Corações Represados
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Andar incerto, olhar perdido e coração em conflito. Assim sentia-se Beatriz naquele fim de tarde. Nas mãos carregava uma caixa com os pertences que pegara no escritório ao ser despedida. Depois de cinco anos de trabalho, tudo que restara coubera numa caixa não muito grande.
Andava como se não houvesse rumo, mas tinha um destino, seu apartamento. Que nesse instante parecia tão frio e gelado como a atmosfera ao redor. O vento frio que a despenteava estava mais forte e com certeza aquele dia funesto terminaria numa chuva torrencial. Precisava chegar em casa antes dela.
Parou na mercearia que ficava na esquina de sua casa e comprou pão, leite, um cappuccino, uma fatia generosa de bolo e uma porção de sopa. Afinal não pretendia cozinhar.
Na frente do seu prédio havia uma confusão armada. De longe era impossível entender do que se tratava. Ela apressou o passo e percebeu que eram luzes de uma ambulância ou carro de polícia. Muitas pessoas haviam se aglomerado e não se via nada.
Ela aproximou-se e viu o porteiro observando tudo ao lado da porta. Perguntou a ele o que acontecia. Ele informou que uma moradora do prédio fora atropelada e que o motorista havia fugido. Beatriz quis saber se a senhora era alguém conhecido. E o porteiro disse que era a senhora do apartamento 302. Ela levou um choque. Dona Isadora era sua amiga e vizinha do seu apartamento. Tinham longas conversas sobre os mais diversos assuntos. Passavam muitos domingos conversando e fazendo artesanato juntas. A idosa gostava de lhe contar histórias sobre os tempos em que era jovem.
Beatriz quis saber se alguém havia chamado a família e se podia fazer alguma coisa para ajudar. Gilbert, o porteiro, disse que haviam chamado o filho. E que ele subira para procurar por documentos. Beatriz resolveu subir e verificar se o tal filho, precisava de ajuda. Isadora, quase nunca mencionava o filho e Beatriz não o encontrara em nenhuma ocasião. Parece que morava fora do país. Estranho a coincidência de ele estar visitando-a justamente agora. Pelo menos sua amiga estaria amparada.
Ao chegar na porta bateu, mas não houve resposta. Resolveu testar a porta que abriu-se sem problema. Estava colocando suas compras no balcão da entrada, quando alguém lhe interpelou.
— Quem é você? O que deseja?
Beatriz assustou-se e teria derrubado o copo de café se o estranho não tivesse sido rápido em lhe auxiliar. Um som de quase grito escapou da garganta dela. O susto e tropeção a fez desequilibrar-se fazendo-a apoiar-se no peito do homem a sua frente.
Sem jeito e muito nervosa ela procurou recompor-se colocando uma segura distância entre os dois. Aquela proximidade não lhe agradava. Bom, o problema, talvez fosse que agradava demais e ela não estava acostumada com os sentimentos que de repente tomavam conta dela. Depois do dia que tivera e agora aquela notícia. Eram muitas emoções num dia só.
Estendeu o braço e ofereceu a mão num cumprimento desajeitado.
— Sou Beatriz. Vizinha, moro no apartamento ao lado. Sinto pelo que aconteceu com a Dona Isadora. Posso ajudar em alguma coisa?
A mão que correspondeu ao seu cumprimento era quente e agradável e a voz em tom meio rouco e grave provocou uma espécie de arrepio em Beatriz.
Prazer em conhecê-la. Eu sou William, filho da Isadora. Estou procurando os documentos dela, mas não consegui encontrá-los. A carteira de identidade estava com ela, mas preciso do cartão do plano de saúde e não achei onde está.
— Ela costuma guardar coisas importantes nessa caixinha aqui em cima – Beatriz virou-se para o balcão atrás de si e não teve como não esbarrar em William, que estava próximo demais e não se mexeu, quando ela se virou. Ela abriu a tampa de uma caixinha de madeira envelhecida e entalhada que estava no móvel. Haviam alguns documentos lá dentro, assim como contas que precisavam ser pagas. Olhou com cuidado e lá no fundo encontrou o que procuravam. Ela entregou o cartão e ele guardou no bolso.
— Preciso ir. Você poderia fechar tudo pra mim? Estou com pressa – William dirigiu-se para a porta enquanto falava.
— Posso sim. Fecho tudo e deixo a chave com o Gilbert, o porteiro.
— Pode ficar com a chave. Eu tenho uma. Creio que precisarei de ajuda novamente. Posso te pedir socorro se precisar?
— Claro. Meu apartamento é o 303, aqui ao lado.
— Obrigado! – William saiu corredor a fora deixando um rastro de um aroma forte, mas agradável Era uma fragrância amadeirada com notas herbais. Um perfume marcante pra um homem que deixava marcas por onde passava, pensou Beatriz soltando um suspiro.
Beatriz olhou e fechou todas as janelas que estavam abertas. Secou onde as primeiras gotas de chuva molharam o chão e depois de um olhar demorado pela sala, que ainda parecia guardar parte da presença de William, fechou a porta e se dirigiu para seu apartamento.
A sopa já estava fria, então esquentou-a no micro-ondas, assim como o café. Sentou-se com uma fome renovada e saboreou seu jantar. A sopa com o pão fresquinho estavam uma delícia. E o café terminou de lhe esquentar. Somente depois que entrara em seu apartamento percebera que estava gelada até os ossos. O alimento e a bebida quentes lhe renovaram o ânimo.
Foi até seu quarto e escolheu um pijama, pois a temperatura estava caindo rápido. E a noite prometia ser gelada. Pensou em Isadora. O que teria acontecido com ela? Tomou seu banho e resolveu interfonar para o porteiro. Talvez ele tivesse alguma notícia..
Ao aproximar sua mão do interfone o aparelho tocou. Gilbert explicou que William havia ligado pra ele e pedido se ele podia entrar em contato com ela pra arrumar algumas coisas para a mãe. Ela precisaria de roupa, material de higiene, chinelos... E se não fosse abusar muito, pediu para que levasse tudo ao hospital. Deixou o número do celular caso houvesse alguma dúvida ou precisasse de algo.
Beatriz ficou olhando para o aparelho, agora mudo em suas mãos. Iria encontrar-se com ele novamente. Um sentimento de alegria encheu-lhe o peito. Ao mesmo tempo ela repreendeu-se. A ocasião era de preocupação e não de euforia. Trocou-se, mas com mais esmero do que teria feito em outra ocasião. Não era vaidosa e não costumava se preocupar com a aparência. Passou pelo apartamento de Isadora e desceu pelas escadas. Na portaria, resolveu ir andando até o hospital, pois ficava a poucas quadras de onde morava. A chuva havia dado uma trégua e apenas um vento gelado assoviava em seus ouvidos.
Passos largos a conduziam pelas calçadas molhadas, desviando de poças de água nos desníveis do caminho. Muitas coisas passavam por sua mente. E a melhor delas era lembrar daquele que conhecera a menos de duas horas atrás.
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