Corações Represados
28 Capítulo 28
Notas iniciais
Beatriz acordou com o avião pousando num aeroporto ao que parecia pequeno. A cabeceira da pista era logo depois da praia. Não havia lugar para mais que uns dois aviões chegarem e estacionarem ao mesmo tempo. Percebeu que havia um outro pátio onde outros dois aviões estavam esperando. Todos aviões médios.
Eles estavam num jatinho particular que havia sido emprestado por um cliente. A viagem de ida e depois de volta era seu presente de casamento. Mas não arrancara nada além disso de William. Nem fazia ideia de onde estavam. O lugar parecia lindo.
Desceram e passaram por uma alfandega pequena. O prédio abrigava uns três guichês de empresas aéreas. Um saguão pequeno onde as pessoas pegavam suas bagagens após passar pelas autoridades. E estavam do lado de fora. Um jipe os esperava para levá-los até o hotel.
O hotel era incrustado na montanha. Parecia um bolo em camadas de pedras e acabamentos em madeira. Havia verde por todos os lados e uma vista espetacular do mar. Hotel Jade Mountain. William havia lhe dito que estavam na ilha de Santa Lúcia, no Caribe. Sua história com o homem branco começava com Cristóvão Colombo. Em períodos diferentes espanhóis e ingleses tentaram conquistar a ilha, mas foram expulsos por seus habitantes. Por fim franceses se estabeleceram nela, mas precisaram lutar por sua posse com os ingleses que por fim conseguiram ficar com a ilha, porém as marcas francesas permaneceram como na língua e em alguns costumes.
Os ingleses passaram a cultivar a cana-de-açúcar , depois introduziram o cacau e mais tarde outras frutas tropicais. Mas a ilha tem no turismo seu maior ganho econômico. E não é pra menos. O pouco que Beatriz vira desde que chegara tinha sido de uma beleza de tirar o fôlego. Estava extasiada. As palavras lhe faltaram, quando chegaram ao quarto.
Dominando o quarto havia uma cama com lençóis beges e um cobre leito verde com desenhos de folhagens em branco. Dois abajures ladeavam a cama. Eram um verde esmeralda envelhecidos parecendo jade. No lado oposto a porta de entrada do quarto havia uma estante, um espelho, dois sofás com uma mesa de centro. Do lado direito da cama ao lado da porta de entrada uma cômoda de material que Beatriz não identificou se era madeira envelhecida ou algo que parecia cortiça estava logo abaixo de um quadro de formas geométricas quase no mesmo material que a cômoda. E diante da cama a parede não existia apenas a visão magnífica do mar. Saindo de dentro do quarto havia uma piscina interna com visão para o mar. Cadeiras de praia de madeira estavam dispostas num pequeno espaço e depois apenas o aberto para aquela visão de paraíso diante deles.
Beatriz parecia criança. Queria sair e conhecer tudo ou simplesmente ficar ali debruçada sobre a amurada observando deslumbrada. William sorria deliciado. Esperava exatamente essa reação. Havia muita coisa a fazer, mas queria descansar primeiro. E haveria muito tempo nos próximos dias para muitas atividades e passeios ou simplesmente ficarem sem fazer nada.
Depois de tirarem as roupas de frio. Resolveram colocar calção de banho e um biquíni e aproveitar a piscina no quarto. O sol aquecia em contraste com o clima frio do dia anterior. O tempo voou. Comeram uma salada leve com peixe grelhado e frutas tropicais. Depois fizeram amor e dormiram boa parte da tarde. Saíram para dar uma volta na praia antes do jantar. O sol foi se escondendo no horizonte deixando tons dourados no céu.
Voltaram pra jantar no hotel. E depois dançaram ao luar.
— Sinto-me livre como se algo preso dentro de mim estivesse fluindo livremente afinal – disse Beatriz se aninhando nos braços de William.
— Sentimentos represados. Coração represado. Aliás,... corações represados. Também sinto essa liberdade. Como se estivesse estado preso durante muito tempo e agora... livre.
— É tão bom essa sensação.
— Isso me lembra uma poesia de Adnelg Murb.
Sonhos represados.
Corações frustrados.
Ânimos cansados
Com cuidados dispensados
Nos labores afogados.
Cotidianos atropelados
Com horários conturbados.
Céus estrelados.
Mares não navegados.
Lugares não encontrados
Em continentes não visitados.
Pores-do-sol não contemplados.
Projetos não terminados.
Sonhos guardados,
No coração ficaram represados.
— Porque a gente acaba se privando durante tanto tempo das coisas boas da vida, como amar?
— Porque não encontramos o verdadeiro amor. Muitos passarão pela vida sem experimentar o que temos, hoje. Uns porque não querem se arriscar e outros simplesmente porque tem medo de amar.
— É triste, mas que bom que nós nos arriscamos. Temos um ao outro. Aprenderemos a conviver e a nos amar a cada dia. Descobrindo novas coisas que nos encantam e nos incomodam, mas se nos respeitarmos poderemos ficar bem velhinhos juntos.
— Que bom que você pensa assim. Porque é assim que sempre vi o casamento. Um aprendendo com o outro e se respeitando nas suas diferenças.
Juntos seguiram o caminho do luar junto as ondas que banhavam a praia. Se amaram e selaram um pacto de permitirem àquele amor crescer.
FIM
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