Corações Represados
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Willian sempre procurara ter uma postura que não deixasse dúvida nas mulheres. Compromisso era algo que não lhe interessava. Até encontrar Beatriz, casamento, filhos e família não estavam nos seus projetos. Tivera poucos relacionamentos que não passaram de dois meses. Quando a pessoa mostrava que desejava um compromisso ele caía fora. Várias aventuras haviam acontecido, até porque viajava muito.
Sempre mantivera uma postura de não deixar dúvidas. Por mais que pensasse e tentasse lembrar se seu comportamento em algum momento havia deixado algo que pudesse ter dado esperanças a Evelyn, mas não conseguia lembrar de nada. Seu erro realmente fora delegar cada vez mais responsabilidades e até coisas pessoais para ela resolver. Mas considerava natural tendo em vista que ele viajava tanto e não podia cuidar de tudo. Como ela se mostrara uma pessoa de confiança não vira motivos para não deixar aos cuidados dela assuntos pessoais, quando não podia cuidar deles, como pagar a empresa de limpeza, pegar ou levar roupas para a lavanderia, aguar suas plantas, quando estava fora. Ela tinha a chave de seu apartamento e cuidava de tudo, inclusive de contratar bife, quando precisava dar algum jantar ou pequena festa. Sempre a pagou generosamente por cuidar de tudo.
Ela já se mostrava super protetora e dominadora, mas até os problemas presentes não vira nada que a desabonasse. Infelizmente percebeu tarde demais que ela vinha se metendo e tomando atitudes por conta própria que poderiam ter causado grandes prejuízos a empresa, caso tivesse demorado mais tempo para perceber o que estava acontecendo. Ela havia sido rude com alguns clientes e até atrapalhado alguns negócios internacionais.
Felizmente conseguira contornar os maus entendidos e resgatar alguns clientes em potencial que haviam desistido de fazer trabalhos com a empresa. Agora precisava fazê-la entender que não podia continuar mais trabalhando com ele. Seria generoso, mas desejava ela longe. Diante do que soubera ao retornar a empresa, achava que ela era perigosa e precisava de tratamento. Ela havia despedido sumariamente duas secretárias e uma assistente por acha-las inadequadas. Foi o que ela disse, mas na realidade as via como rivais e inimigas em potencial. Tinha tratado mal e até empurrado uma da escada fazendo-a cair e quebrar o braço. A outra havia sido ameaçada.
Ficou assustado, quando chegou em seu escritório e foi comunicado de que a polícia desejava falar com ele com urgência. Quando encontrou com o investigador e foi informado do que estava acontecendo, a princípio não acreditou. Depois diante das provas apresentadas ficou estarrecido. Conversou com as ex-funcionárias, desculpou-se e as informou de que não sabia do que estava acontecendo. Comprometeu-se em dar-lhes uma indenização, pois afinal Evelyn havia feito tudo em seu nome e ele tinha responsabilidade. Deveria ter ficado mais atento.
Olhando para ela a sua frente naquele instante, parecia doce, gentil e até indefesa. Mas não podia deixar-se enganar pelas aparências. Procurou escolher as palavras adequadas para não despertar-lhe a fúria e evitar reações indesejadas contra Beatriz.
— Evelyn, chamei você aqui, porque preciso ter uma conversa séria e infelizmente desagradável.
— Desagradável?! Impossível! Você é um doce. – Ela aproximou-se enlaçando William pelo pescoço. Ele ficou constrangido com a ousadia e tirou os braços dela de seu pescoço e afastou-se deixando a mesa entre eles.
— Sente-se. — Esperou que ela sentasse antes de continuar. Ofereceu-lhe água e café. — Creio que em algum momento deixei passar uma ideia errada sobre nós dois. E peço desculpas.
— Qual seria essa ideia errada, meu querido.
— O ponto é exatamente esse. Não sou seu querido. Sou seu chefe. Infelizmente num momento de descontrole deixei que os fatos escapassem do terreno profissional e passamos uma noite juntos, mas isso não significa que temos algum compromisso. Um relacionamento amoroso. Não somos um casal.
— William, você tem posto sua vida nas minhas mãos. Depois fizemos amor. Como não temos um relacionamento? Somos um casal. Um cuida do outro. Gosto de cuidar de você.
— Não temos um relacionamento. Sempre deixei claro que não queria envolvimento com ninguém. Sempre apreciei minha liberdade e gosto de estar sozinho. E diante dos fatos, apesar de ser grato pela sua colaboração na empresa nesses três anos, não posso continuar com você trabalhando pra mim. Pedi aos advogados para prepararem a rescisão do nosso contrato. Eles já me passaram o cálculo da multa contratual e além disso vou te dar uma porcentagem dos contratos fechados nos últimos meses aos quais você teria direito de participação no final do ano. Assim que você assinar os papéis, faço a transferência bancária dos valores. Aqui estão os papéis. Você pode analisar com tempo e me dar uma resposta à tarde. Estarei aqui após às quinze horas. Aguardo você para assinarmos o que precisa.
— Não aceito. Não quero sair da empresa. – Ela esbravejou e seus olhos pareciam desvairados agora. Levantara e andou pensativa pela sala antes de volver-se para ele novamente — Ou você está me demitindo, porque não quer ficar com alguém que trabalha pra você. É isso! Claro! Como não pude perceber? Se é assim...Claro pra ficarmos juntos. Eu assino! Assino!!!
— Evelyn, você não está entendendo. Não teremos nada. Não quero namorar com você. E também não quero que você continue trabalhando na empresa. Eu não me sentiria mais à vontade. Mas não quero o seu mal. Com o dinheiro que você vai receber, poderá começar um negócio próprio, tirar umas férias longas em algum lugar legal. Ou fazer outra qualquer coisa.
— Mas você me deu esperança. Tem carinho por mim. Eu sinto. Como que você não me quer?! – Agora sua voz era chorosa e parecia uma menina manhosa de uns cinco anos de idade.
— Não amo você! Você tem sido uma funcionária exemplar e sou grato por isso, pois me ajudou a fechar muitos contratos interessantes, mas não tenho como seguir trabalhando contigo. – Ela o olhava com olhos esbugalhados. Olhar desvairado. E nesse instante ele pensou como não havia percebido que ela necessitava de ajuda especializada, antes. Apesar de todos os transtornos, não lhe queria mal e estava com pena dela.
— Não quero ficar longe de você. Eu te amo! Ninguém vai te amar tanto como eu! Sou louca por você! Quero estar perto! Ajudar!
— Esse é o ponto. Não posso continuar com você trabalhando comigo. Não daria certo e nem seria justo com você.
— Eu me conformo. Prometo ficar quieta com meu amor e te amar sozinha. Em silêncio. Não te importuno mais, mas me deixa ficar ao seu lado. Por favor!! – Nesse instante muitas lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto e fortes soluços passaram a ser ouvidos. O seu corpo sacudia diante da comoção e William a princípio pensou em deixar tudo como estava, mas então seus olhos passaram pelo papel em cima da sua mesa. Ele estava olhando quando ela chegou. Era uma carta do investigador de polícia. Ele comunicava que haviam achado mais alguns casos de coação feitos por Evelyn numa outra situação. Ela era reincidente. Aquilo poderia ficar pior.
— Você quer um tempo para analisar a papelada ou vai assinar a sua rescisão agora? – Ela o olhou não acreditando no que estava ouvindo ou como se não houvesse entendido direito.
— É aquela vadia que estava no aeroporto que está enchendo a tua cabeça, não é? Ela nem deixou eu cuidar da tua mãe enquanto você estava viajando. Pôs ordem dizendo que eu não podia chegar perto do hospital ou do apartamento. É ela que está te envenenando contra mim. – Ela cuspia as palavras descontrolada.
— Não. Eu a deixei com minha mãe porque é alguém em quem minha mãe confia. Se ela acordasse antes de eu voltar se sentiria confortável com alguém que é próxima a ela. E não vou mudar de ideia quanto a sua demissão.
— Está bem, eu assino. Mas não concordo. Você vai me chamar de volta. E terá que me pedir perdão com muito jeito. E então, eu vou te perdoar e vamos ser muito felizes.
— Aqui estão os papéis. Pode ler e conferir.
— Tudo bem. Sei que você não faria nada errado.
— Estou passando para a sua conta o valor aí mencionado da rescisão mais a multa. E estou acrescendo uma porcentagem referente aos trabalhos realizados nos últimos meses, como uma participação nos lucros. Você receberia no final do ano como é de praxe.
— Certo. Está assinado. – Jogou os papeis e a caneta em cima da mesa pro lado em que estava William. Enquanto ela assinava ele fazia a transferência bancária do dinheiro.
— O dinheiro já está na sua conta. Adeus Evelyn! Boa sorte! – Ele falou levantando-se e dirigindo-se parra a porta.
— Nos veremos em breve. Vou voltar. Você me chamará de volta.
— Adeus! Boa Sorte! – William estendeu a mão para um aperto de mãos. Ela o cumprimentou e saiu silenciosamente. E ele ficou sem saber o que pensar ou esperar. Ligou para Beatriz...
— Está feito.
Fale com o autor