Corde D'argent
1 Primeiro voo.
Já é de manhã, e Leon, que não vê a hora de completar o colégio para se livrar no inferno, segundo ele. Numa manhã ensolarada de sexta-feira, um raio de sol passa entre o mínimo espaço onde o cortina não alcançara a janela, ofuscando o olho de Leon. Percebe ele então, que está atrasado por uns 15 minutos, o que já virou uma rotina. Acorda tipicamente como todo jovem: acordado com os olhos fechados, parecendo um zumbi ou algo do tipo, com uma dor nas costas devido ao treino de Kendo de ontem. Se levanta da cama veloz sabendo que a inspetora não vai tolerar outro atraso nessa semana, que já foram 4 . Ao terminar, vai até o andar de baixo, na parte da cozinha, onde sua mãe, Rose Betti, que está o esperando furiosa e ardendo em chamas na cozinha para tomar o café.
--Atrasado denovo!!! Qual é o seu problema? – diz Rose, já ‘’acostumada’’ aos atrasos de rotina do filho.
--Bem que você poderia me acordar não acha? Isso não aconteceria se fizesse isso. – diz Leon, num tom de zombaria, enquanto empurrava a cadeira para sentar depois de ter dado uma bela topada no caminho da escada.
--Ah, vamos, pare com isso. Você já é bem grandinho não é? E outra, já decidiu o que vai fazer da vida? Está na hora de arranjar um trabalho ou algo do gênero. Não sou eterna, você sabe. – com um tom de risadinha maléfica.
--Tsc, estou vendo algum trabalho por ai. Mas não tenho tempo pra conversar, tenho que ir. Até mais. -- diz Leon, correndo em direção a porta de entrada enquanto ainda mastiga o pão com manteiga.
--Que coisa, nossos filhos crescem tanto e nós nem vemos. Quero ver como vai ser quando ele tiver a família dele... Vou me sentir tão sozinha, e aquele pai só vem pra casa umas 3 vezes por mês... Vai ser realmente complicado. -- diz Rose, enquanto via o filho saindo de casa.
Dirige-se então ao colégio, correndo enquanto ainda coloca o casaco, carregando a mochila pela alça na boca, quando encontra um amigo de classe, Cesare Bosco. Eles normalmente vão à escola juntos, mas de uns tempos pra cá, Leon anda acordando tão tarde que Cesare desiste de esperá-lo.
--Ora quem eu vejo por aqui! Há quanto tempo que não vamos ao colégio juntos, Leon?
--Sei lá, talvez uns 6 meses. Mas não tenho pra conversar Cesare, já vai bater o sinal e você sabe que a dona Geovana não vai deixar eu entrar depois dele bater pela segunda ( na verdade, sétima ) vez. –enquanto comprimenta o amigo com um balançar de mãos e corre enquanto ainda fala.
--Ei, pelo menos me espere! Se não percebeu, estou na mesma situação que você, atrasadíssimo! –diz enquanto corre ofegante.
Enquanto Leon corre, vê a última pessoa entrando antes de fechar o portão, então grita desesperadamente a Sra. Geovana:
--Ei!!! Espere só um pouco! Eu estou chegando, não feche essa droga ainda!
--Tsc, quem esse garoto pensa que é? Vá sonhando que vai entrar assim todo dia. Eu deveria barrá-lo, ai quem sabe ele aprende uma lição... — pensa longe a Sra. Geovana.
--Obrigado Sra. Geovana! –enquanto passa pela senhora, distraída em seus pensamentos voadores.
--EI! Espere garoto, eu não deixei você entrar!
--Hahaha, até mais Velha Geovana! -- caçoa enquanto corre a porta principal.
-- Essa peste ainda me paga! --resmunga Sra. Geovana, ardendo de raiva da ''peste''.
Daí em diante, foi tudo como normalmente é. Leon dorme durante a maioria das aulas com um livro na frente do rosto, fica no terraço na hora do intervalo junto com Cesare e Pietra, outra colega de classe de Leon, que parece ter uma espécie de afeição pelo mesmo.
Na hora da saída, como de costume, Leon dá uma passada rápida no clube de Kendo, que por incrível que pareça, é o líder. Mas na verdade, quem cuida de tudo é o vice-líder, Scalco Rossi.
-- Ah, e ai, Scalco. Alguma mudança? Alguém morreu? Algum novato? -- diz com um ar de total descontração, como se estivesse ''nem aí''.
-- HAHAHA! Quem é vivo sempre aparece, não é mesmo?! Por onde você andou cara? Não sei se tu sabes, mas é o chefe deste clube... E não, não teve nenhuma mudança nessas duas semanas que você sumiu daqui, mas vou lhe avisando, se continuar assim, vou pedir ao diretor que te retire do cargo de chefe! -- resmunga Scalco, um cara que segue tudo a risca, na ponta da letra, e parece que há uma certa rivalidade entre ele e Leon ( bom, só pela parte de Scalco mesmo, porque Leon está pouco se ferrando ) .
-- Ah sim, então está tudo bem. Ok, bom ''trabalho'' para você, e até mais. E se quiser pode falar com aquele velho pra me tirar do cargo, já cansei. Abraços. -- diz Leon, dessa vez com um tom de desdém.
-- Filho da *$#%! Um dia eu mato esse cara!!! -- pensa diabólicamente Scalco, mas isso é apenas mais uma utopia do jovem.
Sempre na volta para casa, Leon volta até certo ponto com Cesare e Pietra. Como os dois moram bem antes que Leon ( rua 24 e 27, respectivamente ), o jovem anda boa parte do caminho sozinho até a sua casa, que se encontra na rua 44. Nos auges da rua 35, mora um velho e acabado senhor chamado Talbot. E todos pensam que ele é apenas um velho mendigo que vende relíquias ( segundo ele, relíquias ), e Leon tem uma espécie de amizade com o mendigo sênior.
-- Olá velho. Ainda vendendo essas suas ''relíquias''. Tente arrumar um trabalho, ainda é hora. -- pronuncia Leon, que se dirige informalmente à Talbot equanto se agacha e olha as ''relíquias'' no ancião.
-- Oh, jovem, faz tempo que você não me aparece. Trabalhar é uma arte. Uma arte que eu não domino, jovem. -- diz Talbot, com uma voz muito rouca, desgastada, velha.
-- Concordo velho. Estou na mesma situação que você. Mas então, o que tem de bom ai hoje? Espero que não seja algo como ''anel da imortalidade'' ou ''pulseira do cataclísmo'' novamente. -- brinca o garoto, enquanto segura uma espécie de taça com cor prateada. Se você vendesse essas ''relíquias'', poderia conseguir uma grana boa.
-- Veja bem. Se eu vender essas coisas, eu vou gastar tudo com cachaça, porque vai ser dinheiro fácil. Se eu ficar aqui vendendo isso, eu vou ter consciência e não gastar o dinheiro suado, entende, jovem? Hahaha! -- expressa num ar de felicidade, Talbot, mas ainda com uma séria rouquidão. Mas enfim garoto, hoje eu tenho uma preciosidade que vai te agradar... Veja bem, este colar — ''vende seu peixe'' enquanto pega e mostra o colar ao garoto — , ele pertenceu a uma antiga e forte rainha, considerada a mulher mais forte e sábia que já pisou sobre esta terra.
-- Nossa velho, agora você se superou. Mas serei generoso, comprarei de você e darei a minha mãe, quem sabe ela para de me encher o saco dizendo '' oh , procure um trabalho Leon!'' ou coisas do tipo. Quanto custa essa bugiganga, velho? -- explana Leon, que já está cansado de tanto ficar agachado olhando as ''relíquias''. Quantas liras custa, velho?
-- 50.000 liras.
-- Ei, ei, ei, ei, ei, velho. Eu não sou burro. Esse preço está muito absurdo! Tá explicado porque você não vende nada. Dou 10.000 liras e olhe lá. -- pechincha o garoto.
-- 20.000! -- determina Talbot.
--15.000 é o máximo, nem tente. -- assegura Leon.
-- 15.500 e não se fala mais nisso, jovem! -- diz Talbot enquanto sua frio por estar vendendo por mais da metade do preço.
-- Negócio fechado. Até mais velho, e tente melhorar suas histórias. -- aconselha Leon a Talbot, enquanto se levanta e põem 15.500 libras sobre o pano onde ficam expostas as ''relíquias''.
Leon poderia muito bem pegar um ônibus e chegar em 10 minutos em casa, mas como é muito mão-de-vaca, vem e vai a pé e demora 40 minutos. Na caminhada até a sua casa, observa pela primeira vez o colar que comparara a alguns minutos do velho rouco, e percebe que há alguns desenhos entalhados no colar de prata, algo como se fosse um escudo atravessado por duas espadas na diagonal, tanto na frente, quanto no verso do colar. Logo Leon, que tem uma boa percepção, decidiu não entregar de cara o colar a sua mãe, e decidiu guardar pra si mesmo, afinal, dar um colar com aquelas figuras entalhadas não é um presente muito familiar e comum de se ver.
Chegando em casa, morrendo de fome, jogou a mochila no sofá e nem se deu ao trabalho de tirar o uniforme, comeu assim mesmo.
-- E então filho, como foi a escola hoje? -- diz Rose, tentando puxar assunto com o filho, que estava meio calado.
-- Ah, foi normal. Acho que sai do clube de kendo. E..
Na hora que Leon ia contar sobre a compra do colar, parou e pensou enquanto olhava pro desenho contido no colar que segurava na mão esquerda e disse:
-- E só isso. Nada demais... nada demais.
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