Coração de loba
26 Vestido de noiva
Narrado por Renesmee
Riley ajeitou a mochila no banco de trás do carro e se virou para mim com aquele sorriso sereno que sempre me deixava com o coração leve — mesmo nos dias mais difíceis.
— Vou passar o dia em Seattle com meus pais — disse ele, puxando uma mecha do meu cabelo. — E depois sigo direto pra Massachusetts. Harvard me espera.
Assenti, forçando um sorriso. Eu sabia que aquele era o caminho dele, e me orgulhava. Mas uma parte de mim desejava segurar aquele instante só mais um pouco.
— Cuide-se por mim, tá? — murmurei, encostando minha testa na dele.
— Sempre. E você… cuida do seu coração — disse ele, antes de me beijar.
Nos despedimos com um beijo calmo, doce, o tipo de beijo que dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar. Ele entrou no carro e acenou pela janela. Fiquei ali parada, observando o carro sumir na estrada por alguns segundos, até que suspirei fundo.
Agora era minha vez de seguir em frente.
Peguei o caminho para a casa de Charlie. Algo dentro de mim dizia que eu precisava dar esse passo, encarar as partes do meu passado que eu vinha evitando. Precisava conversar com meu pai, olhar nos olhos dele e abrir meu coração de uma vez por todas.
Quando estacionei a caminhonete em frente à casa, meu estômago revirou. Mas não era apenas ansiedade — havia algo mais.
Fiquei imóvel por alguns segundos antes de sair do carro. E quando finalmente pisei na calçada, me surpreendi com a cena diante de mim: Bella, minha mãe, estava sentada no banco da varanda… conversando com Antony.
Parei, confusa. Me aproximei com passos lentos, sem saber se chamava ou apenas observava.
— Antony? — minha voz saiu antes que eu pudesse evitar, surpresa demais ao vê-lo ali, no quintal da casa do meu pai, conversando com ninguém menos que Bella.
Ele se virou devagar, como se o som do meu nome o puxasse para uma lembrança antiga. Seus olhos encontraram os meus com aquela mesma intensidade de sempre, mas logo foram tomados pela surpresa.
— Renesmee? — ele arqueou uma sobrancelha, confuso. — Uau… eu não fazia ideia de que você conhecia a Bella.
Bella, por sua vez, não disfarçou a tensão. Seus olhos percorreram meu rosto com uma expressão indecifrável antes de dizer:
— Nessie é filha do Charlie. — E então olhou para ele, como se estivesse revelando algo mais profundo. — Edward.
O mundo parou por um segundo.
— Edward Antony Mansen Cullen — ele respondeu com um sorriso enviesado, como se aquele nome ainda carregasse peso demais.
Meu estômago revirou. Leah havia mencionado esse nome uma vez, muito tempo atrás. O ex de Bella. Aquele que partiu e deixou marcas.
— Ah, entendi — murmurei, mais para mim mesma, tentando absorver aquilo tudo. Antony era Edward. Edward era o ex de Bella. E agora estava ali, trocando sorrisos e olhares atravessados com ela.
— O mundo realmente é pequeno — ele comentou, relaxando os ombros. — Parece que o destino insiste em me levar até uma Swan.
A tensão se espalhou como névoa no ar. Bella apertou os lábios, visivelmente incomodada com o comentário.
— Isso quer dizer que você me deve um jantar, então — provoquei, tentando manter o tom leve, mesmo que por dentro eu quisesse entender melhor aquele reencontro estranho.
— Basta dizer quando — ele respondeu, rápido demais. — Estou sempre disponível para você, Nessie.
Bella não disse nada, mas a maneira como desviou os olhos e cruzou os braços dizia tudo. Ciúmes. E dos feios.
Suspirei.
— Já que Charlie não está… volto outra hora. — Dei dois passos para trás, ainda sentindo o olhar dela em mim.
Bella respirou fundo antes de dizer, como quem tenta soar gentil:
— Eu me caso nesse fim de semana. Gostaria que você estivesse presente.
A frase veio como uma flecha. Um convite travestido de provocação. Ela queria deixar claro que venceria, que estava com tudo sob controle. Que era ela quem se casaria enquanto eu…
— Eu não perderia esse evento por nada — respondi com um sorriso forçado, mas perfeitamente treinado. — Mal posso esperar pra ver o seu vestido.
Virei-me antes que ela visse minha expressão real. Entrei na caminhonete com o coração acelerado, os pensamentos em turbilhão e a raiva bem escondida atrás de um sorriso ensaiado.
Bella ainda era a mesma.
E eu ainda tinha muito a resolver.
Narrado por Jacob
— O barulho parece ter sumido mesmo, Jacob — disse o cliente, um senhor de meia idade, fechando o capô da caminhonete com um sorriso satisfeito. — Nem parece o mesmo carro. Você é bom no que faz.
— Fico feliz que tenha resolvido, seu Clive. Só lembre de não forçar as marchas nas curvas, tá? Aquilo ali quase me fez chorar quando vi o estado da embreagem — brinquei, entregando as chaves.
— Pode deixar. Vou dirigir como se fosse de porcelana agora — disse ele, rindo enquanto apertava minha mão.
A porta da oficina rangeu e, ao olhar por cima do ombro, vi Bella entrando. Ela usava aquele vestido florido que sempre mexia comigo. Sorri ao vê-la.
— Olha só quem veio me visitar — falei com carinho, limpando as mãos na toalha e caminhando até ela.
— Só vim ver se você estava vivo — disse Bella com um meio sorriso, mas havia algo estranho em seu olhar.
Me aproximei, puxando-a levemente pela cintura para beijá-la, mas ela desviou o rosto.
— O que foi? — perguntei, franzindo o cenho. — Aconteceu alguma coisa?
— Por que você não me contou que os Cullen voltaram? — ela perguntou direto, os olhos faiscando.
Suspirei, passando a mão pelo cabelo. Já imaginava que esse momento ia chegar.
— Eu só queria te proteger, Bella.
— Proteger? — ela riu, incrédula. — Isso não é proteger, Jacob. Isso é me tratar como uma criança. Você simplesmente decidiu o que eu deveria ou não saber.
— Eu não queria que você se machucasse — falei, a voz mais baixa. — Achei que, se soubesse, isso iria mexer contigo. Que você ia...
— Que eu ia correr atrás dele? — ela cortou, os olhos brilhando de raiva. — É isso que você pensa de mim?
— Não. Eu só... — parei por um segundo, sentindo o peso da situação. — Olha, Bella, eu confio em você. Mas conheço o poder que ele tem sobre você. Conheço esse passado. E, sinceramente, não sabia se você estava pronta pra lidar com isso.
— Talvez eu estivesse. Talvez não. Mas era minha escolha, Jacob! — ela falou mais alto, cruzando os braços. — Você diz que me ama, mas não confia em mim o suficiente pra ser honesto?
— E você? — perguntei, me aproximando dela. — Está irritada porque eu escondi que o Edward voltou... ou porque ele voltou e você não correu até ele assim que soube?
Ela me olhou, sem responder de imediato. Por um momento, o silêncio entre nós pareceu gritar mais alto que qualquer palavra.
— Você não tem ideia do que está falando — disse Bella por fim, virando de costas e caminhando até a porta da oficina.
— Tenho sim — respondi, firme. — E se a gente não começar a ser honesto um com o outro, Bella... isso aqui não vai funcionar.
Ela parou na porta, de costas pra mim. Por um instante achei que fosse dizer algo. Mas ela apenas saiu. E o som da porta se fechando ecoou dentro de mim como um aviso.
Algo entre nós tinha rachado. E eu não sabia se conseguia consertar.
Fechei a oficina com mais força do que deveria, a porta de metal rangendo como se estivesse tão irritada quanto eu. Minha cabeça ainda girava com a discussão. Bella tinha me deixado ali, no meio da oficina, com aquele olhar ferido que me corroía por dentro.
Peguei o celular e disquei seu número. Uma, duas, três vezes. Nada. Nenhuma resposta. Suspirei fundo, joguei as chaves no banco do carro e dirigi até a casa de Charlie. Talvez ela estivesse lá.
Ao chegar, percebi que a porta da frente estava entreaberta.
— Bella? — chamei, entrando devagar.
O interior da casa estava silencioso, mas logo ouvi vozes femininas vindas do andar de cima. Reconheci imediatamente a voz de Bella... e a de Renée. Subi os degraus sem pensar muito, o coração acelerado. Quando empurrei a porta do quarto, congelei.
Bella estava de costas, diante do espelho, com um vestido branco justo ao corpo. O véu preso aos cabelos castanhos, a maquiagem sendo finalizada. Por um momento, o ar me faltou. Ela estava deslumbrante.
— Bella? — sussurrei, sem perceber que ainda segurava a maçaneta da porta.
Renée se virou primeiro. E aí o caos começou.
— Jacob Black! — ela gritou, erguendo as mãos como se fosse me exorcizar. — Você ficou maluco? O noivo não pode ver a noiva antes do casamento!
— Eu não... — tentei explicar, mas ela já estava empurrando meu peito com as mãos.
— Fora, Jacob! Fora! Isso dá azar! — ela berrava, e Bella ficou boquiaberta, surpresa com minha presença.
— Eu só queria conversar — insisti, olhando direto nos olhos dela.
Mas Renée foi mais rápida.
— AGORA NÃO! — e, com um empurrão final, me lançou de volta ao corredor e bateu a porta na minha cara.
Fiquei ali por alguns segundos, encarando a madeira, ouvindo os sussurros exaltados do outro lado. Suspirei, sentindo o gosto amargo da distância entre nós. O que antes era tão fácil agora parecia impossível.
Desci as escadas devagar, mas não fui embora.
Não ainda.
Fale com o autor