Corações Problemáticos
2 Encontro Perigoso
Notas iniciais
Provavelmente essa foi a coisa mais estupida que eu já fiz, mas ainda sim eu fiz, porque eu sou estupido. Me sentei a mesa na frente dela, seus olhos eram verdes, um verde escuro penetrante e sedutor, mais seu olhar era frio como gelo.
–- Oi – Eu disse – Sou Daivid
Eu estendi a mão para ela, e ainda tinha esperança que ela ia a apertar. Ela somente baixou o olhar e voltou a comer.
–- Saia – A garota respondeu.
–- Tudo bem, mas...
–- Saia... – Ela disse novamente.
Achei que a melhor opção era sair de lá. Porem antes eu cheguei perto dela e disse:
–- Foi um prazer conhece-la.
Ela cortou seu café da manha com tanta força que eu achei que o próximo alvo seria meu pescoço. Voltei para minha mesa, Anthony estava suando como louco e batendo os dedos freneticamente na mesa. Assim que eu sentei ele desesperadamente começou a procurar ferimentos em meu corpo, olhava meus braços, meu pescoço de um modo que eu até fiquei desconfortável.
–- Ei, ei. Está tudo bem Tony. Não estou machucado saco!
–- Graças a Deus – Ele agarrou meu pescoço me enforcando – Você nunca mais faça algo desse tipo, se fizer eu mesmo mato você, quando estiver no hospital com marcas de cortes de faca.
–- Certo, certo. Mas eu sobrevivi no primeiro encontro, então posso sobreviver no segundo também.
Antes que ele pudesse falar o sinal tocou. Todos começaram a se levantar e ir para suas respectivas classes. Eu puxei Tony pelo braço e o arrastei para sala enquanto ele ficava reclamando e rezando pela minha vida. Eu gostava muito dele, afinal quando eu cheguei na escola a seis meses atrás ele foi o primeiro e um dos poucos que falaram comigo, por isso eu o escolhi como meu colega de quarto, apesar de o achar estranho. Eu acho que ele era estranho porque ele é um dos poucos que vieram para essa escola apenas para fugir de casa.
Nossa sala era a 26, ficava no segundo andar do prédio onde ficavam as salas. E também era perto de uma sala especial, Tony disse que era a sala onde tratavam as Parafilias estranhas. Eu nunca entrei lá e nem pretendia, só de escutar os barulhos do lado de fora eu já ficava aterrorizado. Tony disse que um amigo dele estava se tratando de sua Necrofilia. Ele disse também que o tratamento era opcional já que a Parafilia não era considerada uma doença, mas sim um tipo de comportamento sexual, que eu particularmente achava muito estranho.
Nossa sala era aparentemente normal, aparentemente... Essa era a sala onde tinha mais alunos que só estavam lá para fugir da escola, o que eu achava bom. E os outros sofriam de algumas coisas que eu nem sabia o nome. As aulas geralmente eram normais, isso quando ninguém resolvia ter um ataque no meio da aula, quando isso acontecia eles somente levavam o aluno para a sala 13. Era a sala onde tratavam os alunos, a sala era cheia de injeções e remédios. Eu fui para lá apenas uma vez quando quase enfiei uma caneta esferográfica na minha própria garganta que foi impedida por Tony. Assim eu fui levado para aquela sala, tomei um monte de injeções e remédios que um dia provavelmente iriam me matar, mas fiquei melhor e dormi o resto do dia.
Eu quase nunca tenho um ataque, acho que sou bem controlado nesse ponto. Mas às vezes é inevitável. Minha mãe me mandou para cá, porque provavelmente eu não sobreviveria em uma escola normal e essa escola ajudaria muito com minha integração na sociedade.
A aula foi normal hoje, nenhum ataque, nenhuma tentativa de suicídio. Pareceu realmente uma escola normal pelo menos um dia. Nós nos divertimos bastante e aprendemos muita coisa, apesar de que eu não era muito de prestar atenção a aula. E eu estava ansioso para fazer outra coisa no momento. Eu queria ser o único a ficar perto de Bianca sem ser mandado para o hospital. Tony viu minha expressão, e começou a argumentar sobre como minha vida era importante e que eu não devia joga-la fora por uma causa tão boba. Eu ignorei seus comentários.
A aula acabou e nós fomos ter um breve momento de descanso antes da próxima começar. Não tentávamos não usar o elevador, acredite ficar sozinho com alguém em um elevador pode ser muito perigoso aqui. Eu não recomendo. Tony disse que ia na frente por que tinha coisas para fazer antes da aula. Eu desci as escadas bem devagar e despreocupado. Mas assim que cheguei ao primeiro andar a porta do elevador abriu a minha frente e Bianca saiu caminhando vagarosamente. Não consegui conter um sorriso.
–- Olá novamente – Eu acenei para ela.
Nenhuma reação, ela só me olhou de relance e continuou seu caminho.
Eu fui atrás dela.
–- Você não pode me ignorar assim, seus pais não te ensinaram isso.
Ela parou de andar e cerrou os punhos.
–- Pare de me seguir – Ela tocou meu rosto com a palma da mão, eu fiquei vermelho imediatamente – Isso é para o seu próprio bem.
–- Mas você... – Eu tentei falar, mas ela me puxou pelo cabelo, meu corpo se curvou.
–- Não fale. Somente saia, e não se aproxime mais de mim – Ela sussurrou em meu ouvido e me deu um beijo na bochecha.
Assim que me soltou ela saiu andando. Eu fiquei parado esfregando minha cabeça no local onde ela tinha puxado. Estava doendo. Mas eu quase bati em mim mesmo por sentir prazer com isso.
–- Desse jeito eu vou parar na sala de Parafilia também.
Anthony entrou correndo na sala, ele agarrou meu braço e me puxou para fora. Nós corremos até o prédio dos dormitórios masculinos. Ele me levou correndo pelas escadas até nosso quarto ele me empurrou para dentro fechou a porta e a trancou. Ficou alguns segundos arfando apoiado em seus joelhos.
–- Qual foi o proposito disso? – Perguntei também arfando mais peguei uma garrafa de agua no frigobar e bebi a garrafinha toda.
–- Eu te avisei não foi? – O olhar dele era serio – Eu te avisei para ficar longe dela.
–- Mas qual o problema?
–- Alguns outros viram e foram me falar, então eu sai correndo atrás de você. Eu te trouxe aqui para falar com você em particular. Daivid, por favor...
–- Ela não fez nada demais – Eu retruquei.
–- Daivid, sua cabeça está sangrando.
Eu passei a mão no local onde ela tinha puxado, estava realmente sangrando. Eu achei que o puxão não foi tão forte assim, mas parece que estava enganado. Tony me levou até o banheiro e enfiou minha cabeça no chuveiro. Eu não falava nada. Nós nos sentamos na cama dele, minha cabeça estava realmente doendo agora.
–- Você vai me ouvir agora – Ele perguntou.
–- Tony, eu, eu não sei...
–- Daivid, você teve sorte que ela machucou somente seu cabelo. Mas não chegue perto dela, eu avisei que é perigoso. Todos os professores já avisaram para não se envolver com aquela garota.
Apesar de minha mente estar me dizendo para ficar longe dela, meu coração dizia outra coisa, ele me dizia que eu podia ajuda-la. Que eu podia curar seu problema. Será que eu...?
–- Tony, eu acho que...
–- Ah não! – Ele se levantou – Por favor, por favor, Daivid, não me diga que você... Você...
Antes que eu pudesse falar ele continuou
–-... É um masoquista?! – Ele gritou.
Eu quase tive um ataque cardíaco na hora.
–- Do que você está falando?! – Gritei de volta.
–- Você sente prazer com o sofrimento, é por isso... Mesmo assim fique longe dela!
–- Não posso – Respondi rapidamente.
–- Porque você...
–- Não! Não é porque eu sou um masoquista... É porque eu... eu acho que gosto daquela garota...
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