com fios de ouro. O corpete, porém, era o verdadeiro vilão. A aia, nervosa com a visita dos emissários do reino aliado, havia puxado as fitas com força excessiva. Giorno sentia as costelas comprimidas, o ar entrando em golfadas curtas e dolorosas. Seus olhos verdes, geralmente calmos e penetrantes, agora brilhavam úmidos de desconforto.
— Não aguento mais… — murmurou ela, escapando pela porta lateral do salão principal antes que alguém notasse.
Ela atravessou o jardim murado, saiu pelos portões dos fundos e desceu o caminho de terra que levava à floresta próxima ao castelo. O sol filtrava-se entre as folhas, mas cada respiração ainda era uma luta. O corpete apertado parecia uma armadura inimiga.
Foi então que ouviu o som de cascos.
Um cavaleiro montado em um belo cavalo castanho surgiu na curva do caminho. A armadura prateada reluzia suavemente, mas o elmo estava pendurado na sela. O homem tinha cabelos escuros desgrenhados pelo vento, olhos castanhos afiados e um sorriso fácil que contrastava com a seriedade da postura.
— Princesa? — perguntou ele, surpreso, puxando as rédeas.
Giorno parou, uma mão apoiada no tronco de uma árvore, a outra tentando inutilmente afrouxar o corpete por cima do vestido.
— Cavaleiro… por favor… — a voz dela saiu fraca, quase um sussurro. — Não consigo respirar. A aia apertou demais os cordões do vestido. Ajude-me, eu imploro.
Guido Mista, príncipe herdeiro do reino vizinho de Bucciarati, desmontou em um salto. Ele conhecia a princesa de vista — pelos retratos trocados entre as cortes e as negociações de aliança —, mas nunca a vira tão perto, muito menos tão vulnerável.
— Fique calma, alteza. — A voz dele era firme, mas gentil. — Posso?
Giorno assentiu, virando-se de costas para ele. Mista tirou as luvas de couro, os dedos hábeis encontrando os laços do corpete escondidos sob o tecido. Com cuidado, ele soltou as fitas, puxando devagar até sentir que o vestido cedia. O ar invadiu os pulmões da princesa em uma onda doce e aliviadora. Ela inclinou a cabeça para trás, respirando fundo pela primeira vez em horas, os cachos loiros caindo suavemente sobre os ombros.
— Melhor? — perguntou ele, ainda segurando as fitas soltas.
Giorno virou o rosto para olhá-lo por cima do ombro. Seus olhos verdes encontraram os dele.
— Muito melhor… Obrigada. — Um leve rubor subiu às suas bochechas. — Mas… não pode ficar assim. O vestido vai cair se soltar demais. Poderia… apertar novamente? Só o suficiente para manter a forma, mas sem me sufocar.
Mista hesitou por um breve instante. Havia algo de íntimo demais naquela situação — ele, um príncipe estrangeiro, ajustando o corpete de uma princesa sozinha na floresta. Ainda assim, obedeceu com delicadeza. Desta vez puxou as fitas com medida, testando a cada laço se ela ainda respirava confortavelmente.
— Assim? — perguntou, quando terminou.
Giorno inspirou fundo, girou o tronco devagar e sorriu. Um sorriso pequeno, genuíno, que iluminou seu rosto delicado.
— Perfeito. Você tem mãos gentis para um cavaleiro, príncipe Mista.
Ele riu baixinho, claramente surpreso por ela saber seu nome.
— E você tem coragem de fugir do próprio castelo só para respirar, princesa Giorno.
Eles ficaram ali mais alguns minutos, conversando sob a sombra das árvores. Ela contou do aperto insuportável imposto pela aia, ele contou que viera como emissário para discutir a aliança entre os reinos. Quando voltaram juntos para o castelo — ele puxando o cavalo pela rédea, ela caminhando ao lado com o vestido agora confortável —, algo silencioso já havia mudado entre os dois.
Naquela mesma noite, durante o banquete, os reis Jonathan e Dio anunciaram a decisão:
— Para selar a paz duradoura entre nossos reinos, a princesa Giorno Giovanna desposará o príncipe Guido Mista.
Giorno não se surpreendeu. Seus pais vinham discutindo a união havia meses. O que a surpreendeu foi o calor suave que subiu em seu peito quando seus olhos encontraram os de Mista do outro lado do salão. Ele ergueu a taça em um brinde discreto, e ela respondeu com um leve aceno de cabeça.
Desde o momento em que ele soltara aqueles cordões com cuidado e depois os ajustara com tanta gentileza, algo nascera. Não era apenas gratidão. Era curiosidade, uma atração quieta, uma faísca que fazia seu coração bater mais rápido do que o corpete jamais conseguira.
Meses depois, no dia do casamento, quando Mista a ajudou novamente com o vestido branco e dourado — desta vez com as fitas do corpete perfeitamente equilibradas —, Giorno sussurrou para ele, só para os dois ouvirem:
— Daquela vez na floresta… eu já sabia que seria você.
Mista sorriu, os olhos castanhos brilhando de carinho.
— E eu soube que queria ser o homem que te ajudasse a respirar pelo resto da vida, alteza.
E, sob os vitrais coloridos da catedral, a princesa loira de olhos verdes e o cavaleiro-príncipe selaram não apenas uma aliança entre reinos, mas algo bem mais pessoal.
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