Notas iniciais
oláaa, mais um cap <3 obg Dipsy pelo comentário!!! seu apoio significa mto! Espero que goste

Corinna deixou as palavras de Kallien assentarem dentro de si.

Sacrifício.

Novas datas.

Audições.

Dois dias.

Talvez ainda estivesse dormindo. Talvez aquele fosse um de seus sonhos.

Não era incomum tê-los.

Para falar a verdade, andava tendo-os com certa frequência.

Na noite anterior à passada, Corinna tinha sonhado com uma melodia que não sonhava há muito tempo, desde que era apenas uma menina.

Era uma melodia linda e envolvente, mas agridoce. Parecia ter tanta dor, tanto anseio ao mesmo tempo que parecia abraçá-la.

Como acontecia também quando era uma menina, Corinna acordou com lágrimas nos olhos como se tivesse perdido algo importante embora não soubesse o quê.

O aroma dos pães trouxe a garota de volta à realidade e seus movimentos foram automáticos quando ela caminhou até a cozinha, apoiou o pacote sobre a mesa e procurou uma panela para ferver o leite.

— Não pode ser, Kal. — ela disse tentando não fazer sua voz tremer. Corinna nem mesmo sabia por que estava tão afetada pela notícia. — O último Sacrifício aconteceu há poucos meses.

Ainda lembrava do som dos choros das famílias dos Escolhidos de Fortuna que tinham voltado para casa.

Um sem vida e a outra impossibilitada para sempre de se mexer da cintura para baixo.

Kallien arrastou uma das cadeiras e se sentou.

Por cima do ombro, Corinna podia vê-lo passando uma mão pelos cabelos, também preocupado.

— Estão chamando de Sacrifício de Inverno.

— Vão acontecer dois por ano agora? — A menina perguntou incrédula, apoiando a cintura no batente.

— Acho que não. Sabe que não sou muito bom com letras, mas ouvi alguém falando de “situação excepcional”, seja o que quer que isso signifique. — Kallien gesticulou, impaciente com a própria limitação. — Acredito que você deva ir lá conferir mais tarde. Posso te acompanhar.

— Não precisa. Seu pai deve estar louco uma hora dessas te procurando.

A menina apagou o fogo e começou a retirar a nata do leite.

A lembrança do cortejo que aconteceu meses antes para o Escolhido morto era vívida na mente de Corinna, assim como todos os outros que presenciara.

Era um dos momentos mais marcantes para a garota. Às vezes ela se perguntava se um dia chegaria o momento de ser ela dentro de um dos caixões de vidro, sendo carregada por seu pai — que abriu mão de tanta coisa para cuidar dela —, por Kallien, seu melhor amigo, e pelos deorum, que não davam a mínima para o fato de quem era o corpo. Ela seria exibida pelo vilarejo inteiro não como um símbolo de homenagem, mas apenas como um lembrete para outros jovens e crianças de como, muito em breve, poderiam ser eles ali.

E não havia como escapar.

O menino analisou todas as feições da amiga enquanto ela se direcionava até a mesinha e começava a encher os dois copos.

— Não está pensando em se arriscar mais um ano, está?

Corinna piscou, como se fosse difícil voltar para a realidade.

— É o nosso último ano, duvido que eu sequer passaria perto de ser escolhida.

Kallien cerrou um punho sobre a mesa.

Era, no mínimo, incompreensível perceber que Corinna preferia arriscar entrar em um jogo mortal nas mãos de sádicos do que casar-se com ele.

Sabia que a menina sentia algo, assim como ele próprio. Sabia que a maioria das mulheres do vilarejo o achava agradável aos olhos. E sabia que era um homem bom, honesto e trabalhador. Conseguiria prover para Corinna e para o pai dela, se ela assim desejasse.

Não vivia em uma condição ruim e, além disso, tinha um afeto muito grande pela menina. Não suportava a ideia de vê-la arriscando sua própria vida para pôr comida na mesa, quem dirá lutando pela sobrevivência sob o controle de uma raça que não se importava com o bem-estar de nenhum humano.

Ainda assim, Corinna rejeitara todas as suas tentativas de sequer pensar em pedir sua mão. Mesmo depois dos beijos, dos toques e dos momentos rápidos que conseguiam passar as sós.

Às vezes, se sentia usado. No entanto, sabia que Corinna nunca prometeu mais do que poderia lhe dar.

Não querendo insistir no assunto — pelo menos não naquele momento quando os nervos de ambos já estavam fragilizados demais para começarem uma discussão sem sentido — Kallien se soltou na cadeira, abrindo a embalagem do pão, entregando o primeiro à garota.

— Essas circunstâncias são estranhas. Algo me diz que eles não colocaram um Sacrifício no meio do inverno por acaso. Qualquer que seja o método deles de escolher, não acho que será o mesmo dessa vez.

A menina mastigou a massa com cuidado e dedicação, apreciando a maciez e a textura. Não era todo dia que se podia provar pães frescos por ali. Ou algo sem o gosto de terra.

— Sabe que não precisa fazer isso. — Kallien falou baixinho, tomando um gole do leite. — Nós não precisamos… Não aguentaria te perder, Corinna.

A garota tentou não fazer seu corpo se encolher com as palavras do amigo.

Sentia-se egoísta e ridícula, como toda vez que ele demonstrava um sentimento mais profundo por ela e que não era capaz de retribuir como ele merecia.

— Também não aguentaria te perder, Kal. E você não precisa passar por isso. Sua irmã me contou quantas meninas e suas famílias demonstraram interesse em se unir a sua.

— Callandrea não sabe segurar a língua. — O rapaz disse contrariado. — Sabe muito bem que não tenho interesse em nenhuma delas.

Só em você. Era provavelmente as palavras que completavam aquele pensamento em sua mente.

— Ela é sua irmã, quer o seu bem. A sua segurança. Ser minha amiga não muda isso.

Kallien bufou enquanto mexia em uma das frestas na mesa de madeira.

— A ideia de ficar comigo é tão desprezível assim?

— Sabe que não. Sabe que não estou fazendo isso por mim, mas por você. — O menino riu sem humor. — Você merece mais do que eu jamais seria capaz de oferecer.

— Isso tem alguma coisa a ver com suas ideias de quando éramos crianças? Sua crença de que poderia mudar o mundo? Desafiar os deorum?

O amigo certamente não queria atingi-la, mas mesmo assim Corinna se sentiu obrigada a ficar na defensiva.

— Como você disse, éramos crianças. — respondeu com um tom seco. — Sei que não há nada que possamos fazer, só estou tentando evitar que você viva uma vida mais miserável do que já somos condenados a ter.

Uma vida ao lado de uma pessoa que sentia que nunca se sentiria conformada em viver daquela maneira.

Uma vida ao lado de uma garota que não tinha muita coisa para oferecer a ele além da sua amizade.

Kallien sentiu a mudança no clima da conversa, mas não queria entrar em uma discussão.

— Preciso voltar para o meu pai. — Ele se levantou. — Tinha que vir aqui te contar para que se preparasse, se é que algum de nós é capaz de se preparar para isso.

Ela também se levantou caminhando com ele até a porta.

Antes de ir, Kallien a tomou nos braços e apertou contra si, como se pudesse protegê-la, como se pudesse convencê-la.

Quando se afastou, encostou os lábios suave e rapidamente nos dela. Corinna deixou.

— Prometa que pelo menos pensará a respeito. Ainda temos dois dias.

Corinna apenas tocou a bochecha do amigo e assentiu com a cabeça.

Só que no seu coração, ela já sabia que dois dias ou dois anos não seriam capazes de mudar sua resposta.

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Notas finais
Oi, oiii, preciosos!! mais um capítulo para vocês, começo de fantasia é sempre meio confuso, mas prometo que tentarei ir esclarescendo as coisas conforme os capítulos for passando. Se estiverem curtindo ou saiba de alguém que adora uma fantasia, não esqueçam de indicar para os amigos, deixar comentários, votos, favoritar, recomendar e etc... nós vemos em breve! Me sigam nas redes: @whodat_emmz ou @emmieedwards no twitter/x @emmiewrites no instagram Até mais, bjinhos xx