Notas iniciais
Preparativos para o casamento de William e Evelyn em andamento. Armadilha para descobrir o esconderijo de Beatriz também. Enquanto isso ela tenta resistir aos sofrimentos impostos pelo cativeiro.

No cativeiro, Beatriz teve uma noite quase em claro. A fome e o frio que congelavam seus pés, o chão duro e gelado tornavam o descanso impossível. O pouco que dormiu foi agitado e cheio de pesadelos. Ela virou-se e enrolou-se no cobertor de muitas maneiras, mas não era possível conseguir uma posição minimamente confortável. A fome neste momento a torturava. Seu estômago doía. Levantou-se e resolveu pular para ver se conseguia esquentar-se um pouco. Fez alongamento para amenizar o sofrimento dos músculos.

Procurou ouvir alguma coisa, mas o silêncio que também era torturante, era completo. Ouvia apenas o vento e alguns grilos de vez em quando. Olhava ansiosa para as janelinhas no alto da parede, na esperança de ver a claridade do dia chegar. Mais as horas escorriam devagar. Lento demais para quem estava naquela prisão com fome e com frio. E o pior, sem saber se sairia dali inteira.

A fome era tanta que Beatriz começou a imaginar como era o gosto de suas comidas prediletas num dia de frio. Como seria bom comer uma sopa quentinha com pão recém saído do forno e a casca estalando de crocante. Acompanhado de um gostoso cappuccino. Pensar na sopa e no cappuccino quente a ajudaram a sentir-se mais aquecida ou os pulinhos fizeram isso.

Enrolou-se no cobertor novamente e deitou no piso gelado. Estava exausta. Adormeceu um sono leve e cheio de sustos e sobressaltos. O tremor do sonho era o tremor do frio que a invadia naquele lugar inóspito.

William até tentara comer, mas sua garganta parecia fechada naquela manhã. Acabou deixando a torrada em que dera apenas uma mordida, no prato. Tomou um café preto para estar mais alerta e enfrentar com destemor as longas horas do dia que estavam a sua frente. Depois de estar com a polícia em sua casa rumara, para o hospital. Passara um tempo com sua mãe e dera graças aos céus por ela ter aceitado bem a história de que Beatriz estava acamada com gripe e febre. Não fizera maiores comentários e só recomendara que procurasse um médico se a febre não baixasse. Próximo das onze recebeu a mensagem dos policiais pelo ponto no seu ouvido. Parecia que tudo estava funcionando dentro do planejado. Despediu-se da mãe. Reforçou as recomendações à enfermeira e aos policiais do lado de fora da porta. Tinha medo da reação de Evelyn caso algo desse errado e ela conseguisse fugir. E seguiu com fé para o cartório.

Chegando ao cartório combinou tudo o que devia dizer e fazer com o oficial. E sentou-se na recepção para esperar a chagada de Evelyn. Pode-se dizer que ela foi pontual. Chegou às onze e cinco. Sua aparência estava impecável. Não poderia se dizer que houvesse um fio de cabelo fora de lugar.

Cumprimentaram-se e aproximaram-se do balcão de atendimento. O oficial os atendeu e estendeu o máximo possível as explicações sobre o contrato pré-nupcial que era necessário. Fez todas as anotações de como esse contrato seria e a divisão dos bens. Depois fez com que eles assinassem alguns requerimentos e os dispensou dizendo que estava tudo pronto. Que ele daria prioridade ao pedido deles por conta da solicitação do senhor William, que desejava que o casamento fosse o mais rápido possível. Explicou que em geral esses proclamas levam uns quarenta dias para ficarem prontos, mas que ele os colocaria em regime de urgência. Cria que dentro de uns dois dias, cinco no mais tardar, tudo estaria pronto pro casamento civil.

William de acordo com o combinado com a polícia a convidou para almoçar. Alegou que era quase meio-dia e já que iriam se casar precisavam decidir algumas coisas. Como onde morariam. Se fariam uma recepção após o casamento para alguns conhecidos. Afinal acertar os detalhes práticos daquele fato.

Ela aceitou radiante pois cria que seu plano dera certo. E até creu na sua mente doentia que William começava a dar-se conta de que a amava. Afinal estava sendo tão gentil. Queria acertar tudo o mais rápido possível. Seus sonhos dos últimos três anos se realizava agora. Também concordou em ir até o restaurante no carro de William.

Ao entrarem no restaurante esperaram um pouco para os conduzirem até a mesa da reserva que havia sido feita. E depois enquanto ela olhava o cardápio e fazia sua escolha, William aproveitou sua distração e colocou a caneta na bolsa que ficara na cadeira ao seu lado.

Quando estavam no fim da refeição e prontos para pedir a sobremesa, veio o aviso pelo ponto que já haviam periciado o carro e instalado o chip de rastreamento. Estava tudo pronto. Para não haver suspeita iriam segui-la de bem longe. O alcance do chip era grande e não precisavam chegar muito perto. E vários carros seriam usados para não levantarem suspeitas. De todo modo tinha uma pista através dos vestígios dos pneus. Mesmo antes de segui-la havia gente procurando na região indicada pelo que encontraram.

Terminado o almoço. William a levou até seu carro próximo do cartório onde ela o havia deixado. Despediram-se e isso foi um suplício, pois ela fez questão de um beijo. Afinal casariam dentro de alguns dias. Ele não se negou, embora seu ser inteiro gritasse protestando aquela atitude. Mas fechou os olhos e pensou: “é pelo bem e a segurança de Beatriz”.

Beatriz acordou novamente, com os raios do sol entrando pelas janelinhas. Seu estômago ainda roncava, mas a esperança enchia seu coração. Se espreguiçou e esfregou as mãos nas pernas doloridas. Como queria comer alguma coisa. Mas agora com a claridade entrando em grande quantidade o ambiente ficava bem iluminado. Tinha um vaso sanitário num canto atrás de uma meia parede e ela resolveu usá-lo. Fazia muito tempo que estava ali. Na noite anterior a angustia e a escuridão a impediram de ver. Parecia que a parede estava inteira naquele local.

Um problema resolvido, mas gostaria de resolver sua fome também. Tinha vontade de gritar, mas ao mesmo tempo receava que Evelyn se enfurecesse. Precisava agir com prudência, mas quanto tempo conseguiria ficar sem comida e água. Já sentia-se fraca.

A polícia, por sua vez, pôs a perseguição em funcionamento. Mas Evelyn não seguiu o caminho que esperavam. Passou em três lojas e fez compras. Depois foi até a mercearia perto da casa de Beatriz e entrou. Sentou-se numa das mesas e pediu ao garçom se ele conhecia Beatriz. Diante da afirmativa perguntou o que ela costumava comprar. Ele relacionou alguns itens que em geral ela comprava. Evelyn pediu uma sopa para viagem, uns três pães e dois cappuccinos, um com canela como Beatriz gostava e outro sem. Tudo foi arrumado para viagem em embalagens térmicas.

Depois pegou uma estrada que a levava para fora da cidade. Dirigia tranquila. Tudo o que queria e planejara estava acontecendo. No máximo em três ou quatro dias estaria casada com William.

De longe a polícia a seguia. A expectativa era imensa. Estaria indo para o rumo certo? William seguia junto com o sargento a uma distância um pouco maior. Ouvia os relatórios e nesse instante desejou ter o vício de roer unhas. Talvez o acalmasse naquele instante.

Notas finais
Beatriz irá se alimentar finalmente? A polícia conseguirá rastreá-la até o cativeiro ou Evelyn perceberá e mudará de rumo abandonando Beatriz? Descubra no próximo capítulo.