Coração de loba
33 Não há nada que não possa piorar
Narrado por Renesmee
Estacionei a caminhonete na frente da mansão Cullen, bufando pela décima vez desde que saímos do hospital. A floresta ao redor parecia ainda mais sufocante agora que eu sabia a verdade — ou parte dela. Ou melhor, agora que eu sabia que toda a minha vida tinha sido uma mentira muito bem contada.
O ronco da moto ecoou logo atrás de mim, e quando olhei pelo retrovisor, lá estava ele. Jacob Black. Um cão de guarda. Literalmente.
Desci do carro com um suspiro exasperado, cruzando os braços ao vê-lo se aproximar com aquele ar de protetor silencioso. Se não fosse tão irritante, seria quase engraçado. Quase.
— Vai mesmo me seguir por todos os lados agora? — perguntei com sarcasmo, arqueando uma sobrancelha.
Jacob apenas me lançou um olhar paciente e caminhou até a entrada da casa comigo. Ao nos aproximarmos, a porta se abriu e vi Bella e Edward à minha espera.
— Que bom que você veio — disse Bella, tentando sorrir.
—Claro. Por que não? — resmunguei, empurrando a porta com força. — Afinal… não existe nada que não possa piorar.
Entrei sem esperar que eles me acompanhassem. A sala principal estava mais iluminada do que eu esperava, e todos os Cullen já estavam ali, como se tivessem ensaiado uma reunião de emergência. Alice, Jasper, Emmett, Rosalie… todos me encararam em silêncio.
Suspirei, me virando de frente para eles, sentindo o peso do que estava prestes a ouvir.
—Muito bem. Podem começar. Estou pronta para ouvir qualquer loucura que justifique o inferno que tem sido minha vida.
Carlisle deu um passo à frente, sua expressão era gentil e séria ao mesmo tempo.
—Renesmee… o que vamos lhe contar é algo que mantivemos em segredo para sua segurança. Mas você tem o direito de saber. — Ele respirou fundo. — Nós somos vampiros.
Fiquei imóvel. Mesmo esperando algo absurdo… ouvir aquilo em voz alta ainda parecia um chute no estômago.
—Victoria, a mulher que te atacou na estrada, é uma vampira também. Ela busca vingança contra Bella. Porque anos atrás… Bella ajudou a destruir James, o parceiro de Victoria. Desde então, ela jurou vingança.
—E por que agora? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Foi Jacob quem respondeu, agora ao meu lado, de braços cruzados.
—Porque ela descobriu que você é irmã. E isso… fez de você o alvo perfeito.
Engoli em seco. Meus olhos foram até Bella, que abaixou o olhar, visivelmente abalada.
—E você? — perguntei, voltando-me para Jacob. — O que é você?
—Eu sou um lobo — respondeu ele, sem hesitação. — Nós somos os protetores da tribo Quileute. Nossa missão é proteger os humanos dos vampiros que representam ameaça.
—E eu? — perguntei, com ironia amarga. — Sou o quê? Um joguete de um mundo do qual nunca pedi para fazer parte?
Jacob desviou o olhar. Carlisle se aproximou, colocando uma mão no meu ombro.
—Você é a forma dela manipular Riley.
Fiquei em silêncio, sentindo um turbilhão dentro de mim. Uma parte queria gritar. Outra queria simplesmente desaparecer.
Eu não sabia o que seria de mim… mas sabia que nada mais seria como antes.
— Riley? — minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, carregada de urgência. — Onde ele está?
Carlisle me olhou com certa cautela, como se medisse cada palavra antes de soltá-la.
— Ele mesmo pode explicar — disse, e seus olhos se voltaram para a escada.
Me virei rapidamente, o coração batendo como um tambor dentro do peito. E então o vi. Riley descia os degraus com calma, o rosto sério, mas os olhos buscaram os meus assim que surgiram. Sem pensar, corri em sua direção, o alívio me atravessando como uma onda.
Mas, antes que eu pudesse alcançá-lo, Jacob surgiu à minha frente. Parou entre nós, impedindo que eu me aproximasse.
— Qual é o seu problema agora? — questionei, com raiva. — Sai da frente, Jacob!
— Você está no território deles — ele respondeu, os olhos escuros fixos em Riley. — Eu não posso te proteger aqui, Nessie.
Revirei os olhos, sentindo meu sangue ferver.
— Não seja idiota. Riley é meu namorado. Ele não vai me machucar!
Foi então que Riley finalmente abriu a boca.
— Na verdade… eu posso. — Sua voz era baixa, carregada de uma tristeza que me gelou por dentro.
— O quê? — olhei para ele, confusa. — Riley, o que está acontecendo? Me explica o que está acontecendo, por favor!
Ele desviou os olhos dos meus e olhou para Jacob, como se buscasse alguma permissão silenciosa. Depois, assentiu para mim.
— Podemos conversar lá fora? — disse, hesitante. — Mas o lobo vem junto.
— Por quê? — perguntei, olhando de um para o outro. — Por que ele tem que vir? Eu não entendo…
Jacob cruzou os braços, o maxilar travado.
— Porque se ele fizer qualquer coisa errada, eu vou estar lá pra impedir.
Eu encarei Riley de novo, meu coração acelerado. Por mais que parte de mim ainda confiasse nele, outra parte começava a sentir medo. Algo estava muito, muito errado.
O vento frio da floresta balançava levemente os galhos enquanto eu encarava Riley. Ele estava ali, de pé diante de mim, com os olhos que eu conhecia tão bem… mas havia algo diferente neles. Algo selvagem. Algo sombrio. Jacob se encostava a alguns metros de nós, transformado apenas em meio guarda — braços cruzados, olhar atento e tenso, pronto para atacar caso fosse necessário. Aquela sensação de estar sendo vigiada me incomodava profundamente, mas no fundo eu sabia que ele estava ali por mim.
— O que aconteceu com você? — perguntei, dando um passo mais perto de Riley.
Ele abaixou os olhos, respirando fundo antes de me encarar de novo. Sua voz saiu baixa, quase sufocada.
— Victoria me encontrou em Port Angeles… — ele começou. — Ela me atacou, me transformou. Disse que, se eu não aceitasse liderar o exército de recém-criados que ela está formando… machucaria você. Disse que te faria sofrer até que eu aceitasse.
Meus olhos se arregalaram, um arrepio percorreu minha espinha. A dor da verdade chegou como um soco.
— Então… você é um vampiro agora. — minha voz saiu fraca.
Ele assentiu lentamente.
— Mas eu não queria, Nessie. Não tive escolha. Não queria te envolver nisso, por isso fui embora, mas ela... ela me controla. Eu não sei por quanto tempo posso resistir ao que sou agora.
— Eu não me importo, Riley. — falei, num impulso. — Eu só queria que você tivesse confiado em mim. Eu teria lutado com você.
Ele se aproximou e antes que eu pudesse pensar, o beijei. Beijei com saudade, com desespero, com raiva e com amor. E por um segundo, ele retribuiu.
Mas então tudo se desfez.
Ele gemeu, como se algo queimasse dentro dele, e num movimento rápido, me empurrou com força. Caí no chão com um grito abafado, a cabeça rodando. Jacob não hesitou — em um piscar de olhos, ele se transformou, a pele explodindo em pelo cinzento e as garras cravando o chão ao se colocar entre nós com um rosnado feroz.
— Riley! — gritei, assustada, tentando me levantar.
— Fica longe de mim! — ele gritou, as mãos tremendo. — Eu… eu não posso te tocar, Nessie! Eu posso te machucar! Eu não consigo me controlar quando estou perto de você… o cheiro do seu sangue… — ele fechou os olhos com força, lutando contra a sede.
A floresta estremeceu com os passos rápidos de outros chegando.
— Nessie! — ouvi a voz de Bella vindo atrás de mim. Ela se abaixou ao meu lado e me ajudou a levantar, o rosto cheio de preocupação.
Olhei ao redor e vi os Cullen — Edward, Emmett, Jasper, Esme, Alice e até Rosalie — se posicionando ao lado de Jacob, formando uma barreira entre mim e Riley. Aquilo doía. Como se Riley fosse um inimigo, como se ele já não fosse mais... meu Riley.
As lágrimas começaram a cair e eu não consegui mais escondê-las.
— Por que tudo tem que ser tão difícil? — sussurrei, minha voz quebrada, enquanto me apoiava em Bella.
Riley estava parado, em choque, olhando para mim com dor nos olhos. Jacob se mantinha entre nós, rosnando baixo. A tensão no ar era quase insuportável.
E foi ali, entre árvores, lembranças e corações quebrados, que eu percebi: nada jamais seria como antes.
Narrado por Jacob
Desci as escadas da mansão Cullen, cada passo mais pesado que o outro. Vesti uma calça jeans e uma camiseta que Emmett havia deixado pra mim. Era o que tinham. Minhas roupas tinham virado poeira segundos depois que me transformei, pronto para dilacerar Riley ao menor sinal de ameaça.
No fundo, eu sabia que ele era um risco. Ainda assim... não doía menos vê-la beijando aquele desgraçado. Ouvi da boca dela as palavras que eu temia há tempos:
"Eu te amo, Riley."
Foi como um soco no estômago — um daqueles que tiram o ar e te deixam de joelhos por dentro. E eu só conseguia pensar em tudo que fiz, em todas as vezes que me afastei dela que a magoei. Agora, eu estava pagando por cada uma dessas escolhas. E caro.
Na sala, Carlisle a examinava com cuidado. Nessie estava sentada no sofá, pálida, os olhos vermelhos de tanto chorar, mas ainda assim linda. Meu coração apertou. O cheiro do sangue dela ainda estava no ar — Riley a empurrou com força demais. Ele havia perdido o controle. Isso já dizia tudo.
Bella se aproximou de mim com aquele jeito divertido de sempre. Deu um sorriso torto e apontou pra minha roupa com um olhar divertido.
— Tá bonitinho com as roupas do Emmett. Só faltou o topete.
Dei uma risada fraca. Eu não tinha forças pra mais que isso.
— Acha mesmo que isso combina comigo? — perguntei, fingindo leveza.
— Não. — Ela piscou. — Mas combina com o momento.
Nessie olhou na nossa direção, os olhos ainda marejados. Não gostei daquele olhar — desconfiado, frio. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o celular dela tocou.
Ela pegou a bolsa com pressa, e eu percebi como suas mãos tremiam.
— É a Sue. — disse ela com a voz baixa.
Senti a espinha gelar. Sue só ligaria assim se fosse algo sério. Eu dei dois passos na direção dela, tentando me manter firme.
— Nessie… — chamei. — O que foi?
Ela não respondeu de imediato. Apertou os lábios, tentando conter as lágrimas que já escorriam sem vergonha pelo rosto. E então, com um soluço preso na garganta, ela falou:
— O tio Harry… ele… ele faleceu.
Fiquei em silêncio por um segundo, sem saber como reagir. O coração apertou de novo. O velho Harry… era como um pai pra mim. E, agora, tinha partido.
— Merda… — sussurrei, abaixando a cabeça. — Sinto muito, Nessie.
Ela desabou. Eu não pensei. Apenas a abracei, mesmo que ela não me quisesse por perto. Mesmo que tudo nela gritasse por distância, naquele momento… ela chorava nos meus braços.
E eu soube que, apesar de tudo, eu nunca a deixaria sozinha.
Fale com o autor