Corações Represados
24 Capítulo 24
Notas iniciais
— O senhor é o marido da senhora Beatriz Kannenberg?
— Noivo. Como ela está?
— Não há alguém da família?
— Não senhor. Por favor, ela é uma pessoa sozinha aqui. Eu e minha mãe somos toda a família que ela tem aqui na cidade. Como ela está?
— Ela está com hipotermia subaguda. Estamos injetando soro glicosado aquecido. Massageamos ela para a circulação começar a regularizar. Ela chegou com a temperatura do corpo abaixo de 35 graus. Ela pelo jeito ficou sem alimentação durante todo o tempo em que esteve no cativeiro, por isso estamos dando o soro glicosado. Ela precisa acordar para vermos se há sequelas ou não. Nos resta esperar que ela reaja.
— Por que? Isso pode não acontecer?
— Hipotermia é um quadro sério, que compromete muito o organismo. Leva um tempo para estabilizar novamente. Precisamos esperar. Com licença. Preciso retornar lá para dentro.
— Claro. Por favor, informe qualquer alteração.
William voltou a andar quilômetros pelo corredor. O delegado se aproximou com um copo de café e o estendeu para William. Este desabou na cadeira com a cabeça no meio das mãos.
— O médico não deu certeza de nada, delegado. Precisa esperar para ver o que acontece. Se haverá sequelas ou não.
— Calma. Se passou apenas uma hora desde que ela foi resgatada. Foi atendida logo. Creio que ela não ficou sob efeito da hipotermia por muito tempo. Ela estava bem agasalhada. Deve ter resistido por um bom tempo.
— Só que a fome e a sede enfraqueceram o organismo dela. Por mais que ela tenha lutado contra a hipotermia, hoje o frio está muito intenso e a temperatura caiu muito e muito rápido.
— Os médicos estão cuidando dela direitinho. Ela vai se restabelecer totalmente... logo.
— Assim espero. Sabe... até encontrá-la nunca havia considerado viver com alguém, casar, ter filhos, mas hoje creio que não saberia viver sem ela. Tudo que faço... penso incluindo ela.
— Tenha calma. Vai dar tudo certo. Preciso ir. Tenho que interrogar a Evelyn. Duvido que vá colaborar, mas temos provas suficientes para incriminá-la e não precisamos de uma confissão dela.
— Não quero vê-la por enquanto. Sou capaz de esganá-la. Como não percebi como era maluca antes?
— Pessoas como ela em geral são assim mesmo. Muitas vão vida a fora fazendo pequenas maldades e outras extrapolam pro crime. Nos vemos amanhã. Te comunico o andamento do processo. Creio que não será necessário você encontrá-la antes do julgamento.
— Vou ficar por aqui. Se precisar de mim é só me chamar.
— Não creio que será necessário.
O delegado se afastou e William ficou olhando o teto e angustiado esperando que as horas passassem rápido. E que ao final daquela noite a manhã trouxesse a sua Beatriz de volta. Precisava dela. Seu cheiro lhe fazia falta. Tê-la em seus braços adormecida ou sorrindo. Terminaria de resolver os negócios urgentes e depois tiraria umas férias longas com ela. Nunca havia feito isso. Tirar férias. E seria maravilhoso poder ver lugares lindos podendo dividir cada momento com ela.
Depois das três da manhã o médico voltou dizendo que o período mais crítico havia passado. E que ela já havia saído da UTI. Estava no quarto. Se ele desejasse já poderia acompanhá-la. Ele se apressou para encontra-la e sua alegria de vê-la foi tão grande que não conseguiu segurar as lágrimas. Estava chorando por uma mulher. Lágrimas de alegria. Seus sonhos das últimas semanas se realizariam. Olhar para o rosto dela, agora tão sereno. Até já parecia restaurar uma leve coloração rosada. Dava-lhe uma emoção tão intensa que não conseguiria descrever em palavras. Seu amor estava livre, voltara e sobrevivera.
Sua vontade naquele momento era gritar, mas limitava-se a olhá-la enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto e um suspiro de alívio e satisfação escapava de sua garganta.
As horas passaram e quando os primeiros raios de sol tímidos invadiram a janela do quarto encontraram um William adormecido debruçado sobre a cama de Beatriz e segurando sua mão. Foi assim que ela o viu ao abrir os olhos.
Sonhara tanto em poder revê-lo enquanto estivera presa no cativeiro. Poder sentir novamente o calor da mão dele segurando a sua como agora. Não ousou se mexer, não queria acordá-lo. Devia estar exausto. Com certeza devia ter passado todo aquele tempo preocupado.
O pouco tempo em que estavam juntos já percebera como ele era cuidadoso e amoroso. O homem dos seus sonhos. Ele era o que desejara desde adolescente. Nunca se preocupara com dinheiro ou posição social. Queria apenas alguém que a amasse incondicionalmente.
Durante muito tempo esteve atenta, enquanto suas amigas namoravam e casavam. Até chegou a sair com algumas pessoas, mas era tudo tão superficial que não seguira adiante, pois não via sentido naqueles relacionamentos vazios. Apenas sexo não era o que procurava. Queria muito mais e não encontrara ninguém que quisesse se comprometer. Por fim desistira. E então encontrara com ele. William transformara aquelas últimas semanas em momentos perfeitos. Mesmo quando estivera longe viajando era como se estivesse ali do lado dela. Contos de fadas existiam na vida real. Podia agora extravasar tudo o que estivera represado dentro dela. E era muito amor. Amor por ele.
Não tinha dúvidas. Desejava passar o resto da vida ao seu lado. Se ele assim quisesse. Mas algo lhe dizia que ele também desejava assim.
Não lembrava como havia chegado no hospital. Era tudo muito nebuloso. Cria que parte do que pensava que era sonho deve ter sido o seu resgate. Sentira tanto frio. Não conseguira resistir. O sono tomara conta dela. Deve ter sido a hipotermia. Não comia e nem bebia desde que fora sequestrada. Isso junto com o frio deve ter derrubado ela.
Por falar em comida. Seu estômago estava dando sinais de que precisava de algo. Olhou ao redor e viu o soro glicosado. Ele devia ser o responsável por não estar com desesperada por comida. Sentia o desconforto da falta de alimento, mas não era algo insuportável como sentira antes no cativeiro.
Queria se espreguiçar, mas a agulha do soro no braço lhe impediu o movimento. Com a mão livre fez um afago no cabelo de William. Ele se moveu e levantou os olhos para ela. O sorriso mais lindo que já vira estava ali naquele rosto que chegara a pensar que não veria de novo. Parecia com os raios de sol que estavam surgindo lá fora. Amava o brilho daqueles olhos.
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